Se você bebe café todo dia, talvez já tenha ouvido que a bebida faz bem para o coração, para o fígado e até para a memória. Mas e para os hormônios? Um estudo feito com mais de 2 mil finlandeses encontrou uma relação curiosa: quem bebe mais café tende a ter mais testosterona total e testosterona biodisponível no sangue, mas, ao mesmo tempo, menos testosterona livre. Parece contraditório, mas tem uma explicação bioquímica interessante, e é exatamente isso que a ciência está começando a mapear.
O trabalho, publicado no European Journal of Nutrition, analisou homens e mulheres de 46 anos que participam do Northern Finland Birth Cohort 1966, um dos maiores estudos de coorte de nascimento do mundo. E o achado mais importante não é só o número: é o padrão. O café não age de um jeito único nos hormônios — ele mexe em várias peças ao mesmo tempo, e o resultado final depende do sexo, da dose e de outros fatores. Nesta matéria, a gente separa o que foi medido do que ainda é hipótese.
Ficha do estudo
O estudo foi conduzido por pesquisadores de instituições da Finlândia, Polônia e Alemanha, com destaque para a Universidade de Oulu, e usou dados da coorte Northern Finland Birth Cohort 1966 (NFBC1966). A pesquisa foi publicada no dia 16 de julho de 2026 no European Journal of Nutrition, volume 65, artigo número 215, com acesso aberto. O DOI é 10.1007/s00394-026-03610-8.
O que é testosterona total, livre e biodisponível?
Antes de falar dos resultados, vale entender o básico. A testosterona circula no sangue de três formas: uma parte fica presa a uma proteína chamada SHBG (a globulina ligadora de hormônios sexuais), outra parte fica ligada à albumina (outra proteína do sangue), e uma pequena fração fica livre, ou seja, solta.
A testosterona total é a soma de todas essas frações. A testosterona livre é a que está solta, pronta para agir nas células. E a biodisponível é a soma da livre com a ligada à albumina — ou seja, as frações que o corpo consegue usar com mais facilidade. O SHBG, por sua vez, funciona como uma “reserva”: quando ele sobe, ele segura mais testosterona, e isso reduz a fração livre. É como um estacionamento: quanto mais vagas ocupadas, menos carros circulando na rua.
Café e testosterona: o que diz o estudo finlandês?
Os pesquisadores analisaram dados de 2.264 participantes da coorte, sendo 47% homens. Entre os homens, o consumo maior de café foi associado a um aumento da testosterona total: cada xícara extra por dia representou, em média, um acréscimo de 0,29 nmol/L de testosterona total no sangue (β = +0,29 nmol/L por xícara/dia). Para ter uma ideia do tamanho desse número, os níveis normais de testosterona total em homens adultos costumam ficar entre 10 e 35 nmol/L — ou seja, o efeito é real, mas modesto.
A testosterona biodisponível também subiu (β = +0,08 nmol/L por xícara/dia), e o SHBG subiu mais ainda (β = +0,57 nmol/L por xícara/dia). Foi justamente o aumento do SHBG que puxou a testosterona livre para baixo (β = −0,01 nmol/L por xícara/dia) e o índice de androgênios livres (FAI) também caiu (β = −0,36 por xícara/dia). Ou seja: o café aumenta a testosterona total, mas “prende” parte dela no SHBG, então a fração livre diminui.
Esse padrão ficou claro mesmo depois de ajustar os cálculos para fatores como IMC, escolaridade, tabagismo, atividade física e consumo de álcool. E ele foi mais forte em homens do que em mulheres.
O que muda nas mulheres?
No caso das mulheres, a história é diferente. Elas têm naturalmente muito menos testosterona circulante, então os efeitos aparecem em outras medidas. O estudo encontrou associações positivas entre café e SHBG nas mulheres (β = +1,27 nmol/L por xícara/dia) e quedas na testosterona livre e no FAI. Mas não houve associação significativa com a testosterona total ou a biodisponível.
Vale um destaque importante: as análises hormonais nas mulheres foram feitas apenas naquelas que não relataram síndrome dos ovários policísticos (SOP), porque essa condição mexe nos hormônios androgênicos e poderia distorcer os resultados. As mulheres com SOP (4,7% da amostra) ou que não responderam sobre o tema (6,2%) foram excluídas dessa parte.
Café ajuda a perder gordura visceral?
Outro achado que chama atenção é a composição corporal. Mesmo com IMC semelhante entre os grupos, quem bebia mais café tinha menos gordura corporal total, menos gordura visceral (aquela que se acumula em volta dos órgãos) e mais massa muscular esquelética. Os números mostram diferenças significativas em todos esses marcadores.
Além disso, o estudo encontrou uma correlação inversa entre café e os aminoácidos de cadeia ramificada (os BCAAs, na sigla em inglês) — isoleucina, leucina e valina — tanto em homens quanto em mulheres. Isso é relevante porque níveis cronicamente elevados desses aminoácidos estão associados a resistência à insulina e risco de diabetes tipo 2. E nos homens, o consumo maior de café também se correlacionou com um perfil glicêmico mais favorável, com menor insulina em jejum e melhor sensibilidade à insulina.
Mas atenção: o estudo é observacional, ou seja, ele mostra associações, não prova que o café causou essas mudanças. Pode ser que quem bebe mais café tenha outros hábitos que expliquem parte desses números.
O que o estudo ainda não explica?
Os próprios autores listam as limitações com transparência. A principal é o desenho transversal: os dados foram coletados em um único momento, então não dá para saber se o café veio antes ou depois das mudanças hormonais. A causalidade, como eles repetem, precisa ser testada em estudos longitudinais e de intervenção.
Outras limitações incluem: o consumo de café foi relatado pelos próprios participantes, sem definir o tamanho da xícara; não houve informação sobre tipo de grão, torra nem se a pessoa adoçava ou colocava leite; os hormônios foram medidos uma única vez, e a testosterona tem variação natural grande dentro de uma mesma pessoa; e a amostra é quase toda finlandesa, o que limita a generalização para populações com outros hábitos de consumo. Além disso, o número de não consumidores de café no estudo era pequeno (70 pessoas), o que também é uma limitação.
Por que isso importa?
O que esse estudo faz é juntar duas áreas que raramente conversam: a endocrinologia e a nutrição. O padrão encontrado, mais testosterona total, mais SHBG, menos testosterona livre, pode parecer estranho à primeira vista, mas os autores lembram que níveis mais altos de testosterona total e de SHBG são, em estudos anteriores, associados a menor risco de síndrome metabólica e diabetes tipo 2.
No fim das contas, a mensagem não é “beba mais café para ter mais testosterona”. A mensagem é mais sutil: o café está associado a um perfil hormonal e metabólico que merece ser estudado a fundo. E, como a bebida já faz parte da rotina de bilhões de pessoas, entender esses mecanismos pode ajudar a explicar por que o café aparece associado a tantos benefícios — e também a separar o que é efeito real do que é coincidência estatística.
Se você é daqueles que toma café todos os dias, pode ficar tranquilo: as evidências atuais indicam que o consumo moderado é seguro para a maioria dos adultos. Mas, como sempre, o melhor é conversar com um profissional de saúde sobre o que faz sentido para o seu corpo.
Perguntas frequentes
Café aumenta a testosterona?
Segundo o estudo finlandês com 2.264 participantes, sim, em homens: cada xícara extra de café por dia foi associada a um aumento médio de 0,29 nmol/L na testosterona total e de 0,08 nmol/L na testosterona biodisponível. Mas o efeito é observacional, não prova de causa e efeito.
Café diminui a testosterona livre?
Sim, no estudo, o café foi associado a uma redução da testosterona livre e do índice de androgênios livres (FAI), tanto em homens quanto em mulheres. Isso aconteceu porque o SHBG (a proteína que se liga à testosterona) subiu mais do que a testosterona total.
O que é SHBG e para que serve?
SHBG é a sigla para globulina ligadora de hormônios sexuais, uma proteína produzida pelo fígado que se liga à testosterona e ao estrogênio no sangue. Ela funciona como uma “reserva”: quando está alta, segura mais hormônios e reduz a fração livre deles — e níveis adequados de SHBG estão associados a menor risco de diabetes tipo 2.
Café ajuda a perder gordura visceral?
No estudo, quem bebia mais café tinha menos gordura visceral e menos gordura corporal total, mesmo com IMC semelhante aos demais. No entanto, o desenho observacional não permite afirmar que o café causou essa diferença — outros hábitos de vida podem explicar parte da associação.
Quantas xícaras de café por dia fazem bem à saúde?
O estudo não testou doses ideais, mas os próprios autores lembram que a literatura científica associa os maiores benefícios a cerca de três a quatro xícaras por dia, e que o consumo de até 400 mg de cafeína diários não está associado a efeitos adversos na maioria dos adultos. Consumo moderado é o termo que aparece na ciência.
Fontes
- Estudo original: Verroest L, Jokelainen J, Choudhary S, Walkowiak J, Karhu T, Palaniswamy S, Auvinen J, Jarvelin MR, Herzig KH, Raza GS. “Associations of habitual coffee intake with testosterone and cardiometabolic markers: the Northern Finland birth cohort 1966 study”. European Journal of Nutrition, volume 65, artigo 215, 2026. DOI: 10.1007/s00394-026-03610-8.
- European Journal of Nutrition — periódico científico onde o estudo foi publicado (acesso aberto, publicado em 16 de julho de 2026).
- Northern Finland Birth Cohort 1966 (NFBC1966) — coorte de nascimento da qual os dados foram extraídos, conduzida pela Universidade de Oulu, Finlândia.
- Referências citadas no estudo — incluindo a revisão guarda-chuva de Poole et al. (BMJ, 2017), que associou café a menor risco de várias doenças, e o artigo de Alperet et al. (American Journal of Clinical Nutrition, 2020), sobre efeitos do café na sensibilidade à insulina.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação de um profissional de saúde.
Foto: Büşranur Aydın no Pexels
Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.





