Resumo em 15 segundos
- A reprodução dos escorpiões foge de quase tudo o que se espera de um aracnídeo.
- O acasalamento começa com os dois se agarrando pelas pinças.
- O canibalismo sexual entre escorpiões existe, mas é bem menos frequente do que a fama sugere.
Resumo dos pontos principais. A matéria completa está logo abaixo.
A reprodução dos escorpiões foge de quase tudo o que se espera de um aracnídeo. Eles não põem ovos: são vivíparos, dão à luz filhotes vivos depois de uma gestação que pode passar de um ano. E, assim que nascem, os filhotes sobem nas costas da mãe e ficam ali até a primeira muda.
Antes disso, há um ritual de acasalamento com nome próprio — promenade à deux, o passeio a dois — em que o macho conduz a fêmea pelas pinças até encontrar o lugar certo para depositar seu pacote de espermatozoides. E há ainda um caso brasileiro que dispensa o macho por completo.
O passeio a dois: como os escorpiões acasalam
O acasalamento começa com os dois se agarrando pelas pinças. O macho conduz a fêmea num movimento coordenado que pode durar de alguns minutos a várias horas — daí o nome promenade à deux.
A dança não é enfeite. Ela cumpre duas funções: permite que a fêmea avalie o parceiro e, principalmente, dá ao macho tempo para encontrar uma superfície adequada onde depositar o espermatóforo.
O espermatóforo: por que não há cópula
Escorpiões não transferem esperma por um órgão sexual, como fazem os mamíferos. O macho produz e deposita no chão uma estrutura externa e parcialmente endurecida — o espermatóforo — que contém os espermatozoides.
Depois de fixá-la no substrato, ele posiciona a fêmea sobre a estrutura, e ela recolhe o conteúdo. A fecundação é interna, mas a transferência acontece do lado de fora. Terminada a operação, a dupla se separa.
A fêmea come o macho depois?
Essa é a parte que mais circula na internet e que merece um ajuste. O canibalismo sexual entre escorpiões existe, mas é bem menos frequente do que a fama sugere. Na maioria dos encontros, macho e fêmea seguem caminhos separados sem incidente.
A imagem da fêmea devorando o parceiro vem em boa parte da confusão com outros aracnídeos, como algumas aranhas, e da repetição de casos isolados observados em cativeiro — condição em que o macho não tem para onde fugir.
Gestação longa e nascimento sem ovo
Diferente da maioria dos insetos e das aranhas, que põem ovos, os escorpiões são vivíparos. Os embriões se desenvolvem dentro da fêmea e obtêm dela ao menos parte do alimento de que precisam.
A gestação é excepcionalmente longa para um artrópode: vai de vários meses a mais de um ano, dependendo da espécie e das condições ambientais. Temperatura e disponibilidade de comida influenciam esse prazo.
No nascimento, os filhotes saem um a um, brancos e moles, e sobem imediatamente para o dorso da mãe.
Por que os filhotes ficam nas costas da mãe
Recém-nascidos, os escorpiões têm o exoesqueleto ainda não endurecido. Sem essa armadura, ficam vulneráveis à desidratação e a qualquer predador — inclusive outros escorpiões.
As costas da mãe funcionam como abrigo até a primeira muda, quando eles trocam o exoesqueleto e ganham a casca rígida que os protege. Só então descem e passam a viver por conta própria.
Esse cuidado parental é raro entre os aracnídeos e ajuda a explicar por que os escorpiões produzem ninhadas grandes e ainda assim mantêm boa taxa de sobrevivência.
O escorpião-amarelo brasileiro dispensa o macho
Aqui entra o caso mais interessante para quem vive no Brasil. O escorpião-amarelo (Tityus serrulatus), o de maior importância médica no país, se reproduz majoritariamente por partenogênese: a fêmea gera filhotes sem qualquer participação de macho.
A maior parte das populações conhecidas de T. serrulatus é partenogenética, e só poucas se reproduzem sexualmente. Um estudo publicado em 2021 em The Journal of Arachnology por Gracielle F. Braga-Pereira e Adalberto J. Santos documentou reprodução assexuada dentro de uma população sexuada, indicando que a partenogênese na espécie é facultativa — DOI 10.1636/JoA-S-20-001.
A causa desse comportamento continua desconhecida. Chegou-se a propor que bactérias endossimbiontes do gênero Wolbachia estariam por trás dele, mas a hipótese foi testada e refutada em trabalho de 2019 da mesma revista (DOI 10.1636/JoA-S-18-090). A partenogênese também já foi confirmada em outra espécie do gênero, Tityus trivittatus.
A consequência prática é direta: uma única fêmea é suficiente para iniciar uma nova população. É um dos fatores que ajudam a explicar a facilidade com que a espécie coloniza áreas urbanas.
Uma correção sobre o escorpião do deserto de Sonora
Versões anteriores deste texto citavam o escorpião do deserto do Arizona-Sonora como Centriroides exilicauda. O nome correto da espécie que ocorre naquela região é Centruroides sculpturatus — o escorpião-de-casca do Arizona.
Ele já foi classificado dentro de Centruroides exilicauda, mas hoje é reconhecido como espécie distinta. Vale registrar também que ele não se reproduz por partenogênese: nele, o acasalamento segue o roteiro clássico do espermatóforo, com cuidado maternal no dorso após o parto.
Perguntas frequentes
Escorpiões põem ovos?
Não. Escorpiões são vivíparos: os embriões se desenvolvem dentro da fêmea, que dá à luz filhotes vivos após uma gestação que pode durar de vários meses a mais de um ano.
Por que os filhotes de escorpião ficam nas costas da mãe?
Porque nascem com o exoesqueleto ainda mole e ficam vulneráveis à desidratação e a predadores. Permanecem no dorso da mãe até a primeira muda, quando ganham a casca rígida e passam a viver sozinhos.
O que é a promenade à deux dos escorpiões?
É o ritual de acasalamento em que macho e fêmea se agarram pelas pinças e caminham juntos, às vezes por horas. Serve para a fêmea avaliar o parceiro e para o macho encontrar um local adequado onde depositar o espermatóforo.
A fêmea do escorpião come o macho depois do acasalamento?
O canibalismo sexual existe entre escorpiões, mas é bem menos frequente do que se costuma dizer. Na maioria dos casos, os dois se separam sem incidente.
O escorpião-amarelo se reproduz sem macho?
Sim. O escorpião-amarelo brasileiro (Tityus serrulatus) se reproduz majoritariamente por partenogênese, e a maioria de suas populações conhecidas é assexuada. Uma única fêmea basta para iniciar uma nova população.
Fontes
- Braga-Pereira, G. F.; Santos, A. J. Asexual reproduction in a sexual population of the Brazilian yellow scorpion (Tityus serrulatus, Buthidae) as evidence of facultative parthenogenesis. The Journal of Arachnology, 2021. DOI 10.1636/JoA-S-20-001.
- Braga-Pereira, G. F.; Vidigal, T. H. D. A.; Santos, F. R. Is the parthenogenesis of the yellow scorpion (Tityus serrulatus) promoted by endosymbiont bacteria (Wolbachia sp.)? The Journal of Arachnology, 2019. DOI 10.1636/JoA-S-18-090.
- Taxonomia do escorpião-de-casca do Arizona: ficha de Centruroides sculpturatus no iNaturalist.
Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.





