Pular para o conteúdo

Urinar sentado não muda o fluxo urinário em homens

Ensaio cruzado com 52 homens saudáveis não achou diferença no fluxo urinário máximo entre urinar sentado e em pé, mas a equivalência não foi provada.

Foto de Dr. Paulo Budri

Biólogo, mestre e doutor em Genética Molecular e Microbiologia Clínica

7 min de leitura ·

Adicione como fonte preferencial no Google
Ilustração de um homem sentado e em pé no vaso sanitário.
Ilustração de um homem sentado e em pé no vaso sanitário.
Resumo em 15 segundos
  • Delgado-Caicedo, Isabella Morales García e Paula Andrea Salas Espinosa, com publicação em 13 de outubro de 2026 na Neurourology and Urodynamics.
  • A amostra tem o tamanho de uma sala de aula pequena: 52 homens, todos saudáveis e sem queixa urinária.
  • A ideia é reduzir o risco de o acaso parecer descoberta quando se testa muita coisa ao mesmo tempo.

Resumo dos pontos principais. A matéria completa está logo abaixo.

Urinar sentado parece a posição mais confortável e higiênica, e tem gente que jura que assim o jato sai melhor. Um ensaio clínico randomizado com 52 homens saudáveis resolveu medir o assunto do jeito mais objetivo possível: com um aparelho que registra o fluxo de urina em mililitros por segundo. O resultado não deu razão a nenhuma das torcidas. A velocidade máxima do jato ficou dentro da margem de erro estatístico quando se comparou a postura sentada com a de pé.

Aposte antes de ler

Qual a porcentagem de homens que sentam para fazer xixi?

Seu palpite50%

A diferença média no pico de fluxo foi de −1,47 mL/s, com intervalo de confiança de 95% indo de −3,55 a 0,62 mL/s. Traduzindo: a faixa de valores compatível com os dados atravessa o zero, então o estudo não tem como dizer que uma posição é mais rápida que a outra. Há um segundo achado, mais sutil, e que quase sempre fica de fora das manchetes: também não foi possível provar que as duas posições são equivalentes.

Dados do estudo: autoria de Juan Iregui-Parra, Santiago Millán-Serna, Mónica G. Delgado-Caicedo, Isabella Morales García e Paula Andrea Salas Espinosa, com publicação em 13 de outubro de 2026 na Neurourology and Urodynamics. DOI: 10.1002/nau.70485.

O que 52 voluntários fizeram em banheiros de laboratório?

O formato se chama ensaio cruzado. Cada voluntário serviu de controle de si mesmo: fez as duas coisas, em ordens diferentes. Vinte e quatro homens foram sorteados para começar sentados e repetir em pé; vinte e oito seguiram o caminho inverso. Entre uma medição e outra havia um intervalo mínimo de 24 horas, um dia inteiro de espera.

A amostra tem o tamanho de uma sala de aula pequena: 52 homens, todos saudáveis e sem queixa urinária. Esse detalhe vai importar mais adiante.

A ordem das posições não embaralhou os resultados. Os modelos estatísticos não detectaram efeito de sequência nem de período, o que dá mais segurança à comparação. Três medidas entraram na balança: o fluxo máximo (Qmax, o desfecho principal), o volume total eliminado e o tempo até o pico de fluxo (tQmax).

Urofluxometria: o jato transformado em números

Urofluxometria é o exame que mede a micção em números, em vez de impressões. Ela registra o volume que sai, a velocidade do jato e o tempo que ele leva para chegar ao máximo.

O Qmax é o número mais citado desses três. Trata-se da velocidade máxima atingida pelo jato, medida em mililitros por segundo (mL/s). O tQmax é o cronômetro da história: quantos segundos se passam até o jato atingir essa velocidade máxima. Já o volume total é a soma do que saiu, em mililitros.

Com esses três números, dá para comparar posturas sem depender da sensação de cada voluntário.

Urinar sentado aumentou o fluxo máximo? Não de forma detectável

Não. O Qmax não teve diferença estatisticamente significativa entre as duas posições: a diferença média foi de −1,47 mL/s, com p = 0,164. Faz diferença mijar sentado ou em pé? Para o fluxo máximo, os dados deste estudo não sustentam que sim. O intervalo de confiança largo, de −3,55 a 0,62 mL/s, mostra que ainda há bastante incerteza sobre o tamanho real de qualquer efeito.

Os autores aplicaram correções para comparações múltiplas, os métodos de Bonferroni e de Benjamini-Hochberg. A ideia é reduzir o risco de o acaso parecer descoberta quando se testa muita coisa ao mesmo tempo. Nem assim o fluxo máximo passou o corte.

O volume urinado e o cronômetro que destoou

O volume total seguiu o mesmo caminho. A diferença média foi de −14,7 mL, algo como uma colher de sopa, com intervalo de confiança de −43,9 a 14,6 mL e p = 0,318. A análise bayesiana reforçou o quadro: o fator de Bayes de 4,10 indica que os dados são cerca de quatro vezes mais compatíveis com a hipótese de ausência de diferença do que com a existência dela.

O tQmax foi a exceção. Em pé, o jato levou 3,32 segundos a mais para chegar ao pico (intervalo de confiança de 0,94 a 5,69 s; p = 0,011). É o tempo de contar “um, dois, três” sem pressa. A diferença sobreviveu às correções estatísticas (p = 0,031 no teste de Bonferroni e q = 0,031 no controle de falsas descobertas), e a análise bayesiana apontou evidência moderada a favor dela, com fator de Bayes de 4,99.

Sentado, portanto, o pico chega mais rápido. Só que “mais rápido” aqui significa pouco mais de três segundos, e os próprios autores avisam que a diferença dificilmente tem relevância clínica.

Gostou? Receba novos artigos no seu e-mail:

Por que “sem diferença” não é o mesmo que “equivalente”?

O estudo não comprovou que urinar sentado e urinar em pé são equivalentes. Para testar isso, os autores usaram uma análise chamada TOST, sigla em inglês para dois testes unilaterais. A lógica é direta: em vez de perguntar “existe diferença?”, o teste pergunta “a diferença é pequena o bastante para caber dentro de uma margem?”.

A margem foi definida em ±2,5 mL/s. Se a diferença real entre as posturas coubesse inteira dentro dessa faixa, os autores poderiam afirmar equivalência. Não foi o que aconteceu: o teste deu p ≈ 0,16, longe do suficiente. O intervalo de confiança observado, de −3,55 a 0,62 mL/s, é mais largo que a margem, então não dá para descartar diferenças maiores que 2,5 mL/s em nenhuma das direções. Com 52 voluntários, a equivalência fica no campo da hipótese, não da conclusão.

Um valor atípico, 52 voluntários e nenhum sintoma urinário

As ressalvas vêm dos próprios autores, e são várias. A amostra de 52 homens é pequena para um teste de equivalência. Todos eram saudáveis e sem queixa urinária, o que limita qualquer transposição para quem convive com sintomas.

A diferença no cronômetro também não é lá muito firme: segundo os autores, ela dependeu em parte de um único valor atípico. Tirar um ponto extremo de um grupo pequeno pode mudar o resultado. Por isso o pedido final é por estudos maiores, pré-registrados, com análise de equivalência definida de antemão e, desta vez, com populações sintomáticas.

O que a postura para urinar muda na prática?

Para quem tem diagnóstico ou sintomas urinários, a pergunta “sentar ou ficar de pé?” não está respondida. Esse grupo, justamente o que mais recorre à urofluxometria, ficou de fora do ensaio. E a próstata que aumenta com a idade costuma estar por trás de boa parte das queixas de jato fraco.

O que o estudo oferece é um dado honesto e limitado: em homens saudáveis, a postura não mudou o fluxo máximo nem o volume de forma detectável, o pico chegou um pouco mais rápido sentado, e a equivalência formal não foi demonstrada. Nada disso autoriza trocar conduta por conta própria ou abandonar um tratamento em curso. Conteúdo informativo não substitui a avaliação de um profissional de saúde.

Fica uma lição de método que vale além do banheiro. “Não encontrei diferença” e “provei que não há diferença” soam como sinônimos no papo de corredor, mas são coisas bem distintas na estatística. Um estudo pequeno pode falhar em achar um efeito e, ao mesmo tempo, falhar em descartá-lo. A posição em que você faz xixi continua sendo uma escolha de conforto. Por enquanto, é só isso que dá para afirmar com segurança.

Perguntas frequentes

O ensaio foi feito com homens que têm dificuldade para urinar?

Não. O estudo reuniu 52 voluntários homens e saudáveis, sem queixa urinária. Os próprios autores apontam que populações sintomáticas ainda precisam ser estudadas com o mesmo rigor.

A diferença de 3,32 segundos no tempo até o pico de fluxo tem efeito prático?

Provavelmente não. Os autores classificam essa diferença como pequena e provavelmente sem relevância clínica, além de ela ter dependido em parte de um único valor atípico.

Fontes

  • Iregui-Parra, J.; Millán-Serna, S.; Delgado-Caicedo, M. G.; Morales García, I.; Salas Espinosa, P. A. "Standing or Sitting to Void? Comparative Uroflowmetry in Healthy Male Volunteers: A Randomized Crossover Study with Equivalence Analysis". Neurourology and Urodynamics, 13 de outubro de 2026. DOI: 10.1002/nau.70485

Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.

Este artigo contém links de afiliado. Como Associado da Amazon, eu ganho com compras qualificadas. Isso não altera o preço para você e não influencia a apuração ou a avaliação dos produtos citados.

Compartilhe