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Mercúrio tem gelo nos polos, e ele pode ter chegado num só dia

Cientistas modelam hipótese de como gelo se formou em Mercúrio.
Cientistas modelam hipótese de como gelo se formou em Mercúrio.

Todos nós lembramos de frases para lembrar a ordem dos planetas no sistema solar. Isso nos ajuda a lembrar que Mercúrio é o planeta mais próximo do Sol.

Sua superfície chega a passar dos 400 °C no lado iluminado. E, ainda assim, ele tem gelo no fundo de crateras nos polos, onde a luz solar nunca chega. Esse paradoxo intriga os cientistas há décadas.

Agora, um novo estudo sugere uma resposta surpreendente para a origem desse gelo: ele pode ter chegado quase todo de uma vez, num único impacto, e se acomodado nos polos em pouco mais de um dia do planeta.

O trabalho, liderado pela cientista Dr. Parvathy Prem, do Laboratório de Física Aplicada da Universidade Johns Hopkins (APL), foi publicado em 2026 no Journal of Geophysical Research: Planets.

A equipe usou simulações para testar uma hipótese antiga: a de que boa parte da água dos polos de Mercúrio teria vindo de um impacto relativamente recente, do mesmo porte do que abriu a cratera Hokusai.

Como um planeta torrado pelo Sol guarda gelo?

O pronto importante está na inclinação quase nula do eixo de Mercúrio. Sem estações, o fundo de certas crateras próximas aos polos nunca recebe luz solar direta. Os cientistas até deram apelido de “armadilhas frias” (cold traps).

Nessas regiões permanentemente sem luz solar, a temperatura despenca a ponto da água congelar e permanecer estável por bilhões de anos. A sonda MESSENGER, da NASA, confirmou a presença desses depósitos brilhantes ao radar na década passada. A pergunta nunca foi se há gelo, mas de onde ele veio.

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O que o novo estudo modelou?

Os pesquisadores simularam o impacto de um cometa ou asteroide de cerca de 17 km de diâmetro a 30 km/s. Esse corpo nessa velocidade seria capaz de formar uma cratera de 97 km de largura. O resultado seria espantoso: em menos de uma hora após a colisão, a nuvem de vapor de água gerada pelo impacto se espalharia ao redor de todo o planeta.

Parte dessa água é destruída pela luz solar (um processo chamado fotólise) e parte escapa para o espaço. Mas uma fração sobreviveria e migraria para as armadilhas frias dos polos.

No cenário base, cerca de 3% do vapor que escapou acabou aprisionado no gelo polar, uma eficiência que pode subir bastante (até cerca de 31%) se a própria atmosfera temporária criada pelo impacto blindar a água da radiação.

No total, um impacto desse porte poderia depositar aproximadamente 2,3 × 10¹³ kg de gelo (cerca de 23 bilhões de toneladas de água). E tudo isso se assentaria em um único dia de Mercúrio, que equivale a 176 dias terrestres.

A mesma pergunta vale para a Terra

Por que se importar com gelo em um planeta sem vida e difícil de visitar? Porque a pergunta de fundo é uma das mais profundas da ciência: de onde vem a água dos planetas rochosos?

A mesma classe de processos, impactos de cometas e asteroides ricos em voláteis, está entre as principais hipóteses para explicar como a própria Terra ganhou seus oceanos no início de sua história. Mercúrio, sem atmosfera espessa e sem placas tectônicas para apagar o passado, funciona como um laboratório natural relativamente “congelado no tempo”.

Entender como a água se acumula lá ajuda a calibrar os modelos sobre como ela chegou aqui e, por extensão, sobre as condições que tornaram a vida possível.

O que o estudo ainda não explica?

Aqui é essencial separar o modelo da realidade observada. O próprio estudo aponta um descompasso importante: o impacto simulado produziria uma camada de gelo de apenas cerca de 37 cm de espessura, enquanto as observações de radar sugerem depósitos de vários metros.

Em outras palavras, o impactor modelado pode ter sido pequeno e rápido demais, os autores escrevem que “um impactor mais lento e maior do que o modelado aqui pode ser necessário” para dar conta de todo o gelo observado.

Os autores também reconhecem que a simulação deixou de fora outros compostos e processos de longo prazo. Ou seja: o trabalho mostra que um único impacto poderia entregar gelo aos polos de forma plausível, mas não fecha a conta sozinho. Novos dados devem vir da missão BepiColombo, da ESA e da JAXA, que está a caminho de Mercúrio e deve refinar essas estimativas.

Por que isso importa?

O estudo é um bom exemplo de como a ciência avança: não com uma resposta final, mas estreitando o leque de explicações possíveis e apontando, com números, o que ainda falta.

A ideia de que um único evento, em questão de horas, possa ter “regado” os polos de um planeta inteiro é poderosa, e testável. Quando a BepiColombo enviar seus dados, saberemos se a história do gelo de Mercúrio cabe mesmo em um único impacto, ou se foi preciso mais de um capítulo.

Fonte e Links:

  • Prem, P., Chabot, N. L., Ernst, C. M., Hurley, D. M., Goldstein, D. B., Steckloff, J. K. Modeling the Delivery of Mercury’s Polar Ice by a Volatile-Rich Impact. Journal of Geophysical Research: Planets, 2026. DOI: 10.1029/2025JE009399
  • Cobertura e dados complementares: phys.org e Space.com sobre o estudo.
  • Contexto: dados de gelo polar da missão MESSENGER (NASA) e a missão BepiColombo (ESA/JAXA).

Transparência científica

Nota Editorial: Este texto foi produzido com o intuito de tornar o conhecimento acessível e combater mitos alimentares. Conteúdo jornalístico adaptado por Paulo Budri.

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