Resumo em 15 segundos
- O touro Achille montou o jumento Patroclo 51 vezes nas terras altas da Etiópia.
- Em 34 das 51 montas houve penetração, segundo o estudo na Current Biology.
- Lambidas, roçadas e carinhos entre o touro e o jumento superavam as interações com outros animais.
- Os autores chamam o caso de primeiro registro de relação homossexual duradoura entre um touro e um jumento.
Resumo dos pontos principais. A matéria completa está logo abaixo.
Um touro e um jumento machos dividiram o mesmo pasto nas terras altas da Etiópia. Havia fêmeas por perto, havia outros machos; os dois tinham donos diferentes e passavam as noites separados. Mesmo assim, se procuraram de novo e de novo: foram 51 montas registradas em duas semanas de observação, e o comportamento não parava por ali.
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Em quantas das 51 montas registradas pela equipe houve penetração?
Seu palpite
A equipe viu o touro Achille montar o jumento Patroclo 51 vezes no pasto, entre 6 e 19 de março. Em 34 dessas montas houve intromissão, ou seja, penetração peniana.
Fonte: Francesconi e colegas, Current Biology, 2026
Desafie um amigo no WhatsAppO caso, descrito na revista Current Biology, é apresentado pela equipe da Universidade de Pisa como o primeiro registro documentado de uma relação sexual homossexual duradoura entre um touro e um jumento. E é justamente esse “duradoura” que embaralha o que a gente costuma entender por homossexualidade em animais. Não se trata de um encontro isolado, nem de falta de opção. Trata-se de preferência.
Veja imagens reais dos animais aqui e aqui.
Dados do estudo: pesquisa com Martina Francesconi como primeira autora e Elisabetta Palagi entre os autores, ambos da Universidade de Pisa, na Itália, publicada na revista Current Biology. As observações foram feitas por acaso nas terras altas da Etiópia, entre 6 e 19 de março: a equipe estava na região para estudar macacos gelada quando notou as interações entre Achille, o touro, e Patroclo, o jumento, numa área de pastagem vizinha.
O que é homossexualidade em animais e o que esse caso tem de diferente?
Homossexualidade em animais é o comportamento sexual entre indivíduos do mesmo sexo. Os pesquisadores usam uma sigla em inglês para isso, SSSB, que quer dizer exatamente comportamento sexual entre iguais. Não é uma exceção na natureza: aparece em muitas espécies.
O que é raro é outra coisa. Sexo entre animais de espécies diferentes é bem menos observado do que o comportamento homossexual dentro da própria espécie. No caso de Achille e Patroclo, as duas coisas vieram juntas: dois machos, de espécies distintas, num vínculo que se repetiu ao longo dos dias.
Dra. Palagi resume o espanto da equipe em uma frase. “A natureza nem sempre respeita as fronteiras que desenhamos em volta dela”, disse a etóloga. “O comportamento animal não é um quadro pintado em preto e branco: usa a paleta inteira, com todas as cores do arco-íris.”
51 montas em duas semanas de pasto na Etiópia
Os números da observação são diretos. Ao longo dos dias em campo, Achille foi visto montando Patroclo 51 vezes. Em 34 dessas montas houve intromissão, ou seja, penetração peniana.
Em duas ocasiões, Achille montou outro jumento macho que estava no pasto. A reação foi o oposto. O animal achatou as orelhas, fez expressão de ameaça e deixou claro que queria distância. Patroclo nunca fugiu, nunca deu coice. Ao contrário: apresentava o traseiro ao touro e chegava a mordiscá-lo.
Havia mais. Achille e Patroclo trocavam lambidas, roçadas e carinhos de focinho com mais frequência um com o outro do que com qualquer outro animal do pasto. Essas interações também duravam mais tempo. E os dois passavam a maior parte do período observado lado a lado.
Por que os pesquisadores acham que não era só sexo?
Porque o comportamento continuava depois. Carinhos que antecedem a monta não surpreendem entre animais: eles podem simplesmente facilitar a coisa. O que chamou atenção foi o oposto do esperado. Achille e Patroclo se envolviam em interações pós-monta muito mais vezes do que em qualquer “preliminar”.
No artigo, os autores escrevem que as interações, embutidas em trocas afiliativas repetidas, recíprocas e mútuas, podem funcionar também como um sinal da qualidade da relação. Em vez de serem atribuídas só à excitação sexual, elas parecem ter papel em prolongar a interação social para além do ato sexual.
Um episódio reforça a leitura. Numa outra ocasião, quando Achille montou outro jumento, Patroclo se aproximou, como se quisesse impedir a continuidade daquilo, e o touro acabou voltando a interagir com ele, incluindo lambidas pelo corpo.
“As montas chamaram nossa atenção no começo, mas a preferência repetida pela companhia um do outro virou a parte mais convincente da história”, contou Palagi. Para ela, o comportamento de Patroclo foi o mais marcante: foi a participação dele que tornou a relação especialmente curiosa.
Detalhe que pesa a favor da escolha: os dois tinham acesso a outros parceiros, de sua própria espécie e de ambos os sexos, e ainda assim se procuravam. Achille e Patroclo pertenciam a donos diferentes, dormiam separados e só se encontravam durante o pastejo diário.
Quantas espécies já foram vistas em comportamento homossexual?
O comportamento homossexual já foi observado em cerca de 1.500 espécies animais, humanos incluídos, segundo levantamento citado pelo Daily Mail. A lista passa por macacos, chimpanzés-anões, leões, girafas, golfinhos, orcas e pela nossa própria espécie. Alguns estudos chegam a falar em até 95% de todas as espécies animais, número que pede cautela: as taxas dentro de cada espécie continuam desconhecidas, e a pesquisa segue encontrando novas nuances.
“Dentro de um número seleto de espécies, a atividade homossexual é disseminada e ocorre em níveis que se aproximam ou às vezes até superam a atividade heterossexual”, escreveu Volker Sommer, professor da University College London (UCL), no livro Homosexual Behaviour in Animals: An Evolutionary Perspective.
Explicação aceita, não existe. Uma hipótese mencionada é a exposição a níveis de testosterona no útero, mas o tema é debatido e não comprovado. Outra corrente sustenta que o comportamento homossexual não precisaria de explicação, e que, mesmo atrapalhando a reprodução direta, ele pode ajudar a passar genes de forma indireta, ao cuidar da prole de parentes. É o caso dos lobos, em que só o casal alfa se reproduz e os demais protegem e alimentam a ninhada, ou das elefantas idosas, que seguem liderando o grupo e defendendo os filhotes. Há ainda a ideia de que o comportamento sirva de treino: jovens praticando a corte antes de escolher parceiros do sexo oposto.
O vínculo entre espécies diferentes e o que os autores não conseguem afirmar
A equipe é cuidadosa com o que os dados permitem dizer. Os autores afirmam que as observações sugerem que o comportamento não se explica facilmente pela falta de oportunidades de acasalamento, mas deixam claro que o estudo não consegue determinar qual função essas interações sexuais tiveram.
Também não dá para saber o que a relação significava para os dois animais, e o alerta explícito é para não interpretar tudo por uma lente humana. O risco de antropomorfismo, que é emprestar emoções e intenções humanas a bichos, ronda qualquer leitura desse tipo. O que dá para dizer, segundo os pesquisadores, é que havia ali um laço social cruzando uma fronteira entre espécies.
Ficou também uma pergunta sem resposta. Depois do estudo, Achille e Patroclo foram levados para áreas de pastagem diferentes. Não se sabe se o vínculo continuou. A equipe espera voltar para verificar se os dois retomam as interações e para investigar se relações assim acontecem entre espécies mais vezes do que se imagina.
“Comportamento incomum pode continuar anedótico só porque ninguém teve a oportunidade de documentá-lo sistematicamente”, disse Palagi. “A paleta completa da natureza só fica visível quando a gente está disposto a notar o inesperado.”
É uma boa imagem para o que aconteceu aqui. Duas categorias que a gente costuma tratar como caixas separadas, a espécie e o sexo do parceiro, apareceram juntas num pasto da Etiópia. Sobre as funções desse laço, o estudo abre perguntas em vez de fechar. Sobre a existência dele, as 51 montas e as lambidas depois delas não deixam dúvida.
Perguntas frequentes
Esse é o primeiro caso de relação homossexual duradoura entre espécies diferentes?
É o primeiro caso documentado de uma relação sexual homossexual duradoura entre um touro e um jumento, segundo os autores do estudo na Current Biology. O registro é específico para esse par de espécies. De modo geral, sexo entre animais de espécies diferentes é muito mais raro de ser observado do que o comportamento homossexual dentro da mesma espécie.
Quem são Achille e Patroclo?
Achille é um touro e Patroclo é um jumento macho, e os dois viviam nas terras altas da Etiópia. Eles pertenciam a donos diferentes, passavam as noites em locais separados e se encontravam apenas durante o pastejo diário, na mesma área de pastagem.
O touro e o jumento continuam juntos?
Não se sabe. Depois do estudo, Achille e Patroclo foram levados para áreas de pastagem diferentes. Os pesquisadores esperam voltar à região para verificar se os dois animais retomam as interações.
Fontes
- Estudo de Martina Francesconi (primeira autora) e Elisabetta Palagi, da Universidade de Pisa, publicado na revista Current Biology.
- ScienceAlert — "Scientists Witness a Mysterious Sexual Bond Between a Bull And a Male Donkey", por Peter Dockrill, 3 de novembro de 2026.
- Daily Mail — "Scientists discover 'unusual sexual bond' between bull and male donkey", 2 de novembro de 2026.
Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.
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