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Sol vai esfriar em 2050? O que o estudo realmente diz

grande mínimo
Resumo em 15 segundos
  • A manchete que circulou em 2018 dizia que o Sol ficaria "7% mais frio" por volta de 2050.
  • No pico, o campo magnético se retorce, brotam manchas solares e explosões, e a emissão de ultravioleta aumenta.
  • Uma queda de 7% no UV corresponde a uma queda de fração de um por cento na irradiância total.

Resumo dos pontos principais. A matéria completa está logo abaixo.

A manchete que circulou em 2018 dizia que o Sol ficaria “7% mais frio” por volta de 2050. Não é isso que o estudo diz — e oito anos depois há um dado novo que muda bastante a conversa.

O trabalho é de Dan Lubin, Carl Melis e David Tytler, do Scripps Institution of Oceanography, publicado em dezembro de 2017 no The Astrophysical Journal Letters, DOI 10.3847/2041-8213/aaa124.

O número 7% se refere à radiação ultravioleta, não à temperatura do Sol. E o próprio estudo conclui que um grande mínimo solar pode desacelerar, mas não deter, o aquecimento global.

O que é um grande mínimo

O Sol tem um ciclo de atividade de cerca de onze anos. No pico, o campo magnético se retorce, brotam manchas solares e explosões, e a emissão de ultravioleta aumenta. No vale, a superfície fica calma e emite menos UV.

Um grande mínimo é outra coisa: um período de décadas em que a atividade cai abaixo até dos vales normais, como se o ciclo perdesse força por completo.

O caso mais famoso é o Mínimo de Maunder, entre aproximadamente 1650 e 1715, quando praticamente desapareceram os registros de manchas solares.

Como se mede algo que não está acontecendo

O problema metodológico é evidente: não há um grande mínimo em curso para observar. A solução da equipe de Lubin foi olhar para outras estrelas.

Eles selecionaram 33 estrelas parecidas com o Sol observadas pelo satélite International Ultraviolet Explorer (IUE), todas com medições em solo da atividade cromosférica pelas linhas H e K do cálcio — um termômetro estabelecido de atividade magnética estelar.

Integraram o fluxo ultravioleta na faixa de 1250 a 1910 ångströms, converteram em fluxo de superfície e normalizaram pela cor da estrela. O resultado foi uma relação linear forte entre atividade e emissão UV, com R² de 0,857 depois de descartados três pontos discrepantes.

Com essa régua, dá para estimar o que aconteceria com o Sol se ele entrasse em um estado de baixa atividade prolongada.

Os números que a manchete embaralhou

Aqui está a correção principal. Os valores do artigo são estes:

  • A variação de fluxo UV ao longo do ciclo solar 22 inteiro foi de 9,3%;
  • Sob um grande mínimo, a redução estimada é de 6,9% abaixo do mínimo do ciclo — ou seja, além da queda que já ocorre normalmente no vale. O intervalo de confiança de 95% vai de 5,5% a 8,4%;
  • Como referência independente, a estrela τ Ceti (HD 10700), que apresenta forte evidência de estar em estado de grande mínimo, tem fluxo normalizado 23,0 ± 5,7% abaixo do mínimo solar.

Ultravioleta não é temperatura

A confusão entre as duas coisas é o que produziu a manchete errada.

O ultravioleta é uma fatia pequena da energia total que o Sol emite. Ele varia muito mais ao longo do ciclo que a irradiância total — a energia somada em todos os comprimentos de onda, que é o que efetivamente aquece a Terra.

Uma queda de 7% no UV corresponde a uma queda de fração de um por cento na irradiância total. O Sol não fica 7% mais frio. Ele fica um pouquinho menos brilhante, e bem menos brilhante em uma faixa específica do espectro.

O erro sobre o ozônio

Outra inversão que circulou: a de que um Sol menos ativo melhoraria a camada de ozônio.

É o contrário. O ozônio estratosférico é produzido pela radiação ultravioleta, que quebra moléculas de oxigênio na alta atmosfera. Menos UV significa menos produção.

Como descreve o comunicado do Scripps, a sequência de eventos na Terra começa justamente com um afinamento da camada de ozônio estratosférica. Isso altera o perfil de aquecimento da estratosfera e, por consequência, padrões de vento — inclusive fenômenos de alta atmosfera como as nuvens noctilucentes.

O que aconteceria com o clima

A pergunta que interessa é quanto disso chega à superfície. Ela foi endereçada por modelagem climática, não pelo estudo de Lubin.

Amanda C. Maycock, Sarah Ineson, Lesley J. Gray e Adam A. Scaife simularam um grande mínimo do tipo Maunder assumindo redução de 0,25% na irradiância total ao longo de 50 anos, entre 2020 e 2070. O trabalho saiu no Journal of Geophysical Research: Atmospheres, DOI 10.1002/2014JD022022.

As conclusões são diretas e vale citá-las na ordem em que os autores as apresentam: um declínio futuro da atividade solar não compensaria o aquecimento global projetado; poderia, sim, ter efeitos regionais maiores no inverno; e um mecanismo de cima para baixo, começando na estratosfera, contribui para a resposta regional no hemisfério norte.

O estudo companheiro de Ineson e colegas na Nature Communications, DOI 10.1038/ncomms8535, detalha esses impactos regionais — invernos mais rigorosos em partes do norte da Europa, por exemplo, sem alterar a trajetória global.

O Mínimo de Maunder não congelou o Tâmisa sozinho

A história das feiras sobre o Tâmisa congelado e do exército sueco cruzando o mar Báltico em 1658 é real. A atribuição dela ao Sol é que não se sustenta.

Mathew J. Owens, Mike Lockwood, Ed Hawkins, Ilya Usoskin e Phil Jones revisaram a questão com as reconstruções paleoclimáticas e simulações mais recentes, no Journal of Space Weather and Space Climate, DOI 10.1051/swsc/2017034.

O que encontraram: a Pequena Idade do Gelo, definida pelas reconstruções de temperatura do hemisfério norte, abrange cerca de 480 anos, de 1440 a 1920 — e nem todo esse período foi notavelmente frio. O Mínimo de Maunder ocorreu dentro desse intervalo, mas o encaixe temporal não sugere causação.

As simulações climáticas apontam múltiplos fatores, com destaque para a atividade vulcânica, como decisivos para o resfriamento no hemisfério norte. A redução da irradiância solar provavelmente contribuiu — em nível comparável ao das mudanças de uso da terra.

É um resultado que reordena as prioridades: o Sol entra na conta, mas não como protagonista, algo que também aparece nos registros do gelo antártico.

O que aconteceu depois de 2018

Esta é a parte que faltava na matéria original, e é a mais importante. A previsão de que o Sol estaria “espiralando” rumo a um grande mínimo não se confirmou.

Os números vêm do SILSO, do Observatório Real da Bélgica, a autoridade oficial na contagem de manchas solares. Comparando os picos suavizados de 13 meses:

  • Ciclo 24: pico de 116,4 em abril de 2014 — o ciclo mais fraco em um século;
  • Ciclo 25: pico de 160,9 em outubro de 2024 — cerca de 38% mais forte que o anterior.

A previsão que errou para menos

Vale registrar o tamanho do erro, porque ele é instrutivo.

O painel convocado por NOAA, NASA e ISES previu em 2019 que o ciclo 25 seria fraco como o 24, com pico de manchas em torno de 115, em julho de 2025. A NOAA revisou a previsão em outubro de 2023 para uma faixa de 137 a 173 entre janeiro e outubro de 2024.

O valor real superou até a revisão. Em agosto de 2024, a contagem diária estimada chegou a 337.

Em janeiro de 2026, o número suavizado estava em 104,2 e em queda — o comportamento normal de um ciclo passado o máximo, e não o início de um grande mínimo.

Nada disso invalida o estudo de Lubin, que calcula o que aconteceria se um grande mínimo ocorresse. Invalida a leitura jornalística de que ele estaria a caminho.

O que se pode afirmar hoje

Reunindo tudo, resta o seguinte.

Um grande mínimo solar é possível — não se sabe quando, e a atividade recente não aponta para um. Se acontecer, a radiação ultravioleta cairia por volta de 7% abaixo do vale normal do ciclo, com afinamento da camada de ozônio e mudanças em padrões de circulação atmosférica.

O efeito sobre a temperatura global média seria pequeno e temporário: as simulações indicam que não compensaria o aquecimento projetado. Como resume a própria equipe de Lubin, o efeito de resfriamento de um grande mínimo é apenas uma fração do efeito de aquecimento causado pela concentração crescente de dióxido de carbono.

É um lembrete útil de como um bom estudo vira notícia ruim: bastou trocar “ultravioleta” por “temperatura” e “se acontecer” por “vai acontecer em 2050”.

Perguntas frequentes

O Sol vai esfriar em 2050?

Não há previsão confiável disso. O estudo de 2017 calculou o que aconteceria caso ocorresse um grande mínimo, sem prever data. A atividade solar recente aponta na direção oposta: o ciclo 25 foi mais forte que o anterior.

O que significa o Sol ficar 7% mais frio?

Nada — o número foi mal traduzido. Os 6,9% se referem à queda estimada da radiação ultravioleta abaixo do mínimo do ciclo solar, não à temperatura. Em irradiância total, a variação é de fração de um por cento.

Um grande mínimo solar pararia o aquecimento global?

Não. As simulações de Maycock e colegas, assumindo redução de 0,25% na irradiância total entre 2020 e 2070, concluíram que um declínio da atividade solar não compensaria o aquecimento projetado.

O Mínimo de Maunder causou a Pequena Idade do Gelo?

A revisão publicada no Journal of Space Weather and Space Climate concluiu que não. A Pequena Idade do Gelo abrange cerca de 1440 a 1920, e a atividade vulcânica foi um fator mais decisivo. A contribuição solar foi comparável à das mudanças de uso da terra.

Um Sol menos ativo faria bem à camada de ozônio?

Não, o contrário. O ozônio estratosférico é produzido pela radiação ultravioleta. Menos UV significa menos produção — a sequência descrita começa com um afinamento da camada.

Como está a atividade solar agora?

O ciclo 25 atingiu pico de 160,9 manchas (número suavizado) em outubro de 2024, contra 116,4 do ciclo 24 em abril de 2014. Em janeiro de 2026 o valor estava em 104,2 e em queda, o padrão normal após um máximo.

Fontes

  • Lubin, D.; Melis, C.; Tytler, D. Ultraviolet Flux Decrease Under a Grand Minimum from IUE Short-wavelength Observation of Solar Analogs. The Astrophysical Journal Letters, 27 dez. 2017. DOI 10.3847/2041-8213/aaa124. Ver também o comunicado do Scripps.
  • Owens, M. J.; Lockwood, M.; Hawkins, E.; Usoskin, I.; Jones, P. The Maunder minimum and the Little Ice Age: an update from recent reconstructions and climate simulations. Journal of Space Weather and Space Climate, 2017. DOI 10.1051/swsc/2017034.
  • Maycock, A. C.; Ineson, S.; Gray, L. J.; Scaife, A. A. et al. Possible impacts of a future grand solar minimum on climate: Stratospheric and global circulation changes. JGR: Atmospheres, v. 120, n. 18, p. 9043-9058, 2015. DOI 10.1002/2014JD022022.
  • Ineson, S.; Maycock, A. C.; Gray, L. J.; Scaife, A. A. et al. Regional climate impacts of a possible future grand solar minimum. Nature Communications, 23 jun. 2015. DOI 10.1038/ncomms8535.
  • Números de manchas solares (série suavizada de 13 meses, versão 2.0): SILSO, do Observatório Real da Bélgica.

Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.

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