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Retatrutida reduz apneia do sono em dois estudos de fase 3

Dois ensaios de fase 3 mostram que a retatrutida, injeção semanal experimental, melhora a apneia do sono em pessoas com obesidade.

Foto de Dr. Paulo Budri

Biólogo, mestre e doutor em Genética Molecular e Microbiologia Clínica

9 min de leitura ·

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Pessoa dormindo após tratamento da apneia do sono que a retatrutida pode reduzir
Pessoa dormindo com máscara de CPAP, tratamento da apneia do sono que a retatrutida pode reduzir
Resumo em 15 segundos
  • A retatrutida experimental reduziu as pausas na respiração de adultos com apneia do sono e excesso de peso.
  • Entre 39% e 52% deixaram a apneia moderada ou grave nas doses mais altas, contra 13% no placebo.
  • A perda de peso chegou a 22,2% em um dos ensaios; o remédio não está aprovado.

Resumo dos pontos principais. A matéria completa está logo abaixo.

Uma injeção semanal reduziu as pausas na respiração de adultos que têm apneia obstrutiva do sono e excesso de peso. O remédio se chama retatrutida, ainda é experimental, e os resultados vêm de dois ensaios de fase 3 publicados no New England Journal of Medicine. No grupo de participantes sem diabetes, as duas doses maiores derrubaram o índice que conta essas interrupções em 34,3 e 31,7 eventos por hora de sono, contra 9,9 no placebo.

O ponto que muda a conversa é a lógica do tratamento. Em vez de só contornar o sintoma com o CPAP, o aparelho de pressão que mantém a via aérea aberta durante a noite, os pesquisadores miraram um fator modificável da apneia do sono: o peso. Entre 39% e 52% dos voluntários nas doses maiores deixaram a faixa moderada ou grave da doença, contra cerca de 13% no placebo. Só que remédio experimental é remédio experimental. Nada disso significa aprovação, e ninguém deve sair procurando a injeção por conta própria.

Ficha do estudo: o primeiro autor é Ronald R. Grunstein, e o trabalho foi financiado pela Eli Lilly, empresa que desenvolve a retatrutida. A publicação é do New England Journal of Medicine, em 2026, com o DOI 10.1056/NEJMoa2611477. Os ensaios estão registrados no ClinicalTrials.gov (NCT05929066 e NCT05929079). A reportagem de Sanjukta Mondal para a Medical Xpress, de 24 de outubro de 2026, também serviu de base para este texto.

O que é retatrutida e por que ela age em três hormônios ao mesmo tempo?

Retatrutida é um medicamento experimental aplicado uma vez por semana por injeção sob a pele. Ela é um agonista triplo: uma molécula que ativa três receptores hormonais diferentes de uma vez, como um único botão que liga três interruptores.

Ao imitar o GLP-1 e o GIP, ajuda a baixar o açúcar no sangue, aumentar a saciedade e melhorar a resposta do corpo à insulina; o GIP também contribui para a perda de peso. A ação no receptor de glucagon aumenta o gasto de energia e a atividade metabólica.

Para comparar: a semaglutida (vendida como Wegovy) mira um hormônio, e a tirzepatida (Zepbound) mira dois.

Apneia obstrutiva do sono e o índice que mede as pausas

A apneia obstrutiva do sono faz a respiração parar várias vezes por noite. Cada pausa derruba a oxigenação do sangue e estraga a qualidade do descanso, mesmo que a pessoa passe horas na cama.

A régua usada nos estudos é o IAH, índice de apneia-hipopnea: a média de vezes por hora de sono em que a respiração para ou fica muito reduzida. Para entrar nos ensaios, era preciso ter IMC de pelo menos 27 e no mínimo 15 pausas por hora. Os voluntários começaram bem pior: 58,6 e 55,9 pausas por hora nos dois estudos, quase uma por minuto de sono. O peso médio rondava 120 kg.

Retatrutida na apneia do sono: o que os dois ensaios mostraram?

O TRIUMPH-1-OSA recrutou 243 adultos sem diabetes tipo 2; o TRIUMPH-2-OSA, 448 com diabetes tipo 2. Nos dois, os participantes foram sorteados para receber 4 mg, 9 mg ou 12 mg do remédio, ou placebo, em quatro grupos de tamanhos iguais, com injeção semanal e sem saber o que recebiam. O tratamento durou 80 semanas, com noites de polissonografia no início, na semana 24 e na semana 80.

O desfecho principal era a mudança no IAH com as doses de 9 mg e 12 mg. No grupo sem diabetes, a queda média foi de 34,3 eventos por hora com 9 mg e de 31,7 com 12 mg, contra 9,9 no placebo. A diferença frente ao placebo chegou a 24,4 pausas por hora, ou quase uma pausa a menos a cada dois minutos e meio de sono.

Os percentuais ajudam a visualizar. Nas doses maiores, entre 39% e 52% dos participantes chegaram a nenhuma doença ou a uma apneia leve, sem sonolência excessiva durante o dia. No placebo, foram cerca de 13%. Entre os sem diabetes que usaram 9 mg ou 12 mg, 52% a 66% cortaram as interrupções pela metade ou mais.

A reportagem da Medical Xpress resume as duas doses maiores como uma média de 25 pausas a menos por hora, cerca de 40% de redução, contra 10 no placebo. O resumo do NEJM traz dose por dose, com valores mais altos no grupo sem diabetes. As duas fontes não fazem a mesma conta; fica o registro.

Quanto peso se perde com retatrutida?

A queda média de peso com o remédio ficou entre 12,5% e 22,2% no TRIUMPH-1-OSA e entre 12,1% e 18,5% no TRIUMPH-2-OSA. O placebo ficou em 4,8% e 5,6%. Para dar escala: 20% de 120 kg são 24 kg.

Nesse ponto as fontes divergem no recorte. A reportagem fala em 18% a 19% de perda média entre os participantes com diabetes, contra cerca de 6% no placebo, sem especificar a dose. O resumo do NEJM aponta 12,1% a 18,5% e placebo de 5,6%. Fico com os números do resumo, que são mais detalhados.

Retatrutida em quem tem diabetes tipo 2

As quedas do IAH no grupo com diabetes foram de 19,2, 24,7 e 25,4 eventos por hora nas doses de 4, 9 e 12 mg, contra 10,3 no placebo. A diferença frente ao placebo ficou entre 8,9 e 15,1 pausas por hora: menor do que no grupo sem diabetes, mas presente em todas as doses. Até 40% dos participantes com diabetes chegaram a respiração normal ou apneia leve.

Quem tem diabetes tipo 2, portanto, também foi incluído nos testes e teve benefício. Isso não é indicação de uso: a retatrutida segue experimental e não aprovada.

A retatrutida substitui o CPAP?

Não. O material diz que até 52% dos participantes sem diabetes e 40% dos com diabetes atingiram respiração normal ou apneia leve, faixa em que “podem” não precisar mais do CPAP para manter a via aérea aberta. A palavra é “podem”, o remédio não está aprovado e o texto não informa se alguém abandonou o aparelho durante os ensaios.

O CPAP continua sendo o tratamento padrão, segundo a reportagem. Quem usa não deve mudar nada por causa de um estudo de fase 3.

Por que a apneia do sono importa além do ronco?

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Ronco virou piada de família. A apneia obstrutiva é outra categoria de problema: são interrupções repetidas da respiração, com quedas de oxigênio no sangue que, sem tratamento, podem cobrar um preço na saúde a longo prazo, como lembra a reportagem.

O outro ponto que vale para qualquer pessoa é a adesão. Passar todas as noites com uma máscara de pressão não é confortável para muita gente, e o próprio material reconhece que muitos têm dificuldade de usar o CPAP toda noite. Se um dia for aprovada, a retatrutida pode se tornar mais uma opção de tratamento para apneia em pessoas com obesidade, inclusive com diabetes tipo 2, segundo os autores.

O que o estudo ainda não explica?

O horizonte é de 80 semanas. O resumo não traz dados de seguimento depois disso nem informação sobre o que acontece quando a pessoa para de tomar o remédio.

A análise principal usou um método estatístico chamado de estimando de tratamento híbrido, com uma estratégia hipotética para os participantes que tiveram eventos sugerindo falha do tratamento. Para dar transparência, os autores também reportaram os resultados por intenção de tratar, que incluem todos os sorteados, e as conclusões seguiram na mesma direção.

Os eventos adversos mais comuns foram gastrointestinais, mas o resumo não detalha gravidade, frequência por dose nem quantas pessoas interromperam o tratamento por causa deles. Os dois ensaios foram aninhados em estudos maiores, do tipo cesta. E o financiamento é da Eli Lilly, informação declarada no próprio artigo.

Por que isso importa?

Durante décadas, a conversa sobre apneia do sono girou em torno de aparelhos. Os pesquisadores fizeram outra pergunta: e se o alvo fosse um fator modificável da doença, como o excesso de peso, em vez de apenas o sintoma? Dois ensaios com placebo e centenas de pessoas apontam que esse caminho existe.

A distância entre resultado de fase 3 e remédio na farmácia, porém, é longa. Se você ronca muito, acorda cansado ou alguém já flagrou pausas na sua respiração durante o sono, o caminho é avaliação médica, e o CPAP segue como padrão. Este texto é informativo e não substitui a consulta com um profissional de saúde.

Fontes

Perguntas frequentes

O que é a retatrutida?

É um medicamento experimental aplicado uma vez por semana por injeção sob a pele. Ela age em três receptores hormonais ao mesmo tempo (GLP-1, GIP e glucagon) e vem sendo desenvolvida para tratar obesidade e diabetes tipo 2, tendo sido testada também em apneia obstrutiva do sono. Ainda não está aprovada.

Retatrutida funciona para apneia do sono?

Nos dois ensaios de fase 3, todas as doses reduziram as pausas na respiração mais do que o placebo. No grupo sem diabetes, a queda chegou a 34,3 eventos por hora com 9 mg, contra 9,9 no placebo. O resultado é de um remédio experimental, sem aprovação.

Quanto peso se perde com retatrutida?

Nos ensaios, a queda média de peso ficou entre 12,5% e 22,2% no grupo sem diabetes e entre 12,1% e 18,5% no grupo com diabetes, contra 4,8% e 5,6% no placebo.

Quem tem diabetes tipo 2 pode usar retatrutida para apneia?

Pessoas com diabetes tipo 2 participaram do TRIUMPH-2-OSA e tiveram redução nas pausas, menor que a do grupo sem diabetes. A retatrutida, porém, não está aprovada, e qualquer decisão de uso cabe a um profissional de saúde.

A retatrutida substitui o CPAP?

Não há dados que sustentem isso. Parte dos participantes atingiu apneia leve ou respiração normal, faixa em que talvez não precisem mais do CPAP, mas o material não informa se alguém abandonou o aparelho e o remédio não está aprovado.

Quais são os efeitos colaterais da retatrutida?

Os eventos adversos mais comuns relatados no estudo foram gastrointestinais. O resumo publicado não detalha a frequência por dose, a gravidade nem quantas pessoas interromperam o tratamento por causa deles.

Foto: Yan Krukau no Pexels

Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.

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