Resumo em 15 segundos
- Mulheres de 70 anos em Bolotana têm 20,85 anos de vida restante, contra 18,06 da média italiana.
- A chance de uma mulher de 70 anos chegar aos 100 é de 13,83%, mais de três vezes a das americanas.
- De 2015 a 2019, a chance de uma moradora de Bolotana chegar aos 100 caiu para 1,46%.
Resumo dos pontos principais. A matéria completa está logo abaixo.
Uma mulher de 70 anos que mora em Bolotana, vilarejo montanhoso no coração da Sardenha, pode esperar mais 20,85 anos de vida. Quase 21 anos. É mais tempo do que a média da província onde a cidade fica (18,61 anos), do que a da ilha inteira (18,4 anos) e do que a da Itália (18,06 anos). E a probabilidade de essa moradora chegar aos 100 anos é de 13,83%, ou quase 14 em cada 100 mulheres.
É esse conjunto de números que coloca Bolotana na conversa sobre uma possível nova zona azul na Sardenha. Só que o padrão tem uma marca curiosa: é quase todo feminino. Os homens do vilarejo também vivem mais do que a média do país, mas sem o mesmo exagero. Aos 70 anos, os moradores do sexo masculino têm 16,02 anos restantes, contra 15,48 anos no restante da Itália.
Informações do estudo: a pesquisa “A new blue zone? exceptional late-life survival in Bolotana, Sardinia” foi publicada na revista Frontiers in Aging, em 2026. É assinada pelo epidemiologista S. Jay Olshansky, da Universidade de Illinois em Chicago, e pelo pesquisador de longevidade Dan Buettner, fundador da Blue Zones, Inc. O DOI é 10.3389/fragi.2026.1951042/full. A reportagem do ScienceAlert, escrita por Peter Dockrill em 8 de outubro de 2026, também detalha o trabalho.
Zona azul Sardenha: o que é e por que Bolotana entrou na conversa?
Zona azul é o apelido dado a um lugar onde um número incomum de pessoas passa dos 100 anos. O nome ficou conhecido depois que pesquisadores identificaram, há cerca de 20 anos, a primeira zona azul do mundo na própria Sardenha, um aglomerado geográfico onde os moradores mostravam “longevidade extrema”.
Para medir isso, os autores do novo estudo usaram dois indicadores simples de explicar. O primeiro é a expectativa de vida restante aos 70 anos: quantos anos, em média, ainda tem pela frente quem já chegou a essa idade. O segundo é a probabilidade de quem completou 70 anos chegar aos 100.
Bolotana agora aparece como candidata a entrar nesse mapa. A cidade fica na província de Nuoro, a cerca de 110 quilômetros a oeste da zona azul original, e tinha 2.266 moradores no período estudado.

O que o estudo encontrou em Bolotana?
Os pesquisadores montaram tabelas de vida separadas por sexo para os anos de 2021 a 2025, usando registros civis e de batismo. Depois compararam os resultados com a província de Nuoro, com a Sardenha, com a Itália e com padrões internacionais publicados.
Entre as mulheres, a expectativa de vida restante aos 70 anos ficou em 20,85 anos, contra 18,61 anos em Nuoro, 18,4 anos na Sardenha e 18,06 anos na Itália. A probabilidade de chegar aos 100 foi de 13,83%, contra 4,33% em Nuoro, 4,43% na Sardenha e 3,54% no país inteiro. Em números redondos: quase 14 em cada 100 mulheres bolotanenses de 70 anos chegariam ao centenário, contra cerca de 4 em cada 100 no resto da Sardenha e 3,5 em cada 100 na Itália.
No cenário internacional, as mulheres de Bolotana ficaram em segundo lugar nos dois indicadores, atrás apenas de Hong Kong. A probabilidade de uma moradora de 70 anos chegar aos 100 é mais de três vezes a de uma americana da mesma idade. Vale registrar que essa é uma comparação relativa, porque o estudo não informa o percentual absoluto das americanas.
“Achamos que esta é a população feminina mais longeva do mundo, ou perto disso”, afirma Olshansky.
Os homens ficam em outro patamar. A expectativa de vida restante aos 70 anos, de 16,02 anos, é descrita pelos próprios autores como “modestamente” maior que a média nacional italiana, de 15,48 anos. Mas a chance de um homem de Bolotana chegar aos 100 é de 4,92%, mais de três vezes o 1,41% do restante do país — ainda assim, bem abaixo do que se vê entre as mulheres da própria cidade.
Como os cientistas validaram as idades dos centenários
Aqui está talvez o ponto mais forte do trabalho. Verificar a idade de um centenário é mais difícil do que parece, e boa parte das alegações de longevidade extrema pelo mundo não passa em checagem. Bolotana passou.
“O que torna Bolotana extraordinária é que ela tem um registro histórico incrível, que nos permite avaliar com segurança as idades de nascimento e morte”, diz Olshansky. “Os registros municipais e de batismo remontam a séculos e nos permitiram verificar as idades de forma independente. Cada pessoa que passou dos 100, nós conseguimos validar. Não há ambiguidade.”
O que chamou a atenção dos pesquisadores para a cidade foi justamente o número incomum de centenários, homenageados por um site local.
A lição vale para quem nunca pisou na Sardenha
Quando uma população vive excepcionalmente mais, a pergunta seguinte é sempre a mesma: o que ela faz de diferente? Olshansky levanta algumas pistas do ambiente. Os moradores vivem numa paisagem íngreme e cheia de ladeiras, boa parte da comida é cultivada localmente, o isolamento social é raro e o deslocamento acontece muito mais a pé do que de carro.
“Você tem essa comunidade unida, onde as pessoas cuidam umas das outras”, ele diz. “O movimento é feito em grande parte caminhando, não dirigindo.”
É bom deixar claro: essas são observações e hipóteses dos pesquisadores, não resultados medidos pelo estudo. Ninguém aqui provou que caminhar nas ladeiras de Bolotana acrescenta anos de vida. A própria equipe escreve que “vários mecanismos poderiam plausivelmente contribuir” para a vantagem feminina, entre eles herança genética, padrão alimentar, atividade física, apoio familiar, coesão social, continuidade de residência e acesso a cuidados de saúde.
Bolotana já é uma nova zona azul? O que o estudo ainda não explica?
Não. E este é o ponto em que o próprio trabalho pede cautela. Por causa do tamanho pequeno da população, os resultados são muito sensíveis aos anos escolhidos.
A prova está na análise de sensibilidade. Quando os pesquisadores olharam para o período de 2015 a 2019, a probabilidade de uma mulher de 70 anos chegar aos 100 caiu para 1,46% — bem distante dos 13,83% de 2021 a 2025. A expectativa de vida restante aos 70 anos ficou em 18,3 anos, ainda acima da média nacional italiana, mas o quadro geral de sobrevivência tardia foi menos acentuado, sobretudo para quem chega ao centenário. Incluir o ano de 2020, para captar os possíveis efeitos da covid-19, também produziu reduções modestas.
Os autores concluem que Bolotana exibe um padrão distinto e predominantemente feminino de sobrevivência excepcional na velhice, e que pode ser considerada uma candidata a zona azul da longevidade. Mas eles mesmos escrevem que são necessárias observação mais longa e validação demográfica contínua antes que a cidade seja tratada como uma zona azul estabelecida.
Fica faltando também a explicação principal. Por que as mulheres de Bolotana vivem tanto? O estudo não responde. Os pesquisadores reconhecem que isso estava fora do escopo de uma análise demográfica e sugerem que trabalhos futuros, em nível individual, investiguem os fatores biológicos, comportamentais e sociais envolvidos.
Por que isso importa para nós?
Entender por que um grupo de pessoas envelhece melhor não é curiosidade de turista. Se os fatores forem identificáveis e, em alguma medida, reproduzíveis, eles interessam a qualquer país que esteja vendo sua população envelhecer, inclusive o Brasil.
“Se conseguirmos identificar as características por trás dessa longevidade e ajudar as pessoas a adotá-las, o resto do mundo pode se beneficiar ao entender os valores praticados por essas comunidades”, diz Olshansky.
Buettner, coautor e fundador da Blue Zones, Inc., resume o próximo passo: “Agora sabemos que algo extraordinário está acontecendo em Bolotana. O passo seguinte é entender por quê e se as lições podem ajudar pessoas em outros lugares a viver mais e com mais saúde.”
Por enquanto, o que existe é uma pista forte e um bocado de trabalho pela frente. Uma vila nas montanhas da Sardenha parece ter encontrado algo. O que ela ainda não fez foi contar o segredo.
Perguntas frequentes
O que é uma zona azul?
Zona azul é o nome dado a uma região geográfica onde um número incomum de pessoas vive até os 100 anos. A primeira do mundo foi identificada na Sardenha, há cerca de 20 anos, por pesquisadores que observaram ali um padrão de “longevidade extrema”.
Bolotana pode ser considerada uma nova zona azul?
Ainda não. O estudo classifica Bolotana como candidata a zona azul da longevidade. Os próprios autores afirmam que são necessárias observação mais longa e validação demográfica contínua antes de tratá-la como uma zona azul estabelecida.
Qual a chance de uma mulher de 70 anos em Bolotana chegar aos 100?
De 13,83%, segundo a estimativa para o período de 2021 a 2025 — quase 14 em cada 100 mulheres. É mais de três vezes a probabilidade estimada para uma americana da mesma idade, mas cai bastante quando se analisa outro intervalo de anos.
Por que as mulheres de Bolotana vivem mais que os homens?
Ninguém sabe. Os autores afirmam que isso está fora do escopo de uma análise demográfica como essa e sugerem que estudos futuros investiguem fatores biológicos, comportamentais e sociais. Eles citam, como possibilidades a serem testadas, herança genética, alimentação, atividade física, apoio familiar, coesão social, continuidade de residência e acesso a cuidados de saúde.
Onde fica Bolotana, na Sardenha?
É um pequeno município de montanha na província de Nuoro, na Sardenha, a cerca de 110 quilômetros a oeste da zona azul original da ilha. A população era de 2.266 pessoas no período estudado.
Como os cientistas conseguiram validar as idades dos centenários?
Com registros civis e de batismo que remontam a séculos. Segundo Olshansky, esses documentos permitiram verificar as idades de nascimento e morte de forma independente, e cada pessoa que passou dos 100 anos pôde ser validada.
Fontes
- Estudo “A new blue zone? exceptional late-life survival in Bolotana, Sardinia”, publicado na Frontiers in Aging. DOI: 10.3389/fragi.2026.1951042/full
- S. Jay Olshansky, epidemiologista da Universidade de Illinois em Chicago e coautor do estudo (declarações ao estudo e à imprensa)
- Dan Buettner, pesquisador de longevidade, fundador da Blue Zones, Inc. e coautor do estudo
- Reportagem “Scientists Identify a Small Village in Italy Where Women Live Exceptionally Long Lives”, de Peter Dockrill, publicada no ScienceAlert em 8 de outubro de 2026
Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.





