Resumo em 15 segundos
- A pesquisa comparou 71.317 jovens diagnosticados com TDAH ou autismo a 713.170 pessoas sem diagnóstico.
- A diferença ligada ao baixo peso ao nascer recuou de 54% para 17% entre 2012 e 2022.
- Os autores dizem que mais diagnósticos não provam que os transtornos ficaram mais comuns.
- A mudança foi mais forte no TDAH do que no transtorno do espectro autista.
Resumo dos pontos principais. A matéria completa está logo abaixo.
Quem recebe hoje um diagnóstico de TDAH ou de autismo se parece mais com a população geral do que quem recebia o mesmo diagnóstico dez anos atrás. Essa é a conclusão central de um estudo com mais de 2,1 milhões de crianças e adolescentes na Dinamarca, e ela oferece uma explicação possível para o salto nos diagnósticos de TDAH e autismo visto nas últimas décadas, sem afirmar que os transtornos ficaram mais comuns.
A pista mais concreta vem do berçário. No início do período estudado, nascer com baixo peso estava associado a 54% mais chance de receber um desses diagnósticos mais tarde, na comparação com quem nasceu com peso normal. No fim, a diferença havia caído para 17%. O grupo diagnosticado ficou, na prática, mais parecido com todo mundo. E isso muda a forma de ler estatísticas, planejar escolas e organizar serviços de saúde.
O trabalho foi liderado pelo Instituto de Saúde Global de Barcelona (ISGlobal), centro apoiado pela Fundação “la Caixa”, junto com a Universidade de Aarhus, na Dinamarca. Saiu na JAMA Psychiatry, tem Magnus Elias Tarp como primeiro autor e Oleguer Plana-Ripoll como autor sênior. O DOI é 10.1001/jamapsychiatry.2026.2722.
Diagnosticar mais não é o mesmo que adoecer mais
Existe uma diferença que quase sempre passa batido nas manchetes: número de diagnósticos e número real de pessoas com uma condição não são a mesma coisa. Um diagnóstico nasce do encontro entre alguém que tem certas características, alguém que percebe essas características e um sistema de saúde capaz de avaliá-las. Muda qualquer um desses elos, e o número de diagnósticos muda, mesmo que nada tenha mudado na biologia da população.
Pense em quantas pessoas usam óculos numa cidade. Se as consultas oftalmológicas ficarem mais fáceis e usar óculos deixar de ser visto como sinal de fraqueza, mais gente vai usar óculos. Não porque os olhos da população pioraram, mas porque a identificação melhorou. A comparação serve só para ilustrar a lógica, não é uma afirmação sobre a causa do aumento.
A pergunta que os pesquisadores fizeram foi exatamente essa: quem está sendo diagnosticado mudou? A base foram os registros dinamarqueses de crianças nascidas entre 1º de janeiro de 1994 e 31 de dezembro de 2022, acompanhadas até, no máximo, os 18 anos.
O que o estudo com 2,1 milhões de crianças revelou sobre os diagnósticos de TDAH e autismo?
Do total de 2.194.951 crianças e adolescentes no registro, 100.323 (4,6%) receberam diagnóstico de TDAH ou de transtorno do espectro autista antes dos 18 anos. Dentro desse grupo, 71.317 foram diagnosticados entre 2012 e 2022 e entraram no estudo como casos. A idade mediana no diagnóstico foi de 11,4 anos, e 37,1% eram do sexo feminino.
Cada caso foi comparado a 10 controles sem diagnóstico, pareados por sexo, ano de nascimento, município de residência e país de nascimento. A conta final chegou a 713.170 controles. Os pesquisadores avaliaram 19 características anteriores ao diagnóstico: fatores dos pais e da família, condições do parto e do período perinatal (ou seja, em volta do nascimento) e uso de serviços de saúde.
Em todas as características analisadas, o grupo diagnosticado ainda diferia dos controles. A novidade está no que veio depois: essa diferença foi encolhendo ano após ano, sobretudo nos fatores socioeconômicos e perinatais. Entre quem recebeu o diagnóstico dos 10 aos 17 anos, o encolhimento foi mais acentuado do que entre os mais novos. Os padrões se mantiveram parecidos entre meninos e meninas e nas análises restritas a casos com maior certeza diagnóstica.
Baixo peso ao nascer aumenta o risco? Sim, mas menos do que antes
A medida usada aqui é a razão de chances (odds ratio, em inglês), na qual 1,0 significa nenhuma diferença entre os grupos. Para baixo peso ao nascer, o valor caiu de 1,54 (intervalo de confiança de 95%: 1,41 a 1,68) no biênio 2012-2013 para 1,17 (1,10 a 1,24) no biênio 2020-2022.
Ou seja: a associação não desapareceu. Nascer com baixo peso continua ligado a uma chance maior de receber um diagnóstico de TDAH ou de autismo, só que essa ligação ficou bem mais fraca em dez anos. Quedas semelhantes apareceram para parto prematuro e para vários indicadores de desvantagem socioeconômica, como renda e escolaridade dos pais.
Vale um cuidado de leitura: esses percentuais são relativos. Significam “54% mais chance em relação a um grupo de comparação”, não “54 pessoas em cada 100”. O material não informa a chance absoluta, isto é, quantas crianças em cada mil recebem o diagnóstico. Sem esse número, não dá para saber quantas crianças a mais isso representa no dia a dia.
TDAH mudou mais que autismo, e os dados não mostram superdiagnóstico
O encolhimento das diferenças foi maior no TDAH do que no transtorno do espectro autista. Na renda familiar, por exemplo, a razão de chances caiu em média 6,5% ao ano no TDAH (intervalo de confiança de 95%: 5,7% a 7,3%), contra 0,7% ao ano no autismo (-0,1% a 1,5%). Como esse intervalo inclui o zero, a mudança no autismo não foi estatisticamente significativa: na prática, o perfil de quem recebe esse diagnóstico mudou pouco ou nada nesse indicador.
E aí vem a pergunta que costuma aparecer logo depois de qualquer notícia sobre aumento de diagnósticos de autismo: isso quer dizer superdiagnóstico? Os autores dizem que os dados não mostram isso, o que não é o mesmo que provar que ele não existe. “Nossos achados não mostram que essas condições estão sendo superdiagnosticadas nem que ficaram menos graves”, afirma o autor sênior Oleguer Plana-Ripoll, pesquisador do ISGlobal e da Universidade de Aarhus. “Eles indicam que a população que recebe esses diagnósticos mudou ao longo do tempo, e isso precisa ser levado em conta ao interpretar as tendências atuais.”
Por que isso interessa mesmo fora da Dinamarca?
Os dados vêm de registros dinamarqueses, e os próprios autores afirmam que seria preciso repetir a pesquisa em outros países para saber se o padrão se repete. Não há números brasileiros no estudo. Mas o raciocínio vale onde você estiver: quando ler que os diagnósticos de autismo ou de TDAH cresceram, vale perguntar se o aumento é da condição ou da identificação.
A diferença tem efeito prático. Quem planeja serviços de saúde, turmas de escola e apoio social precisa saber se a demanda cresce porque mais crianças têm a condição ou porque mais crianças estão sendo reconhecidas e encaminhadas. Os pesquisadores alertam ainda para um efeito colateral: parte da aparente melhora nos desfechos de quem recebe esses diagnósticos pode vir da mudança no perfil de quem é diagnosticado, e não de um prognóstico necessariamente melhor.
O que o estudo ainda não explica?
Os autores são explícitos sobre os limites. Os dados mostram que o perfil de quem é diagnosticado mudou, mas não permitem dizer quanto cada fator contribuiu. Entre os candidatos estão maior conscientização sobre TDAH e autismo, sistemas de saúde e de educação identificando casos com mais eficiência, mais acesso a avaliações diagnósticas e uma possível mudança no ponto a partir do qual as características neurodesenvolvimentais passam a ser consideradas prejuízo clínico. O estudo não mede o peso de nenhum deles.
Há também uma questão de desenho: trata-se de um estudo de caso-controle, ou seja, uma comparação entre registros que já existiam. Esse tipo de estudo mostra associações, não relações de causa e efeito. “A mensagem principal não é que esses fatores de risco deixaram de ser importantes”, diz Magnus Elias Tarp, doutorando na Universidade de Aarhus e primeiro autor. “O que encontramos é que as pessoas diagnosticadas nos últimos anos se parecem mais com a população geral do que as que receberam os mesmos diagnósticos uma década atrás.”
O trabalho também não permite concluir que a ocorrência real de TDAH e autismo não tenha aumentado. O que ele sustenta é mais modesto e mais útil: o aumento dos diagnósticos não deve ser lido automaticamente como um aumento equivalente no número de pessoas com a condição.
Por que isso importa?
Números de diagnóstico são uma foto do encontro entre pessoas e sistemas, não um retrato direto da biologia. Quando essa foto muda, muda também o que se pensa sobre causas, gravidade e o que esperar de quem recebe o diagnóstico. Interpretações apressadas podem fazer estrago no debate público e na vida de uma família que acabou de receber a notícia.
Entender que o grupo diagnosticado se tornou mais parecido com a população geral não diminui nenhum diagnóstico nem torna a condição mais leve. Faz outra coisa: obriga a separar duas perguntas que vivem coladas. Quantas pessoas têm a condição? E quantas estão sendo identificadas? Sem as duas respostas, qualquer estatística sobre TDAH e autismo conta só metade da história.
Este texto é informativo e não substitui a avaliação de um profissional de saúde.
Perguntas frequentes
Quantas crianças foram analisadas na pesquisa sobre TDAH e autismo?
O registro dinamarquês reuniu 2.194.951 crianças e adolescentes. Desse total, 71.317 foram diagnosticados com TDAH ou autismo entre 2012 e 2022 e entraram como casos, comparados a 713.170 controles sem diagnóstico.
Baixo peso ao nascer aumenta o risco de TDAH e autismo?
A associação existe e continuou acima de 1,0, mas ficou mais fraca: a razão de chances caiu de 1,54 no biênio 2012-2013 para 1,17 no biênio 2020-2022. É uma medida relativa — o estudo não informa a chance absoluta, ou seja, quantas crianças em cada mil recebem o diagnóstico.
TDAH e autismo estão sendo superdiagnosticados?
Os autores afirmam que o estudo não mostra superdiagnóstico nem que os transtornos ficaram menos graves. Segundo eles, o que os dados indicam é que a população que recebe esses diagnósticos mudou ao longo do tempo.
Por que os diagnósticos de TDAH e autismo aumentaram tanto?
O estudo não mede quanto cada fator contribuiu. Os autores citam como possibilidades a maior conscientização, a identificação mais eficaz por sistemas de saúde e educação, o acesso ampliado a avaliações e uma possível mudança no limiar do que é considerado prejuízo clínico.
A mudança nos diagnósticos foi igual para TDAH e autismo?
Não. A redução das diferenças em relação à população geral foi maior no TDAH. Na renda familiar, por exemplo, a razão de chances caiu em média 6,5% ao ano no TDAH, contra 0,7% ao ano no autismo.
Fontes
- Tarp, M. E.; Lousdal, M. L.; Rask, C. U.; Keyes, K. M.; Formánek, T.; Brikell, I.; Liu, X.; Maseras, G. T.; Plana-Ripoll, O. “Changes in Characteristics Associated With ADHD and ASD Diagnoses Over Time”. JAMA Psychiatry, 2026. DOI: 10.1001/jamapsychiatry.2026.2722
- ScienceDaily. “ADHD and autism diagnoses have surged. A massive study may help explain why”, 2026.
- Magnus Elias Tarp, doutorando na Universidade de Aarhus e primeiro autor do estudo, em declaração citada no material.
- Oleguer Plana-Ripoll, pesquisador do ISGlobal e da Universidade de Aarhus e autor sênior, em declaração citada no material.
Foto: Mikhail Nilov no Pexels
Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.




