Pular para o conteúdo

Câncer em pilotos e comissários: maior mortalidade ligada à radiação

Pilotos e comissários de bordo tiveram as maiores proporções de mortes por cânceres ligados à radiação entre 503 ocupações, mostra estudo da Harvard.

Câncer em pilotos e comissários é tema de estudo sobre exposição à radiação cósmica em voos comerciais.
Câncer em pilotos e comissários é tema de estudo sobre exposição à radiação cósmica em voos comerciais.

Um estudo publicado no JAMA Internal Medicine, com mais de 12,7 milhões de mortes registradas nos Estados Unidos entre 2020 e 2024, traz uma resposta desconfortável para quem vive nas nuvens: o risco de câncer em pilotos e comissários de bordo ligado à radiação cósmica é proporcionalmente o maior entre 503 ocupações. Comissários ficaram em 1º lugar, pilotos em 2º, superando até técnicos em medicina nuclear, profissionais acostumados a trabalhar com radiação no chão.

A pergunta que os pesquisadores fizeram era direta: quem passa a carreira inteira voando, acumulando a radiação que vem do espaço, morre mais por tumores sensíveis a ela? A resposta, segundo eles, é sim, mas com ressalvas importantes. O excesso apareceu justamente nos cânceres relacionados à radiação, e não nos demais, o que reforça a hipótese de que o problema tem a ver com o céu. Mas, como todo estudo observacional, ele mostra associação, não prova de causa.

O estudo foi conduzido por pesquisadores que usaram dados do National Vital Statistics System, o sistema de estatísticas vitais dos EUA, a partir de atestados de óbito de 2020 a 2024. O autor correspondente é Anupam B. Jena, do Departamento de Política de Saúde da Harvard Medical School. O artigo foi aceito em 19 de maio de 2026 e publicado online em 17 de agosto de 2026 no JAMA Internal Medicine. DOI: 10.1001/jamainternmed.2026.3635.

O que é radiação cósmica e por que ela afeta quem voa?

Radiação cósmica é um tipo de radiação ionizante que vem do espaço, composta por partículas de alta energia. Na superfície da Terra, a atmosfera funciona como um cobertor que bloqueia boa parte dela. Nos voos comerciais, em altitude de cruzeiro, o cobertor fica mais fino e a radiação chega com mais força.

Nos Estados Unidos, a tripulação de aviões recebe a maior dose média anual de radiação ionizante entre todos os grupos ocupacionais. O motivo principal, apontam os autores, são os raios cósmicos encontrados justamente na altitude de cruzeiro dos voos comerciais. Uma analogia simples: a atmosfera é o guarda-chuva, e quem voa fica com a cabeça mais perto da chuva.

Câncer em pilotos e comissários: o que o estudo encontrou?

A resposta curta é sim, mas só para os cânceres relacionados à radiação. Dos 12,7 milhões de óbitos analisados, 14.190 foram de pilotos (97,3% homens, idade média de 78,6 anos) e 7.170 de comissários de bordo (84,3% mulheres, idade média de 73,4 anos). Depois de ajustar os números por idade, sexo, raça, etnia, escolaridade e estado civil, comissários apareceram em 1º lugar (6,9% das mortes por câncer relacionado à radiação) e pilotos em 2º (6,7%). Ou seja: cerca de 7 em cada 100 mortes desses profissionais foram ligadas a esse grupo de tumores.

O detalhe que chama atenção é que isso não apareceu para os outros tipos de câncer. Para tumores não relacionados à radiação, pilotos e comissários ficaram perto da mediana de todas as ocupações. E os grupos de controle do estudo reforçam o sinal: mecânicos de aeronaves (22.355 mortes) e montadores de aviões (664 mortes), que trabalham com aviões mas não voam, não tiveram elevação. Já os técnicos em medicina nuclear (764 mortes), profissionais com exposição ocupacional conhecida à radiação, ficaram em 12º lugar — acima de quase todas as profissões, mas abaixo da tripulação.

Os pesquisadores também calcularam a razão de chances, um tipo de medida relativa, para cada tipo de câncer. Os resultados com significância estatística foram:

  • Câncer de mama: 1,61 (1,44 a 1,81) para comissárias e 1,57 (1,09 a 2,26) para pilotos.
  • Sistema nervoso central: 1,51 (1,19 a 1,90) para comissários e 1,28 (1,08 a 1,51) para pilotos.
  • Próstata: 1,75 (1,22 a 2,51) para comissários e 1,38 (1,26 a 1,51) para pilotos.
  • Melanoma: 1,63 (1,15 a 2,33) para comissários e 1,28 (1,03 a 1,59) para pilotos.
  • Leucemia: 1,27 (1,08 a 1,49) para pilotos.

Esses números são medidas relativas: um valor de 1,61 indica que a chance de morte por câncer de mama, na comparação entre comissárias e as demais ocupações, foi cerca de 60% maior na escala relativa. Isso não significa que 60% das comissárias morrem disso. Para o conjunto dos cânceres relacionados à radiação, a proporção absoluta foi de 6,9% entre comissários e 6,7% entre pilotos; para cada tumor em separado, o estudo não informa o percentual absoluto. Para mieloma múltiplo, linfoma e câncer de pele não melanoma, os valores também vieram elevados, mas os intervalos de confiança incluíram 1, o que indica que o achado pode ter ocorrido por acaso.

Passageiro pode ficar tranquilo? A diferença está na dose

O estudo não avaliou passageiros, e os números ajudam a entender por quê. Uma pessoa que faz 10 viagens de ida e volta de um lado a outro dos Estados Unidos por ano recebe, em média, 0,4 milisievert de radiação cósmica. Pilotos e comissários acumulam de 3 a 6 milisieverts por ano, uma dose bem maior, repetida por décadas de carreira. A preocupação, portanto, é ocupacional.

Há um detalhe institucional que os autores destacam: a Federal Aviation Administration (FAA) reconhece formalmente a tripulação como profissional exposto à radiação ionizante, mas, nos EUA, pilotos e comissários não estão sujeitos a limites máximos de dose nem a monitoramento obrigatório, diferente do que ocorre com outros trabalhadores expostos à radiação no país e com tripulações de outros lugares, como os países da União Europeia. É uma discussão de saúde do trabalhador com relevância global.

O que o estudo ainda não explica?

Os próprios autores tratam as limitações como parte central do trabalho. O estudo é observacional e transversal, ou seja, um retrato de um período, não um acompanhamento das mesmas pessoas ao longo do tempo. Ele não sabe quantos pilotos e comissários estavam vivos e em risco em cada idade, nem a exposição individual de cada profissional. A ocupação registrada no atestado de óbito também pode conter erros.

Além disso, existem fatores que não puderam ser medidos e que podem influenciar os resultados, como a alteração crônica do ritmo circadiano (o famoso jet lag de quem vive atravessando fusos) e a exposição ao ar do motor que entra na cabine. Por isso, o estudo mostra associação, não prova de causa. O que reforça a hipótese da radiação cósmica é a especificidade: o excesso apareceu nos tumores ligados à radiação, não nos outros, e não apareceu em quem trabalha com avião no chão.

Por que isso importa?

Gostou? Receba novos artigos no seu e-mail:

O estudo não diz que todo piloto ou comissário vai desenvolver câncer. Ele mostra que, em uma escala de milhões de mortes, essa categoria concentra uma proporção de óbitos por tumores sensíveis à radiação maior do que qualquer outra das 503 ocupações comparadas. Isso transforma uma suspeita antiga em um sinal concreto, com tamanho populacional suficiente para ser levado a sério.

A boa notícia é que a exposição pode ser medida e, em tese, gerenciada. A pergunta que fica é regulatória: se a dose é conhecida e a associação apareceu, por que quem mais se expõe a essa radiação no trabalho não tem o mesmo monitoramento de outros profissionais? A resposta a essa pergunta pode mudar a rotina de quem vive nas nuvens.

Este texto tem caráter informativo e não substitui a avaliação de um profissional de saúde. Quem trabalha voando e tem dúvidas sobre riscos deve conversar com um médico, de preferência com experiência em medicina ocupacional.

Fontes

  • Estudo original: “Cancer-Related Mortality Among US Pilots and Flight Attendants”, JAMA Internal Medicine, publicado online em 17 de agosto de 2026. DOI: 10.1001/jamainternmed.2026.3635
  • National Council on Radiation Protection and Measurements, Report No. 160 (2009)
  • Federal Aviation Administration, Advisory Circular 120-61B (2014)
  • National Academies of Sciences, Engineering, and Medicine, projeto “Assessing radiation exposure, health outcomes, and mitigation strategies for flight crewmembers”
  • Centers for Disease Control and Prevention (CDC), “Facts about radiation from air travel” (2024)
  • Council Directive 2013/59/Euratom (União Europeia)

Perguntas frequentes

Pilotos e comissários de bordo têm mais risco de câncer?

No que diz respeito aos cânceres relacionados à radiação, sim: o estudo observou que comissários de bordo (6,9%) e pilotos (6,7%) tiveram as maiores proporções de mortes por esses tumores entre 503 ocupações analisadas. Os autores destacam que se trata de uma associação observacional, não de uma relação de causa comprovada.

O que é radiação cósmica em voos comerciais?

É a radiação ionizante que vem do espaço e chega com mais intensidade nas altitudes de cruzeiro dos voos comerciais, onde a camada de atmosfera que protege a superfície é mais fina. A tripulação recebe a maior dose média anual de radiação ionizante entre os grupos ocupacionais dos EUA, principalmente por causa dos raios cósmicos encontrados nessas altitudes.

Qual a dose de radiação que pilotos e comissários recebem por ano?

Entre 3 e 6 milisieverts por ano, segundo estimativas citadas pelos autores. Para comparação, um passageiro que faz 10 viagens de ida e volta de um lado a outro dos EUA por ano recebe cerca de 0,4 milisievert.

Radiação em aviões aumenta o risco de câncer de mama?

O estudo observou uma associação: a razão de chances ajustada para câncer de mama foi de 1,61 para comissárias e 1,57 para pilotos. É uma medida relativa, e os autores não afirmam que a radiação da cabine seja a causa — existem outros fatores ocupacionais não medidos.

Radiação de voo pode causar melanoma?

O estudo encontrou associação entre a profissão de piloto e comissário e morte por melanoma: razão de chances de 1,63 para comissários e 1,28 para pilotos. Como em todo estudo observacional, isso indica uma relação estatística, não uma prova de causa e efeito.

Passageiros de avião precisam se preocupar com radiação cósmica?

O estudo focou na exposição ocupacional de quem voa com frequência profissional. A dose estimada para um passageiro que faz 10 travessias de ida e volta por ano (0,4 mSv) é muito menor que a da tripulação (3 a 6 mSv por ano).

Foto: Miguel Cuenca no Pexels

Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.

Compartilhe