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Upadacitinib na alopecia areata: 55% recuperam 80% do cabelo

Até 55% dos pacientes com alopecia areata grave recuperaram 80% do cabelo em 24 semanas com upadacitinib, contra até 3,4% no placebo.

Pessoa com alopecia areata grave mostrando falhas no cabelo, condição tratada com upadacitinib em estudo de fase 3
Pessoa com alopecia areata grave mostrando falhas no cabelo, condição tratada com upadacitinib em estudo de fase 3
Resumo em 15 segundos
  • Dois ensaios de fase 3 testaram o upadacitinib em adultos e adolescentes com alopecia areata grave.
  • As doses de 15 mg e 30 mg de upadacitinib superaram o placebo no recrescimento de cabelo.
  • Cerca de 1 em cada 5 pacientes tratados com 30 mg teve recrescimento completo do cabelo.
  • Acne, infecções respiratórias e alterações em exames foram os efeitos colaterais mais comuns.

Resumo dos pontos principais. A matéria completa está logo abaixo.

Viver com alopecia areata grave é olhar no espelho e não reconhecer a própria cabeça. A doença autoimune ataca por engano os folículos capilares e pode levar à perda total do cabelo da cabeça, das sobrancelhas, dos cílios e dos pelos do corpo. As opções aprovadas até hoje deixam muita gente sem a resposta esperada.

Uma pílula diária de upadacitinib, remédio oral que já é usado contra outras doenças inflamatórias, mudou parte desse cenário em dois ensaios clínicos de fase 3. Em 24 semanas, até 55% dos participantes recuperaram pelo menos 80% do cabelo, contra 1,5% a 3,4% de quem recebeu placebo. Os resultados saíram na JAMA Dermatology.

Dados do estudo: a pesquisa foi liderada por Dr. Arash Mostaghimi, do Brigham and Women’s Hospital, em Boston, com participação de outros autores e de centros em vários países. Os dois ensaios, batizados de UP-AA1 e UP-AA2, foram conduzidos de outubro de 2023 a julho de 2025 e financiados pela farmacêutica AbbVie, que fabrica o upadacitinib e participou do desenho do estudo. A publicação é da JAMA Dermatology, de 12 de agosto de 2026, com o DOI 10.1001/jamadermatol.2026.2853.

O que é upadacitinib e por que ele foi testado na alopecia areata?

Upadacitinib é um comprimido que pertence ao grupo dos inibidores de JAK. As Janus quinases são proteínas que funcionam como uma espécie de interruptor da inflamação dentro das células. Esta versão bloqueia de forma seletiva e reversível a JAK1, um desses interruptores, e por isso já é aprovada em vários países para outras condições inflamatórias.

A alopecia areata é uma doença crônica e imunomediada: o próprio sistema de defesa ataca os folículos capilares e interrompe a produção do pelo. Dá para imaginar o folículo como uma fábrica que entra em greve por causa de um alarme falso. A comparação serve só para ilustrar; o que os autores descrevem é um ataque imunológico aos folículos.

Segundo o artigo, cerca de 2% da população mundial tem alopecia areata. Os quadros vão de placas isoladas no couro cabeludo até a perda completa dos pelos do corpo, a chamada alopecia universalis. Antes deste estudo, só três inibidores de JAK estavam aprovados para casos graves — baricitinib, ritlecitinib e deuruxolitinib —, e apenas o ritlecitinib tinha aprovação para adolescentes.

Upadacitinib na alopecia areata grave: o que os ensaios mostraram?

Sim, o remédio funcionou nos dois ensaios. As duas doses foram superiores ao placebo no desfecho principal. Foram randomizados 1.399 pacientes, quase 1.400 pessoas, com idades entre 12 e 64 anos e média de 36 anos. Do total, 826 eram mulheres (cerca de 6 em cada 10), incluindo 118 adolescentes.

Todos tinham alopecia areata grave. Na média, a nota inicial no chamado SALT era de 83,9. O SALT é uma régua de 0 a 100 em que o número representa o percentual de cabelo já perdido. Ou seja: na largada, a maioria havia perdido mais de 80% do cabelo da cabeça.

O objetivo principal era chegar, em 24 semanas, a um SALT de 20 ou menos, o que equivale a pelo menos 80% do couro cabeludo coberto de cabelo. Atingiram essa marca:

  • 45,2% (UP-AA1) e 44,6% (UP-AA2) dos que tomaram 15 mg de upadacitinib;
  • 55,0% (UP-AA1) e 54,3% (UP-AA2) dos que tomaram 30 mg;
  • 1,5% (UP-AA1) e 3,4% (UP-AA2) dos que tomaram placebo.

A diferença em relação ao placebo ficou entre 41 e 53,5 pontos percentuais. Os autores relatam significância estatística com P menor que 0,001 nas duas doses. Houve resposta já na semana 8, bem antes do fim das 24 semanas.

Sobrancelhas, cílios e qualidade de vida também melhoraram

Além do couro cabeludo, o estudo mediu áreas que pesam no dia a dia. Entre os pacientes que começaram com perda importante de sobrancelha, a melhora significativa chegou a 40,6% e 41,7% com 15 mg e a 61,8% e 58,9% com 30 mg, contra 1,1% e 3,2% no placebo. Nos cílios, os números foram de 43,7% e 42,8% (15 mg) e de 58,6% e 61,4% (30 mg), contra 5,6% e 3,7% no placebo.

Os questionários de qualidade de vida ligados à doença também melhoraram nas duas doses, incluindo escalas de emoções e de funcionamento. Cerca de 1 em cada 5 pacientes que tomaram 30 mg chegou ao recrescimento completo do cabelo da cabeça, o SALT igual a 0, em 24 semanas: 20,3% e 22,5% nos dois ensaios, contra 0% e 0,7% no placebo. Os autores destacam que esse desfecho de recrescimento completo não foi avaliado como objetivo principal nos estudos dos inibidores de JAK orais já aprovados.

Efeitos colaterais do upadacitinib: acne, infecções e exames alterados?

Os efeitos colaterais mais comuns foram acne, infecções das vias respiratórias e alterações em exames de sangue. Os autores classificaram o perfil de segurança como consistente com o observado em outras doenças para as quais o remédio já é aprovado, e não identificaram riscos novos.

No conjunto dos dois ensaios, os eventos adversos mais frequentes foram infecção das vias respiratórias superiores (9,5% com 15 mg, 13,2% com 30 mg e 11,8% no placebo), acne (11,7%, 16,3% e 3,6%), aumento da creatina fosfoquinase no sangue (5,2%, 6,6% e 3,9%) e nasofaringite (12,0%, 12,0% e 9,3%).

Eventos adversos graves ocorreram em 1,6% dos que tomaram 15 mg, 2,3% dos que tomaram 30 mg e 0,4% dos que tomaram placebo. A interrupção do remédio por causa de um efeito colateral aconteceu em 0,9% e 1,4% nos grupos de 15 mg e 30 mg, respectivamente, e em nenhum paciente do placebo. Não houve mortes em nenhum dos ensaios, nem casos de tuberculose ativa, perfuração gastrointestinal, problemas cardiovasculares maiores, disfunção renal ou reações alérgicas graves ligados ao uso do upadacitinib.

Os autores relatam ainda casos individuais, como um câncer de mama em uma paciente do grupo de 15 mg (com nódulos já vistos em mamografia antes do estudo) e rabdomiólise e pneumonia estreptocócica em pacientes do grupo de 30 mg. Três eventos graves foram considerados pelos investigadores como tendo possibilidade razoável de relação com o medicamento. Em estudos desse tipo, casos isolados não provam causa, mas precisam ser acompanhados.

A lacuna que o upadacitinib tenta preencher

A alopecia areata não é uma questão só estética. A queda de cabelo em placas carrega um peso psicossocial grande, e o artigo descreve a doença como crônica, sistêmica e imunomediada, atingindo cerca de 2% da população mundial.

Nas pesquisas que levaram à aprovação dos inibidores de JAK orais que já existem, no máximo 35% dos pacientes em cada ensaio atingiram o alvo de SALT 20 ou menos, segundo os próprios autores citam. E só o ritlecitinib está aprovado para adolescentes. É nessa brecha que os dois novos ensaios se encaixam, oferecendo uma alternativa oral diária para adultos e adolescentes.

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Como as Janus quinases participam tanto da imunidade inata quanto da adquirida, os resultados também interessam a quem estuda esse grupo de remédios em outras doenças inflamatórias.

O que o estudo ainda não explica?

Os autores listam as próprias ressalvas. A primeira: ficaram de fora do estudo os pacientes cujo episódio atual de alopecia areata já durava mais de 8 anos. Também não entraram crianças antes da adolescência nem adultos com 64 anos ou mais, o que limita a leitura dos resultados para esses grupos.

Apesar da diversidade de centros, mais de 50% dos participantes eram brancos, algo que os próprios autores apontam como limitação. E há um ponto importante sobre o tempo: os dados divulgados cobrem 24 semanas. Os autores observam que a resposta não parecia ter chegado a um platô nesse período, ou seja, o efeito ainda podia estar crescendo. Os resultados após 52 semanas, que mostrarão o comportamento do remédio em tratamento prolongado, ainda não foram publicados. Um terceiro estudo está em andamento para avaliar eficácia e segurança de longo prazo e ajustes de dose.

Vale registrar também que o financiamento é da AbbVie, fabricante do medicamento, e que vários autores declaram vínculos com a empresa e com outras farmacêuticas. Isso não invalida os dados, mas é informação que ajuda a ler o estudo com o cuidado de sempre.

Por que isso importa?

Para quem tem alopecia areata grave, a conta é direta: as opções aprovadas para casos graves eram poucas e nem sempre funcionavam. Uma dose oral diária que devolve 80% do cabelo a mais da metade dos pacientes em 24 semanas, com resposta visível já a partir da semana 8, muda a conversa, mesmo com as ressalvas sobre efeitos colaterais e tempo de acompanhamento.

Este texto é informativo e não substitui a avaliação de um profissional de saúde. Qualquer decisão sobre tratamento, dose ou interrupção passa por um médico que conhece o seu caso, até porque o upadacitinib segue em avaliação para a alopecia areata e não é uma indicação geral para todo mundo.

Fontes

  • Estudo: Mostaghimi A, Gooderham MJ, Lynde C, et al. Upadacitinib for Severe Alopecia Areata in Adults and Adolescents: Two Phase 3 UP-AA Randomized Clinical Trials. JAMA Dermatology, publicado online em 12 de agosto de 2026. DOI: 10.1001/jamadermatol.2026.2853
  • Registro do ensaio clínico: ClinicalTrials.gov, identificador NCT06012240.
  • Financiamento e papel do patrocinador: AbbVie Inc, conforme a seção “Role of the Funder/Sponsor” do artigo.

Perguntas frequentes

O que é upadacitinib?

É um medicamento oral da classe dos inibidores de JAK, que bloqueia de forma seletiva e reversível a proteína JAK1, ligada à inflamação. Ele já é aprovado em vários países para outras doenças inflamatórias e ainda está em avaliação para a alopecia areata.

Upadacitinib funciona para alopecia areata grave?

Nos dois ensaios de fase 3, sim: as doses de 15 mg e 30 mg foram superiores ao placebo no objetivo principal, definido como pelo menos 80% do cabelo de volta em 24 semanas. O resultado teve significância estatística, com P menor que 0,001 nas duas doses.

Quanto tempo leva para o upadacitinib fazer o cabelo crescer?

As primeiras respostas apareceram já na semana 8 de tratamento, e o desfecho principal foi medido na semana 24. Os autores observam que o efeito ainda não parecia ter chegado a um platô nesse prazo.

Quais são os efeitos colaterais do upadacitinib?

Os mais comuns foram infecção das vias respiratórias superiores, acne, aumento da creatina fosfoquinase no sangue e nasofaringite. Eventos graves ocorreram em 1,6% dos pacientes com 15 mg e 2,3% com 30 mg, contra 0,4% no placebo, e não houve mortes nos ensaios.

Qual é a diferença entre upadacitinib 15 mg e 30 mg?

A dose de 30 mg teve taxas de resposta numericamente maiores que a de 15 mg na maioria dos desfechos, mas os autores não fizeram comparação estatística direta entre as duas doses. Os eventos adversos também foram numericamente mais frequentes com 30 mg.

O cabelo volta a crescer por completo com o tratamento?

Em parte dos pacientes. Cerca de 1 em cada 5 que tomaram 30 mg atingiu o recrescimento completo do cabelo da cabeça em 24 semanas (20,3% e 22,5% nos dois ensaios), contra 0% e 0,7% no placebo. Os autores destacam que o recrescimento completo não foi medido como desfecho principal nos estudos dos inibidores de JAK orais já aprovados.

Foto: Oleskandra Biliak no Pexels

Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.

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