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Fungo zumbi em musgos: o parasita tinha uma vida secreta

Estudo revela que o fungo Ophiocordyceps, o “fungo zumbi” das formigas, também vive dentro de musgos na Amazônia como endófito.

Fungo zumbi Ophiocordyceps emergindo de uma formiga sobre musgo na Amazônia
Fungo zumbi Ophiocordyceps emergindo de uma formiga sobre musgo na Amazônia

Existe um fungo que invade o cérebro de formigas, faz a vítima subir numa planta, cravar as mandíbulas numa folha e morrer ali, virando uma espécie de jardim de esporos. Essa é a famosa história do Ophiocordyceps, o fungo zumbi. Mas um estudo publicado na revista IMA Fungus adiciona um detalhe que ninguém esperava: o fungo zumbi também vive em musgos, escondido dentro das plantas, mesmo longe de qualquer inseto.

Bastou os pesquisadores olharem para dentro dos musgos da Amazônia para encontrar o parasita morando ali, como um endófito discreto. A descoberta sugere que o controle das formigas pode não ser apenas uma disputa entre fungo e inseto, mas uma história com três personagens.

O estudo foi conduzido por biólogos brasileiros que trabalham na Amazônia, com participação de João Paulo Machado de Araújo, do Museu de História Natural da Dinamarca. Os resultados saíram na revista IMA Fungus em 14 de julho de 2026, com DOI 10.3897/imafungus.17.196998.

O que é o fungo zumbi?

O fungo zumbi é o apelido de um grupo de parasitas do gênero Ophiocordyceps. Existem mais de 350 espécies, conhecidas como “fungos formiga-zumbi”, e elas não atacam só formigas. O nome pegou por causa do comportamento que induzem: a formiga infectada age como um fantoche.

O ciclo é digno de roteiro. A formiga abandona a colônia contra todos os instintos, sobe em uma árvore, procura um tufo de musgo e prende as mandíbulas nas folhas. O fungo então emerge do corpo da vítima como um talo fino, recheado de esporos, prontos para alcançar novas formigas.

Foi esse drama que tornou o gênero famoso no jogo e na série The Last of Us. A diferença é que, na vida real, o fungo não precisa de efeitos especiais.

Ophiocordyceps em uma formiga.

O que os pesquisadores acharam nos musgos da Amazônia?

Os pesquisadores notaram que as formigas infectadas pareciam preferir terminar a escalada em tufos de musgo. Então decidiram investigar o que havia dentro dessas plantas. Analisando o DNA dos musgos, encontraram Ophiocordyceps vivendo ali, inclusive em plantas distantes de qualquer outro inseto infectado.

Traduzindo: o fungo não está só dentro das formigas. Ele também vive como endófito, um morador silencioso dos tecidos vegetais.

Fungo, formiga e planta: uma manipulação a três?

A descoberta complica a história. Durante anos, o controle das formigas foi explicado como uma relação de dois personagens: fungo e inseto. Agora, os autores sugerem que a planta pode fazer parte da equação.

“A conhecida manipulação comportamental causada pelo Ophiocordyceps pode não resultar somente da interação entre fungo e formiga, mas de uma relação complexa entre o fungo, seu hospedeiro e a planta onde o mesmo fungo vive silenciosamente como um endófito”, explicou João Paulo Machado de Araújo.

Amazônia, o lar do fungo zumbi em musgos

A pesquisa tem um valor extra para o Brasil. Quem assina a descoberta são biólogos brasileiros trabalhando na Amazônia, uma das regiões mais biodiversas e menos conhecidas do planeta. O musgo que guarda o fungo não é um detalhe distante: faz parte da floresta que conhecemos de nome e, muitas vezes, só de nome.

Além disso, esta não é a primeira vez que um Ophiocordyceps aparece associado a plantas. Em 2020, o biólogo evolutivo Zhengyang Wang, da Universidade de Harvard, encontrou a espécie Ophiocordyceps sinensis em várias plantas do Himalaia. Esse fungo infecta larvas de mariposas-fantasma no Tibete e é muito valorizado na medicina chinesa.

O que o estudo ainda não explica?

Os pesquisadores não afirmam, em nenhum momento, que o papel do musgo já está definido. Eles trabalham com duas hipóteses. O musgo pode ser uma espécie de “área de acasalamento” para os fungos, um ponto de encontro onde trocam material genético. Ou pode ser um esconderijo: um lugar para o fungo esperar enquanto formigas disponíveis são escassas.

Também segue em aberto o tamanho do papel da planta na manipulação. A fala dos autores indica que a planta pode participar, mas isso é uma hipótese, não uma conclusão. Mais pesquisas serão necessárias para saber se o musgo é cenário, cúmplice ou os dois.

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Por que isso importa?

O ciclo de vida do fungo zumbi acaba de ganhar um capítulo novo, e ele acontece dentro de um musgo, uma planta que a maioria de nós pisa sem notar. A descoberta mostra que histórias aparentemente bem contadas pela ciência ainda têm dobras escondidas.

Ela também lembra que parasitas não agem no vácuo. O fungo que controla formigas vive em um ecossistema, e esse ecossistema pode ser parte do truque. Se o musgo estiver mesmo envolvido, a manipulação deixa de ser um duelo e vira um triângulo. Compreender esse triângulo pode ajudar a ciência a enxergar melhor as florestas tropicais e as relações invisíveis que elas sustentam.

Perguntas frequentes

O que é o fungo zumbi?

O fungo zumbi é o nome popular de um grupo com mais de 350 espécies do gênero Ophiocordyceps, fungos que infectam insetos como formigas e alteram seu comportamento.

O fungo Ophiocordyceps vive em musgos?

Sim. O estudo publicado na IMA Fungus encontrou o fungo Ophiocordyceps dentro de musgos na Amazônia, inclusive em plantas distantes de outros insetos infectados.

Quantas espécies de fungo zumbi existem?

Existem mais de 350 espécies de fungos formiga-zumbi no gênero Ophiocordyceps, segundo o material do estudo.

O fungo de The Last of Us é real?

Sim, o gênero Ophiocordyceps existe de verdade e ficou famoso por causa do jogo e da série. Na natureza, ele infecta insetos, principalmente formigas.

O que os pesquisadores encontraram na Amazônia?

Eles encontraram o fungo Ophiocordyceps vivendo como endófito dentro de musgos, mesmo em plantas afastadas de qualquer inseto infectado.

Como o fungo zumbi controla as formigas?

O mecanismo exato ainda não está fechado. O estudo sugere que a manipulação pode envolver uma relação complexa entre o fungo, seu hospedeiro e a planta onde o fungo vive como endófito.

Fontes

  • Metabarcoding reveals a hidden endophytic stage of the ‘zombie-ant’ fungus in Amazonian mosses. IMA Fungus 17: e196998. DOI: 10.3897/imafungus.17.196998
  • Nautilus: The Bizarre Life Cycle of “Zombie-Ant” Fungus Gets a New Twist.

Foto: Skyler Ewing no Pexels

Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.

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