Resumo em 15 segundos
- Em estudo sueco, só 3 de 28 pessoas com queixa de paladar alterado após covid tiveram nota geral baixa no teste objetivo.
- Onze dos 28 participantes perderam totalmente ao menos um sabor, sobretudo doce, amargo e umami.
- As papilas gustativas seguiam estruturalmente intactas, sem vírus detectável no tecido mais de um ano depois.
Resumo dos pontos principais. A matéria completa está logo abaixo.
Quem viu o gosto da comida virar uma sombra do que era depois da covid conhece a frustração. Os meses passam e o café continua sem graça, o chocolate perde o brilho, a carne vira só textura. Um estudo publicado na Chemical Senses acompanhou 28 pessoas que se queixavam de perda de paladar pós-covid mais de um ano depois da infecção e chegou a um resultado que contraria a intuição. Na maioria delas, o paladar geral não estava tão comprometido assim no teste objetivo. O problema aparecia em sabores específicos, principalmente doce, amargo e umami, e vinha acompanhado de queda nos sinais moleculares das papilas gustativas, não de destruição delas.
É um achado que reposiciona a conversa sobre covid longa. A disgeusia (paladar alterado) e a ageusia (perda total do paladar) são sintomas conhecidos desde o começo da pandemia. O que esse trabalho sugere é que, em quem convive com o problema por mais de um ano, o sistema gustativo pode seguir estruturalmente preservado mesmo quando a percepção de certos gostos está comprometida. Para quem espera recuperar o paladar depois da covid, é mais uma peça no quebra-cabeça.
Dados do estudo: o trabalho tem como primeiros autores Hanna Morad, Tytti Vanhala, Marta A. Kisiel, Agnes Andreason, Mei Li, Göran Andersson, Göran Laurell, Thomas E. Finger e Göran Hellekant, com equipes ligadas ao Hospital Universitário de Uppsala, na Suécia, e à Universidade do Colorado, nos Estados Unidos, entre outras instituições. Foi publicado na Chemical Senses em 29 de janeiro de 2026, volume 51, artigo bjaf068. DOI: 10.1093/chemse/bjaf068.
O que é a perda de paladar pós-covid e por que ela persiste?
A perda de paladar pós-covid é a alteração ou o desaparecimento da percepção de gostos que continua por meses depois da infecção pelo SARS-CoV-2, mesmo quando os outros sintomas já passaram. A disgeusia é o paladar distorcido ou embaralhado; a ageusia é a perda completa da capacidade de sentir gostos.
Para entender o que pode dar errado, vale conhecer a anatomia. A língua reconhece cinco qualidades básicas: doce, umami (o gosto de caldo, de proteína), amargo, azedo e salgado. Quem capta esses sinais são os botões gustativos, estruturas em forma de bulbo com 20 a 100 células gustativas, cerca de metade delas receptoras de sabor. Um ser humano típico tem por volta de 200 papilas fungiformes, as da ponta da língua, e cada uma pode abrigar de 0 a 50 botões.
Nem toda célula gustativa trabalha do mesmo jeito. As células tipo II detectam doce, umami e amargo por uma via de sinalização que depende da enzima PLCβ2. As células tipo III cuidam do azedo e do salgado em concentrações altas. Funciona como equipes diferentes na mesma cozinha: cada uma responde por um tipo de sabor. O estudo sugeriu que a covid mexe justamente com uma dessas equipes.
Para medir o paladar de forma objetiva, os pesquisadores usaram o WETT, um teste com 53 tiras impregnadas de substâncias que representam cada gosto em diferentes concentrações, além de tiras em branco para controle. A nota vai de 53 (acertou tudo) a 13 (não sentiu nada e só identificou as tiras em branco).
O que o estudo encontrou: só 3 em 28 tiveram nota geral baixa
Os participantes eram 24 mulheres e 4 homens, com idade média de 49,9 anos (faixa de 30 a 71). Todos tiveram covid sem precisar de hospitalização e se queixavam de alteração no paladar. A média de tempo entre a infecção inicial e o teste foi de 21 meses, variando de 13,5 a 27 meses.
- apenas 3 dos 28 tiveram nota geral abaixo do percentil 10 para idade e sexo;
- 11 dos 28 tinham perdido totalmente pelo menos uma qualidade de sabor;
- o azedo foi o menos afetado, com apenas 2 notas abaixo do percentil 10;
- doce, umami e amargo foram significativamente mais prejudicados do que azedo e salgado (χ² com 1 grau de liberdade, N = 135, valor 4,76; P = 0,03).
Uma participante (identificada como SWE29) não acertou nenhum estímulo, nem na concentração mais alta, e também tinha perdido o olfato. É um quadro de ageusia completa.
Em 20 dos 28, os pesquisadores colheram de 5 a 8 papilas fungiformes. A análise molecular mostrou correlação entre o desempenho no teste e os níveis de RNA mensageiro para PLCβ2 (r = −0,51; P = 0,023) e, no limite da significância, para TAS1R3 (P = 0,056). Um marcador de inervação, o NCAM1, não se correlacionou com o paladar.
A histologia trouxe outro dado curioso. As papilas estavam, em geral, estruturalmente preservadas, e todos os participantes tinham botões gustativos de aparência normal. Mas sete dos 19 biopsiados com queixa de perda de paladar apresentavam botões desorganizados ou células PLCβ2 positivas isoladas fora dos botões, um padrão que, segundo os autores, nunca foi visto em tecidos de pessoas sem covid. A diferença foi estatisticamente significativa.
E um achado que os próprios autores destacam: nenhuma amostra de tecido testou positivo para RNA do SARS-CoV-2, mesmo com um participante em infecção ativa no momento da coleta, com swab nasal positivo.
Doce, amargo e umami: por que esses sabores somem mais?
Estudos anteriores já haviam mostrado que o SARS-CoV-2 usa os receptores ACE2 e a protease TMPRSS2 para entrar nas células, e que essas duas estruturas aparecem nas células gustativas do tipo II. Ou seja, as células que detectam doce, umami e amargo são justamente as mais expostas ao vírus.
Esse é o mecanismo proposto, não medido neste trabalho. O que o estudo mediu foi a correlação: quem tinha menos RNA de PLCβ2 e TAS1R3 nas papilas tendia a ir pior no teste de paladar. A própria equipe observa que uma das hipóteses para a persistência do problema seria uma “memória inflamatória”, alteração epigenética que modificaria a estrutura da cromatina de forma duradoura. É hipótese, ressaltam, não conclusão.
Outra possibilidade levantada é que a infecção altere a função dos nervos gustativos. Isso explicaria, por exemplo, o caso da participante com ageusia completa apesar de botões gustativos de aparência normal.
O que isso muda para quem convive com paladar alterado?
Perder o paladar não é só uma chatice gastronômica. Os autores lembram que a perda quimiosensorial afeta a ingestão nutricional, o bem-estar emocional e a qualidade de vida. E vão além: dizem que, para a sobrevivência, a habilidade de sentir gostos seria mais importante do que a audição e a visão.
O trabalho também esbarra num dado epidemiológico que ajuda a entender o próprio contexto do achado. Um levantamento citado pelos autores (Ota e colaboradores, 2025) mostrou que a queixa de alterações de olfato e/ou paladar variou conforme a variante: 21% na cepa original (241 de 1.141 casos), 18% na alfa (223 de 1.265), 32% na delta (480 de 1.516) e 4% na ômicron (317 de 7.431). A maioria dos participantes deste estudo se infectou no começo de 2020, na primeira onda.
A lição prática vale para qualquer lugar. Se você sente que o paladar mudou e não voltou ao normal depois de meses, isso não é invenção nem frescura. É um sintoma que a ciência vem mapeando, e este estudo ajudou a localizar melhor o problema: o dano parece estar numa via molecular específica, não numa destruição generalizada da língua.
O que o estudo ainda não mostra?
Os próprios autores listam as ressalvas. A principal é a ausência de grupo de controle, já que se trata de um estudo clínico retrospectivo de casos, ainda que com comparação a um banco de dados pré-pandemia com 1.392 pessoas saudáveis (Doty e colaboradores, 2025).
Outra limitação é a medição única, num só momento, em um número pequeno de participantes, o que reduz o poder estatístico. Também não havia como medir o paladar dos participantes antes da infecção, de modo que as queixas dependem do autorrelato, o que pode diminuir a generalização dos achados.
Sobra ainda a pergunta central: por que o problema persiste depois que o vírus some do tecido? As hipóteses dos autores incluem dano aos nervos gustativos, memória inflamatória e desorganização de botões gustativos. Nenhuma foi confirmada. O próprio artigo diz que a patologia por trás da disfunção continua desconhecida.
Por que isso importa?
O estudo não traz uma cura nem um exame novo. Traz algo anterior a isso: a localização do problema. Ao mostrar que a perda de paladar pós-covid se concentra numa via molecular específica, a que depende da PLCβ2, e não numa destruição das papilas, ele dá aos pesquisadores um alvo mais preciso para investigar.
E dá a quem convive com o sintoma uma referência. Não é imaginação, não é falta de atenção ao que se come. É uma alteração mensurável, com correlato molecular, que persiste em pelo menos parte das pessoas por mais de um ano. Reabilitação e tratamento ainda são um campo aberto; a própria equipe sugere que as estratégias precisam ser desenvolvidas com esse alvo em mente. Este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação de um profissional de saúde.
Perguntas frequentes
O que é disgeusia e ageusia?
Disgeusia é o paladar alterado ou distorcido; ageusia é a perda total da capacidade de sentir gostos. Ambas são descrições clínicas de sintomas e aparecem com frequência nos relatos de covid longa.
Por que a covid afeta mais o gosto doce, amargo e umami?
Doce, umami e amargo são detectados pelas células gustativas tipo II, que expressam os receptores ACE2 e a protease TMPRSS2 usados pelo SARS-CoV-2 para invadir células. O estudo atual reforça a pista ao encontrar níveis menores de RNA de PLCβ2 e TAS1R3 correlacionados com pior desempenho no teste de paladar.
Quanto tempo dura a perda de paladar depois da covid?
Não existe um prazo fixo estabelecido pelos dados deste estudo. Ele avaliou pessoas entre 13,5 e 27 meses após a infecção, com média de 21 meses, e ainda encontrou alterações. Disfunções que duram mais de três meses são reconhecidas como parte da covid longa; em muitas pessoas, o problema se resolve em semanas.
A perda de paladar depois da covid volta ao normal?
Na maioria dos pacientes, sim. Os autores citam a recuperação bem documentada da função gustativa pós-covid como algo frequente. O que o estudo acrescenta é evidência quantitativa de que, num subgrupo pequeno, a disrupção pode se prolongar por mais de um ano.
O vírus da covid fica no tecido do paladar?
Neste estudo, nenhuma amostra de tecido das papilas testou positivo para RNA do SARS-CoV-2, mesmo um participante com infecção ativa e swab nasal positivo. Isso sugere que a disfunção do paladar pode persistir mesmo depois que o vírus deixa de ser detectável no sistema gustativo periférico.
Fontes
- Morad H, Vanhala T, Kisiel MA, Andreason A, Li M, Andersson G, Laurell G, Finger TE, Hellekant G. “Taste dysfunction in long COVID”. Chemical Senses, vol. 51, 2026, bjaf068. DOI: 10.1093/chemse/bjaf068.
- Doty e colaboradores (2025) — base de referência com 1.392 indivíduos saudáveis, usada para normalizar os resultados do teste de paladar por idade e sexo.
- Doyle e colaboradores (2021) — estudo citado que mostrou expressão de ACE2 em células receptoras gustativas tipo II e presença do SARS-CoV-2 nessas células.
- Ota e colaboradores (2025) — levantamento citado sobre a frequência de queixas de olfato e paladar conforme a variante do SARS-CoV-2.
- Yao e colaboradores (2023) — trabalho citado sobre detecção do vírus no epitélio de papilas fungiformes e alterações na arquitetura dos botões gustativos.
Foto: https://kaboompics.com/ no Pexels
Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.



