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Afantasia e sonhos: nem todo mundo sonha do mesmo jeito

Estudo com 84 pessoas com afantasia visual mostra que os sonhos nem sempre combinam com a imaginação acordada e que a afantasia tem formas distintas.

Foto de Dr. Paulo Budri

Biólogo, mestre e doutor em Genética Molecular e Microbiologia Clínica

9 min de leitura ·

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Mulher dormindo tranquilamente em uma cama ao lado da janela, em um quarto
Mulher dormindo tranquilamente em uma cama ao lado da janela, em um quarto
Resumo em 15 segundos
  • Pessoas com afantasia não formam um grupo homogêneo: o conteúdo sensorial dos sonhos varia de pessoa para pessoa.
  • Cerca de 46% das 84 pessoas com afantasia visual do estudo disseram sonhar sempre com imagens; perto de 8% nunca sonham com imagens.
  • A voz interior foi a experiência com associação mais consistente entre o sonho e a imaginação acordada.

Resumo dos pontos principais. A matéria completa está logo abaixo.

Feche os olhos e tente reconstruir uma festa de que você participou: o lugar, o som das conversas, a música ao fundo, o gosto da comida, a textura do bolo na mão. A maioria das pessoas monta esse cenário na cabeça, ao menos em parte. Quem tem afantasia não consegue, pelo menos não de propósito e enquanto está acordado. Só que a relação entre afantasia e sonhos é mais estranha do que essa definição sugere: muita gente com afantasia relata sonhos com imagens, sons e conversas inteiras.

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Qual porcentagem do grupo com afantasia visual marcou zero na escala de imaginação visual do estudo?

Seu palpite50%

Um estudo publicado na Scientific Reports em 12 de junho de 2026 olhou, segundo os autores, para algo que nenhuma pesquisa havia examinado antes: o perfil multissensorial dos sonhos de pessoas com afantasia, comparado com aquilo que elas conseguem imaginar acordadas. A resposta não é um número só. Cerca de 46% das 84 pessoas com afantasia visual do estudo disseram sonhar sempre com imagens. Perto de 8% nunca sonham com imagens.

Dados do estudo: a pesquisa foi conduzida por Dr. Derek H. Arnold e Loren N. Bouyer, do Perception Lab da Escola de Psicologia da Universidade de Queensland, na Austrália, com Merlin Monzel, do Departamento de Psicologia da Universidade de Bonn, na Alemanha. Foi publicada na Scientific Reports (volume 16, artigo 32998) e teve financiamento do Australian Research Council. DOI: 10.1038/s41598-026-56386-9.

O que é afantasia, e por que “não ver imagens” é uma definição curta demais?

Afantasia é a incapacidade de produzir imagens mentais voluntárias, ou seja, de evocar de propósito uma cena, um rosto, um som na cabeça. O termo foi criado em 2015 por Adam Zeman e colegas, da Universidade de Exeter, no Reino Unido, cinco anos depois de o mesmo grupo descrever o caso de um homem que havia perdido a capacidade de visualizar. Quem nunca teve essa capacidade em momento nenhum da vida é chamado de afantásico congênito.

Só que o fenômeno é mais amplo do que a falta de figuras. Muitas pessoas com afantasia também relatam não conseguir imaginar sons, gostos, cheiros, toques e sensações de movimento do corpo. Um levantamento anterior citado pelos autores, que aplicou análise de agrupamento a um banco grande de respostas, encontrou subgrupos bem diferentes: cerca de 24% com afantasia global, sem nenhum tipo de experiência imaginada; cerca de 12% com afantasia multissensorial, com sensações fracas em modalidades além da visão; e cerca de 30% com afantasia apenas visual. A pergunta “afantasia é só a falta de imaginação visual?” já tinha resposta: não.

Dentro do sonho, o grupo com afantasia se divide

Os pesquisadores recrutaram 84 pessoas com afantasia visual e 121 pessoas para um grupo de comparação. Todas responderam questionários online. Entre as pessoas com afantasia visual, 66 das 84 (cerca de 79%) marcaram zero na subescala visual do Plymouth Sensory Imagery Questionnaire, o PSIQ, um instrumento que mede o quanto as imagens mentais de cada pessoa são nítidas em seis modalidades.

Mesmo nesse grupo, a imaginação não era nula em todos os sentidos. Conforme o sentido avaliado, entre 12% e 26% dos afantásicos visuais tiveram notas que indicam imagens ao menos moderadas em outras modalidades, como cheiro ou movimento do corpo. E 25 dos 84, cerca de 30%, disseram conseguir ao menos às vezes alguma imagem visual ao recordar acontecimentos da própria vida.

Nos sonhos, a variedade apareceu com força. Cerca de 46% das pessoas com afantasia visual disseram ter sempre sonhos com imagens. Cerca de 8% disseram nunca ter. Nenhuma pessoa do grupo de comparação afirmou nunca sonhar com imagens. A ausência de sonhos visuais, aliás, foi uma das dificuldades menos relatadas: faltar sensações de gosto, cheiro e toque nos sonhos foi mais comum do que faltar imagem.

Na média, o grupo com afantasia relatou experiências sensoriais nos sonhos com menos frequência que o grupo de comparação. Também demonstrou mais incerteza, em todas as modalidades, uma proporção maior de pessoas com afantasia disse nunca ter aquela sensação dormindo ou não saber se tem. Um estudo anterior do grupo de Zeman, citado no artigo, tinha encontrado algo parecido: cerca de 63% dos afantásicos visuais diziam ter sonhos visuais, o que significa que cerca de 37% não tinham, proporção mais de três vezes maior que a do grupo de controle.

Afantasia e sonhos: onde a correspondência é mais forte

O objetivo central era verificar se o conteúdo sensorial dos sonhos combina com o que a pessoa consegue imaginar acordada. Combina, em média, mas com força variável. O elo mais consistente envolve a voz interior: pessoas com afantasia tenderam a apontar a conversa interna como sua sensação imaginada mais forte, enquanto o grupo de comparação elegeu as visualizações.

Além da voz interior, houve associações consistentes para os sons imaginados e, em uma das medidas, para o paladar. A correlação mais alta do estudo ficou em 0,41, numa escala em que 1 seria a correspondência perfeita. É uma relação real, mas moderada.

O achado que mais interessou os autores é outro. Os pesquisadores calcularam, para cada pessoa, a distância entre o que ela relata sonhar e o que consegue imaginar acordada. Comparando essas distâncias medidas por instrumentos diferentes, as correlações ficaram em no mínimo 0,79. Em termos práticos: quem tinha pouca diferença entre sonho e vigília mantinha essa proximidade em todos os instrumentos; quem tinha diferença grande também era coerente. Cada pessoa parece ter um padrão próprio e estável, não um borrão aleatório.

O conteúdo dos sonhos ainda acompanhou o uso cotidiano da imaginação. Quem sonhava com frequência com sons e conversas tendia a relatar que ensaia diálogos na cabeça antes de falar com alguém, para evitar situações desconfortáveis. Quem sonhava com o corpo em movimento tendia a relatar que sente o corpo ensaiando o gesto antes de uma ação difícil, como saltar sobre algo.

A hipótese dos autores: circuitos que se conectam de jeitos diferentes

Aqui o texto entra no terreno da especulação. Uma das principais teorias sobre a origem da afantasia propõe que ela acontece quando diversas regiões do cérebro, incluindo áreas do córtex pré-frontal, do córtex parietal inferior e o giro fusiforme, deixam de trabalhar em conjunto. Seria uma espécie de desconexão funcional.

Se essa desconexão for parecida nos dois estados de consciência, isso explicaria as pessoas que relatam sonhos e imaginação acordada bem alinhados. Os autores chegam a levantar a possibilidade de que esse grupo tenha mais propensão a sonhos lúcidos, já que a fronteira entre dormir e acordar seria menos nítida. É uma suposição, não um resultado medido.

Para o outro grupo, a explicação seria diferente: o cérebro adormecido conseguiria gerar sensações que a vigília não gera. Os autores defendem que deve existir algum fator neurológico determinando qual dos dois casos acontece e propõem estudar o cérebro desses grupos enquanto dormem e enquanto tentam imaginar acordados.

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Relato de memória: o que o desenho do estudo não permite concluir?

Os próprios autores são explícitos sobre os limites. O estudo é exploratório. Todos os dados são subjetivos, baseados em autorrelato e, no caso dos sonhos, na memória de algo que aconteceu durante o sono. São dados falíveis por definição, como eles escrevem.

Além disso, as relações são correlacionais. Uma associação entre dois fenômenos é compatível com uma causa neural comum, mas não prova que ela exista, e os autores classificam esse tipo de evidência como fraca. O grupo de 84 pessoas com afantasia visual permite documentar a diversidade de padrões, mas não é grande o suficiente para a análise de agrupamento que outras pesquisas com amostras maiores conseguiram fazer.

Há ainda a forma de recrutamento. Dos 262 participantes que começaram a pesquisa, parte tinha procurado os pesquisadores por se considerar afantásica e parte veio de uma plataforma online de pesquisas remuneradas. Pessoas que já acompanham o tema podem descrever as próprias experiências de um jeito diferente do resto da população, o que limita a generalização dos resultados.

Uma saída sugerida pelos pesquisadores seria trazer o sonho para o laboratório: acordar as pessoas e perguntar imediatamente sobre o que acabaram de viver, encurtando a distância entre a experiência e o relato.

Uma mente sem imagens não é uma só

A implicação prática imediata é pequena: não há exame, diagnóstico ou tratamento em jogo aqui. O que muda é a forma de entender o fenômeno. Se sonhos e imaginação acordada variam tanto dentro da afantasia, tratar todo mundo que não visualiza como um grupo único faz pouco sentido.

Os dois primeiros autores do artigo se descrevem como afantásicos congênitos e dizem que as diferenças entre os próprios sonhos foram uma das motivações da pesquisa. Isso aparece no texto como experiência pessoal, não como dado científico.

Na prática, duas pessoas que não conseguem visualizar uma paisagem acordadas podem ter experiências completamente diferentes quando dormem. Essa diferença, segundo os autores, é consistente o bastante para indicar que existem formas distintas de afantasia, talvez com bases neurológicas distintas. O estudo não fecha essa pergunta. Ajuda a formulá-la melhor.

Perguntas frequentes

Quantas pessoas participaram da pesquisa sobre afantasia e sonhos?

O grupo analisado reuniu 84 pessoas com afantasia visual e 121 pessoas no grupo de comparação. Os participantes responderam a questionários online, e quem falhou nos testes de atenção ou não terminou a tarefa foi excluído das análises.

O que é hipofantasia?

Hipofantasia é o nome dado a quem tem imagens mentais fracas, e não ausentes. O estudo incluiu no grupo com afantasia visual quem marcou 10 ou menos na subescala visual do PSIQ. Dentro desse grupo, 66 pessoas marcaram zero, ou seja, ausência total de imagens; as que marcaram entre 1 e 8 seriam, pelo critério dos próprios autores, hipofantásicas.

O estudo observou o cérebro dos participantes?

Não. Todos os dados vieram de questionários de autorrelato respondidos online, e os autores classificam o conjunto como inteiramente subjetivo. A proposta de examinar a atividade cerebral das pessoas com afantasia enquanto dormem e enquanto tentam imaginar acordadas ficou como sugestão para pesquisas futuras.

Fontes

Arnold, D. H.; Bouyer, L. N.; Monzel, M. "Heterogeneous relationships between the multisensory content of aphantasics’ dreams and their volitional waking imagined experiences". Scientific Reports, volume 16, artigo 32998, 2026. DOI: 10.1038/s41598-026-56386-9

Conjunto de dados e scripts da análise, disponíveis no UQ eSpace. DOI: 10.48610/d3654a6

Zeman, A.; Dewar, M.; Della Sala, S. "Lives without imagery: congenital aphantasia". Cortex, 2015. DOI: 10.1016/j.cortex.2015.05.019

Zeman, A. et al. "Loss of imagery phenomenology with intact visuo-spatial task performance: a case of blind imagination". Neuropsychologia, 2010. DOI: 10.1016/j.neuropsychologia.2009.08.024

Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri. Revisada em novembro de 2026.

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