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Mercúrio em peixes é associado a maior risco de ELA, aponta estudo

Sardinhas frescas em um prato de metal, ao lado de azeite, salsa e gomos de limão sobre mesa de madeira.
causa de esclerose lateral amiotrófica

Sardinha e salmão de um lado; peixe-espada e tubarão do outro. A diferença entre eles não está só no sabor, mas na quantidade de mercúrio que acumulam — e um estudo conduzido em Dartmouth sugere que isso pode ter relação com a esclerose lateral amiotrófica (ELA). Entre quem comia peixe regularmente, as pessoas no quarto superior de exposição ao mercúrio tiveram o dobro do risco de desenvolver a doença. A pesquisa foi apresentada no encontro anual da Academia Americana de Neurologia (AAN).

Antes de qualquer alarme, um recado importante: este é um estudo preliminar e observacional, do tipo caso-controle, apresentado em congresso e ainda não revisado por pares na época. Ele mostra uma associação, não uma relação de causa e efeito — e os próprios autores fazem questão de dizer que ninguém deve parar de comer peixe por causa dele. Ainda assim, o achado é relevante porque reforça uma suspeita antiga sobre o papel do mercúrio nessa doença neurológica devastadora.

Ficha do estudo: a análise foi liderada por Elijah Stommel, da Geisel School of Medicine (Dartmouth College), e apresentada no 69º Encontro Anual da Academia Americana de Neurologia, em Boston, em 2017. Trata-se de um estudo caso-controle com 518 participantes: 294 com ELA e 224 sem a doença.

O que é a ELA?

A esclerose lateral amiotrófica, também conhecida como doença de Lou Gehrig, é uma doença neurodegenerativa progressiva que ataca os neurônios motores — as células nervosas responsáveis por comandar os músculos. À medida que esses neurônios morrem, o corpo perde a capacidade de controlar o movimento.

Os primeiros sinais costumam ser espasmos e fraqueza em um braço ou perna. Com o tempo, a doença evolui para uma paralisia que compromete falar, engolir e respirar. Não há cura, e a ELA é fatal. A causa exata permanece desconhecida, mas fatores genéticos e ambientais — o mercúrio entre eles — vêm sendo investigados há anos.

O que o estudo encontrou?

Os pesquisadores estimaram a exposição ao mercúrio de duas formas complementares. Primeiro, por questionário: cruzaram a frequência com que cada pessoa comia peixe com o teor médio de mercúrio de cada espécie. Segundo, por um biomarcador objetivo — amostras de unha do pé, que acumulam mercúrio e refletem a exposição dos últimos 12 a 15 meses, analisadas por espectrometria de massa.

Os dois caminhos levaram ao mesmo lugar. Entre os que comiam peixe regularmente, quem estava nos 25% de maior ingestão estimada de mercúrio teve o dobro do risco de ELA em relação aos de menor exposição. O mesmo valeu para o mercúrio medido na unha. Em números: 61% das pessoas com ELA estavam nesse quarto superior de exposição, contra 44% das pessoas sem a doença.

Quais peixes têm mais mercúrio?

Nem todo peixe é igual. O mercúrio se acumula ao longo da cadeia alimentar, então predadores grandes e longevos concentram muito mais do metal do que peixes pequenos. O peixe-espada e o tubarão estão entre os campeões de mercúrio; o salmão e a sardinha, entre os mais seguros. É por isso que órgãos de saúde recomendam que gestantes e crianças pequenas evitem as espécies mais contaminadas — não por causa da ELA, mas pelo efeito neurotóxico já bem conhecido do mercúrio.

Isso quer dizer que peixe causa ELA?

Não — e vale insistir nisso. Um estudo observacional mostra que duas coisas caminham juntas, mas não prova que uma causou a outra. É possível que outros fatores ligados ao consumo de certos peixes expliquem parte da associação, e os próprios autores classificaram os resultados como preliminares, pedindo que sejam replicados em novas pesquisas antes de qualquer conclusão firme.

O que dá algum peso ao achado é o contexto: estudos anteriores já haviam apontado o mercúrio como possível fator de risco para a ELA, e o metal é reconhecidamente neurotóxico. Mas “possível fator de risco” está muito longe de “causa comprovada”, e é assim que o resultado deve ser lido.

Um risco dobrado, mas de uma doença rara

Dobrar o risco assusta, mas é preciso colocar o número em perspectiva. A ELA é uma doença rara: estima-se algo em torno de 1 a 2 novos casos para cada 100 mil pessoas por ano. Quando se dobra um risco que já é muito pequeno, o resultado continua sendo um risco pequeno em termos absolutos. O achado é valioso para a ciência entender a doença, mas não significa que quem come atum toda semana vá desenvolver ELA.

Do ponto de vista biológico, a hipótese tem lógica. O metilmercúrio, forma do metal que se acumula nos peixes, é uma substância comprovadamente neurotóxica: ele atravessa as barreiras do organismo, deposita-se no sistema nervoso e pode provocar estresse oxidativo e danos às células nervosas mais vulneráveis. Como os neurônios motores são justamente o alvo da ELA, é plausível que uma exposição alta e prolongada ao mercúrio contribua para o processo — uma peça que ajuda a explicar a associação observada, ainda que não a confirme como causa.

Então devo parar de comer peixe?

Segundo o próprio autor do estudo, não. “Para a maioria das pessoas, comer peixe faz parte de uma dieta saudável”, afirmou Stommel, lembrando que o alimento é rico em proteína e em ômega-3. A mensagem prática não é abandonar o peixe, e sim ser criterioso na escolha: variar as espécies, priorizar as de baixo mercúrio, como sardinha e salmão, e encaixá-lo em uma alimentação equilibrada.

Em outras palavras, o vilão em potencial é o mercúrio acumulado em certos peixes, não o peixe em si. Trocar o peixe-espada pela sardinha preserva os benefícios e reduz a exposição ao metal — uma decisão simples e de baixo custo enquanto a ciência continua investigando.

Comer peixe causa ELA?

Não. O estudo mostra uma associação entre alta exposição ao mercúrio, presente em certos peixes, e maior risco de ELA — mas associação não é o mesmo que causa. Os resultados são preliminares e precisam ser confirmados por novas pesquisas.

Quais peixes têm menos mercúrio?

Peixes menores e menos predadores, como sardinha, salmão e anchova, tendem a acumular menos mercúrio. Já espécies grandes e longevas, como peixe-espada e tubarão, concentram bem mais do metal.

Devo parar de comer peixe por causa do mercúrio?

Não. Especialistas, incluindo o autor do estudo, reforçam que o peixe faz parte de uma dieta saudável. A recomendação é escolher espécies de baixo mercúrio e variar o consumo, e não eliminar o peixe do cardápio.

O que é esclerose lateral amiotrófica (ELA)?

A ELA é uma doença neurodegenerativa progressiva que destrói os neurônios motores, responsáveis por comandar os músculos. Isso leva à perda gradual de movimento, fala e respiração. Não tem cura, é fatal e sua causa exata ainda é desconhecida.

Matéria escrita e revisada por Paulo Budri. Fontes: Academia Americana de Neurologia, Geisel School of Medicine (Dartmouth) e ScienceDaily.

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