Um dos maiores medos de quem está grávida ganhou um novo capítulo, mas talvez não do jeito que você imagina. Enquanto o debate público sobre o uso de paracetamol na gestação esquenta, uma equipe de pesquisadores de Hong Kong acaba de trazer um sopro de clareza. Eles não encontraram nenhuma associação entre o consumo do medicamento durante a gravidez e um risco maior de autismo ou TDAH nos filhos — desde que a análise leve em conta as semelhanças genéticas e de ambiente da própria família.
O achado é fruto de um dos desenhos mais rigorosos que a epidemiologia permite. Em vez de apenas comparar crianças de diferentes famílias, o estudo colocou lado a lado irmãos de uma mesma mãe: um que foi exposto ao paracetamol na barriga e outro que não foi. Nessa comparação direta, o sinal de risco simplesmente desapareceu. O trabalho, que acaba de ser publicado na JAMA Internal Medicine, ajuda a reconciliar uma literatura científica até aqui dividida e reforça a diretriz que já orienta médicos no mundo todo: o paracetamol segue sendo a primeira escolha segura para dor e febre durante a gravidez.
O estudo foi conduzido por Dr. Eric Yuk Fai Wan, Ian Chi Kei Wong e colegas da Universidade de Hong Kong e da Universidade de Aston, no Reino Unido, com dados da rede pública de saúde de Hong Kong. A pesquisa saiu na revista JAMA Internal Medicine em 29 de junho de 2026 e tem o DOI 10.1001/jamainternmed.2026.2215.
Por que o desenho do estudo faz toda a diferença?
Para entender a novidade, vale um passo atrás. O autismo e o TDAH carregam uma forte herança genética. A herdabilidade, ou seja, o quanto a genética explica o surgimento dessas condições, gira em torno de 80% para o autismo e 74% para o TDAH. Na prática: dentro de uma mesma família, o “capital genético” e o ambiente compartilhado pesam demais no risco de um filho desenvolver essas condições.
Os estudos mais tradicionais, que comparam crianças de famílias diferentes, tentam ajustar as contas por fatores como idade da mãe, condições de saúde ou uso de outros medicamentos. Mas sempre sobra uma pulga atrás da orelha: será que o aumento de risco veio do remédio ou das razões que levaram a mãe a tomá-lo, uma infecção, uma febre alta, um quadro inflamatório? É a velha armadilha do “viés de confusão por indicação”. A sacada dos pesquisadores de Hong Kong foi justamente contornar essa armadilha.
O que o estudo de fato encontrou?
Os autores partiram de uma base inicial com mais de 708 mil pares de mães e filhos. Desse total, cerca de 43% das gestações tiveram ao menos uma prescrição de paracetamol. Para a análise principal, eles selecionaram famílias onde a mesma mãe tinha ao menos um filho exposto e um não exposto ao medicamento na gestação. Chegaram assim a uma coorte de 124.333 crianças para a análise de autismo (acompanhadas por uma mediana de 10,2 anos) e 97.285 crianças para a análise de TDAH (com mediana de 11,3 anos de acompanhamento).
O resultado central é direto: na comparação entre irmãos, o uso de paracetamol na gravidez não elevou o risco de autismo (HR ajustado de 1,00; intervalo de confiança de 95% entre 0,91 e 1,11) nem de TDAH (HR de 1,01; IC 95%, 0,93 a 1,08). Um risco relativo de 1,0 significa que a chance foi a mesma nos dois grupos — é o zero estatístico nesse tipo de medida.
Os pesquisadores foram além e esmiuçaram o uso do remédio por trimestre, por padrão de consumo (uso esporádico, intermitente ou persistente) e por dose diária média. Em nenhum desses recortes apareceu uma relação de dose-resposta ou uma janela crítica de exposição. Mesmo quando o remédio foi usado em doses mais altas — acima de 75,3 mg por dia, o que corresponde ao quartil superior da amostra — ou nos três trimestres da gestação, o risco continuou o mesmo. Também não houve diferença quando os resultados foram separados por sexo da criança, época do parto ou idade materna.
Quando o controle é frouxo, o alarme soa — e engana
Para deixar o contraste ainda mais claro, os autores repetiram a análise no formato convencional, usando toda a coorte de nascidos vivos, com ajustes estatísticos comuns. Aí, sim, o sinal de risco apareceu: um aumento de 17% para autismo e de 23% para TDAH, números bem alinhados com os que outros estudos anteriores haviam relatado.
A cereja do bolo veio com uma estratégia que os epidemiologistas chamam de “controle negativo”. Os pesquisadores testaram se o uso de paracetamol antes da gravidez e depois do parto também estava associado aos diagnósticos. E a resposta foi sim: as associações positivas persistiram nesses períodos, mesmo sendo biologicamente implausível que um remédio tomado um ano antes da concepção pudesse afetar diretamente o neurodesenvolvimento fetal. Isso reforça que o que a análise convencional captura não é o efeito do medicamento, mas sim traços da saúde materna e da família que elevam tanto a chance de usar paracetamol quanto a probabilidade de um diagnóstico de autismo ou TDAH.
Por que isso importa para você, e para o que a ciência já sabia?
O estudo não surge isolado. Ele se soma a três trabalhos anteriores com desenho de irmãos conduzidos na Noruega, Suécia e Japão que já vinham mostrando o mesmo padrão: a associação desaparece quando se controla o fator familiar. A novidade do dado de Hong Kong é que ele traz essa confirmação para uma população de origem chinesa, com um sistema de saúde diferente e um rastreamento de exposição bem mais detalhado, feito a partir de prescrições eletrônicas, um salto de precisão em relação aos estudos que dependiam de questionários respondidos pelas mães.
Na prática, os achados reforçam as diretrizes já adotadas por agências como a Organização Mundial da Saúde e a agência reguladora britânica (MHRA). O paracetamol segue sendo o analgésico e antitérmico de primeira linha na gestação. Seus concorrentes diretos, como os anti-inflamatórios e os opioides, carregam riscos bem documentados: malformações, redução do líquido amniótico, síndrome de abstinência neonatal e danos renais. A hesitação em usar o paracetamol por medo infundado pode levar a dores e febres mal tratadas ou ao uso de alternativas mais perigosas, e aí, sim, o risco para a gravidez é real.
O que o estudo ainda não explica
Os próprios autores listam com clareza as limitações do trabalho. A primeira é que os dados capturam apenas as prescrições feitas na rede pública de saúde de Hong Kong. O paracetamol vendido sem receita, comum em farmácias e lojas de conveniência, não aparece nos registros. Os pesquisadores reconhecem que esse uso por conta própria pode escapar da análise, embora um modelo de viés quantitativo tenha indicado que esse erro de medição dificilmente seria capaz de mascarar uma associação forte que realmente existisse. Em Hong Kong, vale notar, é frequente que médicos prescrevam medicamentos de venda livre — que depois são entregues na farmácia anexa ao consultório —, o que reduz, mas não elimina, a lacuna.
Outro ponto
O desenho de irmãos controla fatores genéticos e ambientais estáveis, mas não pode ajustar totalmente fatores que mudam entre uma gestação e outra na mesma mulher, como idade, estresse ou complicações específicas daquele período. E, embora os testes de “efeito carrego” (o diagnóstico do primeiro filho influenciar o uso do remédio na gestação seguinte) tenham sido tranquilizadores, os autores lembram que é impossível excluí-lo de forma absoluta.
Por fim, o estudo olhou especificamente para autismo e TDAH. Outros desfechos do neurodesenvolvimento — como a deficiência intelectual — ainda precisam ser investigados. Mas, para as duas condições que mobilizam a maior parte do debate, a mensagem é cristalina: o medo não encontra respaldo nos dados mais rigorosos disponíveis.
Fontes
- Wan EYF, Wong ICK, et al. Prenatal Acetaminophen (Paracetamol) Use and the Risk of Autism and/or Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder Among Sibling-Matched Cohorts. JAMA Internal Medicine. Publicado online em 29 de junho de 2026. DOI: 10.1001/jamainternmed.2026.2215
- Agência Reguladora de Medicamentos e Produtos de Saúde do Reino Unido (MHRA) — orientações sobre o uso de paracetamol durante a gravidez (citadas no artigo).
- Organização Mundial da Saúde (OMS) — diretrizes sobre o uso de paracetamol como analgésico de primeira linha na gestação (citadas no artigo).
Perguntas frequentes
Tomar paracetamol na gravidez causa autismo?
Não. O estudo mais recente e de maior rigor metodológico, que analisou mais de 124 mil crianças comparando irmãos, não encontrou nenhuma associação entre o uso de paracetamol na gestação e o risco de autismo no filho — o risco foi o mesmo entre expostos e não expostos dentro da mesma família.
Paracetamol na gestação aumenta o risco de autismo ou TDAH?
Quando o fator genético familiar é controlado, não se observa aumento de risco. A análise com irmãos em Hong Kong mostrou um risco praticamente idêntico para autismo (HR de 1,00) e TDAH (HR de 1,01), derrubando a suspeita de causalidade.
O que o estudo de Hong Kong revelou sobre paracetamol e autismo?
A pesquisa demonstrou que as associações positivas encontradas em estudos comuns desaparecem quando se compara irmãos da mesma mãe, indicando que o risco aparente vinha de fatores genéticos e ambientais da família, e não do remédio. Até análises com uso do medicamento fora da gestação geraram falsos sinais de risco, reforçando essa conclusão.
O paracetamol é seguro durante a gravidez?
Sim. As evidências atuais — somando este estudo às pesquisas anteriores com desenho de irmãos — apoiam as diretrizes que mantêm o paracetamol como a primeira escolha segura para dor e febre na gestação, desde que usado na menor dose eficaz e pelo menor tempo necessário.
Paracetamol na gravidez pode levar a problemas neurológicos no bebê?
Para autismo e TDAH, que são os desfechos mais estudados, os dados com melhor controle de fatores familiares não mostram nenhum risco neurológico adicional ligado ao paracetamol. Outros desfechos do neurodesenvolvimento ainda precisam ser investigados, mas o receio em relação a essas duas condições não se sustenta nas análises mais rigorosas disponíveis.
Foto: Christina & Peter no Pexels
Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.





