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Clitóris em animais: o que a ciência finalmente descobriu

clitóris em animais
Resumo em 15 segundos
  • Sim, o clitóris existe em muitos animais — e por muito tempo a ciência simplesmente não olhou.
  • Uma diferença importante em relação aos lagartos: nas serpentes, os hemiclitores são não evertíveis — não se projetam para fora, como acontece nos hemipênis dos machos.
  • Na cobra-da-morte australiana (Acanthophis antarcticus), a histologia revelou tecido erétil e cordões e feixes de nervos.

Resumo dos pontos principais. A matéria completa está logo abaixo.

Sim, o clitóris existe em muitos animais — e por muito tempo a ciência simplesmente não olhou. Em dezembro de 2022, um estudo publicado na Proceedings of the Royal Society B trouxe a primeira descrição completa da estrutura em fêmeas de serpentes.

A pesquisa é de Megan J. Folwell, Kate L. Sanders, Patricia L. R. Brennan e Jenna M. Crowe-Riddell, com DOI 10.1098/rspb.2022.1702.

O achado se soma a outros trabalhos recentes sobre golfinhos, hienas e aves, e ajuda a explicar por que a anatomia genital feminina ficou séculos atrás da masculina nos livros de zoologia.

O que exatamente foi encontrado nas serpentes

As fêmeas de serpentes não têm um clitóris, e sim dois — chamados de hemiclitores, alojados sob a base da cauda.

Os autores descreveram variação de forma e tamanho em nove espécies de quatro famílias diferentes. As duas metades ficam separadas na linha média por tecido conjuntivo, formando uma estrutura triangular que se estende para trás.

Uma diferença importante em relação aos lagartos: nas serpentes, os hemiclitores são não evertíveis — não se projetam para fora, como acontece nos hemipênis dos machos.

A prova de que não é um “pênis subdesenvolvido”

Essa era a hipótese que circulava: o que se via na cauda das fêmeas seria um hemipênis atrofiado, ou então uma glândula de odor. O estudo derruba as duas leituras.

A equipe combinou três técnicas:

  • Dissecção anatômica;
  • Micro-CT com contraste de iodo (diceCT), que permite ver tecidos moles em três dimensões sem cortar;
  • Histologia, o exame do tecido ao microscópio.

Tecido erétil e feixes de nervos

Na cobra-da-morte australiana (Acanthophis antarcticus), a histologia revelou tecido erétil e cordões e feixes de nervos.

E revelou também uma ausência decisiva: não há espinhos, estruturas que aparecem nos hemipênis dos machos e servem para ancoragem durante a cópula.

Tecido erétil mais inervação, sem os elementos mecânicos do órgão masculino, é o conjunto que sustenta a conclusão dos autores — os hemiclitores têm significado funcional no acasalamento, e não são um resquício sem uso.

Vale a precisão: o estudo mostra estrutura compatível com função. Ele não mediu comportamento nem resposta durante a cópula. Isso segue em aberto.

Golfinhos: o caso mais bem documentado

Em janeiro de 2022, na Current Biology, Patricia L. R. Brennan, Jonathan R. Cowart e Dara N. Orbach publicaram a análise do clitóris do golfinho-nariz-de-garrafa (Tursiops truncatus), DOI 10.1016/j.cub.2021.11.020.

O ponto de partida é comportamental: golfinhos copulam o ano inteiro, e não apenas em períodos férteis, em boa medida para estabelecer e manter vínculos sociais. Em interações entre fêmeas, há registro de estimulação clitoridiana com focinho, nadadeiras e cauda.

A anatomia acompanha: o clitóris fica na porção anterior da entrada vaginal — posição em que o contato durante a cópula é provável — e a análise encontrou espaços eréteis bem desenvolvidos e alta densidade de terminações sensoriais.

A conclusão dos autores é cautelosa e vale reproduzir como está: o órgão é provavelmente funcional. Aferir prazer em animais que não podem relatar é, por definição, indireto.

Hiena-malhada: o extremo da escala

Nenhum mamífero leva a questão tão longe quanto a hiena-malhada (Crocuta crocuta). A fêmea tem um clitóris alongado, externo, praticamente indistinguível do pênis do macho — o chamado pseudopênis.

Não é um detalhe estético. A fêmea urina, copula e dá à luz através dessa estrutura, uma configuração sem paralelo entre mamíferos e com custo reprodutivo alto no primeiro parto.

A revisão de Gerald R. Cunha e colaboradores na revista Differentiation, DOI 10.1016/j.diff.2013.12.003, reúne o que se sabe sobre o desenvolvimento dessa genitália e mostra que a explicação simples — “excesso de andrógenos” — não dá conta sozinha do fenômeno.

E nas aves?

A maioria das aves não tem falo — nem os machos. A cópula acontece pelo contato entre as cloacas.

Mas há exceções: patos, gansos, avestruzes e emas mantiveram o órgão. O trabalho de Ana M. Herrera e colegas na Current Biology, DOI 10.1016/j.cub.2013.04.062, mostrou como essa perda aconteceu: o broto genital começa a se formar no embrião de galinha e depois regride, por morte celular programada.

Ou seja, a ausência de falo nas aves não é falta de origem embrionária — é uma redução ativa que evoluiu depois. Onde o falo do macho persistiu, a fêmea costuma apresentar a estrutura correspondente.

É o tipo de padrão que só faz sentido dentro da lógica da seleção sexual: genitália é um dos traços que mais rapidamente diverge entre espécies próximas.

Por que a ciência demorou tanto

A explicação preguiçosa é que o clitóris é pequeno e escondido. Ela não se sustenta: em várias das espécies estudadas a estrutura é grande, e mesmo assim foi ignorada ou catalogada errado.

A explicação melhor é de prioridade de pesquisa. O pênis foi tratado como o órgão interessante — o que evolui, o que compete, o que explica. A contraparte feminina virou nota de rodapé, quando aparecia.

O problema não é só zoológico. Na anatomia humana, foi preciso esperar até 2005 para uma descrição tridimensional completa do órgão, publicada por Helen E. O’Connell e colegas no Journal of Urology, DOI 10.1097/01.ju.0000173639.38898.cd — que mostrou uma estrutura bem maior do que a porção visível, com ramos internos que envolvem a vagina.

Enquanto o mapa do órgão humano só ficou pronto neste século, esperar que a versão de cobras, lagartos ou escorpiões estivesse resolvida seria otimismo.

O que esses estudos permitem concluir — e o que não

O que está estabelecido: o clitóris é muito mais difundido entre vertebrados do que os livros registravam, e apresenta variação de forma comparável à dos órgãos masculinos.

O que não está estabelecido: qual a função exata em cada grupo. Estimulação genital pode influenciar ovulação, transporte de esperma ou escolha de parceiro — hipóteses plausíveis, ainda sem teste direto na maioria das espécies.

Também não se pode transportar a experiência humana para outros animais. Um órgão inervado e erétil indica capacidade sensorial. O que o animal sente é outra pergunta, e a ciência atual não a responde.

A lição metodológica talvez seja a mais útil: durante décadas, a estrutura estava lá, ao alcance do bisturi. O que faltou foi alguém procurar.

Perguntas frequentes

Animais têm clitóris?

Sim. A estrutura já foi descrita em mamíferos, aves com falo, lagartos e, desde 2022, em serpentes. O estudo publicado na Proceedings of the Royal Society B descreveu hemiclitores em nove espécies de cobras de quatro famílias.

Cobras têm dois clitóris?

Sim. Fêmeas de serpentes possuem hemiclitores, duas estruturas separadas na linha média por tecido conjuntivo, sob a base da cauda. Diferentemente do que ocorre em lagartos, elas não são evertíveis.

Como os cientistas provaram que não era um hemipênis atrofiado?

Por dissecção, micro-CT com contraste de iodo e histologia. Na cobra-da-morte australiana encontraram tecido erétil e feixes de nervos, mas nenhum dos espinhos característicos dos hemipênis masculinos.

O clitóris do golfinho é funcional?

A análise de 2022 na Current Biology descreveu espaços eréteis bem desenvolvidos e alta sensibilidade tátil, e concluiu que o órgão é provavelmente funcional. Os próprios autores tratam a conclusão como indireta.

Por que a hiena fêmea parece ter um pênis?

A hiena-malhada tem um clitóris alongado e externo, o pseudopênis, pelo qual urina, copula e dá à luz. É o caso mais extremo conhecido entre mamíferos.

Por que a maioria das aves não tem pênis nem clitóris?

Porque o broto genital se forma no embrião e depois regride por morte celular programada, como mostrou o estudo de 2013 na Current Biology. Patos, gansos, avestruzes e emas são exceções que mantiveram o órgão.

Fontes

  • Folwell, M. J.; Sanders, K. L.; Brennan, P. L. R.; Crowe-Riddell, J. M. First evidence of hemiclitores in snakes. Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences, 14 dez. 2022. DOI 10.1098/rspb.2022.1702.
  • Brennan, P. L. R.; Cowart, J. R.; Orbach, D. N. Evidence of a functional clitoris in dolphins. Current Biology, v. 32, n. 1, jan. 2022. DOI 10.1016/j.cub.2021.11.020.
  • Cunha, G. R.; Risbridger, G.; Wang, H.; Place, N. J. et al. Development of the external genitalia: Perspectives from the spotted hyena (Crocuta crocuta). Differentiation, jan. 2014. DOI 10.1016/j.diff.2013.12.003.
  • Herrera, A. M.; Shuster, S. G.; Perriton, C. L.; Cohn, M. J. Developmental Basis of Phallus Reduction during Bird Evolution. Current Biology, jun. 2013. DOI 10.1016/j.cub.2013.04.062.
  • O’Connell, H. E.; Sanjeevan, K. V.; Hutson, J. M. Anatomy of the Clitoris. Journal of Urology, out. 2005. DOI 10.1097/01.ju.0000173639.38898.cd.

Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.

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