Resumo em 15 segundos
- Os dois arquivos foram submetidos pelo recém-criado Instituto de Utilização do Espectro de Rádio e Inovação Tecnológica.
- O calendário funciona assim: há um período regulatório de 7 anos para colocar o sistema em uso — na prática, lançar o primeiro satélite.
- O total dos 14 anos disponíveis leva o prazo final até por volta de 2039.
Resumo dos pontos principais. A matéria completa está logo abaixo.
A China registrou na União Internacional de Telecomunicações (UIT) dois pedidos de constelação com 96.714 satélites cada — quase 200 mil no total, a maior solicitação já feita por um único país.
Os arquivos são CTC-1 (CHN2025-79441) e CTC-2 (CHN2025-79398), submetidos no fim de dezembro de 2025, cada um distribuído em 3.660 planos orbitais, segundo o levantamento do SpaceNews.
A pergunta que interessa não é se a China vai lançar 200 mil satélites. É por que registrar um número que quase certamente não será cumprido.
Quem fez o pedido
Os dois arquivos foram submetidos pelo recém-criado Instituto de Utilização do Espectro de Rádio e Inovação Tecnológica.
Há um detalhe cronológico revelador: o instituto foi registrado na província de Hebei em 30 de dezembro — um dia depois de submeter os pedidos à UIT.
Ambos os arquivos citam uma “nova agência operadora” como marcador de posição. Ou seja: não há, até aqui, uma empresa identificada que vá operar o sistema.
Em que estágio cada pedido está
A UIT tem etapas distintas, e os dois arquivos não estão no mesmo ponto:
- CTC-1: inclui a publicação antecipada de informações (API) e um pedido de coordenação mais detalhado — estágio mais avançado do processo;
- CTC-2: permanece apenas na fase de API.
Por que registrar tanto: a regra da fila
O registro na UIT não é uma licença de lançamento. É um lugar na fila do espectro e das órbitas.
Quem registra primeiro ganha prioridade: operadores posteriores precisam demonstrar que não vão interferir no sistema já registrado, e negociar coordenação com ele.
Em um recurso finito — faixas de frequência e altitudes específicas em órbita baixa —, isso transforma o formulário em ativo estratégico. Registrar cedo e grande é barato; lançar é que é caro.
O relógio da UIT, com os prazos corretos
A UIT não deixa o registro valer para sempre. Na Conferência Mundial de Radiocomunicações de 2019 (CMR-19), os países membros adotaram uma abordagem baseada em marcos para sistemas não geoestacionários, descrita no Resolução 35 (CMR-19) e resumida no comunicado da UIT.
O calendário funciona assim: há um período regulatório de 7 anos para colocar o sistema em uso — na prática, lançar o primeiro satélite. A partir daí, contam os marcos:
- 10% da constelação em até 2 anos;
- 50% em até 5 anos;
- 100% em até 7 anos.
O que acontece se não cumprir
Aqui está o mecanismo que torna o cálculo interessante. Quem não atinge os marcos não perde tudo: os direitos de espectro ficam limitados proporcionalmente ao número de satélites efetivamente lançados dentro do prazo.
Isso muda a lógica do jogo. Registrar 96.714 satélites e lançar 5.000 dentro do prazo garante os direitos referentes a esses 5.000 — e não zero.
Em outras palavras: pedir muito é uma estratégia sem punição proporcional. O total dos 14 anos disponíveis leva o prazo final até por volta de 2039.
A aritmética que mostra a implausibilidade
Vale fazer a conta, porque ela é simples e esclarecedora.
Para completar 193.428 satélites nos 7 anos do último marco, seria preciso colocar em órbita cerca de 531 satélites por semana, todas as semanas, por sete anos seguidos.
Compare com o desempenho real: em 2025, a China bateu seu recorde nacional com 92 lançamentos orbitais no ano — contra 68 em 2024, o recorde anterior —, com apenas duas falhas, conforme o balanço do SpaceNews. Foram 16 lançamentos só para a constelação Guowang.
Nem com uma ordem de magnitude a mais de capacidade a conta fecha. E isso vale para qualquer país hoje, incluindo a SpaceX.
Não é a primeira vez que isso acontece
O precedente mais citado é de 2021, quando Ruanda submeteu à UIT pedidos para as constelações CINNAMON-217 e CINNAMON-937, somando 327.320 satélites em 27 camadas orbitais entre 550 e 643 km de altitude, segundo o Space Intel Report.
Cinco anos depois, nada disso foi construído, e as operações de outras constelações seguiram normalmente. O registro funcionou como marcação de posição, não como projeto de engenharia.
Na época, o astrofísico Jonathan McDowell resumiu a leitura mais provável: um movimento para estabelecer que nem toda a órbita baixa seja controlada pelos americanos.
Quantos satélites existem de fato
Para dimensionar os números do pedido, é útil olhar o inventário real, acompanhado nas estatísticas de Jonathan McDowell, a referência usada por governos e redações.
No começo de 2026, quando os pedidos foram registrados, havia cerca de 14,5 mil satélites ativos em órbita, dos quais aproximadamente 9,3 mil da Starlink.
Em meados de 2026 o total ativo passou de 15,7 mil, com quase dois terços pertencendo a uma única constelação. Em agosto de 2026, a Starlink sozinha somava mais de 11 mil satélites em órbita.
Ou seja: os dois pedidos chineses correspondem a cerca de doze vezes tudo o que a humanidade tem em órbita hoje.
O que a China está de fato construindo
Enquanto os 200 mil ficam no papel, dois sistemas chineses estão em lançamento efetivo:
- Guowang, a constelação estatal, com mais de 10 mil satélites planejados;
- Qianfan (Mil Velas), também acima de 10 mil satélites planejados.
Como interpretar o pedido
A leitura mais defensável não é “a China vai encher o céu de satélites”. É que a competição por órbita e espectro migrou para o terreno regulatório, onde o custo de pedir é próximo de zero e o benefício de ter pedido primeiro é permanente.
Isso tem consequências concretas mesmo que os satélites nunca subam: cada registro obriga terceiros a demonstrar não-interferência e a negociar coordenação, o que atrasa e encarece projetos rivais.
E tem uma consequência para quem olha o céu. O crescimento real das megaconstelações — não o registrado — já afeta observações astronômicas e o risco de colisão em órbita baixa, tema que acompanha tanto o avanço das estações espaciais comerciais quanto a astronomia amadora.
O número a acompanhar, portanto, não é 193.428. É quantos satélites Guowang e Qianfan efetivamente colocam em órbita por ano.
Perguntas frequentes
Quantos satélites a China pediu para lançar?
Dois pedidos registrados na UIT no fim de dezembro de 2025, CTC-1 e CTC-2, com 96.714 satélites cada — 193.428 no total —, distribuídos em 3.660 planos orbitais por constelação.
A China vai mesmo lançar 200 mil satélites?
É altamente improvável. Seria preciso colocar cerca de 531 satélites por semana durante sete anos. Em 2025, a China fez 92 lançamentos orbitais no ano inteiro, seu recorde nacional.
Para que serve registrar tantos satélites na UIT?
Para garantir prioridade sobre faixas de espectro e órbitas. Quem registra primeiro obriga operadores posteriores a demonstrar não-interferência e a negociar coordenação.
Existe prazo para cumprir o registro?
Sim. Pelas regras adotadas na CMR-19, há 7 anos para colocar o sistema em uso e, depois disso, marcos de 10% em 2 anos, 50% em 5 anos e 100% em 7 anos. Quem não cumpre tem os direitos limitados proporcionalmente ao que lançou.
Já houve pedido maior?
Sim. Em 2021, Ruanda registrou as constelações CINNAMON-217 e CINNAMON-937, somando 327.320 satélites em 27 camadas orbitais. Nada foi construído.
Quantos satélites ativos existem hoje?
Pouco mais de 15,7 mil em meados de 2026, com quase dois terços pertencendo à Starlink, que sozinha ultrapassou 11 mil satélites em agosto de 2026.
Fontes
- ANDREW JONES. China files ITU paperwork for megaconstellations totaling nearly 200,000 satellites. SpaceNews.
- UNIÃO INTERNACIONAL DE TELECOMUNICAÇÕES. ITU Members agree to new milestones for non-geostationary satellite deployment e Resolução 35 (CMR-19). Ver o comunicado da UIT.
- SPACE INTEL REPORT. Rwanda submits ITU filing for constellation of 327,320 satellites — 27 orbital shells at 550-640 km. Space Intel Report.
- China caps record year for orbital launches. SpaceNews.
- McDOWELL, J. Space Statistics. Harvard-Smithsonian Center for Astrophysics. estatísticas de Jonathan McDowell.
Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.





