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Diabetes: tipos, sintomas, diagnóstico, tratamento e o novo tipo 5

Foto de Dr. Paulo Budri

Biólogo, mestre e doutor em Genética Molecular e Microbiologia Clínica

33 min de leitura ·

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Corte de pâncreas humano ao microscópio, com uma ilhota de Langerhans, o grupo de células que produz insulina, no centro da imagem
Imagem: Berkshire Community College Bioscience Image Library, CC0
Resumo em 15 segundos
  • Uma em cada nove pessoas adultas no mundo tem diabetes: 589 milhões em 2024. No Brasil, 10,2% dos adultos das capitais referem diagnóstico médico.
  • O tipo 2 responde por 96% dos casos, mas o tipo 1 ocorre em todas as idades e a maioria dos casos novos é de adultos.
  • O diabetes tipo 5, proposto em 2025 por 39 especialistas, descreve uma forma em pessoas magras com histórico de desnutrição, ainda sem critérios formais nem tratamento testado.
  • A remissão do tipo 2 é possível: 46% em um ano no ensaio DiRECT, mas 13% em cinco anos, contra 5% do controle.

Resumo dos pontos principais. A matéria completa está logo abaixo.

Em 2024, uma em cada nove pessoas adultas no mundo vivia com diabetes. Eram 589 milhões de adultos entre 20 e 79 anos, segundo a 11ª edição do Atlas da Federação Internacional de Diabetes (IDF). No Brasil, 10,2% dos adultos das capitais e do Distrito Federal dizem ter recebido diagnóstico médico da doença, de acordo com o Vigitel 2023. Para 2050, de acordo com o Atlas, a projeção é de 853 milhões de pessoas.

Para você que se interessa pelo assunto ou tem curiosidade e deseja saber mais, criamos esse guia que reúne conteúdo das principais revistas médicas e as diretrizes internacionais sobre diabetes: o que é, quais são os tipos, os sintomas, o diagnóstico, o tratamento, bem como a remissão e as complicações. Incluímos também uma novidade recente, o diabetes tipo 5, nome proposto em 2025 por um consenso internacional para uma forma da doença que atinge pessoas magras com histórico de desnutrição. O texto é atualizado conforme surgem estudos relevantes.

O que é diabetes?

Diabetes é um conjunto de doenças em que a glicose permanece alta no sangue por tempo prolongado. A glicose é o combustível das células, e o hormônio que a transporta para dentro delas é a insulina, produzida pelas células beta do pâncreas. A glicose permanece alta quando o pâncreas produz pouca insulina, quando o corpo responde mal a ela ou quando ambos aparecem ao mesmo tempo.

Com o passar dos anos, o excesso de glicose danifica vasos sanguíneos e nervos. Por isso, o diabetes aumenta o risco de problemas nos olhos, nos rins, nos pés e no coração, e quase todo tratamento existente foca em reduzir esse dano. Em outras palavras, baixar o número do exame é o meio, e não o fim.

Ilustração científica mostrando insulina ligando-se ao receptor e permitindo a entrada de glicose na célula.
A insulina liga-se ao receptor celular e facilita a entrada da glicose. Quando sua produção ou ação é insuficiente, a glicose permanece elevada no sangue.

Quando se pergunta: quantas pessoas no mundo convivem com a diabetes, é possível encontrar cifras diferentes, e todas são estimativas legítimas. O Atlas da IDF calculou 589 milhões de adultos de 20 a 79 anos em 2024. Por outro lado, o estudo da NCD Risk Factor Collaboration, publicado na The Lancet, estimou 828 milhões de adultos com 18 anos ou mais em 2022. Por fim, o Global Burden of Disease contou 529 milhões de pessoas de todas as idades em 2021. Ou seja, mudam a faixa etária, o ano e o método de estimativa.

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Quais são os tipos de diabetes?

De acordo com as Diretrizes da Associação Americana de Diabetes (ADA) para 2026, a doença se agrupa em quatro categorias convencionais: tipo 1, tipo 2, diabetes gestacional e tipos específicos por outras causas. O próprio texto adverte que essas categorias estão sendo reconsideradas à luz da genética e do metabolismo. Além disso, nem todo paciente se encaixa com clareza em uma delas no momento do diagnóstico.

Diabetes tipo 1

No tipo 1, o sistema imunológico destrói as células beta e o corpo passa a depender de insulina aplicada, na maioria dos casos para sempre. A ADA inclui nesse grupo o diabetes autoimune latente do adulto, conhecido pela sigla LADA.

De fato, a ideia de que o tipo 1 é uma doença de criança está desatualizada. Um modelo publicado na The Lancet Diabetes & Endocrinology estimou 8,4 milhões de pessoas com tipo 1 no mundo em 2021, e só 1,5 milhão (18%) tinha menos de 20 anos. Em contrapartida, cerca de 5,4 milhões (64%) estavam entre 20 e 59 anos, e 1,6 milhão (19%) tinha 60 anos ou mais. Entre os cerca de 500 mil casos novos do ano, a idade mediana no diagnóstico foi de 39 anos.

O mesmo trabalho chama a atenção para 3,7 milhões de casos “ausentes”: pessoas que estariam vivas com tipo 1 se a mortalidade delas fosse igual à da população em geral. De acordo com as estimativas dos autores, uma criança de 10 anos diagnosticada em 2021 teria expectativa de vida restante média de 13 anos em países de renda baixa e de 65 anos em países de renda alta.

Os estágios do tipo 1 e as terapias que tentam adiá-lo

A ADA descreve o tipo 1 em três estágios. No estágio 1, já existem autoanticorpos contra as células beta, mas a glicose é normal e não há sintomas. Em seguida, no estágio 2, a glicose começa a se alterar, ainda sem sintomas. Por fim, no estágio 3, o diabetes aparece pelos critérios habituais, em geral com sintomas. Por isso, é na fase anterior aos sintomas que se concentram as pesquisas de prevenção.

Um ensaio de fase 2 publicado no New England Journal of Medicine testou o teplizumabe, um anticorpo que modula as células T. Participaram 76 parentes de pessoas com tipo 1 e alto risco da doença, dos quais 72% tinham até 18 anos. Um único tratamento de 14 dias adiou o diagnóstico. O tempo mediano até o diabetes foi de 48,4 meses no grupo do remédio e de 24,4 meses no placebo, e a doença foi diagnosticada em 43% contra 72% dos participantes (razão de risco de 0,41). Adiou, mas não evitou, e a amostra foi pequena.

A fronteira seguinte é a terapia celular. Em um estudo de fase 1 e 2, também no New England Journal of Medicine e financiado pela Vertex, células produtoras de insulina derivadas de células-tronco (zimislecel) foram infundidas na veia porta de adultos com diabetes tipo 1. Dos 12 participantes que receberam a dose completa e completaram um ano, todos ficaram sem hipoglicemia grave e com hemoglobina glicada abaixo de 7%, e 10 (83%) já não usavam insulina no dia 365.

Mas as ressalvas são grandes. O estudo é pequeno e de curta duração; todos os participantes precisaram de imunossupressão, e houve duas mortes, uma por meningite criptocócica e outra pela progressão de uma demência que já existia. Por isso, os próprios autores falam apenas em uma hipótese que justifica novas pesquisas.

Diabetes tipo 2

É a forma dominante. De acordo com o Global Burden of Disease 2021, publicado na The Lancet, o tipo 2 respondeu por 96% dos casos de diabetes no mundo. Na definição da ADA, ele resulta de uma perda progressiva da capacidade das células beta de secretar insulina, em geral sobre um fundo de resistência à insulina. Em linguagem simples, o corpo precisa de cada vez mais insulina para obter o mesmo efeito, até que o pâncreas, enfim, não consegue mais acompanhar.

O peso corporal é o principal fator de risco modificável. Em 2021, 52,2% da carga global do tipo 2, medida em anos de vida saudável perdidos, foi atribuída ao índice de massa corporal elevado. Peso, porém, não explica tudo. Para o rastreamento, a ADA considera sobrepeso a partir de IMC 25 (ou 23 em pessoas de ascendência asiática). Soma ainda outros fatores, como parente de primeiro grau com diabetes, hipertensão, HDL baixo ou triglicerídeos altos, sedentarismo, síndrome dos ovários policísticos e doença cardiovascular.

Os autores do GBD descrevem o tipo 2 como em grande parte prevenível e, em alguns casos, potencialmente reversível quando identificado e tratado cedo. Mas há exceções ao roteiro. Um estudo alemão com seguimento de quase uma década mostrou que um subgrupo com fígado gorduroso e resistência à insulina manteve risco alto mesmo que tenha emagrecido. E a doença chegou à adolescência: uma estimativa nacional dos Estados Unidos mostrou que o tipo 2 já aparece entre adolescentes, com forte desigualdade racial e social.

Diabetes gestacional

A ADA define diabetes gestacional como o diabetes diagnosticado no segundo ou no terceiro trimestre da gravidez, que não era claramente diabetes antes da gestação. A relação com os desfechos do bebê é contínua, isto é, não há um limiar óbvio a partir do qual o risco passe a aumentar. O estudo HAPO, publicado no New England Journal of Medicine com 23.316 gestantes, mostrou que, a cada aumento de um desvio padrão na glicemia de jejum (6,9 mg/dL), a chance de o bebê nascer com peso acima do percentil 90 era 38% maior. Os autores descrevem associações fortes e contínuas, inclusive em níveis abaixo dos que definem diabetes.

Mas o risco não termina com o parto. Uma metanálise na BMJ reuniu 20 estudos e 1.332.373 pessoas. Ela estimou que mulheres com diabetes gestacional prévio têm risco relativo de 9,51 (IC 95% de 7,14 a 12,67) de desenvolver tipo 2, em comparação com quem teve uma gravidez com glicose normal. Ou seja, é quase dez vezes mais. Por isso, a ADA orienta teste ao menos a cada um a três anos depois de um diabetes gestacional.

Outros tipos específicos

Entram aqui o diabetes monogênico, causado por variante em um único gene (como o MODY), as doenças do pâncreas exócrino e o diabetes induzido por medicamentos ou substâncias químicas. Na versão 2026, a ADA prefere o termo diabetes pancreático para os casos que surgem depois de pancreatite, cirurgia, câncer, fibrose cística ou hemocromatose, entre outras causas.

Se você já leu a expressão diabetes tipo 3, saiba que ela não é uma categoria oficial. Na literatura, serviu para a hipótese de que o Alzheimer seria uma forma de resistência à insulina no cérebro e, em outros textos, para o diabetes pancreatogênico, chamado de tipo 3c. Quem quiser entender melhor a doença encontra no guia de Alzheimer deste site o que a pesquisa sabe sobre ela.

O que é diabetes tipo 5?

O diabetes tipo 5 é o nome proposto em 2025 para uma forma da doença que atinge pessoas magras, em geral jovens, com histórico de desnutrição desde antes do nascimento e ao longo da infância. Não é uma doença nova. É uma condição descrita há 70 anos que ficou 26 anos sem nome oficial.

Convém dizer logo o que ele ainda não é. O tipo 5 não consta da classificação da ADA 2026, seus critérios diagnósticos formais foram atribuídos a um grupo de trabalho da IDF e não há tratamento testado em ensaios clínicos. A proposta vem de um consenso de 39 especialistas, que reúne estudos anteriores, e não de um ensaio clínico novo.

De 1955 a 2025: como o nome surgiu?

A primeira descrição publicada é de 1955, na The Lancet. O médico Hugh-Jones relatou, na Jamaica, jovens magros com diabetes que não eram propensos à cetoacidose, e chamou a condição de diabetes tipo J. Em 1985, a Organização Mundial da Saúde (OMS) a reconheceu com o nome de diabetes relacionado à desnutrição. Em 1999, porém, retirou a categoria da classificação, alegando evidência insuficiente de que a desnutrição fosse causa suficiente. O desacordo era sobre a causa, e não sobre a existência dos pacientes. De acordo com o consenso, a CID-10 e a CID-11 continuam trazendo códigos para essa condição.

Em 8 e 9 de janeiro de 2025, 39 especialistas se reuniram em Vellore, na Índia, e concordaram por unanimidade que um diabetes não autoimune em pessoas desnutridas merece classificação própria. O documento ficou conhecido como Declaração de Vellore. Escolheram “tipo 5” porque “tipo 3” e “tipo 4” já tinham sido usados na literatura para outras ideias.

A IDF anunciou o nome em abril de 2025, no Congresso Mundial de Diabetes, e lançou um grupo de trabalho encarregado de desenvolver os critérios diagnósticos e as diretrizes de tratamento. O consenso foi publicado em outubro de 2025 na The Lancet Global Health, em acesso aberto.

Quem seria afetado?

Os autores resumem o perfil como magro (IMC abaixo de 18,5 kg/m²), jovem (menos de 30 anos) e com histórico sugestivo de desnutrição. O diagnóstico costuma ocorrer na terceira década de vida, e a maioria dos casos descritos vem de contextos de baixa renda e de áreas rurais, em geral com dieta pobre em proteínas e em calorias.

De acordo com o painel do consenso, os achados frequentes são o IMC abaixo de 18,5 em adultos, a hiperglicemia de moderada a grave e o peptídeo C baixo (um marcador da produção de insulina). Somam-se a resistência à cetose, a ausência de sinais clínicos de resistência à insulina e o anticorpo contra GAD65 negativo. Com menos frequência, aparecem baixo peso ao nascer, desnutrição na infância, baixa condição socioeconômica e origem rural.

Em números, a estimativa dos autores é de 25 milhões de pessoas. Ela foi calculada a partir da prevalência de diabetes em países de renda baixa e média, e não é uma contagem de casos diagnosticados. Os relatos publicados vêm da Índia, do Paquistão, de Bangladesh, de Uganda, da Etiópia, de Ruanda, da Nigéria e da Indonésia. O Brasil, no entanto, não aparece entre os países citados no consenso.

Como ele se distingue do tipo 1 e do tipo 2?

O estudo mais citado para sustentar a diferença foi publicado em 2022 na Diabetes Care. Os pesquisadores avaliaram indianos com IMC abaixo de 19, nos quais as formas conhecidas de diabetes tinham sido excluídas por análise imunogenética, e os compararam com grupos com tipo 1, com tipo 2 e sem diabetes. A secreção total de insulina foi menor do que a do grupo magro sem diabetes e a do grupo com tipo 2.

A produção endógena de glicose foi menor do que no tipo 2 (0,50 contra 0,84 mg/kg/min), a captação de glicose foi mais de duas vezes maior (10,1 contra 4,2 mg/kg/min) e havia menos gordura visceral e menos gordura no fígado. Ou seja, o problema do tipo 5 parece estar na fabricação de insulina, e não na resistência a ela, o oposto do tipo 2 clássico.

Em relação ao tipo 1, a insulina também é baixa, mas não tanto, não há autoanticorpos e a cetoacidose geralmente não é relatada. A distinção tem consequência prática. Conforme o consenso, tratar como tipo 1 uma pessoa magra com outra forma de diabetes pode causar hipoglicemia grave por excesso de insulina.

Comparação ilustrada dos mecanismos do diabetes tipo 1, tipo 2 e do tipo 5 proposto.
No tipo 1 ocorre destruição autoimune das células beta. No tipo 2 predomina a resistência à insulina. No tipo 5 proposto, o problema parece estar principalmente na produção insuficiente de insulina associada à desnutrição persistente.

O que o consenso propõe como causa?

Os autores admitem que a fisiopatologia é incompleta. A hipótese é que a desnutrição desde a vida intrauterina, mantida na infância e na adolescência, leve as células beta a secretar menos insulina. Um mecanismo proposto envolve a falta de antioxidantes, como as vitaminas A, C e E. Isso prejudicaria dois fatores de transcrição, o PDX1 e o MafA, necessários para a expressão do gene da insulina, e aumentaria a morte das células beta por espécies reativas de oxigênio.

Já que a maioria das pessoas desnutridas não desenvolve diabetes, a genética e alterações epigenéticas devem entrar na conta. Há ainda um contraste interessante. Quem nasce com baixo peso e depois recebe alimentação farta tende a crescer rápido e acumular gordura, o que provavelmente leva ao tipo 2 clássico. Por outro lado, a desnutrição que persiste ao longo da vida seria o caminho para o tipo 5. Como não se pode fazer ensaio clínico de desnutrição em humanos, a evidência vem de modelos animais, de coortes de pessoas expostas a períodos de fome, como, por exemplo, a fome holandesa, e de estudos observacionais.

Tratamento: o que se sabe e o que não se sabe?

Por causa da escassez de dados, escrevem os autores, o manejo ideal não se baseia em intervenções com evidência. O conselho padrão de perder peso, dado a quem tem tipo 2 e sobrepeso, é inadequado para pessoas desnutridas, pois a perda de peso pode ser prejudicial a quem tem pouca massa muscular.

A metformina pode induzir perda de peso e, embora tenha sido usada de forma empírica, os autores dizem desconhecer literatura sobre sua eficácia em IMC baixo. As sulfonilureias podem ser úteis, com cautela, porque podem causar hipoglicemia. Os inibidores de DPP-4 podem ser seguros, mas talvez não sejam eficazes o bastante diante do grau de deficiência de insulina. Os agonistas de GLP-1 provavelmente não têm papel, porque emagrecem e podem piorar a sarcopenia. A insulina é um ponto em aberto: pode ser necessária em pequenas doses, mas é difícil de aplicar onde há poucos recursos e traz risco de hipoglicemia onde há insegurança alimentar.

Por isso, os autores colocam a reabilitação nutricional no centro. Defendem uma dieta equilibrada em proteína, energia e micronutrientes, com alimentos baratos e locais, como, por exemplo, lentilha, leguminosas e cereais fortificados, integrada a programas públicos como alimentação escolar e transferência de renda. A prevenção, dizem, passa por reduzir pobreza e fome, com alimentos nutritivos acessíveis a gestantes, bebês e crianças, e por rastrear a desnutrição e encaminhar para cuidado. Eles ressalvam, porém, que estratégias eficazes de prevenção dependem de pesquisas futuras.

O que isso muda para quem vive no Brasil?

Na conduta, por enquanto, pouca coisa. Não há critério diagnóstico oficial nem tratamento específico, e a exclusão de tipo 1, MODY, diabetes pancreático e outras causas cabe ao endocrinologista. O que o consenso muda é o alerta. Em pessoas magras com diabetes e histórico de desnutrição, o “emagreça” do manual do tipo 2 não se aplica, e um diagnóstico apressado de tipo 1 pode levar à hipoglicemia.

Se esse é o seu caso ou o de alguém próximo, vale levar a discussão ao médico, em vez de tentar se enquadrar sozinho em um rótulo que ainda não tem critérios. O grupo de trabalho da IDF foi encarregado de definir esses critérios, e este guia será atualizado quando o resultado for publicado.

Quais são os sintomas do diabetes?

Os sintomas clássicos da glicose alta são urinar muito (poliúria), sentir sede excessiva (polidipsia) e perder peso sem explicação, de acordo com a ADA. No tipo 1, eles costumam aparecer de forma rápida: a ADA informa que cerca de metade das crianças chega ao diagnóstico já com cetoacidose diabética. As características que mais sugerem tipo 1 são início antes dos 35 anos, IMC abaixo de 25, perda de peso involuntária, cetoacidose e glicose acima de 360 mg/dL na apresentação.

No tipo 2, o começo costuma ser silencioso, e é por isso que muita gente não sabe que tem a doença. Em 2024, 42,8% das pessoas com diabetes no mundo não tinham diagnóstico, o que dá 251,7 milhões de adultos, de acordo com um estudo da Diabetes Care com dados do Atlas da IDF. Entre os países, a proporção variou de 16,2% na Colômbia a 90,4% em Burkina Faso, e menos de 5% dos países atingiram a meta da OMS de ter 80% dos casos diagnosticados.

A crise hiperglicêmica, que pode se apresentar como cetoacidose diabética ou estado hiperosmolar hiperglicêmico, exige atendimento de urgência. Às vezes é assim que o diabetes é descoberto.

Como é feito o diagnóstico: valores de glicose e A1C?

A ADA aceita quatro caminhos. O primeiro é a hemoglobina glicada (A1C) de 6,5% ou mais. Em segundo lugar, vem a glicemia de jejum de 126 mg/dL ou mais, com jejum de pelo menos 8 horas. Em terceiro lugar vem a glicemia de 200 mg/dL ou mais duas horas depois de uma sobrecarga com 75 g de glicose. Por fim, a glicemia ao acaso de 200 mg/dL ou mais vale para quem tem sintomas clássicos ou crise hiperglicêmica.

Sem hiperglicemia inequívoca, o diagnóstico exige dois resultados alterados. Eles podem vir de exames diferentes colhidos na mesma ocasião, como, por exemplo, A1C e glicemia de jejum, ou do mesmo exame em dois momentos.

Vale a pena rastrear quem não tem sintomas?

A ADA recomenda avaliar o risco de todos os adultos sem sintomas e considerar o teste em quem tem sobrepeso ou obesidade e ao menos um fator de risco, em qualquer idade. Para os demais, o teste começa aos 35 anos e, se o resultado for normal, repete-se no mínimo a cada três anos. Quem tem pré-diabetes é testado todo ano.

A prova de que o rastreamento em si salva vidas é mais frágil do que se imagina. Por exemplo, a revisão Cochrane de 2020 só encontrou um ensaio elegível, o ADDITION Cambridge, com 20.184 participantes, que comparou convidar ou não pessoas de alto risco para o rastreamento. A mortalidade por todas as causas não mostrou diferença clara (razão de risco de 1,06; IC 95% de 0,90 a 1,25; evidência de baixa certeza). Os autores concluem que há incerteza e que não é possível tirar conclusões firmes sobre os desfechos de saúde.

Isso, porém, não torna o diagnóstico precoce inútil. Significa que ainda falta prova de que programas de rastreamento em massa reduzem mortes, e é por isso que as diretrizes usam o risco individual para decidir quem testar.

O que é pré-diabetes e como evitar que evolua?

Pré-diabetes é a faixa em que a glicose já está acima do normal, mas abaixo do que define diabetes. Corresponde a glicemia de jejum de 100 a 125 mg/dL, glicose de 140 a 199 mg/dL duas horas após a sobrecarga ou A1C de 5,7% a 6,4%.

A evidência de que é possível frear a evolução vem do Diabetes Prevention Program, publicado no New England Journal of Medicine em 2002. Foram 3.234 pessoas sem diabetes, com glicose alterada e IMC médio de 34. Elas foram sorteadas para placebo, metformina ou um programa de mudança de estilo de vida, com metas de perder pelo menos 7% do peso e fazer 150 minutos de atividade física por semana.

Após uma média de 2,8 anos, a incidência de diabetes foi de 11,0 casos por 100 pessoas por ano no placebo, 7,8 com metformina e 4,8 no grupo de estilo de vida. A intervenção de estilo de vida reduziu a incidência em 58% (IC 95% de 48% a 66%) e a metformina em 31% (IC 95% de 17% a 43%).

Esse resultado vem de um programa intensivo, com acompanhamento, e não de conselhos soltos. A pesquisa mais recente testa estratégias específicas. Um grande ensaio espanhol avaliou a dieta mediterrânea combinada com restrição calórica e exercício. Há também uma comparação entre jejum intermitente e restrição calórica e um ensaio com pessoas com obesidade, pré-diabetes e fígado gorduroso. Já um estudo sobre carne vermelha associou o maior consumo ao risco de tipo 2. Ainda assim, cada um responde a uma pergunta estreita.

Como é o tratamento do diabetes?

O tratamento depende do tipo. No tipo 1, a insulina é indispensável. No tipo 2, ele combina mudanças de estilo de vida, remédios e, em parte dos casos, insulina. O que as diretrizes mudaram nos últimos anos foi o foco: da glicose isolada para a proteção do coração, dos rins e do peso.

Tipo 2: remédios e proteção do coração e dos rins

O consenso da ADA e da Associação Europeia para o Estudo do Diabetes (EASD), de 2022, reforça o manejo do peso como parte do cuidado. Ele também amplia a recomendação de proteção cardiorrenal com os inibidores de SGLT2 e os agonistas de GLP-1 em quem tem alto risco, a partir dos resultados de ensaios de desfechos cardiovasculares e renais.

Uma metanálise na The Lancet reuniu três ensaios, com 34.322 pacientes, e mostrou que os inibidores de SGLT2 reduziram os eventos cardiovasculares maiores em 11% (razão de risco de 0,89), mas só em quem já tinha doença aterosclerótica. A internação por insuficiência cardíaca ou a morte cardiovascular caiu 23% (0,77), com ou sem doença aterosclerótica, e a progressão da doença renal caiu 45% (0,55).

Para os agonistas de GLP-1, outra metanálise, na The Lancet Diabetes & Endocrinology, reuniu sete ensaios e 56.004 participantes. Houve redução de 12% nos eventos cardiovasculares maiores (0,88), de 12% na mortalidade por todas as causas e de 9% nas internações por insuficiência cardíaca, além de benefício em desfechos renais.

Em pacientes com tipo 2 e doença renal crônica, o ensaio FLOW (New England Journal of Medicine, 3.533 participantes) mostrou que a semaglutida reduziu em 24% o risco do desfecho renal composto principal (razão de risco de 0,76; IC 95% de 0,66 a 0,88). Houve redução também na morte cardiovascular (0,71). O estudo foi financiado pela Novo Nordisk.

Sobre esses remédios, o site tem textos específicos: o que acontece ao parar o GLP-1, a comparação entre os GLP-1 na perda de peso e uma análise de prontuários sobre olfato e paladar. A metformina, remédio antigo do diabetes, também tem um texto próprio sobre a pergunta se ela retardaria o envelhecimento.

O que o controle intensivo da glicose entrega?

O UKPDS 33, publicado na The Lancet em 1998, acompanhou por 10 anos 3.867 pessoas com tipo 2 de diagnóstico recente. Nesse estudo, o grupo de tratamento intensivo, com sulfonilureia ou insulina, manteve a A1C em 7,0%, contra 7,9% do grupo convencional. Assim, o risco de qualquer desfecho relacionado ao diabetes foi 12% menor, e o de complicações microvasculares, como a necessidade de fotocoagulação da retina, 25% menor.

Não houve diferença estatisticamente significativa na mortalidade por diabetes (10% menor, mas com intervalo de confiança que inclui zero) nem na mortalidade geral (6% menor). Em contrapartida, o preço foi mais hipoglicemia e um ganho médio de 2,9 kg.

Tipo 1: insulina e a revisão que ainda não tem resultados

A insulina é a base do tratamento do tipo 1, e a pergunta sobre qual esquema de insulina funciona melhor ainda tem resposta incompleta. Em maio de 2026, a Cochrane publicou o protocolo de uma revisão sistemática que vai comparar esquemas de insulina em adultos com diabetes tipo 1. Ela avaliará benefícios e danos para alcançar bom controle glicêmico com o mínimo de complicações e eventos adversos e ordenará os esquemas por metanálise em rede.

É um protocolo, ou seja, o plano de trabalho. Os resultados ainda não existem, e por isso este guia não afirma qual esquema é melhor.

O que melhora o cuidado além do remédio?

Uma revisão Cochrane de 2023, mantida como revisão viva, reuniu 553 ensaios com 412.161 participantes (em 66% dos estudos, só havia pessoas com tipo 2) para avaliar estratégias de melhoria da qualidade do cuidado. Os efeitos individuais foram modestos, mas as combinações somaram ganhos. Quatro estratégias apareceram de forma consistente entre as mais eficazes: gestão de caso, mudanças na equipe de saúde, educação do paciente e promoção do autocuidado.

Para cada desfecho, as combinações das três estratégias mais eficazes foram estimadas em queda de 0,41 ponto percentual na hemoglobina glicada (intervalo de credibilidade de 0,22 a 0,61) para quem começava em 8,3%. Para a pressão sistólica, a redução estimada foi de 2,14 mmHg, e para o LDL, de 5,73 mg/dL. Partindo de uma taxa de rastreamento de 50%, a melhora absoluta estimada foi de 33 pontos percentuais no rastreamento de retinopatia e de 38 no de pé diabético. Os autores consideram limitada a confiança na evidência.

Traduzindo, depois do remédio certo, o que mais ajuda é uma equipe que acompanha de perto, ensina e apoia a pessoa a se cuidar.

Diabetes tem cura? O que é remissão

O termo correto é remissão. Ela significa manter a glicose fora da faixa de diabetes sem usar remédios para isso, mas a doença de base pode voltar. O ensaio DiRECT, publicado na The Lancet em 2018, testou um programa de perda de peso em 49 unidades de atenção primária da Escócia e da Inglaterra. Participaram pessoas de 20 a 65 anos com tipo 2 diagnosticado nos últimos seis anos, IMC de 27 a 45 e sem uso de insulina.

O programa incluiu a retirada dos remédios, a substituição total da dieta por uma fórmula de 825 a 853 kcal por dia durante três a cinco meses, a reintrodução gradual dos alimentos e apoio para manter o peso. Em 12 meses, 46% do grupo do programa estava em remissão, definida como A1C abaixo de 6,5% por pelo menos dois meses sem remédios, enquanto no grupo controle foram 4% (razão de chances de 19,7). A remissão dependeu da perda de peso: nenhum dos 76 participantes que ganharam peso entrou em remissão, e 86% dos que perderam 15 kg ou mais chegaram lá.

A parte que muda o tom vem do acompanhamento de cinco anos, publicado na The Lancet Diabetes & Endocrinology em 2024. Entre os 85 participantes que seguiram com apoio de baixa intensidade, 13% estavam em remissão, contra 5% do grupo controle original, e a perda média de peso era de 6,1 kg. A remissão é real e possível, mas difícil de sustentar. Além disso, o DiRECT foi feito em pessoas com diagnóstico recente, o que limita a extensão do resultado para quem convive com a doença há muitos anos.

Quais são as complicações do diabetes?

As complicações se dividem em microvasculares, que afetam os pequenos vasos da retina, dos rins e dos nervos, e macrovasculares, que afetam as artérias do coração, do cérebro e das pernas. O UKPDS listou entre os desfechos a necessidade de fotocoagulação da retina, a cegueira em um olho, a insuficiência renal, a amputação, o infarto, o AVC e a insuficiência cardíaca.

O controle intensivo da glicose reduziu os desfechos microvasculares, mas não os macrovasculares, o que ajuda a explicar por que as diretrizes atuais somam a proteção do coração e dos rins ao controle da glicose.

Há ainda a hipoglicemia, a queda excessiva da glicose, um efeito conhecido de insulina e sulfonilureias. No UKPDS, os episódios graves por ano foram de 0,7% no grupo convencional e de 1,0% a 1,8% nos grupos de tratamento intensivo.

Diabetes no Brasil e no mundo

O Vigitel 2023, do Ministério da Saúde, entrevistou por telefone adultos nas 26 capitais e no Distrito Federal e perguntou sobre diagnóstico médico prévio de diabetes. A frequência foi de 10,2% (IC 95% de 9,4% a 11,1%), maior entre as mulheres (11,1%) do que entre os homens (9,1%).

Com a idade, a frequência aumenta, de 0,5% entre 18 e 24 anos para 10,4% entre 45 e 54, 22,4% entre 55 e 64 e 30,3% a partir dos 65. E cai com a escolaridade: 19,4% entre quem estudou até 8 anos, 8,2% entre quem estudou de 9 a 11 anos e 5,5% entre quem tem 12 anos ou mais de estudo.

Há duas ressalvas. O número é autorreferido e vem das capitais, e não do país inteiro. Além disso, por definição, não inclui quem tem diabetes sem saber. No mundo, o NCD Risk Factor Collaboration estimou que, em 2022, 59% dos adultos com 30 anos ou mais com diabetes (445 milhões de pessoas) não recebiam tratamento medicamentoso. O estudo conclui que o fardo se concentra cada vez mais em países de renda baixa e média.

Para a prática clínica no país, a referência dos especialistas são as Diretrizes da Sociedade Brasileira de Diabetes.

O que a ciência ainda não sabe?

Os critérios diagnósticos e o tratamento do tipo 5 ainda precisam ser definidos. Da mesma forma, não há prova de que o rastreamento populacional reduza mortes por diabetes. Faltam dados sobre quanto tempo a remissão dura fora de programas intensivos de apoio. Enquanto isso, a pergunta sobre qual esquema de insulina é o melhor no tipo 1 aguarda uma revisão ainda sem resultados. E a terapia celular, embora promissora, foi testada em poucas pessoas por pouco tempo.

Perguntas frequentes

O que é diabetes tipo 5?

É o nome proposto em 2025 por um consenso internacional de 39 especialistas, anunciado pela Federação Internacional de Diabetes, para uma forma da doença em pessoas magras (IMC abaixo de 18,5) com histórico de desnutrição. Ela se caracteriza por pouca secreção de insulina, sensibilidade normal à insulina, ausência de cetoacidose e de autoanticorpos. Ainda não tem critérios diagnósticos formais nem tratamento comprovado em ensaios clínicos.

Qual é a diferença entre diabetes tipo 1 e tipo 2?

No tipo 1, o sistema imunológico destrói as células beta e o corpo deixa de produzir insulina, o que exige insulina aplicada. No tipo 2, as células beta perdem aos poucos a capacidade de secretar insulina, em geral sobre um fundo de resistência à insulina. O tipo 2 responde por cerca de 96% dos casos no mundo, e os dois tipos ocorrem em todas as idades.

Quais são os valores de glicose que indicam diabetes?

Pelos critérios da ADA, diabetes é diagnosticado com hemoglobina glicada de 6,5% ou mais, glicemia de jejum de 126 mg/dL ou mais, ou glicemia de 200 mg/dL ou mais duas horas após a sobrecarga com 75 g de glicose. Sem sintomas claros, são necessários dois resultados alterados. Valores de jejum entre 100 e 125 mg/dL ou A1C entre 5,7% e 6,4% indicam pré-diabetes.

Quais são os primeiros sintomas do diabetes?

Urinar muito, sentir muita sede e perder peso sem explicação são os sintomas clássicos. O tipo 2, porém, costuma começar sem sintomas, e 42,8% das pessoas com diabetes no mundo ainda não têm diagnóstico. Por isso o exame de sangue é a forma de saber.

Diabetes tem cura?

O que existe é a remissão, que é manter a glicose fora da faixa de diabetes sem remédios. No ensaio DiRECT, 46% das pessoas com tipo 2 recente chegaram à remissão em um ano com um programa intensivo de perda de peso. Em cinco anos, porém, 13% do grupo que continuou com apoio ainda estava em remissão, contra 5% do grupo controle.

Pré-diabetes sempre vira diabetes?

Não. No estudo Diabetes Prevention Program, 11 em cada 100 pessoas do grupo placebo desenvolveram diabetes por ano. Com um programa intensivo de estilo de vida, foram 4,8 em cada 100, uma redução de 58% na incidência.

A partir de que idade devo medir a glicose?

De acordo com a ADA, o teste começa aos 35 anos para quem não tem outros fatores de risco e, se for normal, repete-se ao menos a cada três anos. Adultos com sobrepeso ou obesidade e algum fator de risco, como parente de primeiro grau com diabetes, hipertensão ou sedentarismo, devem considerar o teste em qualquer idade.

Quem teve diabetes gestacional pode ter diabetes depois?

Pode. Uma metanálise na BMJ estimou que o risco relativo de desenvolver tipo 2 é de 9,51 em mulheres com diabetes gestacional prévio, quase dez vezes o de quem teve gravidez com glicose normal. Por isso, a ADA orienta repetir o teste ao menos a cada um a três anos.

Pessoa magra pode ter diabetes?

Pode. O tipo 1 costuma aparecer com IMC abaixo de 25, e o consenso de 2025 descreve o tipo 5 em pessoas com IMC abaixo de 18,5. O risco de tipo 2 também surge com IMC mais baixo em alguns grupos: para o rastreamento, a ADA usa o corte de 23 em pessoas de ascendência asiática.

Este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação de um médico ou de um nutricionista.

Fontes

Diabetes tipo 5

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Brasil

Sociedade Brasileira de Diabetes. Diretrizes da Sociedade Brasileira de Diabetes.

Imagem: Berkshire Community College Bioscience Image Library.jpg) (CC0). Corte do pâncreas humano ao microscópio, com uma ilhota de Langerhans no centro.

Guia escrito e revisado por Paulo Budri. Atualizado em outubro de 2026.

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