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Chernobyl sem energia: por que o risco de derretimento é baixo

Queda de energia em Chernobyl afeta sistemas de resfriamento, mas risco de derretimento do combustível usado é baixo devido à sua idade avançada. Saiba mais.

Resumo em 15 segundos
  • A avaliação da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) foi de que o episódio não teve impacto crítico sobre a segurança.
  • A consequência imediata e esperada é que a temperatura da água sobe e a evaporação aumenta.
  • O calor de decaimento cai rapidamente nos primeiros dias e depois segue diminuindo por anos.

Resumo dos pontos principais. A matéria completa está logo abaixo.

Ataques russos a subestações elétricas ucranianas deixaram a usina de Chernobyl sem energia externa, e os sistemas que resfriam o combustível nuclear usado pararam de operar. A avaliação da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) foi de que o episódio não teve impacto crítico sobre a segurança.

A razão é simples e vale mais que o alarme: o combustível armazenado ali está fora de operação há décadas. Ele já dissipou a maior parte do calor que produzia, e o próprio volume de água da piscina é suficiente para removê-lo — mesmo sem bombeamento elétrico.

O que aconteceu

Mísseis e drones atingiram subestações da rede elétrica ucraniana, cortando o fornecimento externo para a usina. Sem eletricidade, o sistema de circulação da água das piscinas de combustível usado deixou de funcionar.

A consequência imediata e esperada é que a temperatura da água sobe e a evaporação aumenta. Isso é diferente, porém, de haver risco de derretimento do material.

Por que combustível desligado ainda esquenta

Esse é o ponto que costuma confundir. Mesmo depois que o reator é desligado, o combustível continua produzindo calor — o chamado calor de decaimento, gerado pela desintegração radioativa dos produtos de fissão acumulados.

É por isso que o material é mantido submerso em grandes tanques de água: ela absorve esse calor e ao mesmo tempo funciona como blindagem contra a radiação.

A questão decisiva é quanto calor. E aí entra o fator tempo.

O fator tempo: por que Chernobyl é um caso de risco baixo

O calor de decaimento cai rapidamente nos primeiros dias e depois segue diminuindo por anos. Combustível recém-retirado de um reator em operação exige resfriamento ativo e ininterrupto. Combustível parado há décadas, não.

Os reatores de Chernobyl estão desligados há muito tempo: o reator 4 explodiu em 1986 e os demais foram desativados entre 1991 e 2000. O combustível ali guardado teve, portanto, no mínimo um quarto de século para esfriar.

Paul Cosgrove, da Universidade de Cambridge, observou que o armazenamento prolongado reduz de forma significativa o risco de falha — depois de duas décadas, boa parte da energia radioativa já se dissipou.

A AIEA foi mais direta: dada a carga térmica da piscina, o volume de água já presente é suficiente para remover o calor sem necessidade de alimentação elétrica.

Isso já tinha sido testado antes

Não é uma conclusão improvisada no meio da crise. Inspeções realizadas em 2022, quando a usina passou por outra interrupção de energia, já haviam concluído que as piscinas permaneceriam dentro dos limites seguros de temperatura mesmo com o fornecimento cortado.

E há um detalhe que joga a favor: desde então o combustível esfriou ainda mais. A margem de segurança hoje é maior do que era naquela avaliação.

Onde está a preocupação legítima

Reconhecer que o risco é baixo não é o mesmo que dizer que não há problema. A preocupação real é estrutural, não pontual.

Rafael Grossi, diretor-geral da AIEA, alertou que ataques a subestações-chave tornam as instalações nucleares mais dependentes de geradores de emergência — e reduzem a margem de erro caso esses geradores falhem.

Ian Farnan, também de Cambridge, faz a outra ponta do argumento: a apreensão em torno da energia nuclear costuma ser maior do que os riscos efetivamente envolvidos. Ainda assim, perda de energia em instalação nuclear sempre exige atenção redobrada.

A soma dos dois pontos dá a leitura correta: este episódio específico é de baixo risco, mas a repetição de ataques à rede elétrica corrói progressivamente as camadas de proteção de qualquer instalação nuclear no país.

O que seria necessário para haver risco real

Para que a situação evoluísse para algo grave, seria preciso que a água das piscinas evaporasse a ponto de expor o combustível — o que exigiria uma interrupção muito prolongada, sem qualquer reposição de água e sem geradores.

Com combustível de décadas e o volume de água disponível, a escala de tempo envolvida é longa o suficiente para permitir intervenção. É diferente do cenário de uma usina em operação, onde a janela para agir é de horas.

Perguntas frequentes

Chernobyl corre risco de derretimento?

Não neste episódio. A AIEA avaliou que a perda de energia não teve impacto crítico sobre a segurança: dada a carga térmica da piscina, o volume de água já é suficiente para remover o calor sem alimentação elétrica.

Por que o combustível nuclear esquenta mesmo com o reator desligado?

Por causa do calor de decaimento, produzido pela desintegração radioativa dos produtos de fissão. Ele diminui rapidamente nos primeiros dias e segue caindo por anos, o que torna o combustível antigo muito menos exigente em resfriamento.

Há quanto tempo os reatores de Chernobyl estão desligados?

O reator 4 explodiu em 1986 e os demais foram desativados entre 1991 e 2000. O combustível armazenado teve no mínimo um quarto de século para esfriar.

O que acontece se a água das piscinas evaporar?

O risco só apareceria se a evaporação chegasse a expor o combustível, o que exigiria interrupção muito prolongada, sem reposição de água e sem geradores. Com combustível de décadas, a escala de tempo é longa o bastante para permitir intervenção.

Então não há motivo para preocupação?

Há, mas de outra natureza. A AIEA alerta que ataques recorrentes a subestações tornam as instalações mais dependentes de geradores de emergência e reduzem a margem de erro se esses geradores falharem.

Fontes

  • Reações de especialistas, incluindo Paul Cosgrove e Ian Farnan, da Universidade de Cambridge: Science Media Centre.
  • Avaliação técnica sobre o apagão na usina: American Nuclear Society.
  • Avaliação de segurança e alertas sobre dependência de geradores: comunicados da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e declarações de seu diretor-geral, Rafael Grossi.

Matéria escrita e revisada originalmente por Paulo Budri.

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