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60 g por dia de amendoim melhora resposta do cérebro à insulina

Estudo com 31 idosos associa 60 g de amendoim torrado com casca por dia a mudanças na resposta do cérebro à insulina, em áreas de memória.

Foto de Dr. Paulo Budri

Biólogo, mestre e doutor em Genética Molecular e Microbiologia Clínica

9 min de leitura ·

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Tigela de amendoim torrado com casca: estudo associa amendoim e memória em idosos
Tigela de amendoim torrado com casca: estudo associa amendoim e memória em idosos
Resumo em 15 segundos
  • Comer 60 gramas de amendoim torrado com casca por dia mudou a resposta do cérebro à insulina em idosos.
  • O efeito apareceu numa região do hemisfério direito ligada à memória, com menos fluxo sanguíneo após insulina nasal.
  • Colesterol, glicose, inflamação e gordura no fígado ficaram iguais; os triglicérides caíram só na oitava semana.

Resumo dos pontos principais. A matéria completa está logo abaixo.

Um punhado de amendoim por dia altera na resposta do cérebro à insulina, e o sinal, à primeira vista, parece contraintuitivo. O fluxo sanguíneo numa região ligada à memória diminuiu depois que os participantes receberam insulina por spray nasal. Para os autores, essa queda indica atividade neuronal mais bem regulada, e não piora. É a mais nova pista da investigação sobre amendoim, insulina e memória em idosos.

A pesquisa acompanhou 31 idosos, com idade média de 67 anos, em duas fases de 16 semanas. Numa delas, cada participante comeu 60 gramas de amendoim torrado com casca por dia. Na outra, não comeu amendoim nem outras oleaginosas. O trabalho dá sequência a um achado anterior do mesmo grupo, que já havia observado melhora de memória nessa população. A pergunta agora era outra: o cérebro teria algo a ver com o resultado?

Dados do estudo: a pesquisa é assinada por Lucia Kerkhof, Ronald P. Mensink, Jogchum Plat, Kevin M. R. Nijssen e Peter J. Joris, da Universidade de Maastricht, na Holanda, com exames de ressonância magnética feitos no centro Scannexus, na mesma cidade. Foi publicada na revista Food & Function em 30 de setembro de 2026 e registrada no ClinicalTrials.gov com o número NCT05724654. O DOI é 10.1039/d6fo03208g.

O que é responsividade à insulina no cérebro?

Responsividade à insulina no cérebro é a capacidade de certas regiões cerebrais de reagir à insulina, mudando a atividade dos neurônios. Parece estranho falar de insulina, o hormônio que controla o açúcar no sangue, dentro da cabeça, mas ela tem receptores ali, e em alta densidade justamente no hipocampo, estrutura central para a memória. Esses receptores ajudam a modular circuitos ligados a desempenho cognitivo, apetite e equilíbrio energético.

Tem um detalhe importante: quando a insulina age nesses neurônios, ela tende a acalmar a atividade elétrica deles. Como o fluxo sanguíneo local acompanha o trabalho das sinapses, uma resposta de “menos sangue” pode significar uma resposta mais organizada. É uma medida indireta.

Segue uma analogia para tentar explicar: dá para suspeitar do movimento dentro de uma casa pelo barulho que vem dela, mas o barulho não descreve a casa por dentro. Os próprios autores avisam que esse tipo de leitura não permite concluir diretamente o que os neurônios estão fazendo.

Amendoim e memória: o que o estudo com idosos encontrou?

Para medir essa resposta, os pesquisadores usaram ressonância magnética com uma técnica chamada marcação de spin arterial, que acompanha o fluxo sanguíneo cerebral. Cada participante recebeu insulina no nariz, quatro jatos de 0,4 mL, dois em cada narina, num total de 1,6 mL (160 UI), e o fluxo foi medido antes e 30 minutos depois. O desenho é do tipo cruzado: todo mundo passou pelas duas fases, com oito semanas de intervalo entre elas, o que aumenta o poder do estudo com menos voluntários. Dos 36 recrutados, 31 completaram, e a adesão foi altíssima, com mediana de 100%.

A análise do cérebro inteiro, voxel por voxel, os voxels são os “pixels” tridimensionais das imagens, encontrou um único agrupamento em que a resposta ao spray de insulina diferiu entre as fases. Ele fica no hemisfério direito e tem 552 mm³, pouco mais de meio centímetro cúbico, menos que um cubo de açúcar. A diferença média no fluxo foi de −5,4 mL por 100 g de tecido por minuto (a unidade diz quanto sangue passa por cada 100 gramas de cérebro a cada minuto), com significância estatística de P = 0,044 após correção para comparações múltiplas.

Cruzando com um atlas anatômico, os autores estimaram em que estruturas esse agrupamento se apoia: o giro lingual (20% de probabilidade média), o hipocampo (14%), o giro para-hipocampal (11%), o tálamo (2%) e o giro cingulado posterior (1%). Hipocampo e giro para-hipocampal são peças-chave da memória. Fora desse ponto, nada mudou: o fluxo sanguíneo global, da substância cinzenta, cortical e subcortical seguiu igual nas duas fases.

Amendoim e colesterol: o que mudou e o que não mudou?

Quem esperava ver reflexo no sangue não vai encontrar. Colesterol total, LDL, HDL, glicose de jejum, insulina de jejum e um índice chamado HOMA-IR (que estima a resistência à insulina a partir desses dois últimos) ficaram estatisticamente iguais entre os períodos. O mesmo vale para a PCR ultrassensível, marcador de inflamação de baixo grau. A gordura acumulada no fígado também não se moveu: 5,3% no período do amendoim contra 5,0% no controle, uma diferença de 0,3 ponto percentual sem significância estatística.

A exceção foram os triglicérides, que caíram na oitava semana (−0,20 mmol/L) e voltaram ao ponto de partida na décima sexta. Um efeito passageiro, que não se sustentou. Os autores lembram que essas medidas metabólicas eram exploratórias e não receberam ajuste para comparações múltiplas, então merecem leitura cautelosa.

O que esse resultado significa fora do laboratório?

Não há milagre nem atalho aqui. O que o estudo oferece é uma pista de mecanismo: como um alimento comum, barato e presente na mesa de muita gente pode conversar com circuitos cerebrais ligados à memória. Isso ganha peso num mundo que envelhece, quanto mais gente chega aos 70 e 80 anos, mais interessa saber o que a rotina alimentar pode, e o que não pode, fazer pelo cérebro.

Repare na direção do achado. A ideia fácil de vender seria “mais sangue no cérebro, melhor memória”. O estudo mostra o contrário: uma resposta de menos fluxo numa área específica. Isso reforça que o cérebro não é um bloco homogêneo, e sim um mapa de vizinhanças com regras próprias. Detalhe curioso: o amendoim, botanicamente, é uma leguminosa, não uma castanha. Ainda assim, os autores lembram que o consumo de oleaginosas, incluindo o amendoim, aparece nas recomendações de uma alimentação saudável.

O que o estudo ainda não explica?

Aqui está a parte mais importante do texto. Os próprios autores listam as ressalvas. A primeira: os participantes somaram o amendoim à dieta habitual, em vez de substituir outro alimento. Não houve um controle com as mesmas calorias e os mesmos nutrientes, mas sem os compostos do amendoim. O efeito observado pode vir não só do amendoim, mas também do aumento da ingestão total de energia (que subiu 0,9 MJ no período da intervenção) e das trocas de nutrientes que vieram junto. Cada sachê de 60 g trazia 340 kcal (1,4 MJ), 15,5 g de proteína, 5,1 g de fibra e 29,5 g de gordura, principalmente insaturada.

Segunda ressalva: o produto não foi analisado quimicamente. Sem isso, não dá para apontar qual nutriente estaria por trás da resposta cerebral. Os autores citam candidatos plausíveis — o aminoácido arginina (precursor do óxido nítrico), as gorduras insaturadas, a fibra, os polifenóis da casca, a vitamina E e o magnésio —, mas deixam claro que os efeitos desses compostos sobre a resposta cerebral à insulina ainda não foram investigados.

Terceira: o desenho não permite dizer quanto da melhora de memória, se houver, vem dessa resposta cerebral. A correlação entre as duas coisas não deu significativa, e os autores avisam que o estudo não tinha poder estatístico para esse tipo de análise — eram 31 pessoas. A ligação com Alzheimer e outras demências é hipótese, não resultado: o trabalho não mediu demência nem acompanhou ninguém por anos.

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Por que isso importa para você?

Se o achado se confirmar em estudos maiores, o recado é modesto e útil: comida comum, com casca e sem sal, pode influenciar o cérebro de formas que a gente só agora começa a medir. Nada disso autoriza tratar amendoim como remédio para a memória, e os autores não fazem essa promessa em nenhum momento. O que eles propõem é um caminho de pesquisa: entender por que a insulina age de maneira diferente em cada região do cérebro e o que isso significa para quem envelhece.

Fica também a lição de método. Um resultado que parece ruim no gráfico, como menos fluxo sanguíneo, pode ser lido como bom, desde que se entenda o contexto. A ciência raramente anda em linha reta — e quase nunca no sentido que a manchete apressada sugere.

Este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação de um profissional de saúde.

Fontes

  • Kerkhof L., Mensink R. P., Plat J., Nijssen K. M. R. e Joris P. J. Daily consumption of unsalted, skin-roasted peanuts beneficially affects regional brain insulin responsiveness in older adults: results of a longer-term randomized controlled trial. Food & Function, 2026. DOI: 10.1039/d6fo03208g
  • Registro do ensaio clínico no ClinicalTrials.gov: NCT05724654.
  • Universidade de Maastricht e centro de pesquisa Scannexus, responsáveis pelo estudo e pelos exames de imagem.
  • Trabalho anterior do mesmo grupo sobre memória e função vascular cerebral em idosos, citado pelos autores como referência 13.
  • Wingrove et al., estudo citado pelos autores que também observou queda do fluxo sanguíneo no hipocampo após insulina intranasal em adultos jovens saudáveis.

Perguntas frequentes

Amendoim melhora a memória?

Este estudo não testou a memória como desfecho; ele investigou um possível mecanismo por trás de uma melhora já relatada. Em trabalho anterior, o mesmo grupo havia observado melhora de memória verbal em idosos com o consumo diário de amendoim. Agora, porém, a mudança cerebral não apareceu estatisticamente associada a essa melhora. A ligação entre amendoim e memória segue como hipótese.

Quantos gramas de amendoim por dia devo comer?

A dose usada no estudo foi de 60 gramas diárias de amendoim torrado com casca e sem sal. Isso descreve o que foi testado na pesquisa, e não uma recomendação de consumo.

Amendoim faz bem para o cérebro?

Neste estudo, o consumo diário de amendoim foi associado a uma mudança na resposta do cérebro à insulina numa região ligada à memória, interpretada pelos autores como potencialmente benéfica. É um achado único, em 31 pessoas, sem prova de causa e efeito — não dá para transformar isso em promessa.

O que é responsividade à insulina no cérebro?

É a capacidade de certas regiões do cérebro de reagir à insulina, mudando a atividade dos neurônios. O hipocampo, região central da memória, tem alta densidade de receptores de insulina. No estudo, essa resposta foi medida de forma indireta, pela variação do fluxo sanguíneo cerebral antes e depois da insulina aplicada no nariz.

Amendoim aumenta o colesterol?

Não neste estudo. Colesterol total, LDL e HDL não mudaram de forma significativa em 16 semanas de consumo diário de 60 gramas de amendoim. Os triglicérides caíram na oitava semana, mas voltaram ao valor inicial na décima sexta.

Amendoim aumenta a gordura no fígado?

Não. O conteúdo de gordura no fígado foi de 5,3% no período do amendoim e 5,0% no período controle, uma diferença sem significância estatística.

Foto: Engin Akyurt no Pexels

Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.

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