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Nuvens noctilucentes: o gelo de poeira de meteoro que brilha à noite

nuvens azuis
Resumo em 15 segundos
  • Medições do satélite AIM, da NASA, mostraram que aproximadamente 3% de cada cristal de gelo dessas nuvens é material meteorítico.
  • As noctilucentes estão em outro andar: a mesosfera, por volta dos 80 quilômetros de altitude.
  • A 83 quilômetros de altura, nada disso chega.
  • A frequência das nuvens noctilucentes vem aumentando ao longo das últimas décadas, e isso não é impressão de observadores.

Resumo dos pontos principais. A matéria completa está logo abaixo.

Elas aparecem no crepúsculo de verão, muito depois do pôr do sol, e brilham em azul-prateado contra o céu já escuro. São as nuvens noctilucentes — literalmente “que brilham à noite” — e se formam a cerca de 83 quilômetros de altitude, dez vezes mais alto que as nuvens comuns.

A parte mais surpreendente é do que elas são feitas: água congelada em torno de poeira de meteoro. Medições do satélite AIM, da NASA, mostraram que aproximadamente 3% de cada cristal de gelo dessas nuvens é material meteorítico.

Onde elas se formam

Nuvens de tempo — as que trazem chuva — vivem na troposfera, nos primeiros quilômetros da atmosfera. As noctilucentes estão em outro andar: a mesosfera, por volta dos 80 quilômetros de altitude.

É a região mais fria da atmosfera terrestre. E é justamente esse frio extremo que torna possível a formação de gelo num lugar onde há pouquíssimo vapor de água disponível.

A dinâmica é sazonal. Durante o verão, o aquecimento da baixa atmosfera empurra ar para cima; ao subir, esse ar se expande e esfria ainda mais. Se houver vapor de água suficiente nessas condições, ele congela.

A poeira de meteoro que serve de semente

Vapor de água não vira gelo no vazio: precisa de uma superfície onde se agarrar, um núcleo de condensação. Perto do solo esse papel cabe a poeira, sal marinho, fuligem. A 83 quilômetros de altura, nada disso chega.

O que chega vem de cima. Todos os dias, meteoroides entram na atmosfera e se desintegram, deixando uma névoa de partículas minúsculas suspensa entre 70 e 100 quilômetros de altitude. É a chamada fumaça de meteoro.

As nuvens noctilucentes se formam bem no meio dessa faixa. O instrumento SOFIE, a bordo do satélite AIM, mediu a composição dos cristais e encontrou a assinatura meteorítica em cerca de 3% de cada um.

Por que só aparecem depois do pôr do sol

Durante o dia elas são finas demais para competir com a luz ambiente — estão lá, mas invisíveis.

A janela de observação se abre no crepúsculo profundo. Quando o Sol já se pôs para quem está no chão, ele ainda ilumina a atmosfera a 83 quilômetros de altura. As nuvens ficam acesas sobre um céu que já escureceu, e o contraste as revela.

É o mesmo princípio que faz um avião muito alto continuar brilhando depois que anoiteceu embaixo — só que numa escala muito maior.

Como e onde observar

Quem quiser tentar precisa de três condições combinadas:

  • Época — os meses de verão do respectivo hemisfério, quando a mesosfera atinge as temperaturas mais baixas;
  • Horário — de 30 a 90 minutos após o pôr do sol, ou antes do nascer, com o Sol abaixo do horizonte mas ainda iluminando a alta atmosfera;
  • Direção — na direção do horizonte onde o Sol se pôs, em céu limpo e longe de luz urbana;
  • Latitude — são muito mais frequentes em latitudes altas, o que torna a observação difícil na maior parte do Brasil.

Elas estão ficando mais comuns

A frequência das nuvens noctilucentes vem aumentando ao longo das últimas décadas, e isso não é impressão de observadores.

A NASA aponta duas causas prováveis, e o interessante é que são as duas pontas do mesmo processo: mais vapor de água na alta atmosfera e queda de temperatura na atmosfera superior — que é, contra a intuição, um efeito colateral do aquecimento perto da superfície.

É uma daquelas assimetrias que a física do clima produz: mais gases de efeito estufa retêm calor embaixo e, ao mesmo tempo, aumentam a perda de calor lá em cima. A mesosfera esfria, e o gelo se forma com mais facilidade.

Foguetes também fabricam essas nuvens

Um resultado inesperado da missão AIM: lançamentos de foguetes podem criar nuvens noctilucentes em regiões onde elas normalmente não apareceriam, longe dos polos.

A explicação é o próprio escapamento. A combustão de propelentes libera vapor de água em grande quantidade, e parte dele é depositada exatamente na faixa de altitude onde essas nuvens se formam.

Com o aumento do número de lançamentos, o fenômeno deixa de ser apenas curiosidade e passa a ser um marcador da nossa interferência numa camada da atmosfera que quase ninguém enxerga.

O que a missão AIM investigou

AIM é a sigla de Aeronomy of Ice in the Mesosphere — aeronomia do gelo na mesosfera. O satélite é gerenciado pelo Explorers Program Office, no Centro de Voo Espacial Goddard da NASA.

Antes dele, o acompanhamento da fumaça meteórica dependia de foguetes de sondagem, que oferecem apenas alguns pontos isolados de medição. O AIM permitiu observar pela primeira vez a dinâmica desse material — como ele se move e se distribui pela atmosfera.

Ao longo de mais de uma década de operação, a missão acumulou uma série de resultados sobre essas nuvens, reunidos pela agência em dez anos de resultados da missão AIM.

Perguntas frequentes

O que são nuvens noctilucentes?

São nuvens de cristais de gelo que se formam a cerca de 83 quilômetros de altitude, na mesosfera, e brilham em azul-prateado no crepúsculo, quando o Sol já se pôs para quem está no solo mas ainda ilumina a alta atmosfera.

Do que as nuvens noctilucentes são feitas?

De gelo de água formado em torno de partículas de poeira meteórica. Medições do instrumento SOFIE, do satélite AIM da NASA, indicaram que cerca de 3% de cada cristal é material meteorítico.

Por que elas só aparecem à noite?

Porque são finas demais para serem vistas durante o dia. No crepúsculo profundo, o Sol já abaixo do horizonte continua iluminando a atmosfera a 83 quilômetros, e elas brilham contra o céu escuro.

Dá para ver nuvens noctilucentes no Brasil?

É difícil. Elas são muito mais frequentes em latitudes altas. A observação exige verão, céu limpo, longe de luz urbana e de 30 a 90 minutos após o pôr do sol, olhando para o horizonte onde o Sol se pôs.

Por que elas estão ficando mais comuns?

A NASA aponta duas causas prováveis: mais vapor de água na alta atmosfera e a queda de temperatura na atmosfera superior, que é um efeito colateral do aquecimento perto da superfície. Lançamentos de foguetes também podem criá-las localmente.

Fontes

Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.

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