Resumo em 15 segundos
- Em 20 de março de 2026, o Centro Nacional de Gelo dos Estados Unidos mediu o que restava do A23a: 141 km².
- Em algumas regiões o azul era intenso, indicando profundidades de vários metros.
- No mesmo mês, o título de maior iceberg do mundo passou ao D15a, ainda firme junto à costa antártica.
Resumo dos pontos principais. A matéria completa está logo abaixo.
Em janeiro de 2026, imagens de satélite mostraram algo estranho na superfície do iceberg A23a: uma piscina de água de degelo com cerca de 800 km² — área maior que a cidade de Chicago — presa no topo do bloco de gelo. Cientistas leram aquilo como sinal de que a fragmentação final estava próxima.
Estavam certos. Em 20 de março de 2026, o Centro Nacional de Gelo dos Estados Unidos mediu o que restava do A23a: 141 km². Pequeno demais para continuar sendo rastreado. Encerrava-se ali uma trajetória de quatro décadas.
A piscina que anunciou o fim
O que chamava atenção nas imagens não era a água em si — icebergs derretem —, mas o fato de ela não escorrer. Uma borda elevada contornava toda a extremidade do iceberg tabular, retendo o líquido como uma piscina infantil superdimensionada.
Em algumas regiões o azul era intenso, indicando profundidades de vários metros. O volume total foi estimado em bilhões de litros.
Douglas MacAyeal, da Universidade de Chicago, propôs a explicação: as bordas estariam dobradas para baixo, formando uma espécie de barragem em arco. A curvatura resultaria da ação combinada da erosão das ondas, do derretimento na face do penhasco e da tendência natural do gelo de se curvar com o tempo, mesmo tendo sido originalmente vertical.
As faixas visíveis nas imagens, segundo ele, são vestígios do fluxo de gelo de quando o iceberg ainda estava preso à costa antártica — cicatrizes de uma vida anterior.
Por que a água acelera o colapso
Mike Meredith, do British Antarctic Survey, resumiu o mecanismo: se a água penetra nas fissuras e congela novamente, ela abre ainda mais o iceberg.
A física é a mesma que racha o asfalto no inverno: a água que entra numa fenda expande ao congelar e força as paredes para os lados. Repetido inúmeras vezes, o ciclo transforma trincas superficiais em fraturas profundas.
A NASA registrou o fenômeno em imagens que mostram água de degelo deixando o A23a azul — a coloração azulada indica presença de água líquida e é, ela própria, um indicador de que o processo está em curso.
Quarenta anos de trajetória
O A23a se desprendeu da plataforma de gelo Filchner-Ronne em 1986, com aproximadamente 3.672 km² — mais de cinco vezes o tamanho que teria em 2026.
Passou décadas encalhado no fundo do mar de Weddell, praticamente imóvel. Quando finalmente se soltou, migrou para o norte, entrando em águas e ar progressivamente mais quentes.
Em agosto de 2025 o British Antarctic Survey reportou que ele havia começado a se desintegrar, parindo icebergs de porte considerável que seguiram para o noroeste, pelo corredor conhecido como iceberg alley. No mesmo mês, o título de maior iceberg do mundo passou ao D15a, ainda firme junto à costa antártica.
O fim veio encalhado ao sul da Geórgia do Sul, onde a plataforma continental rasa reteve o bloco enquanto ele se partia.
A cronologia do desaparecimento
Os números contam a história melhor que qualquer descrição:
- 1986 — desprende-se da plataforma Filchner-Ronne com cerca de 3.672 km²;
- Agosto de 2025 — começa a desintegração; perde o posto de maior iceberg do mundo para o D15a;
- Janeiro de 2026 — imagens revelam a piscina de 800 km² retida na superfície;
- 20 de março de 2026 — reduzido a 141 km², pequeno demais para rastreamento.
Isso é sinal de mudança climática?
Aqui é preciso separar duas coisas que costumam ser embaralhadas.
O desprendimento de icebergs — o calving — é um processo natural. Plataformas de gelo crescem e liberam blocos periodicamente; isso acontece desde muito antes de qualquer influência humana. O A23a se soltou em 1986 por dinâmica própria da plataforma.
O que o aquecimento altera é o ritmo: águas e ar mais quentes aceleram o derretimento e encurtam a vida dos icebergs depois que eles migram para o norte.
Ou seja: a existência do A23a não é evidência de mudança climática, e o fim dele também não deve ser lido isoladamente como prova. O que os cientistas monitoram são tendências de longo prazo no balanço de massa das plataformas de gelo, não episódios individuais.
Por que acompanhar um iceberg importa
Icebergs desse porte têm efeitos concretos enquanto existem. Ao derreter, liberam água doce e nutrientes no oceano, alterando localmente a salinidade e alimentando a produção biológica.
Quando encalham perto de ilhas como a Geórgia do Sul, podem bloquear rotas de alimentação de pinguins e focas, com impacto direto na reprodução das colônias — motivo pelo qual o governo da Geórgia do Sul acompanhou de perto o encalhe.
Há ainda a navegação: fragmentos desgarrados representam risco para embarcações no Atlântico Sul, e é por isso que agências como o Centro Nacional de Gelo mantêm rastreamento sistemático.
Perguntas frequentes
O que aconteceu com o iceberg A23a?
Ele se desintegrou. Em 20 de março de 2026 o Centro Nacional de Gelo dos Estados Unidos mediu apenas 141 km² do que restava, tamanho pequeno demais para continuar sendo rastreado.
Por que se formou uma piscina na superfície do A23a?
Segundo Douglas MacAyeal, da Universidade de Chicago, as bordas do iceberg se dobraram para baixo, formando uma barragem em arco que reteve a água de degelo. A piscina chegou a cerca de 800 km², área maior que Chicago.
Por que a água acelera a quebra de um iceberg?
Porque a água penetra nas fissuras e, ao congelar novamente, expande e força as paredes para os lados. Repetido muitas vezes, o ciclo transforma trincas superficiais em fraturas profundas.
Qual era o tamanho original do A23a?
Cerca de 3.672 km² quando se desprendeu da plataforma Filchner-Ronne em 1986 — mais de cinco vezes o tamanho que tinha no início de 2026.
Qual é o maior iceberg do mundo agora?
O D15a assumiu o posto em agosto de 2025, quando o A23a começou a se desintegrar. O D15a continua junto à costa antártica.
Fontes
- Fim da trajetória do A23a e medições de tamanho: NASA Earth Observatory.
- Registro da água de degelo na superfície: NASA — água de degelo deixando o A23a azul.
- Imagens da fragmentação ao norte da Geórgia do Sul: programa Copernicus, da União Europeia.
- Acompanhamento do encalhe na plataforma continental: governo da Geórgia do Sul.
Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.





