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Qual é a pimenta mais forte do mundo? A resposta mudou em 2023

pimenta mais forte do mundo
Resumo em 15 segundos
  • As duas foram criadas pela mesma pessoa: Ed Currie, da Puckerbutt Pepper Company, na Carolina do Sul.
  • A escala foi criada em 1912 pelo farmacêutico americano Wilbur Scoville e mede a concentração de capsaicina, o composto responsável pela ardência.
  • As reportagens de 2017 sobre a Dragon’s Breath afirmavam que comê-la fecharia as vias aéreas e levaria a choque anafilático e morte.

Resumo dos pontos principais. A matéria completa está logo abaixo.

A pimenta mais forte do mundo hoje é a Pepper X, reconhecida oficialmente pelo Guinness World Records em outubro de 2023, com média de 2.693.000 unidades Scoville. Ela destronou a Carolina Reaper, que reinava desde 2013 com média de 1,64 milhão.

As duas foram criadas pela mesma pessoa: Ed Currie, da Puckerbutt Pepper Company, na Carolina do Sul. A medição da Pepper X foi feita pela Universidade Winthrop, também na Carolina do Sul, a partir de amostras coletadas ao longo de quatro anos — e não de um único fruto.

O que é a escala Scoville

A escala foi criada em 1912 pelo farmacêutico americano Wilbur Scoville e mede a concentração de capsaicina, o composto responsável pela ardência.

O método original era um teste de diluição com painel humano: o extrato da pimenta era diluído em água com açúcar até que provadores não sentissem mais a ardência. O número de diluições virava a pontuação. Hoje a medição é feita por cromatografia líquida, que quantifica a capsaicina diretamente, e o resultado é convertido para a escala Scoville.

Para dar referência: um pimentão fica em zero; a jalapeño gira entre 2.500 e 8.000 SHU; a malagueta brasileira, entre 50 mil e 100 mil.

Pepper X, Carolina Reaper e as demais

A disputa pelo topo mudou bastante em uma década. O quadro oficial hoje é este:

  • Pepper X — 2.693.000 SHU de média. Recorde oficial desde outubro de 2023;
  • Carolina Reaper — 1,64 milhão de SHU de média. Recorde anterior, de 2013 a 2023;
  • Trinidad Moruga Scorpion e Naga Viper — recordistas anteriores, na casa do 1,4 milhão;
  • Malagueta — entre 50 mil e 100 mil SHU, para efeito de comparação.

E a pimenta “bafo do dragão”?

Em maio de 2017, a imprensa britânica noticiou que uma pimenta chamada Dragon’s Breath — bafo do dragão — teria alcançado 2,48 milhões de SHU, superando a Carolina Reaper. Ela foi cultivada por Mike Smith, um horticultor do País de Gales, em colaboração com a Universidade Nottingham Trent.

A história rendeu manchetes, mas há um detalhe decisivo que costuma ficar de fora: a Dragon’s Breath nunca foi certificada pelo Guinness, e a variedade não é considerada estável — ou seja, o resultado não se repete de forma confiável de uma safra para outra.

Por isso ela não consta dos registros oficiais. O recorde passou da Carolina Reaper direto para a Pepper X.

A pimenta pode matar? O que se sabe de verdade

As reportagens de 2017 sobre a Dragon’s Breath afirmavam que comê-la fecharia as vias aéreas e levaria a choque anafilático e morte. Isso não é o que a evidência mostra. Choque anafilático é uma reação alérgica grave, e não o mecanismo pelo qual a capsaicina age — ela ativa receptores de dor e calor, o que produz uma sensação de queimação intensa, mas não é uma resposta alérgica.

Isso não significa que comer pimentas extremas seja inofensivo. Há efeitos documentados na literatura médica: dor intensa, vômito, náusea e, em casos raros, complicações mais sérias.

O caso mais conhecido foi publicado em 2018 no BMJ Case Reports (DOI 10.1136/bcr-2017-224085): um homem que comeu uma Carolina Reaper em um concurso desenvolveu cefaleia em trovoada — dor de cabeça de início súbito e intensidade máxima — causada por síndrome de vasoconstrição cerebral reversível, com estreitamento temporário de artérias do cérebro. Os exames de imagem confirmaram o quadro, e as artérias voltaram ao normal cinco semanas depois.

A leitura correta, portanto, é: risco real e documentado, mas diferente do que se dizia — e reversível no caso relatado.

Por que existe interesse médico em pimentas tão fortes

A capsaicina em concentração alta tem uma propriedade que interessa à medicina: depois de provocar a queimação inicial, ela dessensibiliza as terminações nervosas da região, reduzindo a transmissão de dor.

É por isso que a substância já é usada em adesivos e cremes analgésicos para dor neuropática. A pesquisa com variedades extremas tem justamente esse objetivo: obter capsaicina em concentração elevada para aplicações anestésicas e analgésicas.

Vale a ressalva: isso é pesquisa e uso farmacêutico controlado, com dose e formulação definidas. Não tem relação com comer a pimenta.

O que fazer se comer uma pimenta muito forte

Água ajuda pouco. A capsaicina é lipossolúvel — dissolve em gordura, não em água —, então beber água tende a espalhar a substância pela boca em vez de removê-la.

Funcionam melhor leite integral, iogurte e outros laticínios, porque a caseína ajuda a arrastar a capsaicina. Alimentos gordurosos e açúcar também aliviam.

Procure atendimento médico se houver dor no peito, falta de ar, vômito persistente ou dor de cabeça súbita e intensa.

Perguntas frequentes

Qual é a pimenta mais forte do mundo?

É a Pepper X, reconhecida pelo Guinness World Records em outubro de 2023, com média de 2.693.000 unidades Scoville. Ela superou a Carolina Reaper, que tinha média de 1,64 milhão.

A pimenta bafo do dragão é a mais forte?

Não. A Dragon’s Breath teve 2,48 milhões de SHU noticiados em 2017, mas nunca foi certificada pelo Guinness e a variedade não é considerada estável, por isso não consta dos registros oficiais.

O que é a escala Scoville?

É a escala que mede a ardência das pimentas pela concentração de capsaicina. Criada em 1912 por Wilbur Scoville com um teste de diluição por painel humano, hoje é medida por cromatografia líquida.

Comer pimenta muito forte pode matar?

Não pelo mecanismo que costuma ser citado: capsaicina não provoca choque anafilático, que é uma reação alérgica. Mas há complicações documentadas, como um caso publicado no BMJ Case Reports em que a Carolina Reaper provocou cefaleia em trovoada por vasoconstrição cerebral reversível.

O que corta a ardência da pimenta?

Laticínios como leite integral e iogurte, porque a capsaicina é lipossolúvel e a caseína ajuda a removê-la. Água ajuda pouco e pode espalhar a substância pela boca.

Fontes

  • Recorde oficial: Guinness World Records — Pepper X destrona a Carolina Reaper, outubro de 2023. Medição feita pela Universidade Winthrop.
  • Contexto e entrevista com o criador Ed Currie: cobertura da CNN.
  • Caso médico: An unusual cause of thunderclap headache after eating the hottest pepper in the world. BMJ Case Reports, 2018. DOI 10.1136/bcr-2017-224085.

Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.

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