Pular para o conteúdo

Água e óleo podem se misturar? Sob pressão extrema, sim

água e óleo
Resumo em 15 segundos
  • Água e óleo não se misturam — é das primeiras coisas que se aprende sobre química do cotidiano.
  • A água é polar: tem uma ponta com carga levemente negativa (o oxigênio) e duas com carga levemente positiva (os hidrogênios).
  • Conforme a pressão subiu, as gotículas foram encolhendo até desaparecer.

Resumo dos pontos principais. A matéria completa está logo abaixo.

Água e óleo não se misturam — é das primeiras coisas que se aprende sobre química do cotidiano. Mas um experimento da Universidade de Edimburgo mostrou que essa regra tem um limite: sob pressão extrema, o metano, que se comporta como o óleo, se dissolve na água. As gotículas simplesmente somem.

O trabalho foi publicado em 4 de agosto de 2017 na revista Science Advances, assinado por Ciprian G. Pruteanu, Graeme J. Ackland, Wilson C. K. Poon e John S. Loveday, com DOI 10.1126/sciadv.1700240. O título é direto ao ponto: “When immiscible becomes miscible” — quando o imiscível se torna miscível.

Por que água e óleo não se misturam

A resposta está na eletricidade das moléculas. A água é polar: tem uma ponta com carga levemente negativa (o oxigênio) e duas com carga levemente positiva (os hidrogênios). Isso faz as moléculas de água se atraírem com força umas às outras, formando as chamadas ligações de hidrogênio.

As moléculas de óleo são apolares — não têm essa separação de cargas. Quando entram na água, não conseguem participar dessa rede de ligações. A água então se reorganiza para excluí-las, e o óleo se agrupa em gotas. Substâncias que se comportam assim são chamadas de hidrofóbicas, literalmente “que têm medo de água”.

Vale a correção de um mal-entendido comum: o óleo não é “repelido” pela água. O que acontece é que as moléculas de água se atraem tanto entre si que expulsam o que não consegue entrar na roda.

O experimento: dois diamantes e 20 mil bares

Para testar até onde essa regra vale, a equipe usou uma bigorna de diamante — um aparato em que a amostra é prensada entre as pontas de dois diamantes talhados. É o jeito padrão de alcançar pressões altíssimas em laboratório, e os diamantes servem a dois propósitos: são duros o bastante para aguentar e transparentes o bastante para se observar o que acontece lá dentro.

Dentro da câmara, água e metano. A pressão foi elevada até 20 mil bares, ordem de grandeza cerca de vinte vezes maior que a do fundo da Fossa das Marianas, o ponto mais profundo dos oceanos.

O metano foi escolhido por ser a molécula hidrofóbica mais simples que existe — um átomo de carbono cercado por quatro de hidrogênio. Ele funciona como modelo para entender o comportamento de moléculas oleosas maiores.

O que os cientistas viram acontecer

Na pressão normal, o cenário era o esperado: sob o microscópio, o metano aparecia como grandes gotículas flutuando na água, sem se misturar.

Conforme a pressão subiu, as gotículas foram encolhendo até desaparecer. Não houve reação química, não houve mudança de temperatura: o metano simplesmente se dissolveu na água, como açúcar em café.

Por que a pressão muda tudo

A explicação proposta pela equipe é geométrica, não química. Sob compressão, as moléculas de metano encolhem mais do que as de água — a molécula de água, muito ligada às vizinhas, resiste melhor ao aperto.

A partir de certo ponto, o metano comprimido fica pequeno o suficiente para caber nos espaços entre as moléculas de água, sem precisar romper a rede de ligações de hidrogênio. Deixa de ser um intruso e passa a ocupar as frestas.

Ou seja: a imiscibilidade entre água e óleo não é uma lei absoluta da natureza. É uma consequência das condições de pressão e temperatura em que vivemos.

Onde essas condições existem de verdade

Pressões dessa ordem não são exclusividade do laboratório. Elas aparecem em dois lugares que interessam bastante à ciência:

  • No fundo dos oceanos e na crosta terrestre — onde água e hidrocarbonetos coexistem sob pressão elevada, condição relevante para entender depósitos naturais de metano;
  • No interior de Urano e Netuno — os gigantes de gelo do Sistema Solar, cujo interior combina água, metano e amônia sob pressões muito superiores às testadas no experimento.

Para que isso serve na prática

A aplicação mais citada pelos autores é a substituição de solventes. Boa parte da indústria química depende de solventes orgânicos caros, inflamáveis ou tóxicos justamente para dissolver substâncias que a água não dissolve. Se a pressão puder cumprir esse papel, a água — barata, abundante e inofensiva — entra no lugar deles.

A segunda aplicação é o entendimento de ambientes extremos: como o carbono se comporta no fundo do mar e como se organiza o interior dos planetas gelados.

É importante dizer o que o estudo não mostra: nada disso acontece na sua cozinha. Na pressão atmosférica, água e óleo continuam sem se misturar, e nenhum tempero resolve.

O que ainda não se sabe

O experimento foi feito com metano, a molécula hidrofóbica mais simples. Os autores sugerem que outras moléculas apolares possam se comportar de forma parecida, mas isso é uma hipótese a ser testada — moléculas maiores e de formato mais complexo podem reagir de outro jeito à compressão.

Também não está definido o limiar exato de pressão para cada substância, nem como a temperatura altera esse ponto de virada.

Perguntas frequentes

Água e óleo podem se misturar?

Em condições normais, não. Mas o estudo da Universidade de Edimburgo mostrou que sob pressão de cerca de 20 mil bares o metano, que é hidrofóbico como o óleo, se dissolve na água.

Por que água e óleo não se misturam?

Porque a água é polar e suas moléculas se atraem fortemente entre si, formando ligações de hidrogênio. As moléculas de óleo são apolares e não participam dessa rede, então acabam excluídas e se agrupam em gotas.

O que é uma substância hidrofóbica?

É uma substância cujas moléculas são apolares e por isso não se dissolvem em água, como óleos e gorduras. O metano é a molécula hidrofóbica mais simples e por isso é usada como modelo em experimentos.

Por que a pressão faz o metano se dissolver na água?

Segundo os autores, sob compressão as moléculas de metano encolhem mais do que as de água. Menores, elas passam a caber nos espaços entre as moléculas de água sem romper a rede de ligações de hidrogênio.

Isso funciona na cozinha?

Não. As pressões envolvidas são cerca de vinte vezes maiores que a do fundo da Fossa das Marianas. Na pressão atmosférica, água e óleo continuam sem se misturar.

Fontes

Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.

Gostou? Receba novos artigos no seu e-mail:

Compartilhe