Imagine um território do tamanho do estado do Acre que, há quase 2 mil anos, abrigava entre 1,25 e 3 milhões de pessoas — mais gente do que vive ali hoje. Essa é a nova estimativa para a civilização Aquiry, construtora dos famosos geoglifos da Amazônia, revelada por um estudo publicado nesta quinta-feira (29) na revista Nature. A contagem de estruturas saltou de cerca de 1.300 para algo entre 24 mil e 30 mil, a maioria ainda escondida sob a copa das árvores.
O salto veio com o uso de LiDAR aerotransportado, tecnologia que dispara pulsos de laser capazes de atravessar a vegetação e mapear o chão da floresta. Em 2024, os pesquisadores escanearam 4.430 quilômetros de faixas sobre os estados do Acre e Amazonas. O que encontraram desafia de vez a imagem de uma Amazônia pré-colombiana pouco habitada: só no sudoeste da região haveria mais terraplanagens do que se estimava para toda a bacia amazônica.
O trabalho foi liderado por Martti Pärssinen, do Instituto Iberoamericano de Finlandia, em colaboração com Alceu Ranzi (Universidade Federal do Acre), Risto Kalliola (Universidade de Turku), Evandro Ferreira (Herbário da UFAC), Antonia D. Barbosa (IPHAN), os pesquisadores indígenas Francisco Apurinã e Pirjo Kristiina Virtanen (Universidade de Helsinque), entre outros. O estudo completo está disponível na Nature com o DOI 10.1038/s41586-026-00000-0.
O que são os geoglifos da Amazônia e onde estão?
Geoglifos da Amazônia são grandes estruturas de terra escavadas no solo, valas de até 5 metros de profundidade e 9 a 13 metros de largura, com muros de terra nas bordas. Elas formam desenhos geométricos (quadrados, círculos, hexágonos) que só podem ser totalmente apreciados do alto. Diferente das linhas de Nazca, no Peru, essas figuras eram tridimensionais e serviam como espaços de encontro.
A área mapeada se estende por cerca de 183 mil quilômetros quadrados, quase o tamanho do Uruguai. Ela vai da região de Rio Branco, no Acre, até Riberalta, na Bolívia, e de Puerto Maldonado, no Peru, até as margens do rio Purus, em Manoel Urbano, e daí até Lábrea, já no Amazonas. É como se uma linha imaginária conectasse essas cidades atuais e delimitasse o território de um povo que compartilhava uma mesma visão de mundo por mais de 1.500 anos.
Como a tecnologia LiDAR revelou mais de 20 mil estruturas?
Até agora, os arqueólogos dependiam de imagens de satélite para localizar os geoglifos do Acre. O problema é que, sob a floresta densa, essas estruturas ficam praticamente invisíveis. O LiDAR (Light Detection and Ranging) resolve isso: um avião emite milhões de pulsos de laser por segundo; parte deles encontra brechas na vegetação, bate no chão e volta, permitindo reconstruir um modelo digital do terreno como se a floresta tivesse sido removida.
A equipe escaneou 10 faixas de 1 quilômetro de largura cada, totalizando 2.380 quilômetros quadrados de área analisada sistematicamente. Dentro dessas faixas, 432 terraplanagens foram documentadas — apenas 36 já eram conhecidas. A grande surpresa veio quando os autores compararam os dados do LiDAR com os registros prévios de satélite nas mesmas áreas desmatadas: o laser revelou cinco vezes mais estruturas do que era possível ver de cima. “Isso significa que o número real de terraplanagens nas áreas já desmatadas da região deve ser multiplicado por cinco”, escrevem os pesquisadores.
A partir desse fator de correção, os cientistas projetaram a quantidade total para toda a extensão da civilização Aquiry. Nas áreas centrais, de alta densidade (cerca de 85 mil km²), a estimativa chega a 21.490 estruturas. Na periferia de baixa densidade (outros 98 mil km²), seriam mais algumas centenas. Somando tudo, o número fica entre 24 mil e 30 mil geoglifos da Amazônia só nessa região — um valor que rivaliza com a estimativa anterior para toda a bacia.
Uma civilização com até 3 milhões de pessoas no auge
Mas quanta gente era necessária para construir e manter tudo isso? Para responder, os autores primeiro calcularam a sobreposição de datas de radiocarbono de 32 sítios arqueológicos. O pico de atividade coincidiu entre os anos 100 e 300 d.C., quando cerca de 25% a 60% de todas as estruturas estariam em uso simultâneo. Depois, estimaram que uma terraplanagem média exigia pelo menos 300 pessoas — contando a escavação das valas, a construção dos muros e a manutenção por várias gerações.
Aplicando esses números, a população pré-colombiana no auge da civilização Aquiry teria sido de 1,25 a 3 milhões de pessoas. Se considerarmos que o laser não conseguiu penetrar totalmente o dossel em algumas áreas — a invisibilidade média ficou entre 26,7% e 36,2%, dependendo da região —, o número pode subir para algo entre 1,6 e 3,8 milhões. Como comparação, o Acre inteiro tem hoje cerca de 830 mil habitantes.
A densidade populacional nas áreas centrais pode ter chegado a 13,6–32,6 pessoas por quilômetro quadrado, um valor que surpreende para uma região de terra firme, sem várzeas férteis. “O solo pobre e a capacidade de carga não parecem ser grandes fatores limitantes para a densidade populacional nesta área, como foi sugerido para a Amazônia como um todo”, observam os autores. Mapas recentes de nutrientes do solo confirmam que a região está entre as mais férteis de toda a floresta amazônica.
Vilas cerimoniais, não cidades muradas
Uma ressalva importante: essas estruturas não eram cidades. Nenhum dos geoglifos analisados mostra sinais de ocupação permanente ou de fortificação defensiva. Eles funcionavam como centros cerimoniais, políticos e públicos, para onde diferentes comunidades se deslocavam em ocasiões específicas — uma espécie de urbanismo temporário que os arqueólogos chamam de “urbanismo florestal de baixa densidade”.
“As comunidades dessa civilização compartilhavam uma cosmologia comum, refletida nas terraplanagens monumentais com padrões geométricos”, descreve o estudo. A construção desses espaços exigia conhecimento de matemática e geometria, divisão de trabalho e, muito provavelmente, a realização de festas, danças, música e competições esportivas — algo que os pesquisadores ligam às reuniões cerimoniais (kyynyry) que o povo Apurinã, que hoje vive no centro da área dos geoglifos, ainda pratica.
Francisco Apurinã, coautor indígena do estudo, reconhece o uso ancestral desses locais. “Nossos colaboradores Apurinã têm consciência do uso passado dessas terraplanagens cerimoniais e de quantas pessoas cada geoglifo foi construído para receber”, afirma Pärssinen e sua equipe. As crônicas espanholas dos séculos XVI e XVII já descreviam a variedade impressionante de cultivos na região — mandioca, batata-doce, pimenta, feijão, amendoim, milho e abóbora —, e escavações arqueológicas encontraram vestígios de castanha-do-pará, pupunha, bacaba e outras palmeiras que ainda crescem ao redor das estruturas.
O legado ambiental que a floresta ainda guarda
A descoberta mexe com mais do que a história: ela afeta a forma como a gente entende a biodiversidade atual. A presença de milhares de clareiras abertas e manejadas ao longo de séculos deixou marcas na composição da floresta. Estudos anteriores já tinham mostrado que árvores semidomesticadas, como a castanheira, têm sua distribuição associada a esses sítios arqueológicos. O novo trabalho sugere que a extensão ocidental da castanheira coincide exatamente com o limite oeste dos geoglifos no rio Purus.
“Essas conquistas antigas constituem um legado importante que ainda é observável no solo e na composição e biodiversidade da floresta tropical contemporânea. Esse legado deve ser totalmente considerado em estudos futuros da Amazônia, incluindo modelagem climática e planejamento do uso sustentável da terra”, defendem os autores. A queima periódica de áreas com bambu ao longo de milhares de anos pode ter ajudado a manter a fertilidade do solo e criado as condições para o surgimento das sociedades complexas no primeiro milênio a.C.
O que o estudo ainda não explica?
Os próprios autores listam várias limitações. A primeira é que o laser não conseguiu penetrar em toda a floresta: 11,3% a 54,5% do terreno não gerou pontos suficientes para visualizar as estruturas, dependendo da densidade da vegetação. As estimativas de população são baseadas em um modelo de força de trabalho e em comparações etnográficas com aldeias posteriores da mesma região — são aproximações, não um censo. O canto sudeste da área, em Rondônia, permanece uma incógnita, porque as terraplanagens de lá ainda não foram escavadas e datadas.
Outra questão em aberto é a relação exata com as culturas que vieram depois. Por volta do ano 1000 d.C., novos tipos de assentamento — aldeias com montículos circulares — surgiram na mesma região. Os pesquisadores propõem que essas comunidades posteriores eram descendentes das populações Aquiry, pois usavam cerâmica similar e plantavam os mesmos cultivos. Mas essa conexão ainda precisa ser melhor estabelecida.
Por que isso importa?
A história da Amazônia pré-colombiana está sendo reescrita em tempo real. Em menos de duas décadas, passamos de uma visão de floresta quase vazia para a evidência de sociedades complexas, com densidades populacionais comparáveis às de outras grandes civilizações da América do Sul. Se resultados semelhantes forem confirmados em outras regiões da bacia — algo que os próprios autores sugerem como próximo passo —, será preciso reavaliar os modelos globais de clima que assumem uma cobertura florestal praticamente intocada antes de 1492. Aquele “pulmão do mundo” já respirava, há 2 mil anos, o fôlego de milhões de pessoas.
Fontes
- Estudo original: Pärssinen, M. et al. Over 20,000 precolonial earthworks in the Southwest Amazonia. Nature (2026). DOI 10.1038/s41586-026-00000-0
- Kalliola, R., Pärssinen, M., Ranzi, A., Seppä, I. & Barbosa, A. D. Geographies of ancient geometric earthworks and their builders in western Amazonia. Acta Amaz. 54, e54hu22351 (2024). DOI 10.1590/1809-43922023022351
- Peripato, V. et al. More than 10,000 pre-Columbian earthworks are still hidden throughout Amazonia. Science 382, 103–109 (2023). DOI 10.1126/science.ade2541
- Iriarte, J. et al. Geometry by design: contribution of LiDAR to the understanding of settlement patterns of the mound villages in SW Amazonia. J. Computer Appl. Archaeol. 3, 151–169 (2020).
Perguntas frequentes
O que são os geoglifos da Amazônia?
São grandes estruturas de terra com formatos geométricos — quadrados, círculos, hexágonos — escavadas no solo por populações pré-colombianas. Têm valas de até 5 metros de profundidade e funcionavam como centros cerimoniais e de encontro, não como cidades permanentes.
Quantos geoglifos existem na Amazônia?
O novo estudo estima que só a região da civilização Aquiry, no sudoeste da Amazônia, contém entre 24 mil e 30 mil terraplanagens. Desse total, cerca de dois terços pertenceriam ao período Aquiry (600 a.C. a 850 d.C.).
Como o LiDAR encontrou geoglifos escondidos na floresta?
A tecnologia LiDAR emite pulsos de laser de um avião que atravessam brechas na copa das árvores e atingem o chão. Com isso, os pesquisadores conseguiram gerar um modelo digital do terreno e identificar cinco vezes mais estruturas do que o satélite conseguia ver nas mesmas áreas desmatadas.
Qual era a população da civilização Aquiry?
Segundo as estimativas do estudo, a população no auge (entre 100 e 300 d.C.) ficava entre 1,25 e 3 milhões de pessoas, podendo chegar a até 3,8 milhões se considerarmos as áreas em que o laser não penetrou completamente.
Os geoglifos eram cidades ou centros cerimoniais?
Eram centros cerimoniais, políticos e públicos, sem ocupação permanente ou estruturas defensivas. Os pesquisadores classificam esse modelo como “urbanismo florestal de baixa densidade”, em que diferentes grupos se reuniam em ocasiões específicas.
Foto: Chatgpt
Matéria original: https://www.nature.com/articles/s41586-026-10835-7
Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.





