Resumo em 15 segundos
- Louis Tomososki tinha 16 anos quando observou um eclipse parcial do campo de beisebol da escola, em Portland, nos Estados Unidos, em 1963.
- Quando você olha para o Sol, o cristalino faz o que sempre faz — concentra a luz num ponto da retina.
- Desses, 6 apresentaram achados no exame compatíveis com retinopatia solar.
Resumo dos pontos principais. A matéria completa está logo abaixo.
Louis Tomososki tinha 16 anos quando observou um eclipse parcial do campo de beisebol da escola, em Portland, nos Estados Unidos, em 1963. Fechou o olho esquerdo e olhou com o direito. Foram cerca de 20 segundos.
Aquele olhar deixou um ponto cego permanente na retina. Mais de cinco décadas depois, ele descreve assim: consegue ver o rosto de quem está à sua frente, mas não o nariz e os detalhes do centro. A lesão nunca piorou — e nunca melhorou.
O nome do que aconteceu com ele é retinopatia solar, e o mais perigoso dessa lesão é o que ela não tem: dor.
O que é retinopatia solar
Quando você olha para o Sol, o cristalino faz o que sempre faz — concentra a luz num ponto da retina. É o mesmo princípio da lupa que queima uma folha de papel, só que o alvo é o tecido que capta as imagens.
O dano é sobretudo fotoquímico: a radiação desencadeia reações que destroem as células fotorreceptoras da região central da retina, a mácula — justamente a área responsável pela visão de detalhe.
Não existe tratamento capaz de reverter isso. Parte dos casos melhora parcialmente ao longo de meses; parte fica como ficou o caso de Tomososki: permanente.
Por que não dói — e por que isso é o problema
A retina não tem receptores de dor. Você pode estar queimando o próprio tecido ocular sem sentir absolutamente nada.
É o oposto de quase todo dano corporal, em que a dor funciona como alarme e faz a pessoa recuar. Aqui não há alarme. O desconforto que se sente ao olhar para o Sol é ofuscamento, e ele passa — o que dá a falsa impressão de que nada aconteceu.
Os sintomas aparecem horas depois, quando o dano já está feito.
O caso documentado de 2017
O eclipse de 21 de agosto de 2017 nos Estados Unidos produziu o relato mais bem documentado que existe sobre o assunto, publicado na JAMA Ophthalmology por Chris Y. Wu, Michael E. Jansen, Jorge Andrade e Toco Y. P. Chui (DOI 10.1001/jamaophthalmol.2017.5517).
A paciente, uma mulher na casa dos 20 anos, olhou para o Sol por cerca de 6 segundos sem proteção e depois por mais 15 a 20 segundos usando óculos de eclipse sem certificação.
Quatro horas depois, notou visão embaçada, metamorfopsia — distorção no formato das coisas —, alteração na percepção de cores e uma mancha escura central no olho esquerdo.
Exames de imagem de alta resolução mostraram a lesão na retina. E há um detalhe que impressiona: o formato do dano reproduzia a silhueta do próprio eclipse — o Sol parcialmente coberto, gravado no fundo do olho.
Não é caso isolado
Um levantamento em Utah após o mesmo eclipse, publicado na revista Clinical Ophthalmology por Christopher Ricks, Alexandrea Montoya e Jeff Pettey (DOI 10.2147/OPTH.S174808), registrou 27 pacientes que procuraram atendimento por alteração visual após o evento.
Desses, 6 apresentaram achados no exame compatíveis com retinopatia solar.
O padrão clínico se repete: escotoma central — a mancha cega no meio do campo de visão — acompanhado de alteração visível na junção dos segmentos internos e externos dos fotorreceptores.
Como olhar para um eclipse com segurança
A única forma segura de observar o Sol diretamente é com filtro adequado. O padrão internacional é a norma ISO 12312-2, e ele existe por um motivo: no caso de 2017, os óculos usados pela paciente não eram certificados.
O que funciona e o que não funciona:
- Funciona — óculos de eclipse com certificação ISO 12312-2, ou filtro solar próprio acoplado a telescópio ou binóculo;
- Funciona — projeção indireta: um furo de alfinete num cartão projeta a imagem do Sol em outra superfície, e você olha para a projeção, nunca para o Sol;
- NÃO funciona — óculos de sol, mesmo os mais escuros ou polarizados;
- NÃO funciona — filme fotográfico velado, radiografia, vidro defumado, CD, água com tinta, celofane;
- PERIGO ADICIONAL — olhar através de telescópio, binóculo ou lente de câmera usando óculos de eclipse: o equipamento concentra a luz e pode destruir o filtro em segundos.
Quando a proteção pode sair
Existe uma única janela em que se pode olhar a olho nu: durante a totalidade, quando a Lua cobre inteiramente o disco solar. Nesse intervalo, e apenas nele, a coroa solar pode ser observada sem filtro.
A proteção precisa voltar no instante em que o primeiro raio reaparecer. Vale reforçar: eclipses parciais — como o que atingiu Tomososki — nunca têm essa janela. A proteção é obrigatória do começo ao fim.
O que fazer se você olhou sem proteção
A ausência de sintomas imediatos não significa nada, porque eles demoram horas para aparecer. Fique atento a visão embaçada, mancha central, distorção de formas ou alteração nas cores.
Se algum desses sinais surgir, procure um oftalmologista. Não existe tratamento que reverta a lesão, mas o diagnóstico documenta o quadro, acompanha a evolução e descarta outras causas.
Este texto é informativo e não substitui avaliação médica.
Perguntas frequentes
Olhar para o eclipse pode cegar?
Pode causar lesão permanente na retina, chamada retinopatia solar, com uma mancha cega no centro do campo de visão. Foi o que aconteceu com Louis Tomososki em 1963, após cerca de 20 segundos de observação sem proteção.
Por que não dói olhar para o Sol até machucar o olho?
Porque a retina não tem receptores de dor. O incômodo que se sente é ofuscamento, e ele passa. Os sintomas da lesão só aparecem horas depois, quando o dano já está feito.
Óculos de sol servem para ver eclipse?
Não. Nenhum óculos de sol, por mais escuro que seja, oferece proteção suficiente. É preciso filtro com certificação ISO 12312-2. Radiografia, vidro defumado, CD e filme velado também não servem.
Quais são os sintomas de retinopatia solar?
Visão embaçada, mancha escura no centro do campo visual, distorção no formato dos objetos e alteração na percepção de cores. Costumam aparecer horas depois da exposição.
Em algum momento posso olhar sem proteção?
Apenas durante a totalidade de um eclipse total, quando a Lua cobre inteiramente o disco solar. A proteção deve voltar assim que o primeiro raio reaparecer. Em eclipses parciais, nunca se pode olhar sem filtro.
Fontes
- Wu, C. Y.; Jansen, M. E.; Andrade, J.; Chui, T. Y. P. Acute Solar Retinopathy Imaged With Adaptive Optics, Optical Coherence Tomography Angiography, and En Face Optical Coherence Tomography. JAMA Ophthalmology. DOI 10.1001/jamaophthalmol.2017.5517.
- Ricks, C.; Montoya, A.; Pettey, J. The ophthalmic fallout in Utah after the Great American Solar Eclipse of 2017. Clinical Ophthalmology, 2018. DOI 10.2147/OPTH.S174808.
- Orientações de segurança para observação de eclipses: NASA, Sociedade Astronômica Americana e Academia Americana de Oftalmologia.
Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.





