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Astronomia forense descobre algo no quadro “Noite Estrelada” de Van Gogh

Estudo em Scientific Reports reconstrói o céu da Noite Estrelada e sugere que Van Gogh pintou uma configuração que existiu de verdade, em julho de 1889.

Foto de Dr. Paulo Budri

Biólogo, mestre e doutor em Genética Molecular e Microbiologia Clínica

11 min de leitura ·

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Reprodução da pintura Noite Estrelada, de Van Gogh, com o céu noturno em espirais, estrelas e a lua crescente
Reprodução da pintura Noite Estrelada, de Van Gogh, com o céu noturno em espirais, estrelas e a lua crescente
Resumo em 15 segundos
  • Nada parecido com aquele fio de lua recurvado.
  • O ajuste deu erro médio de 8,17%, com desvio máximo de 10,59%.
  • Na Noite Estrelada de Millet (1850–1865), Órion e Cão Maior encaixaram com erro de 3,85%.
  • Em setembro de 1889, chamou aquelas telas de "exageros do ponto de vista do arranjo", com linhas tortas como as das xilogravuras antigas.

Resumo dos pontos principais. A matéria completa está logo abaixo.

Durante mais de um século, as características da lua no quadro “Noite Estrelada” de Van Gogh serviu de argumento contra a ideia de que o quadro nasceu de observação. Em 19 de junho de 1889, uma das datas propostas para o céu da tela, a lua real estava 63,10% iluminada, quase dois terços do disco aceso. Nada parecido com aquele fio de lua recurvado.

Um estudo publicado na Scientific Reports propõe inverter o raciocínio. Mudando o calendário para o fim de julho, a lua deixa de ser problema: no amanhecer de 22 de julho de 1889, uma crescente minguante de 28,44% (pouco mais de um quarto do disco iluminado) aparecia junto de Vênus e do aglomerado das Híades, dentro da faixa estreita de céu que Van Gogh via da janela do hospício de Saint-Rémy, no sul da França.

Veja figuras do artigo aqui.

Dados do estudo: o artigo “The actual sky of Van Gogh’s Starry Night: a multidisciplinary reconstruction”, de Elijah Jeong-hyun Kim, Suna Kang, Jungwoo Song e Ho Jin (SLLAB, em Yongin, e Escola de Pesquisa Espacial da Universidade Kyung Hee, na Coreia do Sul), saiu na Scientific Reports (volume 16, artigo 31109) em 22 de outubro de 2026, com DOI 10.1038/s41598-026-73025-5. Os autores informam que o primeiro autor é fundador e CEO da SLLAB e que a empresa pode ter ganhos comerciais derivados do trabalho.

Astronomia forense e ajuste de Procrustes explicado em bom português

Astronomia forense é o uso do cálculo de posição dos astros para interrogar imagens e relatos do passado. Em vez de perguntar o que o pintor quis dizer, ela pergunta se algum céu real se encaixa naquela tela, e em que data.

Já o ajuste de Procrustes é uma ferramenta estatística que compara duas formas permitindo só três movimentos: deslocar, girar e mudar de tamanho. Nada de esticar ou entortar. Funciona como quem sobrepõe duas fotos da mesma praça tiradas de pontos diferentes: dá para girar e aproximar, não para deformar até coincidir. Quando a sobreposição fecha sob regras tão rígidas, é sinal de que uma forma reproduz a outra. O erro é medido por um número, o ρCS: quanto menor, melhor. Só que um bom ajuste não prova sozinho que aquelas estrelas são as certas.

Lua crescente, Vênus e Híades: o céu da Noite Estrelada de Van Gogh

Segundo o estudo, o grupo central de estrelas do quadro corresponde às Híades, o aglomerado em forma de V da constelação de Touro. As cinco estrelas que formam o esqueleto desse V (α, θ, γ, δ e ε Tauri) foram marcadas na tela antes de qualquer resultado aparecer. O ajuste deu erro médio de 8,17%, com desvio máximo de 10,59%.

Um teste reforçou a escolha. Entre as 120 maneiras de associar os cinco pontos às cinco estrelas, a correspondência das Híades foi a única a produzir o menor erro. O mesmo vale quando se testam todos os 462 subconjuntos de cinco pontos disponíveis no quadro. Os autores estimam em 3 em cada 100 mil a chance de o V das Híades aparecer preservado assim por acaso (P ≈ 3 × 10⁻⁵). E há um segundo encaixe: no céu de 22 de julho de 1889, o ângulo entre o trecho γ–α e o horizonte variava de 32,6° a 35,1°; no quadro, o trecho equivalente está inclinado a 33,13°.

No óleo, a lua aparece acima de Vênus. Na simulação do amanhecer de 22 de julho, os dois estavam a 18,6° um do outro, quase a diagonal do enquadramento estreito recuperado de um desenho anterior do mesmo terreno (18,4 ± 0,9°). Em 21 de julho a distância era de 29,7° e não cabia no campo de visão; em 23 e 24 de julho caía para 7,66° e 3,20°, arranjo que foge da composição. A réplica desenhada do quadro reproduz o V com erro de 6,62%, melhor que o próprio óleo, o que sugere que Van Gogh tinha algo real como referência.

Por que a data de junho de 1889 perdeu força?

O quadro sempre foi datado em junho de 1889, e a hipótese mais citada, de Albert Boime, apontava o amanhecer de 19 de junho, com Aries como o asterismo central (asterismo é um conjunto de estrelas que forma um desenho no céu, nem sempre uma constelação oficial). O estudo lista três obstáculos físicos a essa leitura.

  • Janela de observação. Para Aries funcionar como padrão visível, Vênus precisaria alcançar o horizonte operacional (3° de altitude) bem antes do crepúsculo náutico, a fase em que o Sol está entre 12° e 6° abaixo do horizonte. Isso não acontece de fins de maio a meados de junho. Em 19 de junho, Vênus chegou aos 3° às 02h27, e o crepúsculo náutico começou 27 minutos depois: janela curta demais.
  • Fase da lua. Às 02h27 de 19 de junho, a lua estava 63,10% iluminada, entre o quarto minguante e a cheia. Em outra tela, Paisagem Noturna com Dois Camponeses (F1553, 1890), Van Gogh desenhou a linha que separa a parte clara da escura como uma reta, sinal de que distinguia as fases pela forma.
  • Enquadramento. Naquele horário, lua e Aries até caberiam num campo de 28 mm, mas Aries ficaria à esquerda, a lua à direita, e Peixes e Cetus ocupariam o centro.

Charles Whitney, nos anos 1980, usou a estação meteorológica de Aix-en-Provence para descartar 19 de junho, propor 17–18 de junho e chamar o céu da tela de “composto celeste”. Os novos autores lembram que Avignon, mais próxima de Saint-Rémy, registrou aquela noite como limpa. Ou seja: o tempo não decide sozinho. As objeções que sobram são astronômicas.

Como os cientistas chegaram ao céu real da Noite Estrelada?

Antes do quadro famoso, o método passou por outras telas noturnas. Em A Fuga para o Egito (1609), de Adam Elsheimer, o ângulo entre a Ursa Maior e a Via Láctea não existe no céu real em lugar ou época nenhuma, e o ajuste nem foi tentado. Na Noite Estrelada de Millet (1850–1865), Órion e Cão Maior encaixaram com erro de 3,85%.

Duas telas de Van Gogh de 1888, em Arles, serviram de calibração. Em Noite Estrelada sobre o Ródano, o céu tem campo de visão de cerca de 75,37° na diagonal (equivalente a uma lente de 28 mm), enquanto a paisagem terrestre tem 60,03° a 69,77° (cerca de 34,2 mm) e aponta para outra direção: duas cenas de momentos distintos coladas na mesma tela. Em Esplanada do Café à Noite, o Triângulo de Verão fecha com erro de 5,46%.

Para o quadro de 1889, o passo decisivo foi medir o enquadramento no desenho F1541v, feito no mesmo terreno: 134 ± 6 mm em equivalente 35 mm, ou 18,4 ± 0,9° na diagonal. As medidas vêm de duas campanhas de campo na França, em 2019, e não dependem do ponto exato escolhido na crista. Aplicado ao céu de Saint-Rémy, esse campo estreito só acomoda lua, Vênus e Híades em poucos amanheceres daquele ano.

As cartas e os registros meteorológicos fecharam o cerco. De 16 a 19 de junho, as máximas em Avignon ficaram entre 26,8 °C e 29,0 °C; junho teve quatro dias a 30 °C ou mais, três deles entre 6 e 8 de junho. Julho teve dezoito, com quinze dias seguidos entre 30 °C e 34 °C de 4 a 18 de julho, clima mais compatível com as cigarras que ele descreve nas cartas daquele mês. Van Gogh também conta que a crise chegou enquanto pintava num dia de vento, e o mistral, vento forte do norte ou noroeste, aparece nas três estações entre 27 e 29 de julho.

Por que isso interessa a quem nunca pegou um pincel?

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Porque derruba uma falsa escolha. Costumamos separar arte de observação e arte de invenção como caixas estanques, e o próprio Van Gogh sugeriu outro arranjo. Em setembro de 1889, chamou aquelas telas de “exageros do ponto de vista do arranjo”, com linhas tortas como as das xilogravuras antigas. Exagero pressupõe algo real para amplificar. O método, dizem os autores, também pode ser aplicado a outras pinturas noturnas históricas nunca examinadas com esse tipo de ferramenta.

O que o estudo ainda deixa vago?

Os autores fazem questão de limitar o alcance do resultado, e vale ler essas ressalvas como parte do achado.

  • Não é uma data de execução. O artigo trata da correspondência entre o arranjo da tela e o céu do fim de julho de 1889; não decide quando o quadro começou nem se a tela foi retrabalhada depois. Os autores admitem que observações de várias noites seguidas podem ter sido somadas e apontam 22 de julho como o centro que melhor ajusta o conjunto.
  • Erro pequeno não identifica constelação. Um ajuste com Auriga e β Tau deu 8,77%, apenas 0,6 ponto percentual acima das Híades, e só caiu porque exigia tratar como estrela um ponto que é Vênus. Com apenas três pontos, o teste estatístico nem alcança significância.
  • Meteorologia do século 19. Os registros são anteriores à padronização dos instrumentos, têm falhas e valores anotados em escalas qualitativas.
  • A crise de Van Gogh. Não sobrou nenhum registro clínico contemporâneo sobre o início dela. Por isso a cronologia médica é usada só para remover um obstáculo que conflitava com as cartas, não como prova de um fato alternativo.

O artigo informa ainda que o primeiro autor recorreu a modelos de linguagem para edição do texto, conferência independente dos números e preparação do código depositado, assumindo a responsabilidade por todos os resultados.

Por que isso é interessante?

A pergunta sobre o céu da Noite Estrelada arrastou-se por mais de um século porque parecia indiferente à medição. Duas leituras astronômicas dos anos 1980 chegaram a conclusões incompatíveis, e a hipótese da observação ficou na margem. O novo trabalho muda o ônus da prova: se a tela adere a um amanhecer específico nesse nível de detalhe, quem defende a invenção pura precisa explicar como um céu inventado acertaria a posição de cinco estrelas de um aglomerado, a fase da lua e a distância angular até Vênus na mesma noite.

Não é preciso escolher entre o gênio atormentado e o observador atento. A tela tem os dois. Da próxima vez que você parar diante daquele redemoinho de estrelas, vale lembrar que por trás do exagero havia um céu que existiu, e que alguém acordou antes do sol para vê-lo.

Fontes

  • Kim, E. J.-H., Kang, S., Song, J. & Jin, H. “The actual sky of Van Gogh’s Starry Night: a multidisciplinary reconstruction”. Scientific Reports 16, 31109 (2026). DOI 10.1038/s41598-026-73025-5
  • Boime, A. “Van Gogh’s Starry Night: a history of matter and a matter of history”. Arts Magazine 59 (1984), citado no estudo.
  • Whitney, C. A. “The skies of Vincent van Gogh”. Art History 9 (1986), citado no estudo.
  • Soth, L. “Van Gogh’s agony”. Art Bulletin 68 (1986), citado no estudo.
  • Thomson, R. Vincent van Gogh: The Starry Night (MoMA, 2008), citado no estudo.
  • Registros meteorológicos: arquivo digital do Météo-France, estações de Avignon, Nîmes, Aix-en-Provence e Montpellier.
  • Coordenadas e código da análise: Zenodo, DOI 10.5281/zenodo.21175816

Perguntas frequentes

Qual é a data real da Noite Estrelada de Van Gogh?

O estudo não crava uma data de execução. Ele mostra que o arranjo celeste da tela corresponde ao amanhecer de 22 de julho de 1889 e pede que a datação tradicional em junho seja reconsiderada. A carta de 18 de junho de 1889 registra apenas o início do trabalho, não a conclusão.

O que aparece no céu da Noite Estrelada?

Segundo os autores, aparecem a lua em fase crescente minguante, Vênus e o aglomerado das Híades, com a estrela Aldebaran também dentro do enquadramento nos amanheceres de julho.

A Noite Estrelada foi pintada de imaginação ou de observação?

O estudo argumenta que houve observação real na base da composição, com transformação posterior na tela. Os autores dizem que as duas coisas convivem no mesmo quadro, e não que a imaginação tenha sido descartada.

Quais estrelas formam o aglomerado das Híades no centro do quadro?

São as cinco estrelas que compõem o esqueleto do V na constelação de Touro: α, θ, γ, δ e ε Tauri. Elas foram comparadas com cinco pontos marcados na tela antes da análise.

Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.

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