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O que um jejum de 7 dias faz no corpo?

Estudo com 12 voluntários em jejum de 7 dias só com água achou mudanças em um terço das 3.000 proteínas do sangue, mas só a partir do 3º dia.

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Copo de água representa o jejum de 7 dias que alterou milhares de proteínas no sangue
Copo de água representa o jejum de 7 dias que alterou milhares de proteínas no sangue
Resumo em 15 segundos
  • Um jejum de 7 dias só com água mudou um terço das cerca de 3.000 proteínas medidas no sangue.
  • As mudanças ligadas a possíveis benefícios à saúde só apareceram após três dias de restrição calórica total.
  • Os voluntários perderam em média 5,7 kg, entre gordura e massa magra; após três dias comendo, a massa magra voltou e a gordura ficou fora.

Resumo dos pontos principais. A matéria completa está logo abaixo.

Todo mundo que já pensou em pular refeições para emagrecer imagina que o corpo “liga” um modo de proteção assim que o estômago fica vazio. Um estudo publicado na Nature Metabolism sugere que a coisa é mais lenta do que parece. Num jejum de 7 dias só com água, as mudanças no organismo ligadas a possíveis benefícios além do emagrecimento só apareceram depois de três dias de restrição calórica total, mais tarde do que os próprios pesquisadores esperavam.

A pesquisa acompanhou 12 voluntários saudáveis e mediu cerca de 3.000 proteínas no sangue deles antes, durante e depois do jejum. Um terço dessas proteínas mudou de forma significativa, em todos os principais órgãos. Entre elas, os cientistas notaram alterações até numa proteína que ajuda a montar a estrutura de sustentação dos neurônios no cérebro. É o tipo de detalhe que mostra como o jejum prolongado mexe com muito mais do que a balança.

O trabalho foi liderado por pesquisadores do Precision Healthcare University Research Institute (PHURI), da Queen Mary University of London, em parceria com a Norwegian School of Sport Sciences, de Oslo. Foi publicado na Nature Metabolism em 1º de março de 2024 (volume 6, páginas 764 a 777), com o DOI 10.1038/s42255-024-01008-9.

O que são essas proteínas no sangue e por que medi-las?

Proteínas são as peças de trabalho do corpo. Cada órgão produz as suas, e muitas circulam pelo sangue como um recado do que está acontecendo lá dentro. Se você imagina o sangue como um jornal que os órgãos publicam todos os dias, as proteínas são as notícias.

Medir milhares delas de uma vez, numa mesma amostra de sangue, virou possível nos últimos anos. Essa tecnologia é o que permitiu observar, dia após dia, o que o corpo faz num jejum prolongado. Antes, quase tudo o que se sabia parava no óbvio: o corpo troca o açúcar dos alimentos pela gordura guardada como fonte de energia.

Com os dados em mãos, os cientistas cruzaram informação genética de grandes estudos populacionais para estimar o que aquelas mudanças poderiam significar para a saúde. Vale guardar essa palavra: estimar. A gente volta nela mais adiante.

O que acontece no corpo durante um jejum de 7 dias?

A primeira virada vem rápido. Nos primeiros dois ou três dias, o corpo muda de combustível: deixa de usar a glicose que vinha dos alimentos e passa a queimar gordura estocada. Isso já era esperado.

A surpresa veio depois. Foi só por volta do terceiro dia que apareceram mudanças distintas nos níveis de proteínas, sinal de uma resposta do corpo inteiro à restrição total de calorias. Ao todo, um terço das cerca de 3.000 proteínas medidas se alterou de forma significativa, e mais de 1.000 responderam ao jejum com clareza. Os cientistas organizaram essas respostas em nove perfis diferentes, e o padrão foi bastante parecido entre os 12 voluntários.

Uma parte chamou atenção por não ser metabólica, ou seja, não tinha a ver com queima de energia. Entre as proteínas alteradas estavam as da matriz extracelular, uma espécie de andaime que dá sustentação às células em vários tecidos. No cérebro, uma dessas proteínas, a tenascina-R, teve mudanças que o estudo classifica como extremas.

Perda de peso no jejum: 5,7 kg, entre gordura e massa magra

Quem espera só o número da balança vai encontrar 5,7 kg de perda média, com variação de ±0,8 kg em torno desse valor. O peso saiu tanto de gordura quanto de massa magra — músculo incluído, portanto.

Aqui aparece um dado curioso. Três dias depois de voltarem a comer, a perda de massa magra tinha sido quase completamente revertida, mas a gordura perdida continuava fora. O corpo tratou de reconstruir a parte que precisa manter e deixou a outra de lado.

Benefícios à saúde além do emagrecimento: o que o estudo encontrou?

Os pesquisadores estimaram, para 212 proteínas que mudaram durante o jejum, a relação com cerca de 500 desfechos de saúde. Nessa análise, apontaram possíveis efeitos benéficos — como a proteína SWAP70, associada à artrite reumatoide, e a HYOU1, ligada a doenças do coração — mas também possíveis efeitos adversos.

É um retrato bem diferente da ideia de que jejum serve apenas para perder peso. Claudia Langenberg, diretora do PHURI, afirmou que os resultados trazem evidência de benefícios à saúde que vão além do emagrecimento. Ela mesma colocou a data decisiva: esses efeitos só ficaram visíveis após três dias de restrição calórica total, mais tarde do que se pensava antes.

O que isso significa para você (e para o jejum intermitente)?

Não há conexão brasileira direta neste estudo: os voluntários foram acompanhados por grupos de pesquisa do Reino Unido, da Noruega, da Alemanha e da Dinamarca. Ainda assim, a pergunta que ele levanta interessa a qualquer pessoa que já tenha considerado pular refeições para emagrecer.

As dietas populares que usam jejum, como o jejum intermitente, costumam prometer benefícios além da perda de peso. O estudo dá evidência de que esses benefícios existem, mas amarra uma condição incomum: eles só apareceram depois de três dias inteiros sem comer. Se a sua rotina de jejum dura 16 ou mesmo 24 horas, isso é outra escala de tempo. Os autores não afirmam que o jejum intermitente não funcione — dizem que as mudanças que observaram precisaram de três dias para se manifestar. São coisas diferentes, e a diferença importa.

Vale lembrar que o jejum tem história longa. Culturas e religiões o praticam há muito tempo, e ele já foi usado desde a Antiguidade para tratar doenças como epilepsia e artrite reumatoide. O estudo dá base molecular para parte desse conhecimento antigo, sem transformá-lo em receita.

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O que faltou nesse estudo?

Os próprios autores fazem questão de apontar os limites. Doze pessoas é um grupo pequeno, e todas eram saudáveis. Um jejum de água de sete dias com acompanhamento diário próximo é bem diferente de jejuar por conta própria em casa.

Outra ressalva importante: as consequências para a saúde foram estimadas por métodos de proteogenômica, cruzando dados genéticos de grandes estudos. Não foram desfechos observados nos voluntários ao longo do tempo. Isso quer dizer que os efeitos benéficos e adversos apontados são hipóteses promissoras, não resultados medidos diretamente nas 12 pessoas.

O estudo tampouco responde se o jejum prolongado faz bem de forma geral, nem se é seguro para qualquer um. Maik Pietzner, um dos autores, foi direto: ainda que o jejum possa ser benéfico para tratar algumas condições, muitas vezes ele não é uma opção para pacientes que já estão doentes. A esperança dos pesquisadores é usar esse mapa para criar tratamentos que reproduzam os efeitos do jejum em quem não pode jejuar.

Por que isso importa?

O valor deste estudo não está numa nova dieta. Está num mapa. Pela primeira vez, dá para ver o que acontece no corpo humano em nível molecular enquanto ele fica dias sem comer, e em que momento isso acontece. Saber que a resposta só se completa por volta do terceiro dia muda a forma de fazer perguntas sobre jejum e dá aos cientistas um ponto de partida para entender por que ele ajuda em certos casos.

Se você pensa em fazer um jejum prolongado por conta própria, o recado dos autores não é um convite. É um lembrete de que se trata de uma intervenção séria, testada até aqui em 12 pessoas saudáveis, com monitoramento diário e acompanhamento profissional. Este texto é informativo e não substitui a avaliação de um profissional de saúde.

Fontes

  • Estudo: Pietzner, M., Uluvar, B., Kolnes, K.J. et al. “Systemic proteome adaptions to 7-day complete caloric restriction in humans”, Nature Metabolism, volume 6, páginas 764–777 (2024). DOI: 10.1038/s42255-024-01008-9
  • Release: “Study identifies multi-organ response to seven days without food”, Queen Mary University of London (QMUL), 2024.
  • Declarações: Claudia Langenberg, diretora do Precision Healthcare University Research Institute (PHURI); Maik Pietzner, Health Data Chair do PHURI e co-líder do Computational Medicine Group do Berlin Institute of Health at Charité.

Perguntas frequentes

O que acontece no corpo depois de 7 dias sem comer?

Nos primeiros dois ou três dias, o corpo troca a glicose dos alimentos pela gordura estocada como fonte de energia. Depois disso, o estudo observou uma resposta do corpo inteiro, com mudanças em um terço das cerca de 3.000 proteínas medidas no sangue, incluindo proteínas da estrutura que sustenta os neurônios no cérebro.

Quantos quilos se perde em um jejum de 7 dias?

No estudo, os 12 voluntários perderam em média 5,7 kg, com variação de ±0,8 kg. A perda envolveu tanto gordura quanto massa magra. Três dias depois de voltarem a comer, a massa magra perdida foi quase completamente revertida, enquanto a gordura continuou fora.

Depois de quantos dias de jejum o corpo começa a mudar?

As mudanças de proteínas ligadas a possíveis efeitos na saúde só apareceram por volta do terceiro dia de restrição calórica total. Nos dois primeiros dias, o que se viu foi principalmente a troca de fonte de energia, da glicose para a gordura.

Jejum prolongado faz bem à saúde?

O estudo traz evidência de benefícios além do emagrecimento, mas eles só ficaram visíveis após três dias de restrição calórica total. Os pesquisadores também calcularam possíveis efeitos adversos para algumas proteínas. Como esses efeitos foram estimados por métodos genéticos, e não observados diretamente nos voluntários, trata-se de hipóteses promissoras, não de uma conclusão fechada.

Quem não pode fazer jejum?

O estudo não testou pacientes doentes — só 12 voluntários saudáveis. Os próprios autores afirmam que, embora o jejum possa ser benéfico para tratar algumas condições, muitas vezes ele não é uma opção para pessoas que já estão doentes. Qualquer decisão sobre jejum prolongado deve passar pela avaliação de um profissional de saúde.

Foto: Alexey Demidov no Pexels

Matéria escrita e revisada manualmente por Paulo Budri.

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