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Bebidas quentes e câncer de esôfago: risco triplo

Estudo com quase 1 milhão de adultos no Reino Unido liga bebida “muito quente” a risco triplo de carcinoma espinocelular de esôfago.

Xícara de chá fumegante: bebidas quentes podem elevar o risco de câncer de esôfago
Xícara de chá fumegante: bebidas quentes podem elevar o risco de câncer de esôfago
Resumo em 15 segundos
  • Bebida "muito quente" triplicou o risco de carcinoma espinocelular de esôfago em 977.282 adultos britânicos.
  • Beber 6 ou mais bebidas quentes por dia elevou em 71% o risco relativo de carcinoma espinocelular.
  • O risco de adenocarcinoma de esôfago não aumentou com a temperatura da bebida.
  • Cerca de 14% dos casos de carcinoma espinocelular seriam evitáveis se a bebida fosse menos quente.

Resumo dos pontos principais. A matéria completa está logo abaixo.

Não é o chá nem o café que aparecem como suspeitos neste novo estudo. É a temperatura em que eles descem pela garganta. Em duas grandes coortes britânicas, somando 977.282 participantes, quem declarou preferir as bebidas “muito quentes” teve risco cerca de três vezes maior de carcinoma espinocelular de esôfago do que quem preferia “morno”. A ligação entre bebidas quentes e câncer de esôfago, portanto, parece depender menos do que se bebe e mais de quão quente a bebida está.

O sinal apareceu em só um dos dois principais tipos de tumor do esôfago. E veio acompanhado de outro número forte: tomar 6 ou mais bebidas quentes por dia esteve associado a um risco 71% maior de carcinoma espinocelular, mesmo depois de os pesquisadores levarem em conta a temperatura relatada. O trabalho saiu no International Journal of Cancer.

O estudo é assinado por Dr. Keren Papier, Kezia Gaitskell, Sarah Floud e Gillian K. Reeves e foi publicado no International Journal of Cancer, em 8 de setembro de 2026. Os dados vêm do Million Women Study, com seguimento médio de 14,2 anos, e do UK Biobank, com 11,1 anos. O DOI é 10.1002/ijc.70654.

O que é risco relativo (e por que “3 vezes mais” não quer dizer 3 vezes mais chance)?

Risco relativo é uma comparação entre dois grupos: quanto a chance de um desfecho em um grupo é maior ou menor do que a de outro grupo. Um risco relativo de 3,17, como o encontrado aqui, significa que o grupo das bebidas “muito quentes” teve cerca de três vezes o risco do grupo “morno”. Não significa que três em cada três pessoas vão adoecer.

É uma ferramenta útil, mas incompleta sozinha. Quando o tumor é raro na população, triplicar o risco relativo ainda pode corresponder a números absolutos pequenos. Neste estudo, os autores relatam as razões de risco (RR) com intervalos de confiança de 95%, mas não informam a incidência absoluta de cada grupo. Dá para dizer quantas vezes o risco aumentou; não dá para dizer, por esses dados, quantas pessoas em cada mil foram afetadas.

Bebidas quentes e câncer de esôfago: o que apareceu em quase 1 milhão de adultos?

Durante o acompanhamento, ocorreram 2.348 casos de câncer de esôfago: 1.045 de carcinoma espinocelular e 1.303 de adenocarcinoma. Com esses números em mãos, os pesquisadores compararam categorias de temperatura preferida e de frequência de consumo.

Quem relatou beber na temperatura “muito quente”, comparado a quem preferia “morno”, teve risco 3,17 vezes maior de carcinoma espinocelular (intervalo de confiança de 95%: 2,49 a 4,03), já ajustado pela frequência. Para o adenocarcinoma, não houve associação clara: 0,92 (0,76 a 1,12).

6 ou mais bebidas quentes por dia: o que muda no risco?

Depois de controlar a temperatura, a frequência também pesou, mas só no carcinoma espinocelular. Tomar 6 ou mais bebidas quentes por dia, comparado a menos de 6, foi associado a um aumento de 71% no risco relativo (1,71; intervalo de 1,51 a 1,94). No adenocarcinoma, a diferença foi pequena: 1,19 (1,06 a 1,33).

Os dois fatores foram analisados levando o outro em conta: a temperatura foi ajustada pela frequência, e a frequência, pela temperatura.

Por que o alerta vale para o carcinoma espinocelular e não para o adenocarcinoma?

O esôfago tem mais de um tipo de câncer, e eles não se comportam igual. Neste estudo, a temperatura e a frequência das bebidas apareceram ligadas ao carcinoma espinocelular, mas não ao adenocarcinoma, os dois subtipos mais comuns. O trabalho não investiga o mecanismo biológico por trás dessa diferença, então o motivo pelo qual um tipo responde ao calor e o outro não continua em aberto.

Qual é a temperatura segura para tomar chá e café?

O estudo não define uma temperatura segura. A razão é simples: os graus não foram medidos com termômetro. As pessoas apenas relatavam se preferiam a bebida “morna”, “quente” ou “muito quente”. Não existe, portanto, um valor em graus que este trabalho possa apontar como limite.

O que os autores observam é uma tendência: o risco subiu de forma gradual entre as categorias de temperatura. Para eles, isso sugere que limitar a temperatura a algo bem abaixo da média dessa população poderia evitar uma proporção ainda maior de casos de carcinoma espinocelular. Mas isso é uma projeção, não uma medição.

14% dos casos de carcinoma espinocelular poderiam ser evitados com bebidas menos quentes

Segundo a estimativa dos autores, cerca de 14% dos casos de carcinoma espinocelular de esôfago poderiam ser evitados se as pessoas que relatam beber na temperatura “muito quente” passassem a beber numa faixa mais próxima do que o estudo chama de “quente”. É um cálculo de modelo, baseado nas categorias autorrelatadas.

Bebidas muito quentes e câncer: uma pista que vem de longe

A ideia de que o calor da bebida conta não nasceu no Reino Unido. Estudos feitos na Ásia, na África, na América do Sul e no Oriente Médio já vinham mostrando, de forma consistente, que chá ou mate tomados a temperaturas muito altas, em torno de 70 °C, aumentam o risco de câncer de esôfago. Na América do Sul, o mate é justamente uma bebida tradicional, servida bem quente.

Só que essa evidência tinha um limite. Ela vinha de populações com hábitos bem diferentes dos europeus, e faltavam dados sobre as temperaturas típicas do Ocidente, onde café e chá costumam ser menos quentes. É essa lacuna que o novo trabalho ajuda a preencher. E aí está o ponto que vale para qualquer lugar: talvez não seja preciso viver num país de mate a 70 °C para que a temperatura da bebida importe.

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O que o estudo ainda não explica?

  • É observacional. Acompanha pessoas ao longo do tempo, sem distribuir grupos nem testar intervenção. Por isso, “associado a” não é sinônimo de “causa”.
  • A temperatura foi autorrelatada, sem medição com termômetro, o que impede fixar um limite em graus.
  • Os autores relatam riscos relativos, sem informar o risco absoluto de cada grupo.
  • Os dados vêm de adultos de meia-idade no Reino Unido, e os padrões de consumo podem não valer para outras populações.
  • Os 14% de casos evitáveis são uma estimativa de modelo, não uma medição direta.

Por que isso importa?

Os próprios autores concluem que a temperatura e a frequência das bebidas quentes são alvos úteis para prevenir o carcinoma espinocelular de esôfago. Nada disso significa abrir mão do café ou do chá. O estudo não aponta a bebida como culpada, e sim o quanto ela está quente.

Se há um recado prático que sai daí, ele é modesto e cabe na rotina. Não existe uma temperatura segura definida pelo trabalho, mas a tendência observada aponta sempre para o mesmo lado: menos calor, menos risco relativo. Uma mudança pequena, que não custa nada, foi o que separou os grupos num estudo com quase 1 milhão de pessoas. Este texto é informativo e não substitui a avaliação de um profissional de saúde.

Perguntas frequentes

Beber bebidas muito quentes causa câncer de esôfago?

O estudo mostra uma associação, não uma relação de causa e efeito. Quem relatou beber na temperatura “muito quente” teve risco cerca de três vezes maior de carcinoma espinocelular de esôfago, mas o desenho observacional não permite afirmar que o calor, sozinho, provoca o tumor.

Qual a temperatura segura para tomar chá e café?

O estudo não define uma temperatura segura, porque não mediu os graus com termômetro: as pessoas apenas relatavam se preferiam a bebida “morna”, “quente” ou “muito quente”. O que os autores observam é que o risco subiu conforme a categoria ficava mais quente.

Por que bebidas quentes aumentam o risco de carcinoma espinocelular?

O estudo não testou o mecanismo por trás dessa ligação. Ele mediu a associação entre temperatura e frequência das bebidas e o risco do tumor, sem investigar o que acontece no tecido do esôfago.

Tomar 6 ou mais bebidas quentes por dia aumenta o risco de câncer de esôfago?

Sim, para o carcinoma espinocelular: tomar 6 ou mais bebidas quentes por dia, comparado a menos de 6, foi associado a um risco relativo 71% maior, mesmo após ajuste pela temperatura.

Quantos casos de câncer de esôfago poderiam ser evitados com bebidas menos quentes?

Os autores estimam que cerca de 14% dos casos de carcinoma espinocelular poderiam ser evitados se quem bebe na temperatura “muito quente” passasse a beber numa faixa mais próxima do que o estudo chama de “quente”. É uma estimativa de modelo.

Bebida quente aumenta o risco de adenocarcinoma de esôfago?

Não de forma clara. No estudo, a temperatura “muito quente” não se associou ao adenocarcinoma (0,92; intervalo de 0,76 a 1,12), e a frequência de 6 ou mais bebidas mostrou apenas uma associação pequena (1,19; intervalo de 1,06 a 1,33).

Fontes

  • Papier K, Gaitskell K, Floud S, Reeves GK. “Hot Drinks and Oesophageal Cancer: Prospective Analyses in Around 1 Million UK Adults”. International Journal of Cancer, 8 de setembro de 2026. 10.1002/ijc.70654
  • Million Women Study — coorte britânica analisada no estudo, com seguimento médio de 14,2 anos.
  • UK Biobank — coorte britânica analisada no estudo, com seguimento médio de 11,1 anos.

Foto: Donald Tong no Pexels

Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.

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