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Mercúrio tem gelo nos polos, e ele pode ter chegado num só dia

Foto de Dr. Paulo Budri

Biólogo, mestre e doutor em Genética Molecular e Microbiologia Clínica

5 min de leitura ·

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Cientistas modelam hipótese de como gelo se formou em Mercúrio.
Cientistas modelam hipótese de como gelo se formou em Mercúrio.
Resumo em 15 segundos
  • Sua superfície chega a passar dos 400 °C no lado iluminado.
  • O pronto importante está na inclinação quase nula do eixo de Mercúrio.
  • Os pesquisadores simularam o impacto de um cometa ou asteroide de cerca de 17 km de diâmetro a 30 km/s.

Resumo dos pontos principais. A matéria completa está logo abaixo.

Todos nós lembramos de frases para lembrar a ordem dos planetas no sistema solar. Isso nos ajuda a lembrar que Mercúrio é o planeta mais próximo do Sol.

Sua superfície chega a passar dos 400 °C no lado iluminado. E, ainda assim, ele tem gelo no fundo de crateras nos polos, onde a luz solar nunca chega. Esse paradoxo intriga os cientistas há décadas.

Agora, um novo estudo sugere uma resposta surpreendente para a origem desse gelo: ele pode ter chegado quase todo de uma vez, num único impacto, e se acomodado nos polos em pouco mais de um dia do planeta.

O trabalho, liderado pela cientista Dr. Parvathy Prem, do Laboratório de Física Aplicada da Universidade Johns Hopkins (APL), foi publicado em 2026 no Journal of Geophysical Research: Planets.

A equipe usou simulações para testar uma hipótese antiga: a de que boa parte da água dos polos de Mercúrio teria vindo de um impacto relativamente recente, do mesmo porte do que abriu a cratera Hokusai.

Como um planeta torrado pelo Sol guarda gelo?

O pronto importante está na inclinação quase nula do eixo de Mercúrio. Sem estações, o fundo de certas crateras próximas aos polos nunca recebe luz solar direta. Os cientistas até deram apelido de “armadilhas frias” (cold traps).

Nessas regiões permanentemente sem luz solar, a temperatura despenca a ponto da água congelar e permanecer estável por bilhões de anos. A sonda MESSENGER, da NASA, confirmou a presença desses depósitos brilhantes ao radar na década passada. A pergunta nunca foi se há gelo, mas de onde ele veio.

Cratera na superfície de Mercúrio vista por sonda espacial

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O que o novo estudo modelou?

Os pesquisadores simularam o impacto de um cometa ou asteroide de cerca de 17 km de diâmetro a 30 km/s. Esse corpo nessa velocidade seria capaz de formar uma cratera de 97 km de largura. O resultado seria espantoso: em menos de uma hora após a colisão, a nuvem de vapor de água gerada pelo impacto se espalharia ao redor de todo o planeta.

Parte dessa água é destruída pela luz solar (um processo chamado fotólise) e parte escapa para o espaço. Mas uma fração sobreviveria e migraria para as armadilhas frias dos polos.

No cenário base, cerca de 3% do vapor que escapou acabou aprisionado no gelo polar, uma eficiência que pode subir bastante (até cerca de 31%) se a própria atmosfera temporária criada pelo impacto blindar a água da radiação.

No total, um impacto desse porte poderia depositar aproximadamente 2,3 × 10¹³ kg de gelo (cerca de 23 bilhões de toneladas de água). E tudo isso se assentaria em um único dia de Mercúrio, que equivale a 176 dias terrestres.

A mesma pergunta vale para a Terra

Por que se importar com gelo em um planeta sem vida e difícil de visitar? Porque a pergunta de fundo é uma das mais profundas da ciência: de onde vem a água dos planetas rochosos?

A mesma classe de processos, impactos de cometas e asteroides ricos em voláteis, está entre as principais hipóteses para explicar como a própria Terra ganhou seus oceanos no início de sua história. Mercúrio, sem atmosfera espessa e sem placas tectônicas para apagar o passado, funciona como um laboratório natural relativamente “congelado no tempo”.

Entender como a água se acumula lá ajuda a calibrar os modelos sobre como ela chegou aqui e, por extensão, sobre as condições que tornaram a vida possível.

O que o estudo ainda não explica?

Aqui é essencial separar o modelo da realidade observada. O próprio estudo aponta um descompasso importante: o impacto simulado produziria uma camada de gelo de apenas cerca de 37 cm de espessura, enquanto as observações de radar sugerem depósitos de vários metros.

Em outras palavras, o impactor modelado pode ter sido pequeno e rápido demais, os autores escrevem que “um impactor mais lento e maior do que o modelado aqui pode ser necessário” para dar conta de todo o gelo observado.

Os autores também reconhecem que a simulação deixou de fora outros compostos e processos de longo prazo. Ou seja: o trabalho mostra que um único impacto poderia entregar gelo aos polos de forma plausível, mas não fecha a conta sozinho. Novos dados devem vir da missão BepiColombo, da ESA e da JAXA, que está a caminho de Mercúrio e deve refinar essas estimativas.

Por que isso importa?

O estudo é um bom exemplo de como a ciência avança: não com uma resposta final, mas estreitando o leque de explicações possíveis e apontando, com números, o que ainda falta.

A ideia de que um único evento, em questão de horas, possa ter “regado” os polos de um planeta inteiro é poderosa, e testável. Quando a BepiColombo enviar seus dados, saberemos se a história do gelo de Mercúrio cabe mesmo em um único impacto, ou se foi preciso mais de um capítulo.

Fonte e Links:

  • Prem, P., Chabot, N. L., Ernst, C. M., Hurley, D. M., Goldstein, D. B., Steckloff, J. K. Modeling the Delivery of Mercury’s Polar Ice by a Volatile-Rich Impact. Journal of Geophysical Research: Planets, 2026. DOI: 10.1029/2025JE009399
  • Cobertura e dados complementares: phys.org e Space.com sobre o estudo.
  • Contexto: dados de gelo polar da missão MESSENGER (NASA) e a missão BepiColombo (ESA/JAXA).

Transparência científica

Nota Editorial: Este texto foi produzido com o intuito de tornar o conhecimento acessível e combater mitos alimentares. Conteúdo jornalístico adaptado por Paulo Budri.

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