Resumo em 15 segundos
- O app usa um sistema de mapeamento ao vivo: cada ocorrência é marcada no mapa conforme os relatos chegam.
- O instituto mantém um laboratório que produz mais de 40 indicadores inéditos sobre violência armada nessas regiões metropolitanas, com previsão de expansão para outras cidades brasileiras.
- A decisão de abrir o banco muda o alcance do projeto.
Resumo dos pontos principais. A matéria completa está logo abaixo.
O Fogo Cruzado nasceu em 2016 de uma constatação simples e incômoda: não existia estatística pública sobre uma coisa que acontecia todo dia no Rio de Janeiro. A jornalista Cecília Olliveira procurava dados sobre tiroteios para cobrir o ciclo de grandes eventos que terminou nas Olimpíadas, não encontrou, e começou a contar à mão.
Aquela planilha virou instituto. Hoje o Instituto Fogo Cruzado monitora as regiões metropolitanas de Rio de Janeiro, Recife, Salvador e Belém e mantém o primeiro banco de dados aberto sobre violência armada da América Latina — gratuito e acessível por API.
Como funciona o aplicativo
O app usa um sistema de mapeamento ao vivo: cada ocorrência é marcada no mapa conforme os relatos chegam. Tocando num ponto, o usuário vê hora, data, local e o que se sabe sobre feridos e mortos.
A informação chega por duas vias — relatos de moradores pelo próprio aplicativo e monitoramento de fontes públicas — e passa por checagem em tempo real de uma equipe local especializada antes de entrar no mapa.
Essa etapa de verificação é o que separa a ferramenta de um grupo de mensagens: o objetivo declarado é reduzir tanto o boato quanto a subnotificação.
O que os dados cobrem, e desde quando
A API pública do Fogo Cruzado disponibiliza o histórico de tiroteios e disparos de arma de fogo, com início diferente em cada estado:
- Rio de Janeiro — desde julho de 2016;
- Pernambuco — desde abril de 2018;
- Bahia — desde julho de 2022;
- Pará — desde novembro de 2023.
Mais que um mapa: um laboratório de dados
O instituto mantém um laboratório que produz mais de 40 indicadores inéditos sobre violência armada nessas regiões metropolitanas, com previsão de expansão para outras cidades brasileiras.
São recortes que a estatística oficial geralmente não oferece: tiroteios por horário, proximidade de escolas e unidades de saúde, ocorrências durante operações policiais, vítimas por faixa etária, dias letivos perdidos.
É esse tipo de dado que permite sair da anedota e responder perguntas verificáveis sobre onde, quando e em que circunstâncias a violência armada acontece.
Por que os dados são abertos
A decisão de abrir o banco muda o alcance do projeto. Jornalistas, pesquisadores, gestores públicos e desenvolvedores podem consultar diretamente, cruzar com outras bases e construir suas próprias análises — sem depender de um relatório pronto.
Para quem programa, a API tem documentação oficial e uso gratuito. Para quem não programa, o próprio site do instituto publica relatórios e boletins periódicos.
É uma diferença relevante em relação a plataformas que apenas exibem informação: aqui o dado bruto fica disponível para auditoria e reuso.
Outras iniciativas
O Fogo Cruzado não é o único projeto do gênero. O Onde Tem Tiroteio (OTT) surgiu com proposta semelhante de alerta colaborativo e também acumulou base de usuários no Rio.
A diferença principal está no propósito declarado: o Fogo Cruzado se estruturou como instituto de dados, com metodologia publicada, equipe de verificação e banco aberto para pesquisa. Iniciativas de alerta puro priorizam velocidade da notificação.
Vale conferir a disponibilidade e o canal oficial de cada uma antes de instalar — projetos assim mudam de plataforma e de endereço com alguma frequência.
O que a ferramenta faz e o que não faz
A proposta é permitir que a pessoa evite a rota onde há tiroteio em andamento — sair do caminho da bala perdida, como resume o instituto.
Mas há limites que precisam estar claros:
- Não substitui emergência — em situação de risco imediato, o número é 190. O aplicativo é informação, não socorro;
- Depende de relato — uma ocorrência só entra no mapa depois de reportada e verificada, o que significa que pode haver atraso ou ausência de registro;
- Ausência no mapa não é garantia — não há como afirmar que uma região está segura porque nada aparece ali naquele momento.
Por que isso é jornalismo de dados
A história do projeto ilustra bem o que é produzir informação onde ela não existe. Não havia indicador oficial sistemático sobre tiroteios na cidade; a alternativa foi construir o dado.
Isso tem consequência prática: sem número, um fenômeno não é medido, não é comparado ao longo do tempo e não entra no debate público com base concreta. Passa a depender de percepção — e percepção, como se sabe, erra sistematicamente para mais naquilo que assusta.
O verbete do aplicativo na Wikipédia registra a trajetória do projeto desde a planilha manual até o instituto atual.
Perguntas frequentes
O que é o Fogo Cruzado?
É um instituto brasileiro que produz e divulga dados abertos sobre violência armada. Nasceu em 2016, do trabalho manual da jornalista Cecília Olliveira, e hoje mantém aplicativo, banco de dados aberto e laboratório de indicadores.
Quais cidades o Fogo Cruzado cobre?
As regiões metropolitanas de Rio de Janeiro, Recife, Salvador e Belém, com previsão de expansão. Na base de dados, o histórico começa em 2016 no Rio, 2018 em Pernambuco, 2022 na Bahia e 2023 no Pará.
Os dados sobre tiroteios são públicos?
Sim. É o primeiro banco de dados aberto sobre violência armada da América Latina, acessível gratuitamente por API com documentação oficial. O site do instituto também publica relatórios para quem não programa.
Como as informações são verificadas?
Os relatos chegam pelo aplicativo e por monitoramento de fontes públicas, e passam por checagem em tempo real feita por uma equipe local especializada antes de entrarem no mapa.
O aplicativo substitui a polícia em emergências?
Não. Em situação de risco imediato, o número é 190. A ferramenta é informativa e depende de relatos verificados, então pode haver atraso — e a ausência de marcação no mapa não significa que a região esteja segura.
Fontes
- Cobertura, metodologia e relatórios: Instituto Fogo Cruzado.
- Documentação e acesso ao banco de dados aberto: API pública do Fogo Cruzado.
- Histórico do projeto, da planilha manual ao instituto: verbete do aplicativo na Wikipédia.
Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.




