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Aférese terapêutica pode remover microplásticos do sangue

Estudo inicial mostra que a aférese terapêutica, técnica que filtra o sangue, reduziu PFAS e microplásticos na circulação. Quedas chegaram a 75,8%.

Máquina de aférese terapêutica usada para filtrar o sangue; técnica também reduz microplásticos e PFAS.
Máquina de aférese terapêutica usada para filtrar o sangue; técnica também reduz microplásticos e PFAS.

Uma máquina que já é usada para baixar o colesterol pode ter encontrado uma missão nova: filtrar microplásticos e PFAS do sangue. A frase parece ficção, mas é o tema de um estudo publicado na revista Brain Health com os primeiros dados reais de pacientes que passaram por aférese terapêutica e saíram do procedimento com menos poluentes na circulação. Em um dos casos medidos, um tipo de PFAS caiu 75,8%. Na contagem de nanopartículas, a redução média chegou a cerca de 70%.

O detalhe mais curioso é químico: essas toxinas não viajam sozinhas. Elas se grudam em lipídios e proteínas do sangue, formando agregados. Como a aférese terapêutica já é especialista em remover gorduras, ela acaba levando junto um pacote de poluentes. Mas atenção: os resultados são preliminares, com poucas dezenas de pacientes, e os próprios autores pedem cautela.

O trabalho é assinado por uma equipe ligada ao maior centro de aférese terapêutica do mundo, que faz até 10 mil tratamentos por ano e mantém um banco com mais de 8 mil amostras de pacientes acumuladas ao longo de 25 anos. A publicação saiu em 4 de agosto de 2026 na Brain Health, com acesso aberto, e tem o DOI 10.61373/bh026a.0024. As medições de PFAS e microplásticos foram feitas por laboratórios independentes na Alemanha, nos Estados Unidos, na Finlândia e na Espanha.

O que é aférese terapêutica e como ela funciona?

Aférese terapêutica é um procedimento que filtra o sangue do paciente fora do corpo, em uma máquina, e devolve a parte boa. Funciona como uma estação de tratamento de água, mas para o sangue: o plasma passa por filtros ou colunas que retêm determinadas substâncias, e o restante volta para a circulação. A técnica existe há cerca de quatro décadas e começou como tratamento para dislipidemias graves, aqueles casos de colesterol muito alto que não respondem aos remédios.

Com o tempo, o uso se ampliou. Hoje a aférese também é aplicada em doenças autoimunes, neurodegenerativas, síndromes pós-infecciosas e quadros inflamatórios crônicos. A modalidade usada neste estudo, a dupla filtração do plasma (DFPP), filtra o plasma em duas etapas e é uma das formas mais comuns dessa “lavagem” seletiva. Há ainda sistemas que trabalham por adsorção, em vez de filtração, como o usado com o adsorvedor LIPIDsmart.

Aférese terapêutica reduz PFAS e microplásticos no sangue?

Sim, segundo os dados iniciais do estudo, mas com variações importantes entre pessoas e substâncias. Em 34 pacientes, as medições antes e depois de cada uma de duas sessões de DFPP mostraram queda estatisticamente significativa da proteína C reativa (um marcador de inflamação), do fibrinogênio, do LDL-C (o colesterol ruim) e da Lp(a), uma lipoproteína ligada a risco cardiovascular. Entre a primeira e a segunda sessão, não houve redução adicional nos valores pós-tratamento.

Para os PFAS, dois laboratórios independentes mediram o sangue antes e depois. No laboratório alemão Medizinisches Labor Bremen, com 14 pacientes, as quedas chegaram a 25% em quatro tipos de PFAS: PFOA, PFOS, PFNA e PFHxS. No laboratório Creative Biostructure, com 4 pacientes, as reduções foram maiores: PFOS caiu 48,9%, PFOA 43,5%, PFNA 55% e PFDA 47,1%. O caso mais expressivo foi o PFDoDA, com 75,8% a menos, ou seja, três quartos da substância detectada antes do procedimento sumiram depois.

Para microplásticos e nanoplásticos, a história é mais fragmentada. Em 4 pacientes, a análise por pirólise (Py-GC-MS) mostrou que o polietileno (PE) caiu nos quatro; o PVC caiu em três de quatro; o polipropileno caiu em um, subiu em dois e não apareceu no quarto. Poliestireno e poliamida 66 só foram detectados em um paciente. Em dois casos exploratórios, a dupla filtração foi combinada com um adsorvedor chamado NucleoCapture, que retém estruturas de DNA extracelular: em um paciente, houve remoção completa de poliestireno e polipropileno; no outro, de polietileno, polipropileno e PET.

Um quarto laboratório, o IGTP, na Espanha, contou partículas pequenas com um corante fluorescente (Nile red) e citometria de fluxo em 4 pacientes: a redução média foi de cerca de 70%. De cada dez partículas contadas antes, restaram aproximadamente três. Os autores ressaltam, porém, que esse método identifica partículas hidrofóbicas em geral, e não prova sozinho que sejam plástico.

Por que PFAS e microplásticos se acumulam no corpo?

A exposição é enorme. Mais de 4.700 compostos PFAS estão em uso comercial e no ambiente. Nos Estados Unidos, mais de 99% da população tem PFAS detectável no sangue, e cerca de 200 milhões de pessoas já foram expostas a água potável contaminada. Essas moléculas têm meia-vida de 4,8 a 8,5 anos, ou seja, podem levar quase uma década para cair pela metade no organismo.

Os microplásticos e nanoplásticos também não ficam atrás: estima-se que cada pessoa ingira de 39 mil a 52 mil partículas por ano, número que sobe para 74 mil a 121 mil quando se inclui a inalação. As partículas já foram encontradas em sangue humano, placenta, tecido pulmonar e até no cérebro. O artigo associa a inalação de cerca de 2,1 microgramas de plástico por dia a riscos maiores de mortalidade cardiopulmonar e câncer de pulmão. É uma associação estatística, vale dizer, sem o valor absoluto do risco informado no estudo.

E como eles se ligam às gorduras? PFAS aderem à superfície das lipoproteínas LDL e VLDL, estabilizando essas partículas e elevando o colesterol circulante. Microplásticos e PFAS formam agregados com lipídios e proteínas, as chamadas “coronas” — um combo de toxinas que viaja unido. Em plásticos envelhecidos no ambiente, a adsorção de PFAS pode ser até 250 vezes maior. A toxicidade do conjunto tende a superar a de cada poluente isolado, o que ajuda a entender por que um remédio convencional não dá conta. Filtrar o sangue, em vez disso, ataca o agregado inteiro.

O que o estudo ainda não explica?

A lista de ressalvas dos próprios autores é longa: amostra pequena, indicações clínicas heterogêneas, sistemas de aférese diferentes, caráter exploratório das medições de microplásticos, risco de contaminação durante a coleta e ausência de dados de longo prazo sobre a saúde dos pacientes. Os resultados mostram mudanças agudas, medidas logo após a sessão, e não provam que a carga total de poluentes do corpo inteiro diminuiu.

Há ainda a questão da mobilização de reservas. Se plásticos e PFAS ficam guardados nos tecidos, uma queda inicial no sangue pode ser parcialmente compensada por uma nova leva vinda desses depósitos. Os autores levantam a hipótese de que sessões repetidas possam ser necessárias para ver uma redução sustentada, mas isso ainda não foi testado. Eles também notam a falta de um mecanismo unificado de remoção: os dados não permitem afirmar com segurança que lipoproteínas, PFAS e microplásticos saem todos pelo mesmo caminho.

Vale registrar ainda os conflitos de interesse declarados: parte dos autores tem vínculos com fabricantes de equipamentos de aférese, como Ayus Medical Group, Kaneka e Santersus. Isso não invalida os dados, mas é mais um motivo para esperar confirmação independente.

Aférese terapêutica é segura?

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Em linhas gerais, sim. O procedimento é considerado seguro e bem tolerado quando feito em centros experientes e com protocolos padronizados. Os efeitos adversos mais comuns são leves e passageiros: hipotensão leve (pressão baixa), tontura, fadiga, náusea e sintomas ligados ao citrato, o anticoagulante usado no circuito, como formigamento e câimbras musculares. Eventos sérios são raros.

Reações alérgicas podem ocorrer, mas são menos esperadas na dupla filtração e nos sistemas de adsorção, que não usam plasma de doador. Episódios de pressão alta também aparecem ocasionalmente, mas costumam ser controlados com o monitoramento de rotina durante o tratamento.

Por que isso importa?

Se for confirmada em estudos maiores, a aférese terapêutica entraria no kit de ferramentas para enfrentar um problema que não é de poucos: a contaminação humana por plásticos e PFAS. O governo dos Estados Unidos, por meio da agência ARPA-H, já reservou US$ 144 milhões para o programa STOMP, dedicado a medir e remover microplásticos do organismo humano. A aposta do estudo é que a aférese, combinada com diagnósticos mais precisos e ensaios funcionais, possa virar uma plataforma de medicina de precisão para quem está com carga tóxica alta.

O recado honesto, porém, é duplo. Existe uma pista concreta de que uma tecnologia madura pode ser reaproveitada para um problema emergente. E existe o lembrete de que, enquanto a ciência valida o método, os poluentes continuam entrando no corpo todos os dias. Filtrar é uma possibilidade; reduzir a exposição, uma necessidade.

Este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação de um profissional de saúde. Se você tem indicação de aférese por colesterol ou outra condição, converse com a sua equipe médica. A remoção de plásticos e PFAS ainda não é uma indicação aprovada.

Perguntas frequentes

O que é aférese terapêutica?

É um tratamento que filtra o sangue fora do corpo, numa máquina, para retirar substâncias específicas da circulação. Ela é usada há cerca de quatro décadas, principalmente em casos graves de colesterol alto, doenças autoimunes e quadros inflamatórios.

Aférese remove microplásticos do sangue?

Segundo os dados iniciais do estudo, sim: a contagem de nanopartículas caiu em média cerca de 70% após uma sessão, e alguns polímeros foram totalmente removidos em dois pacientes que usaram um adsorvedor extra. Mas a amostra é pequena e os métodos ainda estão em validação.

Como eliminar PFAS do organismo?

Não existe, até agora, um tratamento estabelecido para isso. Este estudo observou que a aférese terapêutica reduziu PFAS no sangue de pacientes, com quedas de até 25% em um laboratório e de até 75,8% em outro, mas os autores reforçam que são resultados preliminares, e a eficácia a longo prazo ainda precisa ser comprovada.

O que são PFAS e onde são encontrados?

São substâncias per e polifluoroalquílicas, um grupo com mais de 4.700 compostos usados no comércio e presentes no ambiente. O estudo destaca a água potável como via de exposição: mais de 99% da população dos Estados Unidos tem PFAS no sangue, e cerca de 200 milhões de pessoas já tiveram contato com água contaminada.

Aférese terapêutica é segura?

Em geral, sim, quando feita em centros experientes. Os efeitos mais comuns são leves, como pressão baixa, tontura, fadiga, náusea e formigamento pelo citrato, e eventos sérios são raros, segundo o artigo.

Fontes

  • Artigo original: “Therapeutic apheresis: An effective strategy for a combined targeting of circulating lipoproteins, inflammatory markers, PFAS, and microplastics in cardiometabolic and neurodegenerative disease?” — Brain Health, publicação online em 04/08/2026, p. 1–13. DOI: 10.61373/bh026a.0024.
  • Medizinisches Labor Bremen (Alemanha) — quantificação de PFAS por LC-MS/MS.
  • Creative Biostructure (Shirley, NY, EUA) — quantificação de PFAS (LC-MS/MS) e de microplásticos (Py-GC-MS).
  • Measurlabs (Helsinki, Finlândia) — análise de microplásticos por Py-GC-MS.
  • IGTP, Germans Trias i Pujol Research Institute (Badalona, Espanha) — contagem de nanopartículas com Nile red e citometria de fluxo.
  • ARPA-H / US Department of Health and Human Services — programa STOMP (Systematic Targeting Of MicroPlastics).

Foto: https://kaboompics.com/ no Pexels

Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.

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