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Fóssil revela predador voraz de 5 cm do solo jurássico

Um dipluro de mais de 5 cm, com mandíbulas parcialmente expostas, viveu há 165 milhões de anos na China e sugere que a boca escondida surgiu três vezes.

Foto de Dr. Paulo Budri

Biólogo, mestre e doutor em Genética Molecular e Microbiologia Clínica

9 min de leitura ·

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Fóssil do dipluro gigante Sinojapyx giganteus, predador do solo jurássico com pinças na cauda
Fóssil do dipluro gigante Sinojapyx giganteus, predador do solo jurássico com pinças na cauda
Resumo em 15 segundos
  • O dipluro mais antigo já descrito pertence a uma família nova, Sinojapygidae, e recebeu o nome de Sinojapyx giganteus.
  • O animal passava de 5 centímetros, mais que o dobro dos japigoideos atuais.
  • Mandíbulas parcialmente expostas sugerem que a boca embutida dos hexápodes surgiu pelo menos três vezes.
  • Só um dipluro apareceu entre quase 300 mil fósseis examinados da biota de Daohugou.

Resumo dos pontos principais. A matéria completa está logo abaixo.

Passe o olho no chão de uma floresta e você quase não vê nada. Os dipluros, bichos de seis patas e corpo alongado que vivem entre grãos de terra e folhas em decomposição, raramente passam de 2 centímetros. Um fóssil achado na Mongólia, no nordeste da China, quebra essa régua: o animal tinha mais de 5 centímetros, mandíbulas robustas e um par de pinças na ponta do abdômen.

Batizado de Sinojapyx giganteus, esse dipluro gigante viveu há cerca de 165 milhões de anos, no Jurássico Médio, e é o representante mais antigo do grupo já descrito. O detalhe que mais mexeu com os pesquisadores, porém, não é o tamanho. As mandíbulas ficavam parcialmente expostas, fora da cápsula da cabeça, e isso contraria a ideia de que todos os hexápodes que não são insetos carregam a boca embutida.

Veja a imagem original do fóssil publicada no artigo aqui.

Dados do estudo: a descrição é assinada por Yehao Wang, Chenyang Cai, Alba Sánchez-García, Alberto Sendra e Diying Huang e saiu na Proceedings of the Royal Society B (volume 293, número 2080, artigo 20261207) em 7 de outubro de 2026. O fóssil é um macho adulto, depositado no Instituto de Geologia e Paleontologia de Nanquim, da Academia Chinesa de Ciências. DOI: 10.1098/rspb.2026.1207.

O que é um dipluro (e por que ele não é um inseto)?

Dipluro é um animal de seis patas, sem asas e de corpo alongado que pertence ao grupo dos hexápodes, mas não é inseto. Os hexápodes reúnem os insetos e mais três linhagens bem menos conhecidas: Protura, Collembola e Diplura. Juntas, essas três somam menos de 1% da diversidade animal já descrita. Os insetos ficam com praticamente todo o resto.

Veja a representação gráfica desse animal publicada no artigo original clicando aqui.

Não é pouco para quem ocupa uma posição-chave. Os dipluros têm cerca de 1.000 espécies descritas, em 10 famílias e três superfamílias. Vivem em cavernas, no folhiço e nas camadas superficiais do solo, e dependem de umidade alta e temperatura amena. São tão sensíveis a essas condições que funcionam quase como um termômetro do ambiente onde estão.

Agora, o termo que o fóssil coloca em discussão: entognatia. É o arranjo em que as mandíbulas e as maxilas ficam recolhidas dentro de uma bolsa formada por dobras da cavidade bucal, como peças guardadas numa gaveta embutida na cabeça. O oposto é a condição ectognata, com essas peças parcialmente ou totalmente para fora. Insetos são ectognatos. Os outros três grupos de hexápodes, não.

E tem outra estrutura no centro da história: os cerci, os apêndices que ficam na ponta do abdômen. Nos Campodeoidea, são longos e filamentosos, com função sensorial. Nos Projapygoidea, curtos, segmentados e equipados com glândulas de expulsão. Os Japygoidea, tomam a forma de pinças, usadas para agarrar presas. É esse terceiro tipo que aparece no fóssil, ainda que num estado bem mais simples.

Dipluro gigante: o que um fóssil de 165 milhões de anos mostra

Comece pela raridade. O exemplar é o único dipluro entre quase 300 mil fósseis examinados da biota de Daohugou, o conjunto de fósseis da Formação Haifanggou, tanto em coletas de campo quanto em acervos de instituições.

O tamanho é o segundo espanto. Com mais de 5 centímetros de comprimento, o animal era mais que o dobro dos japigoideos atuais, que costumam ficar abaixo de 2 centímetros. Isso o torna maior que cerca de 98% das espécies de dipluros que existem hoje. Entre as formas vivas, só os dinjapigídeos e heterojapigídeos gigantes chegam perto desse porte.

As mandíbulas contam uma história própria. O fóssil traz uma mandíbula bem curvada, com três dentes fortes e afiados ocupando os dois terços anteriores. Nos japigoideos modernos, o dente da lacínia é fortemente encurvado, o que limita o quanto a boca abre, e carrega laminazinhas em pente que ajudam a raspar tecidos moles e líquidos. O animal jurássico não tem essas lâminas, e seu dente é só levemente curvo. Os autores leem nisso uma abertura bucal maior e a capacidade de engolir pedaços maiores de comida.

As pinças também são reveladoras, só que pelo oposto: são simétricas e não têm dentes nem dentículos. É uma versão simplificada do aparato que os japigoideos de hoje usam para caçar. O segmento abdominal IX, por sua vez, aparece alongado e não reduzido como nas espécies atuais. Os segmentos VIII a X não mostram esclerotização extra, ou seja, não têm o endurecimento do exoesqueleto que se vê nos japigoideos modernos.

Com 17 caracteres morfológicos, 10 famílias vivas e dois fósseis na análise, o S. giganteus caiu de forma consistente como representante do grupo-tronco dos Japygoidea: um degrau anterior aos japigoideos modernos. A família é nova, Sinojapygidae. O nome do gênero junta “Sino-“, referência à China, e “Japyx”, o gênero-tipo da família Japygidae. O epíteto da espécie vem do latim gigante, gigante.

O elo brasileiro: uma pinça parecida na Formação Crato

A comparação mais próxima do fóssil chinês vem do Brasil. O primeiro dipluro fóssil inequívoco, Ferrojapyx vivax, foi descrito para o Cretáceo Inferior da Formação Crato, no estudo de Wilson e Martill citado pelos autores. Ele também traz pinças sem dentículos distintos.

O detalhe interessante é como os dois se encaixam. Sem o S. giganteus na análise, a posição de F. vivax ficou sem solução. Com o fóssil jurássico incluído, o dipluro brasileiro passou a aparecer como grupo-irmão de todos os japigoideos vivos. É o tipo de resultado que só um achado intermediário destrava e que liga diretamente a paleontologia feita no Brasil à feita na China.

O que o estudo não deixou claro?

Toda a descrição vem de um único exemplar. Um fóssil só, por melhor preservado que esteja, não mostra a variação que existia dentro da espécie. Os próprios autores registram que o material é excepcionalmente raro, e não por falta de busca.

A análise filogenética também tem limites declarados. Não existia até hoje uma matriz de dados morfológicos dedicada aos dipluros vivos, por causa da escassez de caracteres diagnósticos no nível de família e da disponibilidade limitada de espécimes. A matriz montada para este trabalho tem 17 caracteres. E, como não há um arcabouço temporal disponível para a evolução dos dipluros, as linhas tracejadas da árvore representam tempos de divergência inferidos, não medidos.

A proposta de que a entognatia surgiu pelo menos três vezes é exatamente isso: uma proposta. Ela se apoia em estudos filogenômicos recentes, que já vinham questionando a monofilia do grupo Entognatha, e no novo fóssil. O caso está bem argumentado, mas segue aberto.

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A imagem do caçador também é hipótese. Os autores propõem que o animal funcionava como predador de emboscada, e não como perseguidor veloz, dado o corpo grande e as pernas curtas e robustas. A biomecânica das pinças é outro ponto frágil: há poucos dados de comportamento disponíveis, o que limita o entendimento de como essas estruturas funcionavam e de quais pressões ecológicas moldaram suas formas.

Por que isso importa?

Entre o Devoniano e o Cretáceo existe um vazio enorme no registro fóssil dos hexápodes que não são insetos. Fora alguns achados pontuais, o que se conhece desse intervalo é pouco. Um dipluro de 165 milhões de anos cai justamente no meio desse buraco.

Ele também mexe com uma pergunta que diz respeito a você. Os hexápodes são a linhagem terrestre de animais mais bem-sucedida que existe, e os insetos são a parte visível dessa história. Mas o padrão corporal do grupo — como o corpo se organiza, como a boca se forma, começou a ser montado nessas linhagens discretas que quase ninguém vê no jardim.

Há ainda a cena ecológica. Na biota de Daohugou, escorpiões e centopeias, os predadores típicos do solo hoje, não foram registrados. Besouros predadores e aranhas aparecem, mas são relativamente pequenos. Nesse cenário, um bicho de 5 centímetros com mandíbulas robustas e pinças reforçadas entra, segundo os autores, entre os predadores de topo do solo jurássico. Um nicho que, milhões de anos depois, passaria para outros donos.

Fontes

  • Wang, Y.; Cai, C.; Sánchez-García, A.; Sendra, A.; Huang, D. “A giant Jurassic hunter: the earliest dipluran and its implications for hexapod body pattern evolution”. Proceedings of the Royal Society B, 293 (2080): 20261207, 7 out. 2026. DOI 10.1098/rspb.2026.1207.
  • Wilson e Martill — descrição de Ferrojapyx vivax, da Formação Crato (Brasil), citada no estudo como o primeiro dipluro fóssil inequívoco (referência 23 do artigo; sem DOI no material consultado).
  • Bitsch — análise sobre o posicionamento de Testajapyx thomasi, citada no estudo (referência 21; sem DOI no material consultado).
  • Kosaroff e Schaller — observações do comportamento de captura de presas por japigoideos, citadas no estudo (referências 61 e 62; sem DOI no material consultado).
  • Estudos filogenômicos recentes que questionam a monofilia de Entognatha, citados no estudo (referências 1 e 9; sem DOI no material consultado).

Perguntas frequentes

O que é um dipluro?

Dipluro é um animal de seis patas, sem asas e de corpo alongado que pertence aos hexápodes, mas não é inseto. Existem cerca de 1.000 espécies descritas, em 10 famílias, que vivem em cavernas, no folhiço e nas camadas superficiais do solo úmido.

Os dipluros são insetos?

Não. Os dipluros são hexápodes, mas formam uma linhagem à parte dos insetos, ao lado de Protura e Collembola. Juntas, essas três linhagens somam menos de 1% da diversidade animal já descrita.

Qual é o tamanho do Sinojapyx giganteus?

Mais de 5 centímetros de comprimento, mais que o dobro dos japigoideos atuais, que costumam ficar abaixo de 2 centímetros. Com esse porte, ele é maior que cerca de 98% das espécies de dipluros vivas.

O que são cerci em pinça?

Cerci são os apêndices que ficam na ponta do abdômen. Nos japigoideos, têm forma de pinça e servem para agarrar presas; no fóssil, eram simétricos e sem dentes, um estado anterior às pinças sofisticadas de hoje.

Por que o Sinojapyx giganteus era um predador de topo?

Segundo os autores, o tamanho grande somado às mandíbulas robustas e às pinças já reforçadas fazia dele um dos predadores de topo do solo de Daohugou. Escorpiões e centopeias, predadores típicos desse ambiente hoje, não foram registrados nessa biota.

O que o fóssil revela sobre a evolução da boca dos hexápodes?

As mandíbulas parcialmente expostas indicam que a condição ectognata, com as peças bucais para fora, era a ancestral. A partir disso, os autores propõem que a entognatia, a boca embutida, surgiu de forma independente pelo menos três vezes.

Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.

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