Mulheres que começaram a usar terapia hormonal depois dos 70 anos tinham menos sinais de Alzheimer no cérebro do que aquelas que nunca usaram o tratamento. É o que mostra um grande estudo publicado em agosto de 2026 na revista Neurology, da Academia Americana de Neurologia, que analisou dados de mais de 21 mil mulheres.
Mas antes de qualquer esperança, um aviso importante: os pesquisadores deixam claro que encontraram uma associação, não uma prova de que a terapia hormonal previne demência. É uma diferença crucial, uma coisa é ver que dois fenômenos aparecem juntos; outra bem diferente é dizer que um causa o outro.
Como foi o estudo?
Pesquisadores da Universidade de Stanford e de outros centros acadêmicos combinaram dados de dois grandes bancos: o Centro Nacional de Coordenação do Alzheimer (NACC) e a Iniciativa de Neuroimagem do Alzheimer (ADNI). Juntos, esses conjuntos acompanharam 21.462 mulheres com idade de 50 anos ou mais.
O acompanhamento durou entre três e cinco anos, começando quando as participantes tinham em média 71 anos. Entre elas, 1.953 usavam terapia hormonal e 19.509 não usavam. Todas as mulheres que receberam o tratamento começaram depois dos 70 anos, uma característica importante que você vai entender logo.
A pesquisa focou apenas em terapia com estrogênio puro, sem a adição de progesterona. Estudos anteriores sugeriram que combinar estrogênio com progesterona pode aumentar o risco de demência; por isso, na prática médica atual, estrogênio isolado só é prescrito para mulheres que removeram o útero, evitando o risco de câncer endometrial.
O que o cérebro revelou nas autópsias?
Uma parte do estudo examinou os cérebros de 2.959 mulheres após a morte, em média aos 82 anos. Os pesquisadores procuraram por três marcas clássicas do Alzheimer: placas de amiloide-beta (proteína que se acumula), emaranhados de tau (outra proteína danificada) e placas neuríticas (amiloide cercada por células nervosas danificadas).
O resultado foi claro: entre as mulheres que tinham usado terapia hormonal, 18% não mostravam nenhum sinal de Alzheimer na autópsia. Entre aquelas que nunca usaram, esse número caiu para 10%. Na outra ponta, 40% das usuárias de hormônio apresentavam os três sinais de Alzheimer, contra 51% das não-usuárias.
Quando os pesquisadores levaram em conta fatores como idade, educação, genética, raça e hipertensão, a terapia hormonal foi associada a 35% menores chances de mostrar sinais de Alzheimer. Isso significa que, em números absolutos, a diferença foi de 18% versus 10%, uma redução real, mas modesta.
O que os marcadores no sangue indicaram?
Um segundo conjunto de análises olhou para mulheres ainda vivas, usando testes de biomarcadores em sangue e líquido cefalorraquidiano (o fluido que envolve o cérebro e a medula). Mulheres que tinham usado terapia hormonal apresentavam níveis de amiloide-beta que sugeriam menos acúmulo dessa proteína no cérebro.
O raciocínio é contraintuitivo: níveis mais altos de amiloide-beta no sangue e no líquido podem indicar que menos proteína está se depositando no cérebro como placas, ela está sendo “drenada” para fora. Mulheres que usaram hormônio também tinham 39% menores chances de receber diagnóstico clínico de demência e eram menos propensas a problemas de memória ou declínio nas atividades do dia a dia.
O grande porém: como era o tratamento há décadas?
Aqui entra a ressalva mais importante do estudo. As mulheres que participaram usaram terapia hormonal de forma muito diferente de como é feito hoje. Elas começaram o tratamento em média aos 70 anos, bem depois da menopausa.
A prática médica atual recomenda iniciar terapia hormonal no final dos 40 ou início dos 50 anos e interromper antes dos 60. Essa diferença de timing é enorme. Como alertou Dr. Jennifer Bruno, da Stanford Medicine e autora do estudo: “Este estudo olhou para trás, para mulheres que usavam terapia hormonal décadas atrás, com o momento e o tipo de uso diferindo do que é a prática atual para a maioria das mulheres hoje. Os resultados são informativos, mas podem não se aplicar aos padrões de hoje”.
Isso significa que não é possível simplesmente transpor esses achados para as mulheres que recebem terapia hormonal agora. O corpo e o cérebro em diferentes idades respondem de formas distintas aos hormônios.
O que ainda não sabemos?
Os pesquisadores foram honestos sobre as limitações. O estudo é observacional — significa que acompanhou mulheres que já estavam usando ou não hormônio, sem designar aleatoriamente algumas para usar e outras para não usar. Essa diferença importa porque mulheres que escolhem terapia hormonal podem ter outras características de saúde ou estilo de vida que também protegem o cérebro.
Além disso, como os dados vêm de mulheres que usaram hormônio décadas atrás, não está claro se os achados valem para formulações mais modernas ou para mulheres que começam o tratamento em idades diferentes.
Bruno reforçou: “Enquanto esses achados nos ajudam a entender melhor a relação entre terapia hormonal e vários marcadores de demência, mais pesquisa precisa ser feita antes que possamos fazer recomendações às mulheres sobre o uso dessas terapias em relação à saúde do cérebro”.
Por que isso importa?
A demência afeta milhões de mulheres no mundo. O fato de que estrogênio pode ter um papel protetor no cérebro abre uma porta para pesquisas futuras — não para prescrever hormônio indiscriminadamente, mas para entender melhor como os hormônios sexuais influenciam a neurodegeneração.
Se estudos futuros, com desenhos mais rigorosos, confirmarem uma relação de causa e efeito, isso poderia mudar conversas entre mulheres e seus médicos sobre terapia hormonal, equilibrando riscos e benefícios de forma mais informada. Por enquanto, o recado é claro: há uma associação promissora, mas é apenas o começo da história.
Perguntas frequentes
Terapia hormonal previne Alzheimer?
Não. O estudo encontrou uma associação entre uso de terapia hormonal e menos sinais de Alzheimer, mas não prova que o hormônio previne a doença. Mulheres que usam hormônio podem ter outras características que também protegem o cérebro. Mais pesquisa é necessária para estabelecer uma relação de causa e efeito.
Em que idade as mulheres do estudo começaram a usar hormônio?
Em média aos 70 anos — bem depois da menopausa. A prática médica atual recomenda começar entre os 40 e 50 anos e parar antes dos 60, então os resultados podem não se aplicar a mulheres que usam hormônio nos padrões de hoje.
Qual foi a redução de risco de Alzheimer com o uso de hormônio?
As mulheres que usaram terapia hormonal tiveram 35% menores chances de mostrar sinais de Alzheimer na autópsia (em números absolutos, 18% das usuárias versus 10% das não-usuárias não tinham nenhum sinal). Para diagnóstico clínico de demência, a redução foi de 39%.
Quantas mulheres participaram do estudo?
Mais de 21 mil mulheres foram incluídas. Delas, 2.959 tiveram seus cérebros examinados após a morte, e 728 fizeram testes de imagem ou biomarcadores enquanto vivas.
O estudo prova que estrogênio protege o cérebro?
Não. O estudo é observacional — acompanhou mulheres que já estavam usando ou não hormônio, sem designar aleatoriamente quem usaria. Isso significa que não é possível afirmar com certeza que o hormônio é o responsável pela proteção. Outros fatores ligados às mulheres que escolhem terapia hormonal podem estar envolvidos.
Fontes
- Bruno, J. et al. Association Between Menopausal Hormone Therapy and Alzheimer Disease Neuropathology. Neurology, agosto de 2026. DOI: 10.1212/WNL.0000000000218413
- Science Daily. Women taking estrogen had fewer signs of Alzheimer’s in their brains. Publicado em 14 de agosto de 2026. Disponível em: https://www.sciencedaily.com/releases/2026/08/260814011028.htm
- Universidade de Stanford e Centro Nacional de Coordenação do Alzheimer (NACC). Dados de pesquisa longitudinal sobre terapia hormonal menopausal e resultados de demência.
Foto: Anna Shvets no Pexels
Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.





