O que dá à carne a cor vermelha, o gosto metálico e boa parte do ferro é uma proteína chamada mioglobina. Ela é tão importante que, sem ela, um bife não parece bife. Agora, um grupo de pesquisadores conseguiu fazer com que plantas produzissem essa proteína animal dentro dos cloroplastos, as estruturas que realizam a fotossíntese. Para quem acompanha a carne vegetal, a novidade é grande: a mioglobina é justamente o ingrediente que os substitutos de carne mais têm dificuldade de imitar.
Os resultados vêm de um estudo publicado na Frontiers in Plant Science, que descreve a produção estável de mioglobina de porco em tabaco (uma planta modelo, não comestível) e em alface (um alimento de verdade), além de mioglobina de boi em uma alga verde. Em tabaco e alface, os rendimentos foram muito superiores aos da alga e aos da expressão no núcleo das células. As plantas cresceram, floresceram, geraram sementes e os descendentes herdaram o transgene. Isso não significa que o hambúrguer vegetal com aquele aspecto suculento chega amanhã ao mercado, mas é um passo concreto nessa direção.
O estudo é assinado por pesquisadores de instituições como o Imperial College London, incluindo a pesquisadora Alexia Groff, e a startup de biotecnologia vegetal Kyomei, da qual faz parte a coautora Kyoko Morimoto. O trabalho foi publicado em 2026 na Frontiers in Plant Science, passou por revisão por pares e pode ser localizado pelo DOI 10.3389/fpls.2026.1876707.
O que é mioglobina? Por que a carne é vermelha?
A mioglobina é uma proteína que transporta e armazena oxigênio dentro das células musculares de vertebrados, com presença marcante no coração e nos músculos esqueléticos. Dá para pensar nela como uma esponja de oxigênio que o músculo usa para não ficar sem ar durante o esforço. A comparação é só uma figura de linguagem, mas ajuda a entender o papel dela.
Essa proteína é rica em ferro, e é esse ferro que dá à carne o sabor metálico e umami. Já a cor vermelha vem do oxigênio ligado à mioglobina: quando a carne está crua e exposta ao ar, a proteína segura o oxigênio e mantém o tom avermelhado.
Mioglobina da carne vegetal: como os cientistas produziram a proteína
Um dos caminhos mais comuns para fabricar proteína animal sem criar animais é a engenharia microbiana: genes de proteínas de origem animal são inseridos em bactérias ou leveduras, que trabalham como pequenas fábricas em biorreatores. A nova abordagem é outra. Em vez de microrganismos, os pesquisadores usaram as próprias plantas.
Primeiro, eles clonaram os genes da mioglobina de porco e de boi. Depois, usaram uma “gene gun”, literalmente uma pistola de genes, para disparar cópias desses genes contra mudas de tabaco e alface em laboratório. Em parte das mudas, o gene se integrou ao genoma do cloroplasto, que é curto e tem formato de anel. As plantas adultas floresceram, produziram sementes e os descendentes herdaram o transgene.
Por que mirar o cloroplasto e não o núcleo da célula? Segundo Groff, por causa da ancestralidade bacteriana e do alto número de cópias por célula: os cloroplastos costumam produzir muito mais proteína do que o núcleo. A equipe também inseriu o gene no núcleo das plantas e no cloroplasto da alga unicelular Chlamydomonas reinhardtii, só para comparar.
Mioglobina da carne vegetal: o que o estudo encontrou?
Os números confirmam a vantagem dos cloroplastos. Por imunoblotting, uma técnica que identifica proteínas específicas, a mioglobina chegou a 2,7% da proteína solúvel total nas folhas de tabaco. Ou seja: de cada 100 partes de proteína solúvel extraídas das folhas, quase 3 eram mioglobina. Na alface, foram 1,5%; na alga, menos de 0,25%.
Em outra medição, por cromatografia líquida acoplada à espectrometria de massas, os rendimentos foram de aproximadamente 800 mg de mioglobina por quilo de peso seco no tabaco e 810 mg por quilo na alface, cerca de 0,8 grama por quilo de folha seca. Isso foi pelo menos três vezes maior que o rendimento das plantas de tabaco com o gene no núcleo.
Para dimensionar: a carne de verdade contém entre 8,1 e 11,2 mg de mioglobina por grama de peso seco, uma concentração mais alta que a das folhas. Ainda assim, os autores argumentam que o cultivo de plantas é muito mais eficiente em recursos do que a pecuária. O estudo também observou níveis de heme, a molécula que contém o ferro, elevados nas plantas que produziam mioglobina em comparação com as plantas controle.
Carne vegetal é mais sustentável que a pecuária?
Essa é a aposta central do trabalho, mas é preciso separar o que foi medido do que os autores projetam. O ponto de partida é conhecido: a pecuária ocupa terras que poderiam servir para outros fins, consome grandes volumes de água doce e contribui para o aquecimento global com emissões de metano e óxido nitroso. O mercado mundial de alternativas à carne já movimenta entre 6,7 e 8,1 bilhões de euros por ano, com crescimento previsto de 8,1% a 12,3% ao ano na próxima década.
O que os autores escrevem é uma projeção fundamentada: como o cultivo de plantas é mais eficiente em recursos que a criação de animais, a mioglobina derivada de plantas poderia alcançar rendimentos de proteína por hectare que rivalizam com os da pecuária, talvez até os superem, com uso bem menor de água e menos emissões de gases de efeito estufa. É uma hipótese sobre o potencial da tecnologia, não um resultado medido no estudo.
O que o estudo ainda não explica?
O próprio trabalho é descrito como uma prova de princípio. O maior gargalo apontado pelos autores está no heme. A mioglobina purificada das folhas de tabaco se dobrou corretamente, mas apresentou apenas cerca de 35% de ligação com o heme, contra 80% da mioglobina produzida em E. coli. Isso sugere que a disponibilidade de heme dentro da planta pode ser um limite para a estratégia. Os pesquisadores levantam essa hipótese sem fechá-la.
Há também o caminho até a prateleira. Groff explica que a mioglobina precisaria ser extraída das folhas e purificada com métodos industriais; como seria idêntica à animal, poderia entrar como ingrediente para melhorar cor, sabor e valor nutricional dos produtos vegetais. Já Morimoto diz que a alface comestível, modificada para expressar mioglobina, poderia um dia servir como alimento biofortificado com ferro heme, dependendo de aprovação legislativa. Ciência, regulação, escala e custo: nessa ordem, ainda há bastante pela frente.
Por que isso importa?
Porque a mioglobina é o elo que falta entre um hambúrguer vegetal e um de verdade. Não se trata só da cor: é o sabor metálico, é a textura percebida, é a sensação de estar comendo carne. Conseguir produzir essa proteína de forma estável e hereditária em um organismo comestível como a alface abre um caminho que, até agora, passava quase só pela fermentação microbiana.
E tem um detalhe que convida à reflexão: a mesma proteína que dá cara de carne ao bife pode um dia ser colhida de uma folha verde. As peças já existiam na natureza; a novidade é tê-las conectado dentro da própria planta.
Perguntas frequentes
O que é mioglobina?
A mioglobina é uma proteína que transporta e armazena oxigênio nas células musculares de vertebrados. Rica em ferro, ela dá à carne o sabor metálico e umami, e o oxigênio ligado a ela é o que deixa a carne vermelha.
Como é feita a carne vegetal?
Um método comum é a engenharia microbiana, em que genes de proteínas animais são colocados em bactérias ou leveduras para produção em biorreatores. O novo estudo testou outra rota: fazer as próprias plantas produzirem a proteína, usando os cloroplastos.
Por que a carne é vermelha?
Por causa da mioglobina e do oxigênio ligado a ela. A proteína é rica em ferro e, quando está com oxigênio, apresenta a coloração avermelhada característica da carne.
Carne vegetal é mais sustentável que a pecuária?
Os autores argumentam que sim, porque o cultivo de plantas é mais eficiente em recursos que a criação de animais, com menos água e menos emissões. Mas essa é uma projeção sobre o potencial da tecnologia, não uma medição direta de impacto feita no estudo.
Mioglobina vegetal pode deixar a carne vegana mais parecida com a de verdade?
Sim, na avaliação dos pesquisadores. Como a mioglobina produzida nas plantas é idêntica à animal, ela poderia ser extraída, purificada e adicionada a produtos vegetais para melhorar cor, sabor e valor nutricional.
Como os cientistas produzem proteína da carne em plantas?
Eles clonaram genes de mioglobina de porco e de boi e, com uma “gene gun”, dispararam cópias desses genes contra mudas de tabaco e alface. Parte das plantas incorporou o gene no genoma do cloroplasto e passou a produzi-lo de forma estável, com as próximas gerações herdando o transgene.
Fontes
- Estudo original: “Sustainable production of myoglobin meat protein in plant chloroplasts”, publicado na revista Frontiers in Plant Science (2026). DOI: 10.3389/fpls.2026.1876707
- Release da Frontiers via Phys.org: “Powerhouses for fake meat: Muscle protein can now be grown in chloroplasts of lettuce and tobacco plants”, 6 de agosto de 2026.
- Declarações de Alexia Groff (Imperial College London) e Kyoko Morimoto (Kyomei) reproduzidas no release da Frontiers.
Foto: Leonard Antasari no Pexels
Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.





