Pular para o conteúdo

Estudo mostra como polvos passam por buraco apertados

Estudo filmou Octopus vulgaris vencendo aberturas estreitas com uma sequência de 3 ou 4 etapas; o tamanho relativo do buraco define a tática.

Foto de Dr. Paulo Budri

Biólogo, mestre e doutor em Genética Molecular e Microbiologia Clínica

10 min de leitura ·

Adicione como fonte preferencial no Google
Polvo flutuando graciosamente em águas escuras e misteriosas do oceano, destacando a beleza marinha
Foto: Riccardo Marchegiani / Pexels
Resumo em 15 segundos
  • O polvo segue uma coreografia fixa: tateia com um braço, encaixa de três a cinco e empurra o corpo pelo buraco.
  • Quando a abertura é menor que a distância entre os olhos, braços e manto passam em etapas separadas.
  • O estudo registrou 33 tentativas de três Octopus vulgaris e apenas três falhas, causadas por danos no aparato.

Resumo dos pontos principais. A matéria completa está logo abaixo.

Geralmente os polvos não improvisam quando precisam atravessar um buraco apertado. Filmagens de laboratório mostram que o polvo passa por buracos estreitos seguindo sempre a mesma coreografia, de três ou quatro etapas, e que o tamanho relativo da abertura decide qual das duas versões entra em cena. O trabalho, publicado no Journal of Experimental Biology, interessa a quem estuda comportamento animal e a quem tenta construir robôs moles capazes de entrar em lugares extremamente apertados.

Aposte antes de ler

Em que porcentagem das tentativas o segundo braço da esquerda foi o primeiro a entrar no buraco?

Seu palpite50%

A sequência é consistente: o animal tateia com um único braço, encaixa de três a cinco braços na abertura e só então passa o resto do corpo. Quando o buraco é menor que a distância entre os olhos do polvo, ele separa a passagem dos braços da passagem do manto, o segmento que deixa por último.

Dados do estudo: o trabalho é assinado por Wenci Xin, Michael J. Kuba, Tamar Gutnick, Daniel Abed-Navandi e Cecilia Laschi, com experimentos no laboratório do aquário e zoológico Haus des Meeres, em Viena, na Áustria. Foi publicado no Journal of Experimental Biology, volume 229, número 21, em novembro de 2026. DOI: 10.1242/jeb.252825

Polvo passa por buraco em três etapas, e em quatro quando aperta

A primeira etapa é o tateio. Um único braço entra pela abertura, forma uma curva em U na borda e se estica para o outro lado. Só depois desse reconhecimento, o animal se compromete com a travessia.

Veja o vídeo 1 do estudo aqui.

Vem então o encaixe: mais braços entram, em extensões mais curtas, até ocuparem praticamente todo o espaço disponível. Nessa hora, cabeça e manto ainda estão do lado de fora.

Na terceira etapa, o polvo torce dois braços, gruda as ventosas na outra face da divisória, estica e enrijece os músculos e usa esse apoio para puxar o resto do corpo de uma vez. É a versão de três passos, usada quando o buraco é maior que a distância entre os olhos.

Se a abertura é menor que essa medida, entra um passo extra. Primeiro, o animal passa os braços que ficaram de fora, girando o corpo para cima e enfiando a base dos braços já inseridos mais fundo, o que amplia o espaço livre. Só depois, num movimento separado, empurra a cabeça e o manto. Daí a estratégia de quatro passos.

A escolha entre uma e outra não foi aleatória: o teste estatístico que cruzou estratégia e tamanho relativo do buraco usou 30 tentativas e encontrou associação significativa (P<0,001).

Veja o vídeo 2 do estudo aqui.

O tamanho do buraco é medido pela distância entre os olhos

Para comparar animais e aberturas, os pesquisadores usaram a distância entre os olhos como medida do tamanho do polvo. A referência tem lógica anatômica: essa distância acompanha a cápsula cartilaginosa que envolve o sistema nervoso central do animal.

O aparato era simples. Uma divisória de acrílico transparente, com um único furo central e duas lâminas deslizantes para ajustar a largura, separava os dois lados de um tanque. O polvo era conduzido até o furo e podia atravessá-lo para chegar ao outro lado.

No primeiro arranjo, o furo tinha 20 milímetros (2 centímetros) e o animal media entre 15 e 20 milímetros entre os olhos. O buraco era, portanto, maior que a referência. No segundo, o furo tinha 30 milímetros, mas os bichos mediam 30 a 35 milímetros entre os olhos: aí a abertura era menor que o polvo. Repare que o furo de 30 milímetros é maior em termos absolutos e ainda assim é o “apertado” do estudo. Tudo depende de com quem se compara.

Ao todo, foram 33 tentativas registradas, feitas em três dias não consecutivos, com 3 a 5 travessias por dia. Apenas três não deram certo, e os autores atribuem as falhas a danos no equipamento provocados por tentativas de fuga em outras áreas do tanque, não ao ato de se espremer.

Quantos braços entram e por que os da frente levam vantagem

O número de braços encaixados na abertura variou de três a cinco, com quatro como caso mais comum, em 14 tentativas. Eles se concentram perto do braço que fez o tateio inicial, formando uma espécie de cunha ao redor dele.

Na hora de escolher com qual braço começar, a preferência foi clara pelos braços da frente. O segundo braço da esquerda (L2) foi o primeiro a entrar em 47% das tentativas; o primeiro braço da esquerda (L1), em 28%. O segundo braço da direita respondeu por cerca de 12,5% e o primeiro da direita por 9%. Os braços traseiros quase não apareceram.

Na versão de três passos, o animal usa como apoio os dois braços das pontas do grupo encaixado. Na versão de quatro passos, o repertório muda conforme o braço do tateio. Nos dez casos em que o L2 iniciou a passagem, os polvos recorreram quase sempre ao R1 (90% das vezes) e ao L4 (100%) para empurrar o manto, braços em posições simétricas.

Veja os vídeos 3 e 4 do estudo aqui e aqui.

Há um viés para a esquerda nos dados. Os autores levantam uma explicação simples: o tanque era assimétrico, e um dos lados permitia visão externa mais clara, o que pode ter puxado a escolha.

Sem osso: como o corpo mole do polvo se deforma para caber

Polvo não tem osso, e é isso que torna a cena possível. Sem esqueleto rígido, o corpo atravessa deformações extremas e a locomoção deixa de ser limitada pelo tamanho do animal, algo que a robótica ainda persegue.

A anatomia muscular explica o resto. Os braços têm músculos transversais, e o manto tem músculos circulares; nos dois casos, o animal controla a área da seção do corpo e, com isso, reduz o espaço que ocupa.

As filmagens mostraram dois tipos de deformação. A passiva aparece no contato com a divisória. A ativa chama mais atenção: nas imagens de lado, o manto diminui de diâmetro antes de ser puxado, como quem aperta a manga da camisa para passar o braço. A comparação é só figura de linguagem; o que o registro mostra é o manto encolhendo de diâmetro para facilitar a passagem.

O limite pode não ser o bico, e o polvo nem sempre julga se cabe

Gostou? Receba novos artigos no seu e-mail:

Costuma-se dizer que o bico, estrutura dura no centro da coroa de braços, é o que restringe a passagem de um polvo. Os autores propõem olhar para outro gargalo: além do bico, o limite incluiria a secção da parte proximal de todos os braços somados.

A pista veio dos erros. Nos testes exploratórios com Octopus maya, os animais tentaram aberturas pequenas e não conseguiram concluir a passagem. Num tanque com três furos, dois laterais de 10 milímetros e um central de 15 milímetros, o polvo foi primeiro no menor, fez o tateio e encaixou dois braços, mas não avançou. Depois de várias tentativas frustradas, mudou para o furo central maior e completou a sequência de três passos sem dificuldade.

Para os autores, esses fracassos sugerem que o polvo não avalia com precisão se o buraco é passável. Ele tenta. Também notaram que a duração da estratégia de quatro passos aumentou ao longo dos testes, enquanto a de três passos ficou estável. As hipóteses levantadas são crescimento dos animais e queda do interesse em explorar; nenhuma foi testada.

Três polvos não fecham a questão: as ressalvas dos autores

O estudo é pequeno, e os próprios autores fazem questão de dizer isso. Foram três Octopus vulgaris subadultos, coletados por pescadores em La Ciotat, na França, e mantidos no laboratório do Haus des Meeres, em Viena.

Cada indivíduo foi testado em uma única condição: o de 15 a 20 milímetros entre os olhos no furo de 20 milímetros; os outros dois, de 30 a 35 milímetros, no furo de 30 milímetros. Isso permite falar em correlação entre o tamanho do buraco e estratégia, mas não separa o efeito do tamanho relativo de diferenças individuais ou de preferências de cada polvo. Uma amostra maior, com cada animal passando por vários tamanhos de furo, ficaria para outro estudo.

Faltou também uma análise sistemática do manto, porque as gravações priorizaram braços e cabeça. E os autores discutem três explicações possíveis para o comportamento, um movimento complexo ajustado continuamente, uma primitiva motora básica ou a combinação de primitivas simples, admitindo que nenhuma pode ser validada com os dados atuais.

Os quatro Octopus maya, juvenis de 4 meses nascidos de ovos cedidos por Carlos Rosas, da Universidade Nacional Autônoma do México, em Sisal, entraram apenas como experimento exploratório e não passaram por análise comportamental sistemática.

Do tanque de Viena aos robôs macios de busca e resgate

A robótica tem um problema de projeto: cada máquina é desenhada para um tipo de terreno, e quando o ambiente tem passagens estreitas e imprevisíveis, escombros, por exemplo, todo o conjunto precisa ser reduzido ao tamanho do pior obstáculo. Os robôs de busca e resgate atuais tendem a arquiteturas finas, tipo serpente, que perdem capacidade de detectar e manipular objetos.

Um corpo que muda de forma escapa dessa armadilha. É aí que o polvo entra. O que os autores propõem não é copiar o animal peça por peça, e sim importar a lógica de controle: em vez de comandar cada atuador de um robô mole separadamente, organizar movimentos simples em camadas, com uma coordenação de nível mais alto que os combina conforme o obstáculo.

É uma proposta de princípio, não um protótipo. O estudo não apresenta robô construído a partir das filmagens. A contribuição é a descrição organizada de um comportamento que, segundo os autores, ainda não tinha sido formalizado de modo a permitir análise sistemática.

O polvo já é presença frequente em estudos de cognição animal, a inteligência do axolote também tem rendido pesquisas nessa linha, e o que o tanque de Viena acrescenta é mais modesto e mais útil: uma travessia apertada tem gramática, e essa gramática muda com o tamanho do furo. Se um dia um robô mole entrar num prédio desabado para procurar sobreviventes, é provável que use uma versão dessa coreografia.

Perguntas frequentes

Quais espécies de polvo o estudo filmou?

O experimento principal usou três Octopus vulgaris subadultos, coletados na costa de La Ciotat, na França. Outros quatro Octopus maya juvenis, de 4 meses, participaram de testes exploratórios e não entraram na análise sistemática.

O polvo prefere usar os braços do lado esquerdo?

Neste estudo, sim: os dois braços dianteiros da esquerda dominaram o tateio, com 47% das tentativas para o L2 e 28% para o L1. Os autores alertam que o viés pode vir da assimetria do tanque, que oferecia visão externa mais clara de um dos lados.

Quantas travessias o estudo registrou?

Foram 33 tentativas, distribuídas em três dias não consecutivos, com 3 a 5 travessias por dia. Apenas três não deram certo, e os autores atribuem essas falhas a danos no equipamento, não à dificuldade de passar.

Fontes

Xin, W., Kuba, M. J., Gutnick, T., Abed-Navandi, D. e Laschi, C. "Overcoming environmental constraints: octopus uses 3-step or 4-step strategies to squeeze through small holes". Journal of Experimental Biology, vol. 229, nº 21, 2026. DOI: 10.1242/jeb.252825

Foto: Riccardo Marchegiani no Pexels

Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.

Este artigo contém links de afiliado. Como Associado da Amazon, eu ganho com compras qualificadas. Isso não altera o preço para você e não influencia a apuração ou a avaliação dos produtos citados.

Compartilhe