Refrigerantes diet, produtos “zero açúcar” e o sachê de adoçante no cafezinho são vendidos há décadas como a alternativa segura ao açúcar — em especial para quem tem diabetes e recebe orientação médica para cortar o açúcar. Mas um grande estudo brasileiro acaba de complicar essa conta: entre os que mais consomem adoçantes, o declínio cognitivo foi 62% mais rápido do que entre os que menos consomem, algo equivalente a cerca de 1,6 ano a mais de envelhecimento do cérebro.
O trabalho foi publicado na Neurology, revista da Academia Americana de Neurologia, e usou dados do ELSA-Brasil, uma das maiores coortes de saúde do país. Antes do alarme: é um estudo observacional, que mostra associação e não prova de causa — e, como você vai ver, os detalhes mudam bastante a leitura.
Ficha do estudo: “Association Between Consumption of Low- and No-Calorie Artificial Sweeteners and Cognitive Decline”, de Natalia Gomes Gonçalves e colaboradores, tendo a geriatra Claudia Kimie Suemoto (Faculdade de Medicina da USP) como autora sênior. Publicado na Neurology em 2025. DOI: 10.1212/WNL.0000000000214023. Foram acompanhados 12.772 adultos brasileiros, com idade mediana de 52 anos, por cerca de 8 anos.
O que o estudo encontrou?
Os pesquisadores dividiram os participantes conforme o consumo de adoçantes e mediram a evolução de memória, fluência verbal e cognição global ao longo dos anos. Quem estava no grupo de maior consumo (em média 191 mg por dia — o equivalente, em aspartame, a mais ou menos um refrigerante diet diário) teve um declínio 62% mais rápido do que o grupo de menor consumo (cerca de 20 mg por dia). O grupo intermediário também piorou mais rápido, cerca de 35%.
Traduzindo o número mais citado: essa diferença equivale a somar aproximadamente 1,6 ano de envelhecimento cerebral. Não é uma perda catastrófica de um dia para o outro, mas um efeito que se acumula silenciosamente ao longo da vida — e que, numa escala populacional, é relevante.
Quais adoçantes entraram na conta
O estudo analisou sete adoçantes: aspartame, sacarina, acessulfame-K, eritritol, xilitol, sorbitol e tagatose. Seis deles se associaram ao declínio mais rápido. A exceção foi a tagatose, que não mostrou ligação com a piora cognitiva — um detalhe importante, porque indica que o efeito não é necessariamente “de todo adoçante”, e sim de compostos específicos.
Todos esses ingredientes são onipresentes: aparecem em refrigerantes e sucos diet, iogurtes e sobremesas “zero”, gomas de mascar, produtos light e nos adoçantes de mesa. Vale notar que o estudo não incluiu a sucralose, um dos adoçantes mais usados no Brasil.
O detalhe que muda tudo: idade e diabetes
Aqui estão as duas nuances mais importantes — e as mais ignoradas na cobertura do tema. Primeira: o efeito apareceu sobretudo nas pessoas com menos de 60 anos. Entre os participantes acima dessa idade, os pesquisadores não encontraram associação. Isso sugere que a meia-idade pode ser uma janela mais sensível, embora o motivo ainda não esteja claro.
Segunda, e ainda mais delicada: a ligação com o declínio cognitivo foi mais forte em quem tem diabetes. Justamente o público que mais é orientado a trocar açúcar por adoçante. É um achado que merece atenção, mas que não deve ser lido como um sinal para voltar ao açúcar — como veremos, a conta é mais complicada do que parece. Pessoas com diabetes têm no controle glicêmico uma prioridade inegociável.
Associação não é causa
Este é o ponto que separa uma manchete responsável de uma assustadora. O estudo encontrou uma correlação, não uma relação de causa e efeito. É plausível, por exemplo, que pessoas em início de declínio cognitivo — ou com pior saúde metabólica — já consumam mais produtos diet, e não o contrário. Outros hábitos de vida, não totalmente capturados, também influenciam a cognição.
A própria autora sênior, Claudia Suemoto, foi cautelosa ao frisar que, por ser observacional, o trabalho só permite falar em associação. Para cravar causalidade, seriam necessários ensaios clínicos e acompanhamentos ainda mais longos. O resultado é um sinal de alerta que pede mais pesquisa, não um veredito final contra os adoçantes.
O que fazer na prática (sobretudo se você tem diabetes)
A pior reação a este estudo seria abandonar o adoçante e voltar ao açúcar por conta própria. O dano do açúcar em excesso é bem estabelecido, e para quem tem diabetes o risco do descontrole glicêmico é concreto e imediato. Trocar um risco comprovado por uma incerteza não é uma boa troca.
O caminho mais sensato é a moderação: reduzir o consumo geral de produtos ultraprocessados e diet quando possível, priorizar água e bebidas naturalmente sem açúcar, e não tratar o rótulo “zero” como sinônimo de “consuma à vontade”. Uma alimentação equilibrada e hábitos que já têm evidência sólida para o cérebro — como boa qualidade da dieta, sono e atividade física — seguem sendo a aposta mais segura. E qualquer mudança relevante, especialmente para quem usa adoçante por indicação médica, deve passar pelo profissional que acompanha o caso.
Perguntas frequentes
Adoçante faz mal para o cérebro?
Um estudo brasileiro de grande porte associou o consumo alto de vários adoçantes a um declínio cognitivo mais rápido, sobretudo em pessoas com menos de 60 anos. Mas é uma associação, não prova de causa. Não há motivo para pânico — e sim para moderação.
Quais adoçantes foram associados ao declínio cognitivo?
Seis dos sete analisados: aspartame, sacarina, acessulfame-K, eritritol, xilitol e sorbitol. A tagatose não mostrou associação. A sucralose não foi avaliada neste estudo.
Quem tem diabetes deve parar de usar adoçante?
Não por conta própria. Embora a associação com o declínio tenha sido mais forte em pessoas com diabetes, voltar ao açúcar traz riscos comprovados ao controle glicêmico. O ideal é conversar com o médico e, se for o caso, reduzir o consumo geral de produtos diet, sem eliminá-los abruptamente.
Adoçante causa Alzheimer ou demência?
Não há prova disso. O estudo mediu velocidade de declínio cognitivo, não diagnóstico de demência, e por ser observacional não estabelece causa. Ele levanta uma hipótese que precisa ser confirmada por pesquisas futuras.
Nota do editor: este conteúdo é informativo e baseado em evidência científica. Pessoas com diabetes ou outras condições que usam adoçantes por recomendação médica devem consultar o médico antes de mudar o consumo.
Matéria escrita e revisada por Paulo Budri. Fonte: Gonçalves et al., Neurology (2025); cobertura no Medical News Today. Leia também: ômega-3 e declínio cognitivo e exame de sangue que prevê risco de Alzheimer.





