Resumo em 15 segundos
- A altura média no Peru é de 165,3 cm para homens e 152,9 cm para mulheres.
- Uma variante do gene FBN1 reduz a altura em até 4,4 cm e é mais comum no litoral.
- Ela explica menos de 1% da variação: o ambiente pesa mais.
- A desnutrição crônica infantil caiu de 28,5% (2007) para 11,5% (2023).
Resumo dos pontos principais. A matéria completa está logo abaixo.
Os peruanos estão entre os povos mais baixos do mundo: a altura média é de 165,3 centímetros para os homens e 152,9 centímetros para as mulheres. A explicação combina duas coisas. Uma é genética, e inclui uma variante rara que tira até 4,4 centímetros de quem a carrega. A outra é ambiental: décadas de desnutrição infantil que só recentemente começaram a recuar.
Qual é a altura média no Peru?
Os números de 165,3 cm e 152,9 cm vêm da NCD Risk Factor Collaboration (NCD-RisC), uma rede de pesquisadores ligada à Organização Mundial da Saúde que reuniu medidas de mais de 18,6 milhões de pessoas em 200 países. O estudo, publicado em 2016 na revista eLife, acompanhou a altura de quem nasceu entre 1896 e 1996. Para comparação, os homens holandeses, os mais altos do mundo nesse período, passam de 182,5 cm em média.
No mesmo levantamento, os homens mais baixos do mundo, nascidos em 1996, estão em Timor-Leste, no Iêmen e no Laos, com cerca de 160 cm, e as mulheres mais baixas, na Guatemala, com cerca de 149 cm. Um século antes, as populações mais baixas estavam na Ásia e na América Latina Central e Andina, região que inclui o Peru.
Existe um gene que deixa os peruanos mais baixos?
Existe um que contribui. Em 2020, uma equipe liderada pela geneticista Samira Asgari, então no Brigham and Women’s Hospital e na Harvard Medical School, analisou o DNA de 3.134 moradores de Lima e publicou os resultados na Nature. Os pesquisadores encontraram uma variante no gene FBN1, que produz a fibrilina-1, proteína que dá estrutura aos tecidos conjuntivos, como pele, ossos e vasos sanguíneos.
- Cada cópia da variante reduz a altura em 2,2 cm em média; quem tem duas cópias, uma de cada pai, fica cerca de 4,4 cm mais baixo.
- Ela aparece em cerca de 4,7% das cópias do gene na amostra, e em 9,7% na população do litoral, contra 1,7% nos Andes e zero na Amazônia.
- É o maior efeito sobre a altura já registrado para uma variante genética comum.
Para ter ideia da escala: um estudo publicado na Nature em 2022, com dados de 5,4 milhões de pessoas, identificou 12.111 variantes associadas à altura. Quase todas têm efeito de milímetros. A do FBN1 peruano é uma exceção.
O gene é conhecido por outra razão. Algumas mutações raras no FBN1 causam a síndrome de Marfan, que deixa as pessoas altas, magras e com risco de problemas no coração e nos vasos. A variante peruana tem efeito oposto na altura e, segundo os pesquisadores, os portadores não têm doença. Na pele de quem tinha duas cópias, as microfibras de fibrilina eram menos compactas, mas sem sinal de problema clínico.
Por que a variante é mais comum no litoral?
Os autores encontraram sinais de que a seleção natural favoreceu essa região do gene em populações fora da África, e indícios mais sutis dentro do próprio Peru. A concentração no litoral sugere que a baixa estatura pode ter sido uma adaptação a algum fator do ambiente costeiro. Qual fator, ninguém sabe ainda. É uma hipótese, não uma conclusão.
O estudo também encontrou que quem tem mais ancestralidade indígena americana tende a ser mais baixo. Mas os próprios autores ressaltam que não está claro quanto disso vem de genes e quanto vem de fatores socioeconômicos e ambientais que acompanham a ancestralidade no país.
A genética explica tudo?
Não, e nem perto disso. A variante do FBN1 explica menos de 1% (0,9%) da variação de altura na amostra de Lima. A maior parte da diferença entre países vem do ambiente, principalmente da alimentação e da saúde na infância. É isso que explica, por exemplo, por que as mulheres sul-coreanas cresceram mais de 20 cm em um século.
No Peru, a desnutrição crônica infantil, que atrasa o crescimento, foi um problema grave por décadas. Segundo a pesquisa ENDES do Instituto Nacional de Estatística e Informática (INEI), ela atingia 28,5% das crianças menores de 5 anos em 2007 e caiu para 11,5% em 2023. A desigualdade continua grande: 23,9% nas áreas rurais contra 7,1% nas cidades, com picos em departamentos andinos e amazônicos como Huancavelica (26,1%) e Loreto (21,7%).
Se a queda se mantiver, é provável que as próximas gerações de peruanos sejam mais altas, como aconteceu em outros países que reduziram a desnutrição.
Por que isso importa?
O caso peruano é um bom exemplo de como genética e ambiente se somam. Uma variante pode ter efeito grande em quem a carrega e, ainda assim, explicar pouco da diferença entre populações. Também mostra por que a genética de populações não europeias importa: a variante do FBN1 é praticamente exclusiva do Peru e nunca seria encontrada estudando apenas europeus, que ainda são a maioria das amostras genéticas do mundo.
Perguntas frequentes
Qual a altura média dos peruanos?
Segundo a NCD Risk Factor Collaboration, 165,3 centímetros para os homens e 152,9 centímetros para as mulheres, o que coloca o Peru entre os países de menor estatura média do mundo.
Por que os peruanos são baixos?
Por uma combinação de genética e ambiente. Há uma variante no gene FBN1 que reduz a altura em até 4,4 cm, mais comum no litoral. Mas o fator de maior peso é a desnutrição infantil, que atingia 28,5% das crianças pequenas em 2007 e ainda afeta 11,5%.
O que é a variante do gene FBN1?
É uma alteração no gene da fibrilina-1, proteína dos tecidos conjuntivos. Cada cópia reduz a altura em 2,2 cm em média. Foi descrita em 2020 na revista Nature e é o maior efeito já encontrado para uma variante comum de altura. Os portadores não apresentam doença.
Qual o povo mais alto do mundo?
Segundo a NCD-RisC, os homens holandeses nascidos no fim do século XX, com média acima de 182,5 cm. A diferença para as populações mais baixas é de cerca de 20 cm.
Fontes
- Asgari, S. et al. “A positively selected FBN1 missense variant reduces height in Peruvian individuals”. Nature, 2020. DOI: 10.1038/s41586-020-2302-0
- NCD Risk Factor Collaboration. “A century of trends in adult human height”. eLife, 2016. DOI: 10.7554/eLife.13410
- Yengo, L. et al. “A saturated map of common genetic variants associated with human height”. Nature, 2022. DOI: 10.1038/s41586-022-05275-y
- Instituto Nacional de Estadística e Informática (INEI), Perú. Encuesta Demográfica y de Salud Familiar (ENDES): estado nutricional de niños.
Foto: Andrw / Unsplash (CC0)
Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri. Atualizada em setembro de 2026.





