Resumo em 15 segundos
- Numa árvore genealógica, os titanossauros formam um ramo famoso; a nova espécie está num ramo vizinho.
- O Dasosaurus tocantinensis tinha cerca de 20 metros de comprimento, o equivalente a um prédio de seis andares deitado na rua.
- Para Mayer, é urgente aproximar construtoras, pesquisadores e órgãos de fiscalização para conciliar as obras com a legislação federal sobre fósseis.
Resumo dos pontos principais. A matéria completa está logo abaixo.
Quando arqueólogos acharam ossos numa obra no Maranhão, a primeira suspeita era de que fossem de mamíferos gigantes que conviveram com humanos antigos. O material estava cerca de 120 milhões de anos mais velho: pertencia a um dinossauro desconhecido para a ciência, hoje batizado de Dasosaurus tocantinensis. O animal tinha aproximadamente 20 metros de comprimento e seu parente mais próximo viveu onde hoje é a Espanha.
A nova espécie, descrita em artigo publicado no Journal of Systematic Palaeontology, indica a presença de um grupo inédito de dinossauros na região e reforça a antiga ligação entre as terras do atual Brasil e o arquipélago europeu de milhões de anos atrás.
O artigo “A new titanosauriform with European affinities in the Early Cretaceous of Brazil: insights on Somphospondyli phylogeny, histology, and biogeography” foi publicado em 2026 por Elver Mayer, Julian C. G. Silva Junior, Leonardo Kerber, B. Navarro e K. Bandeira. Mayer é professor da Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF). O time contou ainda com Max Langer, da Universidade de São Paulo (USP), e com Tito Aureliano e Aline Ghilardi, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), entre outros. O trabalho teve apoio da FAPESP e está identificado pelo DOI 10.1080/14772019.2025.2601579.
O que é um Somphospondyli?
Somphospondyli é um grupo de dinossauros saurópodes, os dinossauros de pescoço comprido, aparentado aos titanossauros. O artigo descreve a nova espécie como um titanossauriforme: um representante desse grupo próximo dos titanossauros, sem ser classificado como um deles.
Numa árvore genealógica, os titanossauros formam um ramo famoso; a nova espécie está num ramo vizinho. Quando a gente compara os dois, enxerga como esses animais se diversificaram.
O que se sabe sobre o Dasosaurus tocantinensis?
O Dasosaurus tocantinensis tinha cerca de 20 metros de comprimento, o equivalente a um prédio de seis andares deitado na rua. Viveu há cerca de 120 milhões de anos, na passagem do Cretáceo Inferior para o Superior. É o maior dinossauro conhecido do Maranhão: o estado já tinha registro de outras espécies, como o diplodocídeo Amazonsaurus maranhensis, de aproximadamente 10 metros.
O material reúne vértebras da cauda, costelas, ossos do pé, ossos do braço e da perna e um fêmur de 1,5 metro, um osso mais alto que uma criança pequena. Por isso, é considerado um exemplar relativamente completo para os padrões da área. A classificação como espécie nova se apoia, entre outros traços, num conjunto de três cristas alongadas nas vértebras do meio e do fim da cauda, com um sulco acima da crista inferior, e numa saliência lateral bem desenvolvida no fêmur.
A análise da microestrutura dos ossos, chamada osteohistologia, trouxe outro achado. Liderados por Tito Aureliano e Aline Ghilardi, os pesquisadores encontraram uma combinação de características que antes apareciam separadas em saurópodes antigos e em titanossauros posteriores: restos de tecido laminar primário e do chamado sistema fundamental externo, junto com um alto grau de remodelação secundária. Isso sugere que certos padrões de crescimento e renovação do tecido ósseo evoluíram antes do que se pensava, o que ajuda a explicar como esses animais chegaram a tamanhos extremos.
Por que o parente dele morava na Espanha?
O parente mais próximo conhecido do Dasosaurus é o Garumbatitan morellensis, uma espécie que viveu no Barremiano da Espanha. Segundo o artigo, análises numéricas de biogeografia sugerem que o grupo formado pelas duas espécies teve origem europeia, e a linhagem que deu origem ao dinossauro brasileiro teria se dispersado para a América do Sul passando pelo norte da África.
Nesse ponto, as fontes se expressam de modos um pouco diferentes. O release da Agência FAPESP situa a dispersão entre 140 e 120 milhões de anos atrás, quando as terras ainda faziam parte do supercontinente Gondwana. O resumo do artigo indica que ela ocorreu em algum momento entre o Valanginiano e o Aptiano, sem dar números em milhões de anos. Nos dois casos, trata-se de uma hipótese dos autores, e não de um fato medido diretamente.
Uma descoberta que nasceu de uma obra
O fóssil foi achado por arqueólogos que monitoravam a construção de um terminal rodoferroviário em Davinópolis, no Maranhão, como exige o licenciamento ambiental. Eles notaram os ossos a cerca de oito metros de profundidade, algo como três andares abaixo do chão, e chamaram Elver Mayer, que na época estava em São Félix do Xingu, no Pará. Especialista em mamíferos do Quaternário, Mayer logo percebeu que o material era bem mais antigo.
Essa dinâmica expõe um paradoxo da paleontologia brasileira. Num país de vegetação densa e poucas rochas à mostra, obras de grande porte são muitas vezes a única forma de alcançar o subsolo. “Se mapearmos os sítios fósseis do Brasil, veremos rodovias e pedreiras”, diz Max Langer. O problema é que a mesma escavação que revela os fósseis pode destruí-los, e o monitoramento especializado nem sempre acontece.
Para Mayer, é urgente aproximar construtoras, pesquisadores e órgãos de fiscalização para conciliar as obras com a legislação federal sobre fósseis. Após a preparação e as análises, o espécime retornou ao Maranhão e está no Centro Estadual de Pesquisas em História Natural e Arqueologia de São Luís. A equipe negocia com a construtora para continuar as escavações, já que acredita que há mais ossos do mesmo dinossauro no local.
O que o estudo ainda não explica?
O esqueleto do Dasosaurus tocantinensis é parcial: “relativamente completo”, na definição de Max Langer, mas sem o corpo inteiro. Os pesquisadores acreditam que outros ossos do mesmo espécime continuam soterrados no sítio e por isso negociam novas escavações.
A rota pela África e a origem europeia do grupo, embora apoiadas por análises numéricas de biogeografia, são hipóteses. Fósseis do mesmo período encontrados em outros pontos da América do Sul e da África podem confirmá-las ou alterá-las. O mesmo vale para o padrão de crescimento detectado nos ossos: ele sugere uma história evolutiva mais antiga do que se imaginava, mas os detalhes do ritmo de crescimento do animal dependem de mais material.
Por que isso importa?
O Dasosaurus tocantinensis amplia a diversidade conhecida de saurópodes do Cretáceo Inferior no norte da América do Sul. E, num sentido mais amplo, ajuda a lembrar que a história evolutiva não respeita fronteiras atuais: um dinossauro encontrado no Maranhão carrega parentesco com um dinossauro espanhol e uma história de migração que atravessou o que hoje é a África.
Para quem não é paleontólogo, a descoberta também funciona como um lembrete prático. Construções, estradas e pedreiras podem tanto apagar vestígios do passado quanto trazê-los à luz. A diferença, na maior parte das vezes, é o olhar atento de quem acompanha a obra enquanto ela acontece.
Fontes
- Artigo original: Mayer, E., Silva Junior, J. C. G., Kerber, L., Navarro, B. & Bandeira, K. “A new titanosauriform with European affinities in the Early Cretaceous of Brazil: insights on Somphospondyli phylogeny, histology and biogeography.” Journal of Systematic Palaeontology, 2026. DOI 10.1080/14772019.2025.2601579
- Agência FAPESP: Julião, A. “New long-necked dinosaur found in Northeast Brazil was a close relative of a European species.” Disponível em https://agencia.fapesp.br/57979
- Registro do novo táxon: ZooBank LSID urn:lsid:zoobank.org:pub:0BF20DD1-159D-40EE-8E46-3EE88771470A
Perguntas frequentes
O que é o Dasosaurus tocantinensis?
Dasosaurus tocantinensis é uma espécie nova de dinossauro saurópode descrita no Journal of Systematic Palaeontology. Ela viveu há cerca de 120 milhões de anos, no que hoje é o Maranhão, e media em torno de 20 metros de comprimento.
Onde o fóssil do Dasosaurus tocantinensis foi encontrado?
O fóssil foi achado em Davinópolis, no Maranhão, durante a construção de um terminal rodoferroviário. Ele estava a cerca de oito metros de profundidade e hoje faz parte do acervo do Centro Estadual de Pesquisas em História Natural e Arqueologia de São Luís.
Qual é o parente mais próximo do Dasosaurus tocantinensis?
O parente mais próximo conhecido é o Garumbatitan morellensis, da Espanha. Segundo os autores, o grupo dos dois teria origem europeia, com a linhagem do Dasosaurus chegando à América do Sul pelo norte da África.
Qual o tamanho do Dasosaurus tocantinensis?
Ele tinha cerca de 20 metros de comprimento, o que o torna o maior dinossauro conhecido do Maranhão até agora. Para comparação, o fêmur do animal tinha 1,5 metro.
Foto: IA
Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.





