O ácido nítrico é uma das substâncias mais corrosivas de uso industrial corriqueiro — e o perigo maior não está no líquido em si, mas na nuvem de vapor que ele libera. Esses vapores contêm óxidos de nitrogênio, e a lesão que provocam nos pulmões pode aparecer horas depois da exposição, quando a pessoa já acha que passou.
Foi por isso que, em 14 de fevereiro de 2023, o Condado de Pima, no sul do Arizona, mandou evacuar todo mundo num raio de meio quilômetro depois que um caminhão carregado com cerca de 900 quilos de ácido nítrico capotou numa rodovia. O motorista morreu no acidente.
O que aconteceu no Arizona
O acidente ocorreu por volta das 14h43 e envolveu um caminhão comercial. Além da evacuação no raio de meio quilômetro, os socorristas emitiram uma ordem de abrigo no local para quem estava mais distante, com uma instrução específica: desligar ar-condicionado e aquecedores.
A rodovia principal que corta boa parte do sudoeste dos Estados Unidos foi interditada, e as interrupções continuaram enquanto a substância era neutralizada.
Por que mandaram desligar o ar-condicionado
Essa instrução aparece em praticamente todo vazamento químico com nuvem de vapor, e a razão é direta: sistemas de climatização puxam ar de fora para dentro.
Com o aparelho ligado, a casa deixa de ser abrigo e passa a funcionar como bomba, trazendo o ar contaminado para o ambiente fechado. Desligar tudo, fechar janelas e vedar frestas transforma o imóvel numa barreira temporária até a nuvem se dispersar.
O que é ácido nítrico e onde ele é usado
É um ácido forte e altamente corrosivo, presente em laboratórios e em várias cadeias industriais — agricultura, mineração, fabricação de tintas.
O maior uso é a produção de fertilizantes: dele saem o nitrato de amônio e o nitrato de cálcio amoniacal. São exatamente esses compostos que também servem de precursores na fabricação de explosivos, motivo pelo qual estão sob controle regulatório em muitos países.
É essa dupla função que explica por que o transporte da substância é regulado e por que um capotamento vira ocorrência de grande porte.
O perigo real: os vapores, não só o líquido
O contato direto queima. Mas o risco que mata à distância é a inalação dos vapores, ricos em óxidos de nitrogênio — em especial o dióxido de nitrogênio.
Segundo o Medical Management Guidelines da ATSDR, a exposição aguda produz irritação nos olhos e no nariz, dor de garganta, tosse, aperto no peito, dor de cabeça e, em quadros mais intensos, ataxia e confusão mental.
A revisão toxicológica do governo do Reino Unido descreve o que acontece nos casos graves: edema pulmonar — acúmulo de líquido nos pulmões — que pode se instalar horas ou até dias após a exposição.
A armadilha da melhora aparente
Este é o ponto que todo material técnico sobre óxidos de nitrogênio destaca, e que quase nunca aparece nas reportagens.
A resposta clínica costuma ser bifásica. Primeiro vêm broncoespasmo e laringoespasmo agudos. Depois, um período de aparente recuperação. E então, 8 a 24 horas mais tarde, o edema pulmonar se desenvolve.
A literatura registra ainda casos de recaída depois de semanas de melhora, evoluindo para broncopneumonia e fibrose pulmonar.
A consequência prática é clara: quem foi exposto a vapores de ácido nítrico precisa de avaliação e observação médica mesmo se estiver se sentindo bem. Sentir-se melhor não significa estar fora de risco.
Efeitos no contato com pele e olhos
No contato dérmico, a substância provoca queimaduras profundas, bolhas e cicatrizes permanentes.
Nos olhos, o quadro descrito inclui queimadura de córnea, lacrimejamento intenso, fotofobia — dor com a luz — e, em casos graves, cegueira.
A conduta imediata em qualquer desses casos é remover a roupa contaminada e lavar a área com água corrente em abundância, por tempo prolongado, buscando atendimento médico em seguida.
Os limites de exposição
Para dar noção de quão pouco é necessário, valem os limites ocupacionais definidos para os óxidos de nitrogênio:
- Dióxido de nitrogênio — limite da OSHA de 5 ppm como teto, e nível considerado imediatamente perigoso à vida e à saúde (IDLH, pelo NIOSH) de 20 ppm;
- Óxido nítrico — limite da OSHA de 25 ppm em média ponderada de 8 horas, com IDLH de 100 ppm.
O que fazer diante de um vazamento químico
A orientação padrão dos órgãos de emergência, aplicável a ocorrências como a do Arizona:
- Afaste-se na direção contrária à do vento e para terreno mais alto, já que muitos vapores são mais densos que o ar;
- Se a orientação for abrigo no local, entre, feche portas e janelas e desligue ar-condicionado, aquecedores e exaustores;
- Não tente ajudar dentro da nuvem sem equipamento de proteção — é assim que socorristas improvisados viram vítimas;
- Se houve contato, retire a roupa atingida e lave com água corrente em abundância;
- Procure atendimento médico mesmo sem sintomas, e informe qual substância estava envolvida.
Perguntas frequentes
Por que o ácido nítrico é perigoso?
Porque é altamente corrosivo e libera vapores com óxidos de nitrogênio. O contato queima pele e olhos, e a inalação pode provocar edema pulmonar que aparece horas ou dias depois da exposição.
Quais são os sintomas de exposição a vapores de ácido nítrico?
Irritação nos olhos e nariz, dor de garganta, tosse, aperto no peito e dor de cabeça. Em quadros mais intensos, ataxia e confusão mental. O edema pulmonar pode se desenvolver de 8 a 24 horas depois.
Por que desligar o ar-condicionado durante um vazamento químico?
Porque sistemas de climatização puxam ar de fora para dentro. Ligados, transformam o imóvel numa bomba que traz o ar contaminado para o ambiente fechado, em vez de servir de abrigo.
Preciso ir ao médico se me senti bem depois da exposição?
Sim. A resposta a óxidos de nitrogênio costuma ser bifásica: há uma fase aguda, depois uma melhora aparente e então o edema pulmonar, de 8 a 24 horas mais tarde. Sentir-se bem não significa estar fora de risco.
Para que serve o ácido nítrico?
Principalmente para produzir fertilizantes como nitrato de amônio e nitrato de cálcio amoniacal. Também é usado em laboratórios, mineração e fabricação de tintas. Seus derivados são precursores de explosivos e por isso têm controle regulatório.
Fontes
- Orientações clínicas para exposição a óxidos de nitrogênio: Medical Management Guidelines da ATSDR (Agência de Substâncias Tóxicas e Registro de Doenças, Estados Unidos), e ToxFAQs da ATSDR.
- Efeitos toxicológicos do ácido nítrico: revisão toxicológica do governo do Reino Unido.
- Níveis de referência para exposição aguda: Acute Exposure Guideline Levels, National Academies Press / NCBI Bookshelf.
Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.





