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Saxifraga carnívora: a hipótese de Darwin, agora confirmada

A Saxifraga candelabrum é a primeira Saxifraga confirmada como carnívora. Ela atrai, captura e digere pequenos mosquitos para obter nitrogênio.

Saxifraga carnívora com pelos glandulares capturando insetos na natureza
Saxifraga carnívora com pelos glandulares capturando insetos na natureza

Uma planta que vive em fendas de rocha no alto do Planalto Qinghai-Tibete acaba de entrar para o grupo das plantas que comem insetos. É a primeira Saxifraga carnívora confirmada pela ciência: a espécie Saxifraga candelabrum atrai, captura, digere e absorve pequenos insetos para obter nitrogênio, um nutriente essencial que falta no solo pobre onde ela cresce. A confirmação encerra uma espera de mais de um século. O próprio Charles Darwin, em 1875, suspeitou que algumas Saxifraga fossem carnívoras, mas não conseguiu provar.

O trabalho, publicado em agosto de 2026 na Nature Communications, combinou experimentos de campo, química, isótopos de nitrogênio e o genoma completo da planta. O resultado mostra que essa planta pode brotar em lugares improváveis — e que Darwin, mais uma vez, estava no caminho certo.

A pesquisa foi conduzida por uma equipe com pesquisadores do Instituto de Botânica de Kunming, da Academia Chinesa de Ciências, entre eles Xin-Jian Zhang, Tao Deng, Nan Lin, Heng-Chang Wang, Bo Song, Douglas E. Soltis e Hang Sun. O artigo “Identification of carnivory in the flowering plant Saxifraga via multidisciplinary evidence” foi publicado na revista Nature Communications (volume 17, artigo 7557) em 4 de agosto de 2026, em acesso aberto. Os dados e os scripts das análises estão em repositórios públicos.

A planta carnívora que desafiou Charles Darwin. Imagem adaptada de uma Saxifraga candelabrum.

O que é uma planta carnívora?

Uma planta carnívora é uma planta que obtém parte dos nutrientes de que precisa — principalmente nitrogênio — capturando e digerindo pequenos animais, quase sempre insetos. Para merecer o nome, ela precisa cumprir quatro etapas: atrair a presa, capturá-la, digeri-la e absorver os nutrientes.

Algumas plantas fazem só parte do caminho: prendem insetos, mas não conseguem digeri-los nem absorvê-los. Essas são chamadas de protocarnívoras, um estágio intermediário que mostra como a linha entre “prender” e “comer” pode ser tênue.

Saxifraga carnívora: a hipótese de Darwin, mais de um século depois

No livro Insectivorous Plants, de 1875, Darwin propôs que duas espécies de Saxifraga, S. rotundifolia e S. umbrosa, poderiam ser carnívoras por causa dos pelos glandulares viscosos de suas hastes. As tentativas dele de testar a ideia não deram resultado conclusivo.

A espécie estudada agora, S. candelabrum, é distante daquelas duas, mas tem a mesma característica: pelos glandulares que secretam substância pegajosa e vive em rochas pobres em nutrientes, entre 2.500 e 3.300 metros de altitude — até mais de três quilômetros acima do nível do mar.

Como a Saxifraga atrai, captura e digere insetos

Em campo, os pelos glandulares das inflorescências prendem principalmente mosquitos minúsculos da família Chironomidae, como os gêneros Polypedilum, Chironomus e Cricotopus. Plantas adultas exibiam, em média, 71 insetos presos, mais de sete dezenas de mosquitos por indivíduo. As jovens, com poucos ramos, quase não capturavam nada.

A quantidade de presas crescia com o número e o comprimento dos ramos da inflorescência, uma correlação estatisticamente significativa. E o hábito é antigo: dos 45 espécimes de herbário analisados, coletados entre 1888 e 2016, 43 tinham insetos presos nos pelos.

A atração não é passiva. Em um experimento de campo, plantas com o cheiro disponível receberam mais visitas do que plantas com o odor bloqueado. A análise do perfume das flores encontrou substâncias que atraem insetos, como β-myrceno e eucaliptol.

Na digestão, os pelos glandulares da S. candelabrum apresentaram atividade de fosfatase, uma enzima digestiva típica de plantas carnívoras. Uma espécie aparentada não carnívora, Saxifraga filicaulis, não mostrou o mesmo sinal.

Isótopos de nitrogênio: a prova de que a presa vira nutriente

Capturar e digerir não bastam: é preciso demonstrar que o nitrogênio da presa é absorvido. Para isso, a equipe usou moscas-da-fruta (Drosophila melanogaster) alimentadas com nitrogênio-15, um isótopo que funciona como etiqueta rastreável. Cada mosca pesava, em média, 0,403 miligrama — menos de meio miligrama. Dez moscas marcadas foram colocadas sobre as hastes da planta.

Nas espécies não carnívoras usadas como controle, o sinal do nitrogênio não mudou. Na S. candelabrum, subiu de forma significativa, assim como na carnívora Drosera peltata. O solo ao redor permaneceu com níveis baixos do isótopo, descartando a absorção pelas raízes.

Houve ainda um detalhe revelador: a planta concentrou mais nitrogênio nas flores, depois nas folhas do caule, e menos nas folhas basais. Como ela floresce uma única vez e morre, os autores leem isso como uma escolha de investir o nutriente extra na reprodução.

Outra observação: as moscas grandes que de fato polinizam a planta, de famílias como Calliphoridae e Syrphidae, raramente apareciam presas. Os capturados eram os mosquitos pequenos, quase sem papel na polinização. A planta parece equilibrar o apetite com a necessidade de se reproduzir.

Genoma revela convergência entre linhagens carnívoras

A equipe sequenciou o genoma da S. candelabrum: 2,086 gigabases, ou cerca de 2 bilhões de letras de DNA, com 47.550 genes, organizados em oito cromossomos. Comparado a outras seis linhagens carnívoras independentes, o genoma revelou assinaturas convergentes em vários níveis de análise.

Entre as três espécies de armadilha adesiva, por exemplo, foram encontradas 20 famílias de genes expandidas em comum, ligadas à atração de presas, digestão e absorção de nutrientes. Também apareceram 53 genes com aceleração evolutiva convergente e 59 substituições de aminoácidos convergentes.

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É preciso separar os níveis de certeza. As assinaturas genéticas foram medidas; o papel exato de cada gene na carnivoria é, para os próprios autores, uma hipótese que pede testes funcionais. Nenhuma expansão gênica foi compartilhada por todas as seis espécies — cada linhagem seguiu um caminho, com alguns atalhos parecidos.

O que o estudo ainda não explica?

Os autores são honestos sobre as lacunas. As perdas de genes observadas em áreas como desenvolvimento de raiz e fotossíntese são associações potenciais, não provas de causalidade. Falta testar os genes candidatos em laboratório.

Também não está claro o mecanismo exato por trás da seletividade alimentar: o estudo mostra que moscas polinizadoras grandes raramente são capturadas, mas não detalha por quê. E a confirmação vale para S. candelabrum; a ideia de que a carnivoria seja mais comum entre as plantas com flores ainda precisa ser verificada espécie por espécie.

Por que isso importa?

Plantas que comem insetos sempre pareceram exceções da natureza. Este estudo mostra que a mesma estratégia funciona em rochas altas e pobres em nutrientes, e que a evolução chegou a ela várias vezes, de forma independente.

Há ainda a dimensão histórica: uma hipótese levantada por Darwin há mais de um século, e deixada de lado por falta de provas, acabou confirmada em uma prima distante das espécies que ele examinou. Na natureza, as fronteiras entre quem come e quem é comido são mais porosas do que os livros didáticos sugerem.

Fontes

  • Identification of carnivory in the flowering plant Saxifraga via multidisciplinary evidence. Zhang, X.-J., Deng, T., Lin, N., Wang, H.-C., Song, B., Xun, E.-N., Huang, X.-H., Fu, Q.-S., Chen, J.-T., Luo, P.-R., Soltis, D. E., Sun, H. et al. Nature Communications, volume 17, artigo 7557, 4 de agosto de 2026.
  • Dados de espectrometria de massa do estudo, depositados no Zenodo (10.5281/zenodo.19695105).
  • Scripts de análise estatística e geração de figuras, depositados no Zenodo (10.5281/zenodo.20322891).
  • Scripts das análises de convergência genômica, depositados no Zenodo (10.5281/zenodo.20411937).

Perguntas frequentes

Saxifraga é planta carnívora?

Sim. O estudo de 2026 na Nature Communications confirmou que Saxifraga candelabrum é carnívora: ela atrai, captura e digere insetos e absorve o nitrogênio deles. É a primeira espécie do gênero com carnivoria comprovada.

O que é uma planta carnívora?

É uma planta que obtém nutrientes, principalmente nitrogênio, capturando e digerindo pequenos animais. Para ser considerada carnívora, ela precisa atrair a presa, capturá-la, digeri-la e absorver os nutrientes resultantes.

Como as plantas carnívoras digerem insetos?

Elas produzem enzimas digestivas, como a fosfatase, que atuam sobre o corpo da presa. Na Saxifraga candelabrum, a atividade dessa enzima foi detectada nos pelos glandulares que capturam os insetos.

Por que plantas carnívoras comem insetos?

Para obter nitrogênio em ambientes pobres nesse nutriente. A Saxifraga candelabrum vive em fendas de rochas alpinas com solo pobre, e os insetos funcionam como fonte extra de nitrogênio.

O que Darwin previu sobre Saxifraga?

Em 1875, Darwin propôs que duas espécies de Saxifraga, S. rotundifolia e S. umbrosa, poderiam ser carnívoras por causa dos pelos glandulares. As tentativas dele não foram conclusivas; agora, outra espécie do gênero, S. candelabrum, confirmou a hipótese.

Foto: Xin-Jian Zhang

Matéria original: https://www.nature.com/articles/s41467-026-75288-y

Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.

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