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Novo estudo aponta a Europa como provável berço dos morcegos

Maior estudo com genomas e fósseis de morcegos aponta a Europa como origem do grupo há cerca de 65 milhões de anos, com ecolocalização desde o início.

Morcego em voo: estudo sobre a origem dos morcegos aponta a Europa há 65 milhões de anos
Morcego em voo: estudo sobre a origem dos morcegos aponta a Europa há 65 milhões de anos
Resumo em 15 segundos
  • É o que indica o maior levantamento já feito.
  • Quando genoma, fóssil e sonar contam histórias diferentes, a discussão se arrasta por décadas.
  • Mais de 1.500 — um quinto de todos os mamíferos vivos.
  • O estudo fala em fim do Paleoceno, uma janela de alguns milhões de anos.

Resumo dos pontos principais. A matéria completa está logo abaixo.

O único mamífero capaz de voar de verdade pode ter dado as primeiras batidas de asa na Europa. É o que indica o maior levantamento já feito. Cruzando genomas e fósseis de morcegos, o estudo foi publicado na revista Nature em 23 de setembro de 2026.

A conclusão embaralha o que se supunha sobre a origem dos morcegos. As hipóteses em circulação apostavam na Ásia, na África ou na América do Norte. O novo trabalho, que reuniu 137 pesquisadores de 64 países no consórcio Bat1K, aponta a Europa como berço mais provável do grupo, há cerca de 65 milhões de anos, e sugere que a ecolocalização (o sonar biológico que permite caçar em escuridão total) já existia quase desde o início dessa linhagem.

Dados do estudo: a pesquisa é liderada por equipes da University of St Andrews, no Reino Unido, e da University College Dublin (UCD), na Irlanda, com participação de instituições como a Stony Brook University, o Senckenberg Research Institute e a Texas Tech University. Entre os autores seniores estão Sonja Vernes, Emma Teeling, Liliana M. Dávalos, Michael Hiller e David Ray. O título é “Reference genomes and fossils revise bat family phylogeny and biogeography”, publicado na Nature em 23 de setembro de 2026, com o DOI 10.1038/s41586-026-11007-3.

Fóssil de Palaeochiropteryx tupaiodon, um dos morcegos mais antigos já encontrados

Filogenia: a árvore de família que ninguém conseguia fechar

Filogenia é a árvore genealógica das espécies. Funciona como aquela árvore de família que ocupa uma parede inteira: cada galho reúne grupos que descendem de um mesmo ancestral, e cada bifurcação marca o ponto em que uma linhagem se separou das outras.

Duas peças alimentam essa reconstrução: o genoma, o conjunto completo do material genético de um animal, um manual de instruções escrito em forma de DNA, e o registro fóssil, os ossos mineralizados que dão data e endereço às linhagens. A ecolocalização, por sua vez, é o sonar natural dos morcegos: o animal emite sons e escuta o eco que volta dos obstáculos e das presas. Quando genoma, fóssil e sonar contam histórias diferentes, a discussão se arrasta por décadas. Foi o que aconteceu com os morcegos.

O que o estudo do consórcio Bat1K encontrou?

Os morcegos surgiram na Europa. Essa é a resposta mais direta do trabalho, com uma ressalva que os autores mantêm de propósito: é o local mais provável, não uma certeza fechada.

Sobre o “quando”, as duas instituições que divulgaram o resultado escrevem com margens diferentes. O artigo científico situa a origem no fim do Paleoceno. Traduzido em números, isso dá cerca de 65 milhões de anos, como resume a University of St Andrews, ou entre 65 e 60 milhões de anos, na formulação da University College Dublin. As duas versões são compatíveis entre si.

E quantas espécies de morcegos existem no mundo? Mais de 1.500 — um quinto de todos os mamíferos vivos. O estudo cobriu 103 delas, representando todas as 21 famílias reconhecidas hoje. Todos esses genomas foram montados em nível de cromossomo, um detalhe que mostra grandes trechos de DNA organizados como aparecem na célula, e 42 deles foram sequenciados e montados pela primeira vez neste trabalho. A eles, o time somou 44 fósseis, com amostras reunidas ao longo de décadas em locais remotos, da Nova Zelândia a Madagascar.

Por que a Europa, e não a África, a Ásia ou a América do Norte?

O mapa traçado pelo estudo tem uma sequência: os morcegos teriam surgido na Europa, e os primeiros descendentes se espalharam para a África, formando um eixo Europa-África. Dali, conforme o grupo se diversificava, diferentes linhagens partiram em ondas para as Américas, a Ásia e a Austrália.

Refazer essa árvore não foi simples. Partes diferentes do genoma contam histórias diferentes, provavelmente porque linhagens distintas trocaram genes entre si no início da evolução do grupo. Uma região do cromossomo X, porém, guardou um sinal especialmente claro dessas relações — e foi ela que ajudou a resolver anos de árvores evolutivas conflitantes.

A pista de que a ecolocalização surgiu cedo

A posição do fóssil de morcego Vielasia no ramo mais antigo da árvore indica que a ecolocalização veio antes da diversificação dos morcegos modernos. Ou seja: o sonar já estava lá perto do começo de tudo, junto com o voo. Esse par de características ajudaria a explicar por que o grupo prosperou pelos 65 milhões de anos seguintes.

Do genoma do ancestral comum à pesquisa sobre longevidade e imunidade

Os pesquisadores também reconstruíram, por computação, o genoma do ancestral comum de todos os morcegos vivos — um retrato genético de um dos primeiros mamíferos voadores. É esse material que abre caminho para investigar por que muitas espécies vivem muito mais tempo do que o tamanho sugeriria e resistem a doenças de um jeito incomum.

Aqui é preciso separar o que já foi feito do que é expectativa. O que existe é o retrato genético e um quadro evolutivo para caçar os genes por trás desses traços. Aplicar isso à saúde humana é hipótese de trabalho: segundo os autores, o recurso pode, no futuro, informar pesquisas sobre envelhecimento, imunidade e resistência a doenças. Nada mais que isso — e nenhuma indicação de tratamento ou conduta sai deste estudo.

O que o estudo ainda não explica sobre a origem dos morcegos?

A primeira ressalva é de linguagem. Os autores escrevem que os morcegos muito provavelmente surgiram na Europa. A conclusão derruba hipóteses anteriores, mas segue sendo uma inferência feita a partir de genomas e fósseis, não uma observação direta do passado.

A segunda é a própria datação. Números como “65 milhões de anos” são estimativas com margem de erro, calculadas a partir de fósseis e de taxas de mudança no DNA, e não uma data exata. O estudo fala em fim do Paleoceno, uma janela de alguns milhões de anos.

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A terceira tem a ver com a bagunça interna do genoma. Os próprios autores explicam que linhagens de morcegos provavelmente trocaram genes entre si no começo de sua história, o que faz trechos distintos do DNA apontarem para parentescos distintos. O cromossomo X deu um sinal mais limpo, mas isso não apaga a complexidade do restante. E a ligação com envelhecimento e imunidade humanas, como já dito, é horizonte de pesquisa.

Por que saber sobre a origem dos morcegos importa?

Perguntar de onde vêm os morcegos é, no fundo, perguntar como um mamífero aprendeu a voar. Nenhum outro conseguiu isso com voo verdadeiro e sustentado. Entender quando e onde essa capacidade apareceu, ao lado de um sonar que funciona no breu, ajuda a montar o quebra-cabeça da evolução dos mamíferos — inclusive a nossa.

Há também o lado prático. Os morcegos polinizam plantas, espalham sementes e devoram insetos em quantidade, o que os coloca como peça central de ecossistemas inteiros. Da próxima vez que você vir um morcego cruzando o céu no fim da tarde, lembre que a história dele provavelmente começou na Europa, há 65 milhões de anos, com um salto que nenhum outro mamífero repetiu.

Fontes

  • Morales, A. E. et al. “Reference genomes and fossils revise bat family phylogeny and biogeography”. Nature, 2026. DOI: 10.1038/s41586-026-11007-3
  • University of St Andrews, “Bat genomes and fossils point to a European origin 65 million years ago”, divulgado em 23 de setembro de 2026.
  • University College Dublin, “Bats originated and took first flight in Europe, new UCD-led research suggests”, distribuído pela EurekAlert em 23 de setembro de 2026.
  • Consórcio Bat1K, iniciativa internacional dedicada a sequenciar os genomas das espécies de morcego vivas.

Perguntas frequentes

Onde os morcegos surgiram?

Na Europa, segundo o estudo publicado na Nature. É o local mais provável de origem do grupo, há cerca de 65 milhões de anos, de onde os primeiros descendentes se espalharam para a África.

Há quanto tempo os morcegos existem?

Cerca de 65 milhões de anos, segundo o material da University of St Andrews. O release da University College Dublin usa a mesma janela com margem mais larga: entre 65 e 60 milhões de anos atrás, no fim do Paleoceno.

Os morcegos surgiram na Europa e não na África ou na Ásia?

É o que este trabalho indica. Hipóteses anteriores propunham África, Ásia ou América do Norte, e o novo estudo as substitui pela Europa como cenário mais provável. A África aparece na sequência: foi para lá que os primeiros descendentes se dispersaram.

Quando surgiu a ecolocalização nos morcegos?

Perto do início da evolução do grupo, antes da diversificação dos morcegos modernos. A pista vem da posição do fóssil Vielasia, que ocupa o ramo mais antigo da árvore evolutiva dos morcegos.

Quantas espécies de morcegos existem no mundo?

Mais de 1.500, o equivalente a um quinto de todos os mamíferos vivos. O estudo analisou 103 delas, cobrindo todas as 21 famílias reconhecidas atualmente.

O que o genoma dos morcegos pode revelar sobre longevidade e resistência a doenças?

Pode dar pistas sobre os genes por trás da vida longa e da resistência a doenças de muitas espécies. O estudo entrega o quadro evolutivo para essa investigação, mas os autores tratam a aplicação à saúde humana como possibilidade futura.

Foto: John Torcasio no Pexels

Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.

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