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Supervulcão Kikai se recarrega com magma novo, diz estudo

Sob o supervulcão Kikai, no Japão, o magma não é sobra da erupção de 7.300 anos atrás: é material novo, e os autores dizem que não há erupção à vista.

Foto de Dr. Paulo Budri

Biólogo, mestre e doutor em Genética Molecular e Microbiologia Clínica

9 min de leitura ·

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Vista aérea da caldeira do supervulcão Kikai, no Japão, cercada pelo oceano
Vista aérea da caldeira do supervulcão Kikai, no Japão, cercada pelo oceano
Resumo em 15 segundos
  • O supervulcão Kikai, no Japão, guarda hoje magma novo, injetado das profundezas, e não sobra da erupção de 7.300 anos atrás.
  • Pesquisadores da Universidade de Kobe usaram pulsos sísmicos e composição química para mapear o reservatório sob o mar.
  • O processo de recarga leva milhares de anos e não indica erupção iminente, segundo os autores.

Resumo dos pontos principais. A matéria completa está logo abaixo.

Há cerca de 7.300 anos, o Japão viveu a maior erupção vulcânica do Holoceno, a época geológica que começou 11.700 anos atrás e segue até hoje. Ela veio do Kikai, uma caldeira vulcânica hoje quase toda submersa. E o que um grupo de pesquisadores japoneses acaba de encontrar sob o fundo do mar muda a forma de enxergar o que acontece depois de um evento desse tamanho.

O supervulcão Kikai está se reabastecendo de magma. Só que o material acumulado ali hoje, segundo o estudo publicado na Nature, provavelmente não é sobra daquela erupção antiga: é magma novo, injetado de camadas mais profundas da crosta ou do manto ao longo de milhares de anos. Os autores fazem questão de dizer que isso não indica erupção iminente. O que o trabalho descreve é um processo lento de recarga, do tipo que a ciência precisa entender antes de conseguir interpretar sinais de um novo evento gigante.

Dados do estudo: a pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade de Kobe, no Japão, entre eles o geofísico Dr. Nobukazu Seama, professor do Centro de Exploração Oceânica de Kobe, em colaboração com a Agência Japonesa de Ciência e Tecnologia da Terra e do Mar (JAMSTEC). O primeiro autor é A. Nagaya. O artigo “Melt re-injection into large magma reservoir after giant caldera eruption at Kikai Caldera Volcano” foi publicado em 2026 na Communications Earth & Environment, com o DOI 10.1038/s43247-026-03347-9. A pesquisa teve financiamento do MEXT, o ministério japonês de educação, cultura, esportes, ciência e tecnologia, e da Sociedade Japonesa para a Promoção da Ciência (bolsa 20H00199).

O que é uma caldeira vulcânica e o que é o supervulcão Kikai?

Caldeira vulcânica é a depressão larga e relativamente rasa que sobra quando o teto de rocha acima de um reservatório de magma colapsa, depois que uma erupção gigante esvazia boa parte do que havia embaixo. Não é uma cratera pequena no topo do cone: é uma estrutura que pode medir dezenas de quilômetros e reorganizar a paisagem inteira.

Para dar a dimensão do que uma erupção dessas libera, os materiais do estudo usam uma imagem simples: o volume de magma expelido seria suficiente para enterrar todo o Central Park, em Nova York, sob uma camada de cerca de 12 quilômetros (7,5 milhas) de espessura.

O Kikai é um desses casos extremos. A maior parte dele fica debaixo do oceano, ao sul do Japão, e sua última grande erupção produziu o maior evento vulcânico conhecido do Holoceno. Outros exemplos citados pelos autores são o Yellowstone, nos Estados Unidos, e o Toba, na Indonésia. Todos são caldeiras gigantes, capazes de erupcionar mais de uma vez.

Ilustração da caldeira vulcânica.

Como os cientistas enxergaram o reservatório de magma sob o mar?

Estar submerso, que parece um obstáculo, virou vantagem. “A localização submersa permite fazer levantamentos sistemáticos e em grande escala”, explica Seama. O fundo do mar aberto ao redor da estrutura facilita o trabalho de navios de pesquisa, algo bem mais difícil em um vulcão cercado de terra firme.

Clique aqui para visualizar o esquema no artigo original.

A equipe usou conjuntos de canhões de ar, os airguns, que disparam pulsos sísmicos artificiais capazes de atravessar a crosta sob o assoalho oceânico. Do outro lado, sismômetros de fundo oceânico registraram como essas ondas viajaram pelo subsolo. A lógica é direta: ondas sísmicas se comportam de maneira diferente ao passar por rocha sólida e por regiões com material em fusão. Comparando os tempos e os percursos, dá para “enxergar” o que não se pode visitar.

Magma novo, não sobra: o que o estudo encontrou no Kikai

Os dados mostraram uma região com alta proporção de magma exatamente sob o ponto onde aconteceu a erupção de 7.300 anos atrás. A equipe também conseguiu estimar o tamanho e o formato aproximados desse reservatório. “Pela sua extensão e localização, está claro que este é de fato o mesmo reservatório de magma da erupção anterior”, afirma Seama.

A parte mais interessante veio da comparação com outro conjunto de evidências. Investigações anteriores já tinham mostrado que um novo domo de lava vem se formando no centro da caldeira ao longo dos últimos 3.900 anos. Domo de lava é o monte que se ergue quando lava espessa e viscosa se acumula em volta de uma abertura em vez de escorrer livremente pela paisagem.

Análises químicas do material desse domo e de outras atividades recentes revelaram uma composição diferente da do magma expelido na erupção gigante. Se o reservatório fosse apenas o resto daquele evento, a assinatura química deveria bater. Não bate. A explicação mais provável, segundo os autores, é que o magma que está ali hoje tenha sido injetado de novo, vindo de partes mais profundas da crosta ou do manto. “Isso significa que o magma agora presente no reservatório sob o domo de lava é provavelmente magma recém-injetado”, resume Seama.

A recarga do supervulcão Kikai indica uma erupção iminente?

Não, segundo o estudo. A recarga é um processo que se desenrola ao longo de milhares de anos, e os autores são explícitos: o achado não significa que uma erupção catastrófica esteja próxima. O que o trabalho descreve é como um sistema vulcânico gigante volta a acumular magma depois de esvaziar boa parte do seu estoque.

Vale separar com cuidado o que foi medido do que é interpretação. Foram medidos os sinais sísmicos que indicam a presença e o formato do reservatório. A origem nova do magma é uma inferência forte, apoiada pela diferença de composição química, mas ainda expressa pelos autores com a palavra “provavelmente”. Nenhum prazo, nenhuma data de próxima erupção.

O que Kikai ajuda a entender sobre Yellowstone e Toba?

Aqui está o motivo de o achado interessar muito além do Japão. Os autores propõem que o mecanismo identificado no Kikai, de reinjeção de magma, ajude a explicar por que outras caldeiras gigantes também abrigam grandes reservatórios relativamente rasos. “Este modelo de reinjeção de magma é consistente com a existência de grandes reservatórios rasos sob outras caldeiras gigantes, como Yellowstone e Toba”, diz Seama.

É uma proposta de modelo, não uma confirmação feita nesses dois lugares. Ainda assim, ela oferece um roteiro: depois de uma erupção colossal, magma novo entra aos poucos e reabastece um reservatório que já existia. Entender esse ciclo é um passo para compreender padrões de longo prazo em sistemas que, hoje, a ciência só acompanha parcialmente.

O que o estudo ainda não explica?

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Os próprios autores apontam os limites. O conhecimento sobre como quantidades tão grandes de magma se acumulam continua incompleto, e é justamente isso que torna extremamente difícil antecipar quando uma nova erupção de grandes proporções pode ocorrer. “Precisamos entender como quantidades tão grandes de magma conseguem se acumular para entender como ocorrem as erupções de caldeiras gigantes”, afirma Seama.

Também ficam pendências de método. A equipe quer refinar as técnicas sísmicas que funcionaram bem no Kikai para investigar com mais detalhe o movimento e o armazenamento do magma. O objetivo declarado é ambicioso e distante: “Nosso objetivo final é conseguir monitorar melhor os indicadores cruciais de futuras erupções gigantes.” Monitorar melhor, note, não prever com data marcada.

Por que isso importa?

Vulcões comuns a gente acompanha há décadas, com sismógrafos, satélites e medições de gases. Caldeiras gigantes são outro nível de dificuldade: os intervalos entre erupções são longos demais para caber na memória de uma geração de pesquisadores, e o reservatório fica escondido sob quilômetros de rocha. Cada estudo que consegue mostrar como esse estoque subterrâneo se recompõe acrescenta uma peça a um quebra-cabeça que só se monta aos poucos.

No caso do Kikai, a peça é a seguinte: o supervulcão não está parado desde a última explosão. Ele está recebendo magma novo, devagar, há milhares de anos. Saber disso não antecipa o futuro, mas ensina o que observar enquanto ele se prepara.

Fontes

  • A. Nagaya et al., “Melt re-injection into large magma reservoir after giant caldera eruption at Kikai Caldera Volcano”, Communications Earth & Environment (2026). DOI: 10.1038/s43247-026-03347-9
  • Universidade de Kobe, release “How do giant caldera volcanoes fill up?”, com entrevista do geofísico Nobukazu Seama (kobe-u.ac.jp)
  • ScienceDaily, “One of Earth’s most powerful supervolcanoes is refilling with fresh magma” (2026)
  • Japan Agency for Marine-Earth Science and Technology (JAMSTEC), instituição parceira da pesquisa

Perguntas frequentes

O que é o supervulcão Kikai?

É uma caldeira vulcânica gigante no Japão, com a maior parte de sua estrutura debaixo do oceano. Sua última grande erupção, há cerca de 7.300 anos, foi a maior do Holoceno.

Quando foi a última erupção do supervulcão Kikai?

Cerca de 7.300 anos atrás. Segundo o material do estudo, foi a maior erupção vulcânica conhecida do Holoceno, época geológica que começou há aproximadamente 11.700 anos.

O supervulcão Kikai pode entrar em erupção de novo?

Caldeiras gigantes podem erupcionar mais de uma vez, e o Kikai é uma delas. O estudo, porém, afirma que a recarga de magma não indica erupção iminente. Os autores dizem que ainda é extremamente difícil antecipar quando um evento assim pode acontecer.

Como os cientistas conseguem estudar um vulcão que está debaixo do mar?

Com canhões de ar que geram pulsos sísmicos artificiais e sismômetros de fundo oceânico que registram como essas ondas atravessam a crosta. Como as ondas se comportam de forma diferente em rocha sólida e em material em fusão, os pesquisadores conseguem mapear o reservatório. A localização submersa também facilita levantamentos sistemáticos em grande escala.

O magma encontrado sob o Kikai é sobra da erupção de 7.300 anos atrás?

Provavelmente não. A composição química do material do domo de lava que vem se formando nos últimos 3.900 anos difere da do magma expelido na grande erupção, o que sugere injeção de magma novo vindo de maior profundidade.

O que a recarga de magma no Kikai revela sobre Yellowstone e Toba?

Os autores propõem um modelo de reinjeção de magma que, segundo eles, é consistente com a existência de grandes reservatórios rasos sob outras caldeiras gigantes, como Yellowstone e Toba. Trata-se de um modelo compatível, não de uma confirmação feita nesses vulcões.

Foto: Tom Fisk no Pexels

Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.

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