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Tadalafil pode aumentar células musculares

Em células musculares C2C12, o tadalafil aumentou a proliferação e atrasou a diferenciação terminal; os autores alertam para risco de doping.

Foto de Dr. Paulo Budri

Biólogo, mestre e doutor em Genética Molecular e Microbiologia Clínica

9 min de leitura ·

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Células musculares vistas ao microscópio em estudo sobre tadalafil e músculos
Células musculares vistas ao microscópio em estudo sobre tadalafil e músculos
Resumo em 15 segundos
  • O tadalafil aumentou a proliferação e a sobrevivência de células musculares C2C12 cultivadas em laboratório por até sete dias.
  • Ao mesmo tempo, o medicamento atrasou a diferenciação terminal e reduziu a formação de miotubos multinucleados, células musculares mais maduras.
  • Os autores sugerem uso adjuvante em doenças que causam perda de massa muscular, mas alertam para risco de doping.

Resumo dos pontos principais. A matéria completa está logo abaixo.

Um remédio conhecido por relaxar os vasos sanguíneos entrou numa pergunta simples de biologia: o que acontece quando as células musculares ficam expostas a ele por muito tempo? O estudo sobre tadalafil e músculos foi atrás dessa resposta em células cultivadas em laboratório e encontrou algo que não é exatamente “mais músculo”. O medicamento manteve as células se multiplicando com mais vigor e, ao mesmo tempo, segurou o passo seguinte, o amadurecimento. No fim de sete dias, havia mais células em divisão e menos células musculares maduras.

A dupla de autores italianos vê aí duas leituras possíveis, e as duas aparecem no artigo. A primeira é terapêutica: o remédio poderia virar um coadjuvante no tratamento de doenças que causam perda de massa muscular. A segunda é um alerta. Se ele melhora com essa potência a maquinaria de regeneração do músculo, pode acabar sendo usado como droga de desempenho no esporte e, para os autores, isso precisa ser avaliado pelas agências antidoping.

Dados do estudo: o trabalho foi feito por Cristina Antinozzi e Luigi Di Luigi, da Unidade de Endocrinologia do Departamento de Movimento, Ciências Humanas e da Saúde da Universidade de Roma “Foro Italico”, na Itália. Foi publicado na revista Molecular Biology Reports (volume 53, artigo 1701), com recebimento em 26 de junho de 2026, aceite em 5 de outubro de 2026 e publicação em 10 de outubro de 2026. O DOI é 10.1007/s11033-026-12929-x. O financiamento veio da própria universidade, sem verba externa, e os autores declaram não ter conflitos de interesse.

O que é tadalafil e o que ele faz dentro da célula muscular?

O tadalafil é um inibidor da fosfodiesterase tipo 5 (PDE5), ou seja, uma molécula que bloqueia a ação da enzima PDE5. Com essa enzima travada, sobra mais GMP cíclico (cGMP) dentro da célula, um mensageiro químico ligado ao óxido nítrico (NO). É por essa via de sinalização que a classe dos inibidores de PDE5 age.

Para entender o achado, você precisa de dois processos. Miogênese é o conjunto de etapas que leva uma célula precursora do músculo a se tornar músculo. Ela começa com proliferação: a célula se divide e gera cópias de si mesma. Depois vem a diferenciação: as células param de se dividir, se especializam e formam estruturas com vários núcleos, os miotubos, que no tecido maduro dão origem à fibra muscular.

Uma analogia ajuda, desde que fique claro que é só figura de linguagem. Pense numa obra: primeiro se contrata mais gente, depois essa gente se especializa em funções específicas. O estudo não fala de obra nenhuma; fala de marcadores moleculares medidos em placa de cultura. Mas a imagem funciona para visualizar o que o experimento viu: o tadalafil alongou a fase de “contratação” e atrasou a de “especialização”.

O que o estudo encontrou sobre tadalafil e músculos?

Resumindo em uma frase: o tadalafil aumentou a proliferação e a sobrevivência das células musculares, mas atrasou a diferenciação delas. O tratamento prolongado elevou de forma significativa a multiplicação celular e reduziu a morte das células em todos os momentos analisados.

O segundo achado é o que mais chama a atenção. O medicamento até aumentou a expressão dos fatores miogênicos iniciais, aqueles que sinalizam que a célula entrou no caminho de virar músculo. Só que, ao mesmo tempo, ele atrasou a diferenciação terminal e diminuiu a quantidade de miotubos multinucleados positivos para MHC, as células musculares grandes, com vários núcleos, típicas do estágio maduro.

Depois de sete dias, as células tratadas ainda mantinham níveis mais altos de Pax7 e Myf6. Os autores descrevem esse conjunto como “consistente com um fenótipo menos diferenciado”, ou seja, células que continuam com cara de precursoras em vez de assumir a forma madura.

No nível molecular, o tratamento também aumentou a expressão de Sirt3 e de IL6 (interleucina 6) e reduziu a de miostatina e de TGFβ (fator de crescimento transformador beta).

Aqui vale uma ressalva que o próprio desenho do estudo impõe: ganho de massa muscular não foi medido. Os desfechos analisados foram proliferação, viabilidade, ativação da miogênese e liberação de miocinas. Hipertrofia muscular, o aumento do tamanho da fibra, não estava na lista.

Como o experimento com células C2C12 foi feito?

Células C2C12, que são mioblastos (os precursores do músculo), foram tratadas com 1 µM de tadalafil — 1 micromol por litro de meio de cultura — por até sete dias. Os pesquisadores acompanharam quatro frentes: proliferação, viabilidade, ativação da miogênese e liberação de miocinas, as proteínas que o músculo secreta e que servem de sinal para outras células.

O resumo publicado não informa quantas repetições foram feitas nem o tamanho percentual de cada efeito. Também não há dados de pessoas: tudo o que está descrito aconteceu em células em placa.

Tadalafil e perda de massa muscular: hipótese de bancada, não receita

A pergunta por trás desse experimento não é brasileira nem local — é humana. Como o corpo repõe o músculo que perde? Doenças que provocam perda de massa muscular dependem justamente da capacidade de ativar e diferenciar as células precursoras, e é aí que o achado fica interessante.

Os autores concluem que o tadalafil promoveu um estado altamente proliferativo e evitou a diferenciação prematura. A partir disso, sugerem seu “potencial uso como terapia farmacológica adjuvante no tratamento de distúrbios de perda de massa muscular”. Note bem as palavras: potencial. É uma hipótese levantada a partir de células, não um resultado clínico, e não é recomendação de uso.

Doping: por que o achado preocupa?

O artigo não afirma que o tadalafil esteja na lista de substâncias proibidas no esporte. O que os autores escrevem é diferente e específico: o ganho potente na maquinaria de regeneração muscular levanta “preocupações críticas” sobre um possível uso como droga de desempenho, e isso exige avaliação das agências antidoping. O termo “doping” aparece entre as palavras-chave do próprio trabalho.

Existe uma lógica nesse receio. Um medicamento que amplia a reserva de células capazes de se multiplicar e se fundir ao músculo pode ser atraente para quem quer recuperar tecido rápido, inclusive quem treina. A diferença entre tratamento e turbo é justamente o que o estudo não mede.

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O que o estudo ainda não explica?

O primeiro limite é o mais óbvio: foram células C2C12 em laboratório. Nenhum camundongo, nenhuma pessoa. O que acontece numa placa de cultura não se transfere automaticamente para um corpo inteiro, com fígado para metabolizar o remédio, circulação e anos de uso.

O experimento usou uma única concentração, 1 µM, por até sete dias. Não sabemos pelo resumo como outros tempos ou doses se comportariam. Também não há, no texto disponível, a magnitude dos efeitos em números relativos.

A descrição de “fenótipo menos diferenciado” é interpretação dos autores a partir dos marcadores que eles mediram. Faz sentido com o que foi observado, mas um conjunto de marcadores não conta a história toda do que ocorre dentro da célula.

E a parte terapêutica continua no campo da proposta. Dizer que algo é promissor como adjuvante em perda de massa muscular é o começo de uma pergunta, não a resposta. Antes de qualquer conclusão sobre benefício em pessoas, seria preciso testar em modelos animais e, depois, em estudos clínicos — etapas que o artigo não percorre.

Por que isso importa?

Vivemos uma época em que remédios antigos são testados para funções novas. Isso pode render tratamentos úteis e também pode abrir portas que ninguém queria abrir. O caso do tadalafil mostra as duas faces no mesmo parágrafo de conclusão: uma possibilidade terapêutica para quem perde músculo e um risco de uso indevido no esporte.

A lição prática talvez seja sobre expectativa. Uma manchete apressada diria que o tadalafil “constrói músculo”. O experimento mostra algo mais sutil: ele mantém as células em estado de obra aberta, com mais trabalhadores disponíveis e a especialização adiada. Em regeneração, isso pode ser útil. Como atalho para desempenho, é motivo de preocupação. Entre um e outro existe uma distância enorme — e é essa distância que a ciência precisa medir.

Fontes

  • Antinozzi C., Di Luigi L. “Prolonged tadalafil exposure promotes skeletal muscle myogenesis and regulates early myogenic markers activation in C2C12 cell lines”. Molecular Biology Reports 53:1701 (2026). DOI 10.1007/s11033-026-12929-x
  • Chinvattanachot G, Rivas D, Duque G (2024). “Mechanisms of muscle cells alterations and regeneration decline during aging”. Ageing Research Reviews 102:102589. DOI 10.1016/j.arr.2024.102589
  • Yin H, Price F, Rudnicki MA (2013). “Satellite Cells and the Muscle Stem Cell Niche”. Physiological Reviews 93:23–67. DOI 10.1152/physrev.00043.2011
  • Lazure F, Blackburn DM, Corchado AH et al. (2020). “Myf6/MRF4 is a myogenic niche regulator required for the maintenance of the muscle stem cell pool”. EMBO Reports 21:e49499. DOI 10.15252/embr.201949499
  • Nelson MD, Rader F, Tang X et al. (2014). “PDE5 inhibition alleviates functional muscle ischemia in boys with Duchenne muscular dystrophy”. Neurology 82:2085–2091. DOI 10.1212/WNL.0000000000000498

Perguntas frequentes

O que o tadalafil faz com os músculos?

Em células musculares C2C12 cultivadas em laboratório, o tadalafil aumentou a proliferação e a sobrevivência celular e reduziu a morte das células em todos os momentos analisados. Ao mesmo tempo, atrasou a diferenciação terminal e diminuiu a formação de miotubos multinucleados, as células musculares maduras.

Tadalafil ajuda a ganhar massa muscular?

Não há resposta para isso neste estudo. O experimento mediu proliferação, viabilidade, ativação da miogênese e liberação de miocinas em células — não hipertrofia muscular nem ganho de massa em pessoas. O que se viu foi mais multiplicação celular e menos maturação.

Tadalafil é considerado doping no esporte?

O artigo não afirma que o tadalafil esteja em listas de substâncias proibidas. Os autores escrevem que o ganho potente na maquinaria de regeneração muscular levanta preocupações sobre possível uso como droga de desempenho e defendem que o tema seja avaliado por agências antidoping.

O tadalafil pode tratar perda de massa muscular?

Os autores sugerem um potencial uso como terapia adjuvante no tratamento de distúrbios de perda de massa muscular, mas isso é uma hipótese levantada a partir de células em laboratório. Não é resultado clínico nem recomendação de uso.

Como o estudo sobre tadalafil e músculos foi feito?

Células C2C12 foram tratadas com 1 µM de tadalafil por até sete dias e analisadas quanto a proliferação, viabilidade, ativação da miogênese e liberação de miocinas. O resumo não informa o número de repetições nem o tamanho percentual dos efeitos.

Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.

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