Resumo em 15 segundos
- Um estudo dinamarquês testou 29 filtros ultravioleta usados em protetores solares diretamente sobre espermatozoides humanos em laboratório.
- Os pesquisadores usaram 29 dos 31 filtros UV autorizados nos Estados Unidos e na União Europeia.
- Treze dos 29 filtros provocaram o influxo de cálcio.
Resumo dos pontos principais. A matéria completa está logo abaixo.
Um estudo dinamarquês testou 29 filtros ultravioleta usados em protetores solares diretamente sobre espermatozoides humanos em laboratório. Treze deles (45%) provocaram entrada de cálcio nas células, interferindo no funcionamento normal, alguns imitando o efeito da progesterona.
A pesquisa foi conduzida por A. Rehfeld, S. Dissing e Niels E. Skakkebæk, da Universidade de Copenhague, e publicada em novembro de 2016 na revista Endocrinology, com DOI 10.1210/en.2016-1473.
Antes de qualquer conclusão apressada, uma ressalva que estrutura este texto: o experimento foi feito in vitro, em células isoladas numa placa. Ele não mediu fertilidade de homens reais, e nenhuma agência reguladora concluiu, a partir dele, que protetor solar cause infertilidade.
O que exatamente foi testado
Os pesquisadores usaram 29 dos 31 filtros UV autorizados nos Estados Unidos e na União Europeia. As células vinham de amostras de sêmen fresco de doadores saudáveis, e foram mantidas em uma solução que reproduz as condições químicas das tubas uterinas.
A medida observada foi o influxo de íons cálcio — um sinal que dispara mudanças no comportamento do espermatozoide, como o padrão de nado e a preparação para a fecundação. Na fisiologia normal, quem provoca esse sinal é a progesterona liberada pelo entorno do óvulo.
O achado: filtros que imitam um hormônio
Treze dos 29 filtros provocaram o influxo de cálcio. Desses, nove agiram ativando o canal CatSper, a mesma via usada pela progesterona — ou seja, o composto engana a célula.
Dois outros compostos fizeram o contrário: bloquearam competitivamente o sinal de cálcio induzido pela progesterona, o que também desregula o processo.
Segundo Skakkebæk, o efeito começou em doses muito baixas, abaixo de concentrações já detectadas em pessoas depois da aplicação de protetor solar no corpo inteiro.
Quais filtros apareceram no estudo
Oito dos treze compostos com efeito são aprovados nos Estados Unidos e aparecem com frequência em rótulos brasileiros:
- Avobenzona
- Homosalato
- Meradimato
- Octisalato (salicilato de octila)
- Octinoxato (metoxicinamato de octila)
- Octocrileno
- Oxibenzona (benzofenona-3 ou BP-3)
- Padimato O
Esses compostos entram mesmo no corpo?
Essa é a parte já bem estabelecida. Filtros químicos são absorvidos pela pele e chegam à corrente sanguínea. Foram detectados em amostras de sangue e em cerca de 95% das amostras de urina analisadas em populações dos Estados Unidos, Dinamarca e outros países.
Um estudo posterior do mesmo grupo, publicado em 2021 no Journal of Exposure Science & Environmental Epidemiology (DOI 10.1038/s41370-020-0209-3), foi além e encontrou filtros UV em amostras pareadas de fluido seminal, urina e soro de homens jovens — confirmando que os compostos alcançam o ambiente onde os espermatozoides estão.
O grupo também publicou, em 2018, um trabalho complementar na Endocrine Connections (DOI 10.1530/EC-17-0156) detalhando como esses filtros afetam a função espermática de modo semelhante ao da progesterona.
O que o estudo NÃO demonstrou
Aqui está o limite que a maioria das reportagens sobre o tema atropela.
O experimento mostra um efeito celular em laboratório. Ele não acompanhou homens ao longo do tempo, não comparou taxas de gravidez, não mediu contagem ou qualidade de sêmen na população e não estabeleceu relação de causa e efeito com infertilidade.
A própria formulação de Skakkebæk é cautelosa: os resultados “são motivo de preocupação e podem explicar em parte” a prevalência de infertilidade sem causa identificada. “Podem explicar em parte” é uma hipótese, não uma conclusão.
O pedido dos autores foi regulatório, não comportamental: que as agências avaliem os efeitos dos filtros UV sobre a fertilidade antes de aprová-los.
E quanto ao câncer de pele?
Esse é o outro lado que precisa entrar na conta. A proteção solar tem benefício comprovado contra o câncer de pele — que, segundo o INCA, é o tipo de câncer mais frequente no Brasil.
Trocar uma proteção com eficácia estabelecida por causa de um achado em placa de laboratório inverte a lógica do risco. A FDA mantém a recomendação de uso de protetor solar como parte da proteção contra os danos do sol.
Para quem quer reduzir a exposição aos filtros químicos, existe uma alternativa que não abre mão da proteção: os filtros físicos ou minerais, à base de dióxido de titânio e óxido de zinco, que agem na superfície da pele e têm absorção sistêmica muito menor. Eles não estavam entre os compostos que alteraram o sinal de cálcio no estudo.
Somam-se as medidas que não dependem de produto nenhum: sombra, roupa, chapéu e evitar o sol nos horários de maior incidência.
O que fazer com essa informação
A leitura equilibrada é esta: há um sinal de alerta consistente em laboratório, confirmado pela presença dos compostos no organismo, e uma lacuna real de estudos em pessoas. Isso justifica revisão regulatória e mais pesquisa — não pânico.
Homens em investigação de infertilidade que queiram reduzir a exposição podem optar por filtros minerais e conversar com o médico que os acompanha. Essa é uma decisão individual, e não uma recomendação geral de saúde pública.
Este texto é informativo e não substitui avaliação médica. Questões de fertilidade devem ser discutidas com um urologista ou especialista em reprodução.
Perguntas frequentes
Protetor solar causa infertilidade?
Não há demonstração disso. O estudo dinamarquês mostrou que 13 de 29 filtros UV alteram a sinalização de cálcio em espermatozoides em laboratório, mas não mediu fertilidade em homens nem estabeleceu relação de causa e efeito.
Quais filtros solares apareceram no estudo?
Entre os aprovados nos Estados Unidos: avobenzona, homosalato, meradimato, octisalato, octinoxato, octocrileno, oxibenzona e padimato O.
Os filtros do protetor solar entram na corrente sanguínea?
Sim. Filtros químicos são absorvidos pela pele e já foram detectados em sangue e em cerca de 95% das amostras de urina analisadas em vários países. Um estudo de 2021 os encontrou também em fluido seminal.
Existe protetor solar sem esses compostos?
Sim, os filtros físicos ou minerais, à base de dióxido de titânio e óxido de zinco. Eles agem na superfície da pele, têm absorção sistêmica muito menor e não estavam entre os compostos que alteraram o sinal de cálcio no estudo.
Devo parar de usar protetor solar?
Não. O câncer de pele é o tipo mais frequente no Brasil, segundo o INCA, e a proteção solar tem benefício comprovado. Quem quiser reduzir a exposição a filtros químicos pode optar por filtros minerais e reforçar sombra, roupa e chapéu.
Fontes
- Rehfeld, A.; Dissing, S.; Skakkebæk, N. E. Chemical UV Filters Mimic the Effect of Progesterone on Ca2+ Signaling in Human Sperm Cells. Endocrinology, v. 157, n. 11, nov. 2016. DOI 10.1210/en.2016-1473.
- Rehfeld, A. et al. EDC IMPACT: Chemical UV filters can affect human sperm function in a progesterone-like manner. Endocrine Connections, 2018. DOI 10.1530/EC-17-0156.
- Rehfeld, A. et al. UV filters in matched seminal fluid-, urine-, and serum samples from young men. Journal of Exposure Science & Environmental Epidemiology, 2021. DOI 10.1038/s41370-020-0209-3.
- Divulgação original do estudo pela Endocrine Society.
- Orientação sobre uso de protetor solar: FDA. Dados de incidência de câncer de pele no Brasil: INCA.
Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.





