Resumo em 15 segundos
- O dipluro mais antigo já descrito pertence a uma família nova, Sinojapygidae, e recebeu o nome de Sinojapyx giganteus.
- O animal passava de 5 centímetros, mais que o dobro dos japigoideos atuais.
- Mandíbulas parcialmente expostas sugerem que a boca embutida dos hexápodes surgiu pelo menos três vezes.
- Só um dipluro apareceu entre quase 300 mil fósseis examinados da biota de Daohugou.
Resumo dos pontos principais. A matéria completa está logo abaixo.
Passe o olho no chão de uma floresta e você quase não vê nada. Os dipluros, bichos de seis patas e corpo alongado que vivem entre grãos de terra e folhas em decomposição, raramente passam de 2 centímetros. Um fóssil achado na Mongólia, no nordeste da China, quebra essa régua: o animal tinha mais de 5 centímetros, mandíbulas robustas e um par de pinças na ponta do abdômen.
Batizado de Sinojapyx giganteus, esse dipluro gigante viveu há cerca de 165 milhões de anos, no Jurássico Médio, e é o representante mais antigo do grupo já descrito. O detalhe que mais mexeu com os pesquisadores, porém, não é o tamanho. As mandíbulas ficavam parcialmente expostas, fora da cápsula da cabeça, e isso contraria a ideia de que todos os hexápodes que não são insetos carregam a boca embutida.
Veja a imagem original do fóssil publicada no artigo aqui.
Dados do estudo: a descrição é assinada por Yehao Wang, Chenyang Cai, Alba Sánchez-García, Alberto Sendra e Diying Huang e saiu na Proceedings of the Royal Society B (volume 293, número 2080, artigo 20261207) em 7 de outubro de 2026. O fóssil é um macho adulto, depositado no Instituto de Geologia e Paleontologia de Nanquim, da Academia Chinesa de Ciências. DOI: 10.1098/rspb.2026.1207.
O que é um dipluro (e por que ele não é um inseto)?
Dipluro é um animal de seis patas, sem asas e de corpo alongado que pertence ao grupo dos hexápodes, mas não é inseto. Os hexápodes reúnem os insetos e mais três linhagens bem menos conhecidas: Protura, Collembola e Diplura. Juntas, essas três somam menos de 1% da diversidade animal já descrita. Os insetos ficam com praticamente todo o resto.
Veja a representação gráfica desse animal publicada no artigo original clicando aqui.
Não é pouco para quem ocupa uma posição-chave. Os dipluros têm cerca de 1.000 espécies descritas, em 10 famílias e três superfamílias. Vivem em cavernas, no folhiço e nas camadas superficiais do solo, e dependem de umidade alta e temperatura amena. São tão sensíveis a essas condições que funcionam quase como um termômetro do ambiente onde estão.
Agora, o termo que o fóssil coloca em discussão: entognatia. É o arranjo em que as mandíbulas e as maxilas ficam recolhidas dentro de uma bolsa formada por dobras da cavidade bucal, como peças guardadas numa gaveta embutida na cabeça. O oposto é a condição ectognata, com essas peças parcialmente ou totalmente para fora. Insetos são ectognatos. Os outros três grupos de hexápodes, não.
E tem outra estrutura no centro da história: os cerci, os apêndices que ficam na ponta do abdômen. Nos Campodeoidea, são longos e filamentosos, com função sensorial. Nos Projapygoidea, curtos, segmentados e equipados com glândulas de expulsão. Os Japygoidea, tomam a forma de pinças, usadas para agarrar presas. É esse terceiro tipo que aparece no fóssil, ainda que num estado bem mais simples.
Dipluro gigante: o que um fóssil de 165 milhões de anos mostra
Comece pela raridade. O exemplar é o único dipluro entre quase 300 mil fósseis examinados da biota de Daohugou, o conjunto de fósseis da Formação Haifanggou, tanto em coletas de campo quanto em acervos de instituições.
O tamanho é o segundo espanto. Com mais de 5 centímetros de comprimento, o animal era mais que o dobro dos japigoideos atuais, que costumam ficar abaixo de 2 centímetros. Isso o torna maior que cerca de 98% das espécies de dipluros que existem hoje. Entre as formas vivas, só os dinjapigídeos e heterojapigídeos gigantes chegam perto desse porte.
As mandíbulas contam uma história própria. O fóssil traz uma mandíbula bem curvada, com três dentes fortes e afiados ocupando os dois terços anteriores. Nos japigoideos modernos, o dente da lacínia é fortemente encurvado, o que limita o quanto a boca abre, e carrega laminazinhas em pente que ajudam a raspar tecidos moles e líquidos. O animal jurássico não tem essas lâminas, e seu dente é só levemente curvo. Os autores leem nisso uma abertura bucal maior e a capacidade de engolir pedaços maiores de comida.
As pinças também são reveladoras, só que pelo oposto: são simétricas e não têm dentes nem dentículos. É uma versão simplificada do aparato que os japigoideos de hoje usam para caçar. O segmento abdominal IX, por sua vez, aparece alongado e não reduzido como nas espécies atuais. Os segmentos VIII a X não mostram esclerotização extra, ou seja, não têm o endurecimento do exoesqueleto que se vê nos japigoideos modernos.
Com 17 caracteres morfológicos, 10 famílias vivas e dois fósseis na análise, o S. giganteus caiu de forma consistente como representante do grupo-tronco dos Japygoidea: um degrau anterior aos japigoideos modernos. A família é nova, Sinojapygidae. O nome do gênero junta “Sino-“, referência à China, e “Japyx”, o gênero-tipo da família Japygidae. O epíteto da espécie vem do latim gigante, gigante.
O elo brasileiro: uma pinça parecida na Formação Crato
A comparação mais próxima do fóssil chinês vem do Brasil. O primeiro dipluro fóssil inequívoco, Ferrojapyx vivax, foi descrito para o Cretáceo Inferior da Formação Crato, no estudo de Wilson e Martill citado pelos autores. Ele também traz pinças sem dentículos distintos.
O detalhe interessante é como os dois se encaixam. Sem o S. giganteus na análise, a posição de F. vivax ficou sem solução. Com o fóssil jurássico incluído, o dipluro brasileiro passou a aparecer como grupo-irmão de todos os japigoideos vivos. É o tipo de resultado que só um achado intermediário destrava e que liga diretamente a paleontologia feita no Brasil à feita na China.
O que o estudo não deixou claro?
Toda a descrição vem de um único exemplar. Um fóssil só, por melhor preservado que esteja, não mostra a variação que existia dentro da espécie. Os próprios autores registram que o material é excepcionalmente raro, e não por falta de busca.
A análise filogenética também tem limites declarados. Não existia até hoje uma matriz de dados morfológicos dedicada aos dipluros vivos, por causa da escassez de caracteres diagnósticos no nível de família e da disponibilidade limitada de espécimes. A matriz montada para este trabalho tem 17 caracteres. E, como não há um arcabouço temporal disponível para a evolução dos dipluros, as linhas tracejadas da árvore representam tempos de divergência inferidos, não medidos.
A proposta de que a entognatia surgiu pelo menos três vezes é exatamente isso: uma proposta. Ela se apoia em estudos filogenômicos recentes, que já vinham questionando a monofilia do grupo Entognatha, e no novo fóssil. O caso está bem argumentado, mas segue aberto.
A imagem do caçador também é hipótese. Os autores propõem que o animal funcionava como predador de emboscada, e não como perseguidor veloz, dado o corpo grande e as pernas curtas e robustas. A biomecânica das pinças é outro ponto frágil: há poucos dados de comportamento disponíveis, o que limita o entendimento de como essas estruturas funcionavam e de quais pressões ecológicas moldaram suas formas.
Por que isso importa?
Entre o Devoniano e o Cretáceo existe um vazio enorme no registro fóssil dos hexápodes que não são insetos. Fora alguns achados pontuais, o que se conhece desse intervalo é pouco. Um dipluro de 165 milhões de anos cai justamente no meio desse buraco.
Ele também mexe com uma pergunta que diz respeito a você. Os hexápodes são a linhagem terrestre de animais mais bem-sucedida que existe, e os insetos são a parte visível dessa história. Mas o padrão corporal do grupo — como o corpo se organiza, como a boca se forma, começou a ser montado nessas linhagens discretas que quase ninguém vê no jardim.
Há ainda a cena ecológica. Na biota de Daohugou, escorpiões e centopeias, os predadores típicos do solo hoje, não foram registrados. Besouros predadores e aranhas aparecem, mas são relativamente pequenos. Nesse cenário, um bicho de 5 centímetros com mandíbulas robustas e pinças reforçadas entra, segundo os autores, entre os predadores de topo do solo jurássico. Um nicho que, milhões de anos depois, passaria para outros donos.
Fontes
- Wang, Y.; Cai, C.; Sánchez-García, A.; Sendra, A.; Huang, D. “A giant Jurassic hunter: the earliest dipluran and its implications for hexapod body pattern evolution”. Proceedings of the Royal Society B, 293 (2080): 20261207, 7 out. 2026. DOI 10.1098/rspb.2026.1207.
- Wilson e Martill — descrição de Ferrojapyx vivax, da Formação Crato (Brasil), citada no estudo como o primeiro dipluro fóssil inequívoco (referência 23 do artigo; sem DOI no material consultado).
- Bitsch — análise sobre o posicionamento de Testajapyx thomasi, citada no estudo (referência 21; sem DOI no material consultado).
- Kosaroff e Schaller — observações do comportamento de captura de presas por japigoideos, citadas no estudo (referências 61 e 62; sem DOI no material consultado).
- Estudos filogenômicos recentes que questionam a monofilia de Entognatha, citados no estudo (referências 1 e 9; sem DOI no material consultado).
Perguntas frequentes
O que é um dipluro?
Dipluro é um animal de seis patas, sem asas e de corpo alongado que pertence aos hexápodes, mas não é inseto. Existem cerca de 1.000 espécies descritas, em 10 famílias, que vivem em cavernas, no folhiço e nas camadas superficiais do solo úmido.
Os dipluros são insetos?
Não. Os dipluros são hexápodes, mas formam uma linhagem à parte dos insetos, ao lado de Protura e Collembola. Juntas, essas três linhagens somam menos de 1% da diversidade animal já descrita.
Qual é o tamanho do Sinojapyx giganteus?
Mais de 5 centímetros de comprimento, mais que o dobro dos japigoideos atuais, que costumam ficar abaixo de 2 centímetros. Com esse porte, ele é maior que cerca de 98% das espécies de dipluros vivas.
O que são cerci em pinça?
Cerci são os apêndices que ficam na ponta do abdômen. Nos japigoideos, têm forma de pinça e servem para agarrar presas; no fóssil, eram simétricos e sem dentes, um estado anterior às pinças sofisticadas de hoje.
Por que o Sinojapyx giganteus era um predador de topo?
Segundo os autores, o tamanho grande somado às mandíbulas robustas e às pinças já reforçadas fazia dele um dos predadores de topo do solo de Daohugou. Escorpiões e centopeias, predadores típicos desse ambiente hoje, não foram registrados nessa biota.
O que o fóssil revela sobre a evolução da boca dos hexápodes?
As mandíbulas parcialmente expostas indicam que a condição ectognata, com as peças bucais para fora, era a ancestral. A partir disso, os autores propõem que a entognatia, a boca embutida, surgiu de forma independente pelo menos três vezes.
Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.




