Um tratamento de radiação que, em vez de se arrastar por semanas, atinge o tumor em exposições de menos de um segundo. Essa é a proposta da terapia de prótons FLASH, que acaba de passar por um marco: o primeiro ensaio clínico em humanos da sua versão de precisão (chamada conformal) nos Estados Unidos.
O estudo, conduzido pela Penn Medicine, no Abramson Cancer Center da Universidade da Pensilvânia, vai testar a segurança e a viabilidade da técnica em 10 pacientes com câncer de cabeça e pescoço que voltou depois de radioterapia anterior e que não podem passar por cirurgia. Se a promessa se confirmar, o tratamento pode sair de 25 a 35 sessões diárias para apenas 5, com cada dose aplicada em menos de um segundo.
O ensaio é um estudo clínico de fase 1 e será conduzido no Roberts Proton Therapy Center, dentro do Perelman Center for Advanced Medicine, em Filadélfia. O investigador principal é Alexander Lin, professor de oncologia radiológica da Perelman School of Medicine, da Universidade da Pensilvânia.
A tecnologia utilizada, chamada ConformalFLASH, recebeu aprovação da FDA dos Estados Unidos por meio de uma isenção para dispositivo investigacional (IDE, na sigla em inglês), concedida à empresa Ion Beam Applications (IBA), que fabrica a plataforma e patrocina o estudo. O anúncio foi divulgado pela Penn Medicine em 1º de setembro de 2026. Por se tratar de um comunicado à imprensa, e não de um artigo de revista, o material não informa DOI.
O que é a terapia de prótons FLASH?
Para entender a FLASH, vale lembrar o que é a radioterapia: um dos pilares do tratamento do câncer, ao lado da quimioterapia, da cirurgia e da imunoterapia. Na protonterapia, o feixe é feito de prótons, partículas com carga positiva que danificam o DNA das células cancerosas e as destroem.
A radioterapia FLASH é uma forma diferente de aplicar essa radiação. Em vez de dividir a dose total em pequenas porções ao longo de semanas, ela concentra a dose em um intervalo curtíssimo de tempo. O total de radiação é o mesmo; o que muda é o ritmo. Uma comparação do dia a dia: para encher uma piscina, o método tradicional deixa a torneira aberta por semanas, em um fio d’água. A FLASH abre o registro em jatos fortes e curtos, completando o mesmo volume com muito menos tempo de torneira aberta. É só uma imagem para sentir a diferença; o efeito biológico dessa velocidade ainda está sendo investigado.
Como a terapia FLASH difere da radioterapia tradicional?
Toda radioterapia atual, inclusive a protonterapia e a radioterapia de intensidade modulada (IMRT), é fracionada. Isso significa que a dose total é picada em muitas sessões menores, aplicadas uma por dia, para matar o tumor aos poucos e poupar o tecido saudável.
Para um paciente com câncer de cabeça e pescoço, o fracionamento tradicional costuma significar 25 a 35 sessões, uma por dia, cinco dias por semana, durante cinco a seis semanas. “A FLASH vira essa ideia de cabeça para baixo”, diz Constantinos Koumenis, professor de oncologia radiológica da Penn Medicine. Em vez de doses menores para mitigar os efeitos da radiação, a FLASH usa uma dose maior e encurta drasticamente o tempo de exposição. A dose efetiva total permanece a mesma, mas dividida em poucas frações, cada uma aplicada em menos de um segundo.
O que o estudo de fase 1 vai testar?
O estudo ainda não tem resultados de eficácia: o que existe neste momento é o desenho do protocolo. Os 10 pacientes do estudo vão receber cinco tratamentos ao longo de cerca de dez dias, com cada exposição ao feixe durando menos de um segundo.
A novidade em relação a testes anteriores é a precisão. A FLASH já havia sido testada fora da Penn em uma forma chamada “shoot-through”, na qual o feixe atravessa o corpo, para pacientes com câncer que se espalhou para os ossos. A versão atual, a ConformalFLASH, une a velocidade da FLASH à técnica conformal: exames de imagem, como tomografia ou ressonância magnética, criam um mapa tridimensional do tumor, e o feixe é direcionado exatamente para os limites definidos pela equipe, evitando ao máximo dano aos tecidos saudáveis ao redor.
Por que um tratamento mais curto importa para o paciente?
Não há conexão brasileira neste anúncio; a relevância aqui é universal. Pacientes com câncer de cabeça e pescoço recorrente, que não podem operar, enfrentam um prognóstico difícil. A repetição da radioterapia atinge áreas que controlam funções básicas, como comer, beber e engolir; e cada ida diária ao hospital, por semanas, também pesa na rotina.
O investigador principal, Alexander Lin, resume a motivação: “Pacientes com câncer de cabeça e pescoço recorrente e sem opção de cirurgia têm opções limitadas, e as opções que existem são incrivelmente desgastantes, não só pelos efeitos colaterais, mas também pelo tempo passado em instalações médicas.” A expectativa declarada é oferecer um tratamento com menos toxicidade, simples e conveniente, para que o paciente passe mais tempo com a família e os amigos. São benefícios esperados, não ainda medidos.
O que o estudo não responderá?
Por ser um estudo de fase 1, o objetivo não é provar que a FLASH cura mais ou causa menos efeitos colaterais. O objetivo é testar segurança e viabilidade, se a técnica pode ser aplicada em humanos da forma planejada, sem problemas inesperados. A melhora na qualidade de vida aparece no anúncio como uma “antecipação”, não como um dado coletado.
Os próprios pesquisadores falam em “entender os benefícios e as limitações desta tecnologia investigacional”. A amostra é pequena (10 pacientes), o grupo é específico (tumor de cabeça e pescoço que voltou após radioterapia, sem cirurgia possível) e não há dados de acompanhamento de longo prazo neste desenho. A aprovação da FDA para uso investigacional autoriza o teste em humanos, mas não atesta que a técnica funciona. Se os resultados iniciais forem bons, a expectativa é ampliar o estudo para outros tipos de câncer e avançar para as fases 2 e 3.
Por que isso importa?
O marco deste anúncio tem duas camadas. A primeira é tecnológica: levar para humanos uma forma de FLASH que une a potência da protonterapia à precisão do mapeamento 3D, como resume James Metz, chefe do departamento de oncologia radiológica da Perelman School of Medicine. A segunda é humana: um desenho de tratamento que coloca a experiência do paciente no centro, com menos deslocamento, menos tempo em hospital e mais dias comuns.
Se a FLASH se confirmar em estudos maiores, o impacto pode se espalhar para outros tipos de câncer. Neste momento, porém, o que se celebra é o primeiro passo: um estudo pequeno e cuidadoso que pergunta, antes de tudo, se é seguro. Como diz Lin, o que importa no fim é o equilíbrio entre efeitos colaterais e resultados na visão do paciente e da família. Tecnologia que não cabe na vida de quem trata não é tecnologia que cura.
Este artigo é informativo e não substitui a avaliação de um profissional de saúde. Novos tratamentos, como a FLASH, ainda estão em fase de investigação.
Fontes
- Penn Medicine (Universidade da Pensilvânia) — comunicado de imprensa “Penn Medicine launches first human clinical trial to test precision form of FLASH proton therapy”, divulgado via EurekAlert! em 1º de setembro de 2026.
- Alexander Lin, MD, investigador principal e professor de oncologia radiológica da Perelman School of Medicine, citado no comunicado.
- Constantinos Koumenis, PhD, e James Metz, MD, professores da Penn Medicine, citados no comunicado.
- ConformalFLASH e aprovação da FDA (IDE) à Ion Beam Applications (IBA) — informações do comunicado original.
O material original é um anúncio institucional e não traz DOI.
Perguntas frequentes
O que é a radioterapia FLASH?
É uma forma de radioterapia que usa prótons de alta energia para danificar o DNA de células cancerosas e destruí-las, aplicando a dose em exposições muito curtas — no estudo atual, cada uma dura menos de um segundo.
Como funciona a radioterapia FLASH?
Em vez de dividir a dose total em muitas sessões pequenas ao longo de semanas, a FLASH concentra a mesma dose efetiva total em poucas frações, cada uma aplicada rapidamente. No protocolo da Penn Medicine, são 5 sessões em cerca de 10 dias, contra as 25 a 35 sessões da radioterapia convencional para cabeça e pescoço.
Quais são os benefícios da radioterapia FLASH?
Os benefícios esperados são menor risco de efeitos colaterais danosos, um tratamento muito mais curto e menos tempo gasto em hospitais e deslocamentos. Ainda são expectativas: o estudo de fase 1 foi desenhado para testar segurança e viabilidade.
Para quais tipos de câncer a radioterapia FLASH é indicada?
Neste momento, a versão de precisão da FLASH está sendo testada apenas em pacientes com câncer de cabeça e pescoço que voltou após radioterapia anterior e que não podem fazer cirurgia. Se os resultados forem positivos, a expectativa é ampliar para outros tipos de câncer.
A radioterapia FLASH é segura?
Essa é exatamente a pergunta que o estudo de fase 1 quer responder. A técnica recebeu autorização da FDA para uso investigacional (isenção de dispositivo investigacional), o que permite o teste em humanos, mas ainda não há dados que comprovem segurança e eficácia.
Quanto tempo dura o tratamento com radioterapia FLASH?
No protocolo atual, o paciente recebe 5 aplicações ao longo de cerca de 10 dias; cada exposição ao feixe de prótons dura menos de 1 segundo. O comunicado não informa o tempo total da sessão, incluindo preparo e exames de imagem.
Foto: Gustavo Fring no Pexels
Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.





