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Estudo mostra qual o melhor método para parar de fumar

Revisão Cochrane com 29.861 pessoas aponta que o cigarro eletrônico com nicotina ajuda mais a parar de fumar que adesivo e chiclete de nicotina.

Foto de Dr. Paulo Budri

Biólogo, mestre e doutor em Genética Molecular e Microbiologia Clínica

8 min de leitura ·

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Pessoa usando cigarro eletrônico como alternativa para parar de fumar, segundo revisão Cochrane
Pessoa usando cigarro eletrônico como alternativa para parar de fumar, segundo revisão Cochrane
Resumo em 15 segundos
  • Uma revisão Cochrane com 29.861 pessoas indica que cigarros eletrônicos com nicotina ajudam mais a parar de fumar que adesivos e chicletes.
  • A cada 100 pessoas, cerca de 4 a mais pararam de fumar com cigarro eletrônico do que com reposição de nicotina.
  • Os autores não viram evidência de dano grave, mas o benefício vale só para dispositivos regulamentados com nicotina.

Resumo dos pontos principais. A matéria completa está logo abaixo.

Quem já tentou parar de fumar conhece a cena: adesivo no braço, chiclete de nicotina na boca, força de vontade no máximo e, muitas vezes, a recaída. Uma revisão atualizada da Cochrane comparou esses caminhos com o cigarro eletrônico e chegou a um resultado que incomoda quem torce o nariz para o vape. Quando o dispositivo contém nicotina e passa por regulamentação, ele ajuda mais gente a largar o cigarro do que adesivos, chicletes, apoio comportamental ou simplesmente tentar parar sem ajuda nenhuma.

Nas contas da revisão, o cigarro eletrônico aparece como a opção de melhor desempenho entre as comparadas. A cada 100 pessoas que usaram dispositivos com nicotina, cerca de 4 a mais conseguiram parar, em comparação com quem recebeu reposição de nicotina, ou seja, adesivos e chicletes. Os números vêm de 80 ensaios clínicos randomizados, com 29.861 participantes ao todo, gente suficiente para encher um estádio de futebol.

A revisão é uma “revisão sistemática viva”, expressão que descreve um trabalho atualizado sempre que surge evidência nova. A versão mais recente reúne 80 ensaios clínicos randomizados e 29.861 participantes, com nove ensaios acrescentados nesta atualização. A autora principal é Nicola Lindson, da Universidade de Oxford, e a autora sênior é Jamie Hartmann-Boyce, da Universidade de Massachusetts Amherst. O trabalho é uma revisão Cochrane. DOI: 10.1002/14651858.CD010216.pub11.

Cigarro eletrônico para parar de fumar: o que é reposição de nicotina?

Reposição de nicotina é o nome dado ao uso de adesivos, chicletes, pastilhas ou sprays que entregam nicotina ao corpo sem a fumaça do cigarro. A lógica é aliviar a abstinência enquanto a pessoa acaba com o hábito de fumar. O cigarro eletrônico segue outro caminho: aquece um líquido e gera vapor, imitando o gesto de fumar, geralmente com nicotina na fórmula.

Vale entender também o que significa “alta certeza” numa revisão. É uma nota que os pesquisadores dão à confiança no resultado. Quando ela é alta, como neste caso, significa que novos estudos dificilmente mudariam a conclusão.

O que a revisão Cochrane encontrou?

Sim, o cigarro eletrônico com nicotina ajuda a parar de fumar e, na comparação direta, funcionou melhor que adesivo e chiclete de nicotina. Os pesquisadores classificaram essa evidência como de alta certeza.

Sobre quantas pessoas a mais param de fumar com cigarro eletrônico: cerca de 4 a mais a cada 100, na comparação com a reposição de nicotina. Já cigarros eletrônicos sem nicotina, foram cerca de 2 a mais a cada 100. Quem recebeu o dispositivo também parou mais do que quem não teve apoio algum ou recebeu apenas apoio comportamental, como aconselhamento individual e programas em grupo. Nesse último caso, porém, os autores têm menos confiança no resultado, por causa do risco de distorção no desenho de alguns estudos.

“Temos evidência muito forte de que cigarros eletrônicos regulamentados com nicotina são substancialmente menos nocivos do que fumar”, afirma Hartmann-Boyce. “Com a consistência dos achados, fica claro que são uma opção comprovada e viável para quem quer largar o cigarro tradicional. Esta atualização inclui 9 novos ensaios e nossas conclusões principais não mudaram.”

Quais são os riscos do cigarro eletrônico?

A revisão não encontrou evidência de que usar cigarro eletrônico para parar de fumar aumente o risco de danos graves. Isso não significa risco zero: os autores afirmam que ainda são necessárias pesquisas de longo prazo. O vapor também carrega nicotina e outras substâncias.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) mantém o alerta de que os cigarros eletrônicos expõem o usuário a nicotina e a químicos que podem fazer mal. Autoridades de saúde também manifestam preocupação com o uso entre crianças e jovens, que pode levar à dependência de nicotina e ao consumo posterior de produtos de tabaco.

E o cigarro eletrônico é menos prejudicial que o cigarro comum? Segundo os autores da revisão, sim os riscos existem, mas são bem menores do que os de continuar fumando. Para quem ainda fuma, essa é a comparação que mais importa.

Por que isso importa para quem fuma, e para o mundo?

O cigarro segue como a principal causa evitável de doença e morte no planeta. De acordo com a OMS, ele é responsável por mais de sete milhões de mortes por ano, incluindo 1,6 milhão entre não fumantes expostos à fumaça de segunda mão. Cada método que aumenta a chance de alguém largar o vício tem peso nessa escala, mesmo quando o ganho parece pequeno no papel: 4 em cada 100.

Só que esse ganho depende do tipo de aparelho. As conclusões valem para cigarros eletrônicos regulamentados e com nicotina. Produtos ilegais, ou com outras substâncias como THC, podem apresentar riscos diferentes. “Vale destacar que nossa revisão analisa cigarros eletrônicos regulamentados que contêm nicotina, mas muitos dos que estão no mercado não cumprem esses padrões”, diz Hartmann-Boyce. Ela cita problemas como baterias instáveis e químicos nocivos e recomenda comprar apenas dispositivos testados e aprovados pelo órgão regulador do país — nos Estados Unidos, a FDA; no Reino Unido, a MHRA.

O que o estudo ainda não explica?

Algumas perguntas continuam abertas. Faltam dados de longo prazo sobre o uso contínuo do vape, e os autores fazem questão de dizer que o cigarro eletrônico pode não ser a melhor saída para todo mundo. Quem quer parar de fumar é orientado a procurar serviços de apoio e profissionais de saúde para escolher a abordagem mais adequada ao seu caso.

Existe ainda a diferença entre parar de fumar e abandonar a nicotina. Hartmann-Boyce enxerga a troca pelo vape como uma etapa possível na saída do cigarro, não necessariamente como o destino final. Ela conta que a equipe já trabalha numa revisão sobre intervenções para ajudar quem quer largar o vape, o próximo passo de quem pretende migrar para um produto de menor risco antes de se livrar da nicotina de vez.

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Por que isso importa?

Parar de fumar raramente acontece na primeira tentativa. “Muita gente que fuma já tentou várias vezes e não conseguiu”, lembra Nicola Lindson. “Por isso é importante que existam várias opções diferentes para ajudar alguém a parar, o que pode incentivar a pessoa a continuar tentando.”

É aí que a revisão Cochrane ganha sentido prático. Ela não diz que o vape é inofensivo, nem que serve para todos. Diz que, entre as ferramentas disponíveis, os dispositivos regulamentados com nicotina aparecem com a evidência mais forte de eficácia e que, para quem já é dependente de nicotina pelo cigarro, uma alternativa menos danosa pode valer a conversa com um profissional de saúde. Este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação de um médico ou de um serviço de apoio para parar de fumar.

Fontes

  • Revisão Cochrane sobre cigarros eletrônicos para cessação do tabagismo — autoria principal de Nicola Lindson (Universidade de Oxford) e autoria sênior de Jamie Hartmann-Boyce (Universidade de Massachusetts Amherst); 80 ensaios clínicos randomizados e 29.861 participantes.
  • Jamie Hartmann-Boyce, autora sênior da revisão (declarações reproduzidas no material).
  • Nicola Lindson, autora principal da revisão (declarações reproduzidas no material).
  • Organização Mundial da Saúde (OMS) — dados sobre mortes por tabagismo e alertas sobre cigarros eletrônicos.
  • FDA (Estados Unidos) e MHRA (Reino Unido) — citadas como fontes de listas de dispositivos regulamentados.

Perguntas frequentes

Cigarro eletrônico ajuda a parar de fumar?

Sim, segundo a revisão Cochrane: cigarros eletrônicos com nicotina ajudaram mais pessoas a parar de fumar do que adesivos, chicletes, apoio comportamental ou nenhum apoio. A evidência dessa comparação com a reposição de nicotina foi classificada como de alta certeza.

Cigarro eletrônico funciona melhor que adesivo de nicotina?

Sim. Na comparação direta, o cigarro eletrônico com nicotina apresentou taxas de cessação maiores que a reposição de nicotina, com evidência de alta certeza. Isso não significa que ele seja a melhor opção para todo mundo, e os autores recomendam conversar com um profissional de saúde.

Quantas pessoas a mais param de fumar com cigarro eletrônico?

Cerca de 4 a mais a cada 100, na comparação com adesivos e chicletes de nicotina. Em relação a cigarros eletrônicos sem nicotina, foram cerca de 2 a mais a cada 100.

Quais são os riscos do cigarro eletrônico?

A revisão não encontrou evidência de aumento do risco de danos graves, mas os autores dizem que faltam pesquisas de longo prazo. A OMS alerta que os produtos expõem o usuário a nicotina e a químicos potencialmente nocivos, e que o uso entre jovens pode levar à dependência.

Cigarro eletrônico é menos prejudicial que o cigarro comum?

Segundo os autores da revisão, sim: os riscos do vape existem, mas são bem menores do que os de continuar fumando cigarro. Para quem ainda fuma, essa é a comparação considerada mais relevante.

Qualquer cigarro eletrônico serve para parar de fumar?

Não. As conclusões valem apenas para dispositivos regulamentados que contêm nicotina. Produtos ilegais ou com outras substâncias, como THC, podem trazer riscos diferentes, e os autores citam problemas como baterias instáveis e químicos nocivos em aparelhos não licenciados.

Foto: Mr Flame no Pexels

Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.

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