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Como uma rocha espacial vira um meteorito?

Estudo com 75 quedas filmadas mostra que rochas espaciais não queimam no céu: elas derretem e se partem em sete fases antes de virar meteorito.

Foto de Dr. Paulo Budri

Biólogo, mestre e doutor em Genética Molecular e Microbiologia Clínica

12 min de leitura ·

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Ilustração de um meteoro brilhante no céu escuro.
Ilustração de um meteoro brilhante no céu escuro.
Resumo em 15 segundos
  • Um estudo com 75 quedas de meteoritos filmadas identificou sete fases na passagem das rochas espaciais pela atmosfera.
  • O derretimento e a fragmentação, e não a evaporação, controlam quanta massa a rocha perde antes de chegar ao chão.
  • As rochas começam a se partir sob uma pressão cerca de cinco vezes menor que a resistência medida nos meteoritos.

Resumo dos pontos principais. A matéria completa está logo abaixo.

Na noite de 13 de fevereiro de 2023, um pequeno asteroide chamado 2023 CX1 entrou na atmosfera sobre a Normandia, no norte da França, e virou uma bola de fogo que atravessou o céu em poucos segundos. Clique aqui para ver o registro fotográfico. Dias depois, moradores e pesquisadores recolheram no chão pedaços dele, hoje catalogados como o meteorito Saint-Pierre-le-Viger. Entre o brilho no céu e a pedra escura encontrada no campo, a rocha passou por uma sequência de transformações que só agora foi descrita em detalhes.

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Quantas toneladas tinha, ao entrar na atmosfera, a rocha que virou o meteorito de Santa Filomena, em Pernambuco?

Seu palpite12,5 toneladas

Um estudo publicado em agosto de 2026 na revista Meteoritics & Planetary Science analisou 75 quedas de meteoritos registradas por câmeras, entre elas a de 2023 CX1, e dividiu a passagem dessas rochas pela atmosfera em sete fases. As curvas de brilho e de velocidade foram reconstruídas a partir de artigos já publicados, fotografias e vídeos de cada queda. A conclusão contraria a imagem mais popular do fenômeno: a rocha não “queima” nem evapora aos poucos. O que controla quanta massa ela perde, quanto ela desacelera e o que sobra para cair no chão é o derretimento, seguido da fragmentação.

Dados do estudo: o artigo “Bolide light curve systematics from 75 recovered meteorites” foi assinado por Dr. Peter Jenniskens e Stuart Pilorz, do SETI Institute, Darrel Robertson, do Centro de Pesquisa Ames da NASA, e Dr. Eric C. Stern, que trabalhava no mesmo centro e hoje está na empresa Hyperspace Technologies. Foi publicado em acesso aberto na Meteoritics & Planetary Science, com o DOI 10.1111/maps.70203.

Qual a diferença entre meteoro, bólido e meteorito?

Os três nomes descrevem momentos diferentes da mesma história. Enquanto viaja pelo espaço, o fragmento de rocha é um meteoroide (ou um pequeno asteroide, quando é maior). Ao entrar na atmosfera, o ar à frente dele é comprimido e aquecido até brilhar, e esse risco de luz no céu é o meteoro, a popular estrela cadente. Quando o brilho é muito forte, mais intenso que o dos planetas mais brilhantes, os astrônomos o chamam de bólido, ou bola de fogo.

Meteorito é só o que sobra e chega ao chão. A maioria dos meteoros vem de grãos tão pequenos que nada resta deles. As 75 quedas do estudo foram escolhidas justamente porque terminaram em meteoritos recuperados, o que permitiu comparar o comportamento de cada bola de fogo com o tipo de rocha que chegou ao solo.

Quais são as sete fases da queda de um meteorito?

Os pesquisadores mediram a curva de luz de cada bólido, ou seja, como o brilho muda conforme a altitude, e o perfil de velocidade ao longo da trajetória. Em quase todos os casos, a curva seguiu o mesmo roteiro de sete etapas.

Do primeiro brilho à bola de fogo

A fase 1 começa no alto da atmosfera, quando o ar já é denso o bastante para formar uma onda de choque à frente da rocha. As colisões com as moléculas de ar aquecem a rocha e o gás ao redor até que eles brilhem, e o resultado é um aumento rápido de luminosidade. Na fase 2, conforme a rocha mergulha em ar mais espesso, o brilho cresce de forma gradual. Em alguns meteoros ele oscila em intervalos regulares, sinal de que a rocha está girando e mostrando ora um lado mais largo, ora um mais estreito. Nos 13 casos em que deu para medir essa oscilação, a rocha completava uma volta a cada 0,4 a 4,6 segundos.

Na fase 3, o meteoro fica muito mais brilhante e vira uma bola de fogo. Segundo o estudo, é nesse ponto que o derretimento passa a responder pela maior parte da perda de massa. O ar em alta velocidade arranca o material derretido da superfície e deixa para trás gotículas que continuam evaporando.

O platô: quando a rocha derrete em equilíbrio

Por volta de 60 quilômetros de altitude, a bola de fogo entra na fase 4. O brilho para de subir de forma brusca e fica estável, ou cresce num ritmo constante. Os autores interpretam esse platô como um equilíbrio de derretimento: a rocha derrete na mesma taxa em que o calor chega até ela. Só por esse processo, ela pode perder até 40% da massa. Em alguns bólidos, o brilho nessa fase apresenta oscilações cada vez mais rápidas conforme a rocha desce, passando de cerca de 2 para cerca de 20 por segundo. Os pesquisadores atribuem esse “chilreio” a instabilidades no plasma, o gás eletricamente carregado que envolve a rocha. As oscilações param quando a fragmentação começa.

A quebra

Mais abaixo, a pressão do ar à frente da rocha aumenta até que ela começa a se partir, e começa a fase 5. A bola de fogo pode dar vários clarões, um a cada pedaço que se solta. Só então a rocha perde tamanho depressa e desacelera de forma acentuada, e quanto mais violenta a fragmentação, mais forte a freada.

Enquanto a parte de trás da rocha principal continua inteira, ela cria uma zona de baixa pressão logo atrás de si, e os fragmentos menores são puxados para dentro dela. “Esses meteoritos pequenos caem numa faixa estreita no chão”, disse Darrel Robertson, coautor do estudo, no comunicado do SETI Institute.

Na fase 6, a parte de trás finalmente se rompe, e a bola de fogo dá um último clarão que lança os pedaços com mais força para os lados. Como a rocha já perdeu muita velocidade a essa altura, esse clarão final costuma ser vermelho, enquanto o meteoro, pouco antes, brilhava em verde. Os autores já tinham visto um sinal disso na queda do asteroide 2008 TC3, de cerca de 4 metros, no Sudão, em 2008: os fragmentos com mais de 20 gramas se espalharam por uma área maior que os pequenos e vinham da ruptura final da parte de trás do asteroide.

O voo escuro

Na fase 7, o derretimento e a fragmentação continuam até que os últimos pedaços fiquem lentos demais para brilhar. O derretimento cessa e deixa na superfície de cada pedra uma película fina e escura, a crosta de fusão. Daí em diante, já apagados, os fragmentos caem em queda livre e podem ser desviados pelo vento até chegar ao solo. Esse trecho final é chamado de voo escuro, porque nenhuma câmera consegue mais acompanhar as pedras.

Por que as rochas se partem antes do esperado?

Um dos achados mais curiosos envolve a resistência das rochas. Os pesquisadores compararam a pressão que o ar exercia sobre cada rocha no momento em que ela começava a se partir com a resistência à tração dos meteoritos recuperados, medida em laboratório. As duas grandezas estão relacionadas, ou seja, rochas mais resistentes aguentam mais tempo inteiras. Mas a fragmentação começou quando a pressão chegava a apenas cerca de um quinto da resistência medida nos meteoritos.

A explicação proposta pelos autores é que a rocha que entra na atmosfera não é tão íntegra quanto o pedaço que sobra no chão. Ela chega com rachaduras de colisões que sofreu no espaço e ainda é submetida a um aquecimento intenso e desigual durante a queda. Essas falhas e esse estresse térmico fazem a rocha ceder sob uma pressão bem menor do que a de uma amostra testada em laboratório.

Há também um limite no que o laboratório consegue imitar. Eric Stern lembra que não é possível gerar, num túnel de vento ou forno de plasma, a quantidade de radiação produzida numa entrada atmosférica real naquelas velocidades. Por isso, a conclusão de que o derretimento domina a perda de massa vem do padrão observado nas curvas de luz dos 75 bólidos, e não de um experimento que reproduza a queda completa.

O que isso tem a ver com Chelyabinsk e a defesa planetária?

Em 15 de fevereiro de 2013, um asteroide de cerca de 19 metros de diâmetro explodiu no ar perto de Chelyabinsk, na Rússia, numa região com mais de um milhão de habitantes. Foi a maior explosão aérea de um asteroide na Terra desde o evento de Tunguska, em 1908. A energia liberada foi estimada em cerca de 500 quilotons de TNT, algo como 30 vezes a bomba de Hiroshima, e a onda de choque estourou janelas em toda a região.

Uma análise publicada na Nature naquele ano mostrou que as fórmulas usadas para prever o estrago dessas explosões, baseadas em armas nucleares, superestimavam o dano, e que objetos de algumas dezenas de metros podem ser cerca de dez vezes mais numerosos do que se calculava. Prever em que altitude uma rocha desse porte vai liberar a maior parte da energia é, portanto, uma pergunta prática para a defesa planetária.

É aí que entra o novo estudo

Chelyabinsk está entre os 75 casos analisados: a rocha tinha cerca de 18 mil toneladas, entrou a 19,2 km por segundo num ângulo raso, de 18 graus, e começou a se fragmentar por volta de 56 km de altitude. Como nas quedas menores, o que sobrou da parte de trás seguiu inteiro até tarde, e um fragmento de cerca de 60 centímetros chegou a romper o gelo do lago Chebarkul. Pedaços que sobrevivem assim descarregam parte da energia mais perto do chão, e é por isso que prever a altitude da ruptura final interessa tanto à defesa planetária.

Para levar as lições das rochas pequenas aos asteroides, os autores partem de uma premissa: objetos com menos de 100 metros giram rápido demais para serem amontoados de cascalho presos pela gravidade, então seriam blocos sólidos. “O asteroide de 20 metros de diâmetro que causou a explosão aérea sobre Chelyabinsk passou pelas mesmas fases”, afirmou Jenniskens no comunicado.

Essa premissa, porém, ainda está em discussão. Em 2025, um estudo na Nature Communications mediu o asteroide 1998 KY26, alvo da missão japonesa Hayabusa2: ele tem cerca de 11 metros e dá uma volta completa a cada 5,35 minutos. Mesmo com esse giro rápido, os autores não descartaram que ele seja um amontoado de fragmentos frouxamente unidos, sem excluir a hipótese de um bloco único. Ou seja, nem todo asteroide pequeno e veloz é, com certeza, uma rocha maciça.

Há meteoritos brasileiros no estudo?

Há três. Entre as 75 quedas está a de Santa Filomena, no sertão de Pernambuco, onde em agosto de 2020 caiu uma chuva de pedras que levou colecionadores e pesquisadores à cidade. Segundo a tabela do estudo, a rocha que originou esse meteorito, um condrito comum do tipo H, tinha cerca de 9,4 toneladas ao entrar na atmosfera, a 16,3 km por segundo. As curvas de luz foram reconstruídas a partir de vídeos gravados por moradores e câmeras da região.

Os outros dois casos são Tiros, em Minas Gerais, um meteorito do grupo HED, ligado ao asteroide Vesta, registrado por câmeras em cidades como Lagoa da Prata e Oliveira; e Porangaba, no interior de São Paulo, um condrito do tipo L. No caso de Porangaba, o artigo traz uma correção: o bólido tinha sido associado a uma trajetória errada numa revisão anterior dos mesmos autores. Refeitas as contas, ele entrou a cerca de 13,5 km por segundo, e a rocha provavelmente chegou à Terra por uma rota diferente da de quase todos os outros condritos do tipo L documentados.

O que o estudo ainda não responde

As 75 quedas analisadas são, por definição, as que terminaram em meteoritos encontrados. Rochas mais frágeis, que se desfazem por completo no ar, ficam de fora da amostra, e o comportamento delas também importa quando se tenta prever o efeito de um impacto. O artigo também detalha como a altitude de cada fase depende da velocidade, do ângulo de entrada, da massa inicial e do tipo de meteorito, mas aplicar esses padrões a objetos de dezenas de metros continua sendo uma extrapolação, apoiada no caso de Chelyabinsk.

Mesmo com essas ressalvas, o trabalho troca uma imagem simples, a da pedra que “queima” no céu, por uma sequência física que pode ser medida e comparada. Na próxima vez que uma bola de fogo cruzar o céu e alguém encontrar uma pedra escura no chão, essa pedra terá passado por derretimento, quebra e voo escuro antes de chegar ali.

Perguntas frequentes

Meteorito queima ao entrar na atmosfera?

Não da forma como se costuma imaginar. O estudo com 75 quedas filmadas mostrou que a rocha perde massa principalmente derretendo, com o material arrancado pelo ar, e depois se partindo. A evaporação existe, mas não é o processo principal.

Qual a diferença entre meteoro e meteorito?

Meteoro é o rastro de luz no céu produzido quando uma rocha espacial atravessa a atmosfera. Meteorito é o pedaço dessa rocha que sobrevive à passagem e é encontrado no chão.

Por que algumas bolas de fogo ficam vermelhas no fim?

Segundo os autores, o clarão final acontece quando a rocha já desacelerou muito. Com menos velocidade, a luz emitida tende ao vermelho, diferente do verde intenso dos clarões anteriores, que ocorrem quando a rocha ainda está muito rápida.

O que é a crosta de fusão de um meteorito?

É a película fina e escura que cobre a superfície dos meteoritos. Ela se forma quando o derretimento para, no fim da queda, e a camada de rocha derretida solidifica sobre a pedra.

Um asteroide como o de Chelyabinsk pode atingir a Terra de novo?

Sim. Uma análise publicada na Nature em 2013 estimou que objetos de algumas dezenas de metros podem ser cerca de dez vezes mais numerosos do que se calculava. Por isso, entender como essas rochas se partem na atmosfera ajuda a prever o efeito de um próximo impacto.

Fontes

Jenniskens, P.; Pilorz, S.; Robertson, D.; Stern, E. C. “Bolide light curve systematics from 75 recovered meteorites”. Meteoritics & Planetary Science, 2026. DOI: 10.1111/maps.70203

SETI Institute. “New study reveals how space rocks become meteorites”, comunicado de 25 de agosto de 2026.

Popova, O. P. et al. “Chelyabinsk airburst, damage assessment, meteorite recovery, and characterization”. Science, 2013. DOI: 10.1126/science.1242642

Brown, P. G. et al. “A 500-kiloton airburst over Chelyabinsk and an enhanced hazard from small impactors”. Nature, 2013. DOI: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24196713/

Santana-Ros, T. et al. “Hayabusa2 extended mission target asteroid 1998 KY26 is smaller and rotating faster than previously known”. Nature Communications, 2025. DOI: 10.1038/s41467-025-63697-4

Matéria revisada por Dr. Paulo Budri.

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