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Mycobacterium chimaera: a bactéria de equipamentos cirúrgicos que infectou pacientes cardíacos

Mycobacterium chimaera

A partir de 2012, uma bactéria de crescimento lento — a Mycobacterium chimaera — passou a infectar pacientes que haviam feito cirurgia cardíaca em vários países. A fonte foi rastreada até equipamentos de aquecimento e resfriamento usados na cirurgia, contaminados ainda na fábrica. Até setembro de 2017 já eram cerca de 120 casos reconhecidos no mundo, com letalidade estimada entre 20% e 67%.

Um surto silencioso após cirurgias do coração

Em 2012, uma bactéria começou a surgir em uma pequena parcela de pacientes que haviam passado recentemente por cirurgias cardíacas. A Mycobacterium chimaera — uma parente distante do micro-organismo que causa a tuberculose — foi associada a infecções que apareciam meses ou anos após a operação, muitas delas fatais.

Investigações apontaram os equipamentos usados durante a cirurgia como a origem provável da contaminação. Um estudo concluiu que as infecções provavelmente se originaram no local de produção do dispositivo, na Alemanha. O fabricante, a LivaNova (sediada em Londres), contestou publicamente essa conclusão, argumentando que os dados não sustentariam um vínculo tão direto com o processo de fabricação, e passou a enfrentar ações judiciais de pacientes e familiares.

“A maioria dos pacientes que identificamos já morreu”, afirmou à época o microbiologista Erik Böttger, da Universidade de Zurique, na Suíça, envolvido nas investigações — uma frase que resume a gravidade do problema.

O que é a Mycobacterium chimaera

A Mycobacterium chimaera é uma micobactéria não tuberculosa (NTM) de crescimento lento, pertencente ao chamado complexo Mycobacterium avium (MAC). É um micro-organismo ambiental, comum em fontes naturais de água e no solo. Na maioria das pessoas saudáveis, o contato com ela não causa doença; infecções pulmonares ocasionais eram relatadas, mas a bactéria não era considerada uma ameaça relevante à saúde pública até o surto ligado às cirurgias cardíacas.

Como a bactéria chegava aos pacientes

O elo comum era um equipamento chamado unidade de aquecimento e resfriamento (em inglês, heater-cooler), usado na circulação extracorpórea durante a cirurgia cardíaca para controlar a temperatura do sangue do paciente. O modelo associado ao surto foi o Stöckert/LivaNova 3T, fabricado pela LivaNova PLC (anteriormente Sorin Group Deutschland). Nos Estados Unidos, esse equipamento representava cerca de 60% do mercado.

O ponto crítico é que a água do equipamento não entra em contato direto com o paciente. Mesmo assim, a bactéria presente na água dos tanques podia ser aerossolizada pela ventoinha do aparelho e dispersada no ar da sala cirúrgica, alcançando o campo operatório aberto. Como o dispositivo já vinha contaminado de fábrica, o problema se espalhou por diferentes países e hospitais.

A infecção foi reconhecida como uma nova entidade clínica em 2014, e um surto internacional foi identificado em 2015. Até setembro de 2017, cerca de 120 casos haviam sido reconhecidos no mundo. Agências de saúde como os CDC e a FDA, nos Estados Unidos, emitiram comunicados de segurança; em uma investigação na Pensilvânia, cerca de 1.300 pacientes potencialmente expostos chegaram a ser notificados.

Por que é tão perigosa: incubação longa e diagnóstico difícil

Dois fatores tornam a M. chimaera especialmente traiçoeira. O primeiro é o longo período de incubação: os sintomas podem demorar, em média, cerca de 17 meses para aparecer após a cirurgia, com relatos variando de 3 meses a até 6 anos. Isso dificulta ligar a doença à operação que a causou.

O segundo é que os sintomas são inespecíficos: cansaço, febre, suores noturnos, perda de peso e tosse seca persistente — sinais que podem ser confundidos com muitas outras doenças. Quando se dissemina pelo corpo, a bactéria pode causar quadros graves, como infecção de válvula cardíaca artificial (endocardite), infecção de enxertos vasculares, comprometimento de fígado e rins, inflamação ocular e infecções em ossos e coluna.

Por crescer devagar, a bactéria é difícil de detectar: as culturas tradicionais têm baixa sensibilidade e podem levar semanas para dar resultado. A identificação precisa costuma exigir técnicas moleculares (como o sequenciamento de trechos como o 16S rDNA e o gene rpoB) para distingui-la de outras micobactérias do complexo MAC. O tratamento é longo, baseado em combinações de antibióticos, e o prognóstico é reservado: revisões descrevem letalidade entre 20% e 67% e recorrência entre 30% e 50%, sem terapia de eficácia plenamente comprovada.

Perguntas frequentes

A Mycobacterium chimaera passa de pessoa para pessoa?

Não há transmissão de pessoa para pessoa. Trata-se de uma bactéria ambiental; no surto, a exposição ocorreu pelo ar contaminado gerado por um equipamento cirúrgico específico, não pelo contato entre pacientes.

Quanto tempo após a cirurgia os sintomas aparecem?

Costuma ser um intervalo longo: em média cerca de 17 meses, mas há casos de 3 meses a até 6 anos. Essa demora é uma das razões pelas quais o diagnóstico é difícil.

Os equipamentos foram retirados de uso?

As agências de saúde recomendaram principalmente medidas de mitigação — manutenção e limpeza rigorosas, monitoramento e posicionamento do exaustor do aparelho longe do campo cirúrgico — em vez da simples retirada, já que o equipamento é essencial para muitas cirurgias cardíacas.

Quem fez cirurgia cardíaca deve se preocupar?

O risco individual é baixo, mas quem passou por cirurgia cardíaca e apresenta sintomas persistentes e inexplicados (febre, suores noturnos, perda de peso, cansaço) deve informar o histórico à equipe médica, para que a hipótese seja considerada.

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