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Tubarão detecta som a mais de 60 metros de distância

Tubarões galha-preta fugiram de sons graves a mais de 60 metros na costa da Flórida, além do campo acústico que a teoria previa.

Imagem ilustrativa de um tubarão-galha-preta.
Imagem ilustrativa de um tubarão-galha-preta.
Resumo em 15 segundos
  • Tubarões galha-preta nadaram para longe após ouvir sons graves a mais de 60 metros.
  • A maioria das reações ocorreu no campo acústico distante, região onde a teoria previa que os tubarões não ouviriam.
  • Os tubarões não reagiram ao som agudo de 10 kHz usado como controle no experimento.
  • Os autores suspeitam que os tubarões detectem o movimento das partículas da água.

Resumo dos pontos principais. A matéria completa está logo abaixo.

O tubarão galha-preta (Carcharhinus limbatus) não tem bexiga natatória. Pela lógica clássica da biologia, isso deveria limitar bastante a distância a que ele percebe um som debaixo d’água. Só que um experimento na costa da Flórida mostrou o contrário: tubarão detecta som a pelo menos 62 metros. O achado desafia a ideia de que, sem o órgão que funciona como tradutor de som, esses animais só perceberiam estímulos bem de perto.

Quem registrou as reações foi um drone sobrevoando a água. Nada de tanque ou anzol: os pesquisadores filmaram tubarões soltos no mar, num ponto conhecido de agregação da espécie. Ao captar o estímulo, o bicho virava o corpo na direção oposta ao alto-falante submerso e acelerava.

Dados do estudo: assinado por C. L. Sullivan, E. R. Gerstein e S. M. Kajiura, com apoio do laboratório de elasmobrânquios da Florida Atlantic University (FAU) no trabalho de campo, na costa sudeste da Flórida. Publicado na Integrative Organismal Biology (v. 8, n. 1, 2026, artigo obag033), em 30 de junho de 2026. DOI: 10.1093/iob/obag033.

O campo acústico distante, explicado

Até três comprimentos de onda de uma fonte sonora fica o campo acústico próximo. Ali quem manda é o movimento das partículas da água, um vaivém físico. Depois desse limite começa o campo acústico distante, o far field, onde a variação de pressão domina. O movimento das partículas continua, mas deixa de ser a força principal.

O tamanho dessa zona depende da frequência. Um som de 100 Hz tem comprimento de onda de 15 metros; multiplique por três e o campo distante só começa a 45 metros da fonte. Para 200 Hz, o limite é 22,5 metros; para 400 Hz, 11,3 metros. Frequências agudas têm ondas curtas, então o campo distante começa bem mais perto.

Como o tubarão detecta som sem bexiga natatória?

A maioria dos peixes tem uma bexiga natatória, um órgão cheio de gás que funciona como tradutor: converte a oscilação de pressão do som em movimento, que o ouvido interno capta. Tubarões não têm esse órgão. Sem ele, um peixe dependeria só do movimento das partículas, algo considerado fraco demais no campo distante.

A observação nova indica que os tubarões captam sim esse movimento a distância, embora ninguém saiba o caminho exato. A principal hipótese envolve a macula neglecta, uma estrutura sensorial extra do ouvido interno, sem os cristais de carbonato de cálcio dos outros órgãos auditivos. Ela poderia captar a pressão que bate no alto da cabeça. Em duas espécies do mesmo grupo, essa região tem entre 200 mil e 260 mil células sensoriais, segundo estudos anteriores citados pelos autores.

O que o drone flagrou na costa da Flórida?

Um drone DJI Phantom 4 Pro, planando a 40–50 metros de altura, filmou os tubarões em água de 2 a 5 metros de profundidade. Um alto-falante submerso emitia os sons, e o barco da equipe (6,73 metros) servia de régua para medir as distâncias no vídeo.

Os estímulos eram pulsos graves em três faixas: 100–200 Hz, 200–400 Hz e 400–800 Hz. Como controle, um som de 10 kHz, bem mais agudo, no mesmo volume. Os tubarões responderam às três faixas graves e nunca reagiram ao controle, em 209 apresentações.

Resposta, aqui, significa mudança súbita de trajetória: uma guinada de 20 a 160 graus para longe do alto-falante. A taxa foi de 81,9% (59 de 72) para 100–200 Hz, 87% (47 de 54) para 200–400 Hz e 71,1% (59 de 83) para 400–800 Hz.

Nas distâncias, os números surpreendem. Na média, as respostas começaram a 40,7 metros para a faixa mais grave, 41 metros para a intermediária e 30 metros para a mais aguda. Houve respostas a partir de 62 metros em todas as faixas, e o recorde chegou a 74 metros, mais de dez vezes o comprimento do barco usado como régua. O campo distante começa, pelos cálculos, a 45 metros (100 Hz), 22,5 metros (200 Hz) e 11,3 metros (400 Hz). Somando tudo, 71,5% das 165 respostas ocorreram no campo distante; na faixa de 400–800 Hz, quase todas (96,6%).

Tubarão galha-preta detecta som debaixo d'água a mais de 60 metros, indica estudo
Tubarão galha-preta detecta som debaixo d’água a mais de 60 metros, indica estudo

Por que os tubarões fogem de sons de baixa frequência?

Um som mais agudo precisou ser bem mais intenso para provocar reação. Os níveis medidos na água foram de 16 dB acima do ruído ambiente para 100–200 Hz, 27,8 dB para 200–400 Hz e 44,6 dB para 400–800 Hz. Um som grave e relativamente fraco já basta para assustá-los; o agudo precisa de muito mais volume. Isso combina com estudos anteriores, que apontam maior sensibilidade da audição dos tubarões entre 25 e 200 Hz.

Mas o som grave, sozinho, não explica a fuga. Trabalhos anteriores mostraram que o mesmo estímulo podia atrair tubarões em intensidade menor e provocar recuo quando o volume subia. O que parece decidir a reação é a combinação de intensidade e rapidez. Aqui, os pesquisadores apostaram de propósito num som alto e abrupto.

Por que isso importa para a gente?

O achado mexe com uma ideia estabelecida: a de que só peixes com bexiga natatória percebem bem o som no campo distante. Se um tubarão detecta e localiza um estímulo a dezenas de metros, o mar é bem mais sonoro para esses animais do que se supunha. Para um predador, perceber um som à distância é vantagem clara, e os autores dizem que isso não deveria espantar. A surpresa é o mecanismo, ainda em aberto.

Vale um ponto de método: aquários não servem para esse tipo de teste. O espaço é pequeno demais para o campo distante, e as paredes rebatem o som, criando ondas que bagunçam as medições. Observar no mar aberto, com o bicho solto, é outra coisa.

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O que faltou ao estudo explicar?

Os próprios autores listam as ressalvas. A principal: o mecanismo pelo qual o tubarão capta o som no campo distante segue sendo hipótese. A macula neglecta é a candidata mais forte, mas o número de células sensoriais dela nunca foi medido no galha-preta. A comparação com primos do mesmo grupo é inferência, não medição direta.

Outra limitação está na limpeza dos estímulos. Mesmo com filtros, cada faixa deixou escapar energia fora do intervalo previsto, sobretudo nas mais graves. Isso abre a chance de que algumas guinadas do campo distante tenham vindo de frequências mais baixas. Os autores reconhecem o problema, mas argumentam que as respostas à faixa de 400–800 Hz, muito numerosas, não podem ser explicadas por esse escape.

Também não deu para medir o movimento das partículas da água junto com o som; não era viável em campo, dizem os autores. Sem esse dado, a explicação fica apoiada em evidências indiretas. E a amostra de tubarões distantes testada com a frequência mais grave foi menor, o que pode ter escondido uma diferença real entre as faixas de 100–200 Hz e 200–400 Hz.

Fora do protocolo, outras espécies apareceram no vídeo. Tubarões de Carcharhinus acronotus reagiram de forma parecida; os de Ginglymostoma cirratum, que costumam ficar parados no fundo, não tiveram reação clara. A movimentação registrada pode ter sido coincidência, admitem os autores.

O que fica dessa história?

Durante décadas, a ausência de bexiga natatória foi tratada quase como um teto: sem o órgão que traduz pressão em movimento, o tubarão estaria limitado a sentir o que acontece bem perto. Agora há evidência comportamental de que ele reage a estímulos sonoros a mais de 60 metros e vira o corpo na direção oposta. A teoria dizia uma coisa; o drone filmou outra.

Perguntas frequentes

Tubarão tem audição?

Sim. Estudos já mostravam que tubarões e raias detectam sons de 20 a 1.500 Hz, com maior sensibilidade entre 25 e 200 Hz. Sem bexiga natatória, eles dependem do movimento das partículas da água, captado pelo ouvido interno.

Como os tubarões detectam o som debaixo d’água?

Pela vibração das partículas da água, captada por estruturas do ouvido interno. O estudo propõe que a macula neglecta detecte o som no campo distante, mas o mecanismo exato ainda não está confirmado.

A que distância um tubarão consegue perceber um som?

No experimento com galha-preta, houve respostas a partir de 62 metros em todas as faixas testadas, com recorde de 74 metros. Na média, as reações começaram a 30 metros (400–800 Hz) e a cerca de 41 metros (200–400 Hz).

O que é o campo acústico distante (far field)?

É a região que começa a três comprimentos de onda da fonte sonora. Ali, a variação de pressão do som domina, embora o movimento das partículas da água continue presente.

Fontes

  • Sullivan, C. L.; Gerstein, E. R.; Kajiura, S. M. Orientation of Blacktip Sharks (Carcharhinus limbatus) to Underwater Sound. Integrative Organismal Biology, v. 8, n. 1, 2026, obag033. DOI: 10.1093/iob/obag033
  • Nelson, D. R.; Gruber, S. H. (1963) — estudo citado pelos autores sobre atração de tubarões por sons de baixa frequência.
  • Myrberg, A. A. et al. (1978) — estudo citado sobre resposta de retirada de Carcharhinus falciformis em alta intensidade sonora.
  • Klimley, A. P.; Myrberg, A. A. (1979) — estudo citado sobre o aumento mínimo de intensidade necessário para provocar recuo.
  • Corwin, J. T. (1978, 1981) — estudos citados sobre a contagem de células sensoriais da macula neglecta em tubarões.

Foto: Karam Alani no Pexels

Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.

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